– Madeline?! Madeline? Você poderia me fazer o favor e acordar logo? MADELINE!
Madeline estava deitada em sua cama, no seu quarto que agora estava completamente irreconhecível. Aquele mesmo lugar demasiadamente exagerado em seu tamanho, outrora fora ocupado pela gigantesca cama de Madeline e seu antigo marido, o Doutor Ernest. Vários espelhos pendurados em paredes, quadros com fotos de uma Madeline bem mais nova, poltronas e sofás aconchegantes, uma penteadeira que ocupava uma grande parte do quarto e um lustre imensamente grande. Hoje em dia, 20 anos depois, os móveis permaneciam em seu mesmo lugar, porém, havia latas de tintas espalhadas por todos os lados, manchas das mesmas em todas as paredes, espátulas e pincéis jogados por todo canto e uma bagunça de roupas e sapatos que dificilmente alguém já vira igual.

Havia, de fato, uma empregada na casa. A mesma que trabalhava ali enquanto Madeline e Ernest foram casados. Acontece que, a mulher envelheceu, tinha se tornado uma senhora, talvez uns 65 ou 70 anos e já era meio caduca. Permanecia na casa, vivia ali com a condição de jamais entrar em certos cômodos da casa, ajudar os moradores da mansão no que precisarem e fazer algumas tarefas domésticas bem simples – somente o que a idade lhe permitia. Tudo com o máximo de sigilo.

Madeline, que acordara quando Helen entrou no quarto e somente fingia estar dormindo, percebeu que não adiantava mais fingir. Afinal, “dormir” talvez não fosse o termo certo. Não se sabe se uma morta-viva consegue, de fato, dormir. De qualquer forma, Madeline passava as noites com os olhos fechados e aproveitava para reaplicar uma espécie de verniz sobre sua pele – a aparência brilhante do verniz se assemelhava com a de óleos corporais ao longo do dia.

– Madeline, acorde, preciso e não estou conseguindo contornar o meu olho.

Helen era uma mulher ruiva muito inteligente com olhos verdes belíssimos que antigamente era escritora – ainda escrevia, mas não fazia tanto sucesso quanto antes. Helen era prima de Madeline que a achava, desde os tempos de escola, extremamente vulgar. Acontece que, desde então, para se vingar, Madeline começou a roubar todos os namorados da prima, inclusive foi Helen quem apresentou Ernest para Madeline, na época, Ernest e Helen eram noivos.