Não uso palavras bonitas.
24 Vinte e três
Notas iniciais
Fiquei um tempo em silêncio, tá, eu tinha decido sim falar isso à ela, mas aquilo tinha saído sem querer, e bom, ainda não era o momento ideal.
–Então mãe... -Sorri sem jeito, enquanto procurava as palavras certas pra confirmar a notícia. -Ele também me pegou de surpresa! Quando sube, eles já tinha marcado a data do casamento.
–Ahh, sim! Seu pai é o mesmo de sempre! Gosta de fazer tudo muito rápido. No fim, ele nunca faz nada direito!! -Disse minha mãe, meio alterada. -Quer saber espero que eles sejam muito felizes!! E que a nova mulher dele, não seja trocada pelo trabalho ASSIM COMO EU FUI!!!! -Ela passou a gritar, já com lágrimas nos olhos.
–Sim, mãe. Meu pai não merece uma mulher como você! -Falei, tentado lhe acalmar.
–CLARO QUE NÃO!!! ELE NÃO ME MERECE MESMO!!! -Minha mãe dizia, entre gritos e soluços. -Aquele cretino do seu pai...Não fez nem três anos que nos separamos e ele já vai se casar de novamente. QUE SEJA MUITO FELIZ!!!!
Apenas abracei minha mãe com toda força, enquanto por horas, ela gritava, chorava e xingava meu pai e sua futura esposa. Acabei levando ela para seu quarto, e fiquei a consolando até que pegasse no sono.
No fim disso tudo, acabei descobrindo de quem herdei a mania de chorar tão alto.
Sai do quarto de minha mãe e fui até a sala. A parede pintada de azul, quadros coloridos em todos os cantos, a pequena mesinha do centro, o relógio antigo de madeira e o carpete macio e limpinho. Era impressionante como tudo permanecia do mesmo jeito de sempre.
Peguei minha coisas e levei até meu antigo quarto, onde, como toda a casa, parecia igual como da última vez que vi.
Os posters das primeiras bandas que ouvia, minha cômoda branca, meu abajur estampado com flores, e minha antiga cama. Apenas deixei as bolsas no chão e deitei, encarando o teto e suspirando aliviada.
Deitada, acabei avistando um antigo desenho que Mitty havia me dado, diferente de todos os outros que já tinha feito pra mim, esse era o único em que eu e ela estávamos juntas, admirando uma linda paisagem.
Deixei escapar um sorriso, as lembranças boas vinham a medida que tentava esquecer as ruins. De alguma forma, eu não queria perder anos de amizade com uma pessoa que passou praticamente toda a vida ao meu lado. E talvez quando voltasse, já estaria pronta pra ter uma conversa com ela.
Passei o resto da tarde mexendo nas minha antigas coisas, até que minha mãe me chamou para ajudá-la na comida.
–Iaí mãe, você melhorou?! -Perguntei, receosa que talvez ela voltasse à chorar.
–Ân, claro! -Disse, como se nada tivesse acontecido. -Aquilo foi apenas momentâneo!
–Hm...Se você diz...
Acabamos comendo pizza ao invés da nossa própria comida, digamos que nem eu nem minha mãe conseguimos fazer algo realmente comestível, alugamos alguns filmes e fizemos brigadeiro. Não era algo incrívelmente marcante, e divertido de se fazer nas férias, mas estando com minha mãe, cada minuto era legal.
–Arianny?! -Minha vó chega em casa, e me avista na cozinha fazendo pipoca, eu corro pra abraça-la mais logo me afasto, parando para ver como ela estava vestida.
–Vó que roupa é essa?! -Perguntei, lhe analisando desde do vestido estampado até o pequeno salto de couro.
–Decidi ficar um pouco mais moderna. Não vou conseguir um novo marido, com as roupas de velha que usava antes! -Afirmou. -Mas e você minha filha, porque não trouxe o namorado junto?!
–Ân?! -Corei e neguei com a cabeça. -Eu não tenho namorado!
–E quando vai arrumar um? Já está passando do tempo, não tem nenhum garoto que você esteja gostando não?! -Minha vó e enchia de perguntas, enquanto eu, sufocada, apenas negava todas elas.
–Mãe isso é hora de chegar em casa?!! Onde esteve todo esse tempo?! -Berrou minha mãe assim que avistou minha vó, me salvando das inúmeras perguntas dela.
–Já disse que não devo explicações há você Marta. -Disse minha vó meio irritada. -Estava curtindo minha vida! -Ela voltou a olhar pra mim, mudando de expressão automaticamente. -Mas então querida! O que fez hoje de interessante? Aposto que nem saiu dessa casa né! Amanhã eu juro que vamos sair pra lugares bem divertidos. -Sorriu.
–Mas nós já temos vários planos! -Falou minha mãe, incomodada com a atitude de minha vó.
–Que planos?! Ficar em casa assistindo filmes e comendo besteiras. Isso ela pode fazer na sua própria casa! Já está decidido!
As duas ficaram discutindo a noite toda sobre o assunto, enquanto eu permanecia calada, apenas vendo e me divertindo com a situação.
Realmente essas seriam longas férias...
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Três semanas tinha se passado e já era dia de voltar pra casa. Tinha acordado cedo e o dia estava bem frio o que combinava perfeitamente com o café que minha vó estava preparando.
Tomei um banho quente e coloquei o vestido récem coprado por minha mãe. Decidi mandar um recado para meu pai enquanto lutava para colocar minha roupa de dormir dentro da minha mochila lotada.
–Bom dia vó! -Disse, enquanto me sentava na mesa.
–Bom dia querida! Nem acredito que voçê vai embora hoje. -Suspirou, enquanto me servia café.
–Bom dia filha! -Diz minha mãe saindo do quarto, caminhando até a cozinha e pegando uma torrada. -É uma pena que terá que ir pra casa mais cedo. Quer que eu leve você até lá?!
–Não precisa, eu já deixei uma mensagem pro meu pai. Ele deve me esperar no terminal ás onze. -Afirmei, comendo um pedaço de bolo.
–Ás onze?! Então temos que se apressar já são oito horas! -Disse minha mãe correndo para o quarto e indo se arrumar.
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–Xau vó, nas outras férias prometo que volto! -Sorri, entrando no carro com minha mãe.
–Prometa que trará um namorado junto da próxima vez! -Gritou ela, acenando.
–Bom, isso eu já não posso prometer! -Disse, enquanto minha mãe ligava o carro e começava a andar.
–Não ligue pra sua vó okay?! Não existe nenhuma regra que diz que é obrigado pessoas da sua idade namorar, sim?! -Afirmou minha mãe. Fiquei calada por um tempo apenas admirando aquela calma cidade. -Me lembro perfeitamente como aquele Diego te deixou. Você não deve forçar gostar de alguém! Bom, ao não ser que já tenha alguém no seu coração novamente.
–Ân?! Não, não tem ninguém! -Corei, balançando tanto as mãos quanto a cabeça de forma negativa.
–Bom...Se você diz! -Sorriu. -Só quero que saiba uma coisa! Você não pode desistir de amar só porque alguém te fez sofrer. Esse foi só o primeiro, sim?! Na vida se cairmos temos que se levantar. Se continuar no chão por estar com medo de cair novamente, bom, nunca vai chegar a lugar nenhum!
–Nossa... -Fiquei alguns segundos calada, continuando á olhar pra janela. -Você é muito boa em metáforas! -Soltei uma risada.
–Um pouco. -Ela sorriu.
Depois de alguns minutos chegamos na estação. Me despedi da minha mãe e peguei o ônibus. Logo depois de duas horas, estava de volta á minha cidade.
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–Onze horas... -Murmurei, conferindo as horas no celular.
Coloquei as bolsas no chão e sentei no banco da estação, não esperava nada menos do meu pai, já que o mesmo preferia o trabalho a buscar sua própria filha na rodoviária.
Pôs meu fones de ouvido e coloquei uma música, já imaginando que iria ficar esperando por horas meu pai e até já me acostumando com isso, até que senti duas mãos sobre meus olhos e alguém dizer alguma coisa que não ouvi muito bem.
–Quem é?!-Perguntei.
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