Não se muda o passado
7 Episódio 7: Reconhecimento
Notas iniciais
Acordei, preguiçosamente sentando-me na cama. Cocei os olhos para unificar a visão e dei um grande bocejo, convencendo meu corpo a se levantar. Olhei o relógio e notei que ele se aproximava das oito da manhã, tendo a explicação do porquê meu corpo estava preguiçoso. Tudo estava quieto demais. Emily parecia não estar ali e as ruas estavam tão silenciosas quanto. As cortinas brancas balançavam com a força do vento, demonstrando uma manhã bem ensolarada.
Meu corpo já não doía tanto quanto no dia anterior, mas não estava totalmente bem. Meu olho ainda doía e o inchaço tornava difícil enxergar com clareza, minhas roupas estavam sujas e fediam muito. Massageei minha nuca com as mãos e decidi que estava na hora de começar a me preparar para o encontro com o Jack. Peguei roupas limpas, uma calça jeans e uma camisa preta aleatória.
Tomei um banho longo e demorado, tentando fazer meu corpo relaxar à tensão que ele tinha juntado. Depois de me encontrar suavemente tranquilo. Desliguei o chuveiro e me enrolei na enorme toalha branca fornecida pelo hotel. Admirei-me novamente no imenso espelho e soltei um suspiro ao ver o estado do meu olho roxo, com alguns pontos de sangue coagulado. Aquilo não ajudava nem um pouco a minha aparência cansada. Escovei os dentes e penteei o cabelo, tentando deixá-lo um pouco ajeitado. Deixei o hotel meia hora depois de acordar, achando estranho não haver um pronunciamento de Emily sobre aonde tinha ido. Atravessei a rua e sentei-me em um banco, a fim de esperar o horário certo.
Comecei com uma preparação psicológica acerca de como reagiria ao passar o dia inteiro com o meu melhor amigo de infância, aquele com quem não conversava há onze anos. Aquela seria a minha última chance de me explicar e de fazer as pazes com ele, já que, independente de como aquele dia iria terminar, se ele pedisse que eu me afastasse, eu cumpriria. Fiquei criando diálogos, imaginando o que ele diria, o que eu responderia, e como agiríamos perante às verdades que um diria ao outro.
Em meio a tudo, eu ainda tinha espaço para me preocupar com a Emily. Ela simplesmente tinha ido para algum lugar sem nem mesmo avisar, também não teve a consideração de enviar uma mensagem explicativa. Faltavam dez minutos para eu me encontrar com o Jack, então decidi mandar uma mensagem para Emily, com o intuito de fazer esses minutos passarem mais rápido.
“Amy, está tudo bem? Eu vou ficar um dia fora resolvendo umas coisas... Ok?! Responda-me quando puder. Amo você!” digitei e enviei, esperando uma resposta rápida que não veio. Os dez minutos se passaram, e logo o carro de Jack dobrou a esquina, parando exatamente na minha frente. Ele saiu do carro e sentou-se ao meu lado, aparentando cansaço.
— Tudo bem, vamos acabar logo com isso. Pergunte. – Ele se pronunciou, soltando uma grande quantidade de ar pela boca.
— Nossa. Olá para você também... – Respondi de maneira irônica.
— Eu não estou brincando, Lucas. Será que dá para perguntar logo o que você tanto quer saber?! – Demonstrou impaciência enquanto olhava para os dois lados da rua.
— Calma! Teremos um dia inteiro para respostas, não precisamos ter toda essa pressa. Vamos. – disse, levantando-me – Vou tomar café da manhã primeiro, parece que faz anos que eu não como algo. – Jack me seguiu, calado enquanto bufava de ódio.
— Ah, não... – ele disse, com uma voz de tensão. – Qualquer lugar, menos ali. – Apontou para a Sr. Carmon, onde eu pretendia comer.
— Por quê?
— Vamos apenas para outro lugar, certo? – virou-se e foi se afastando.
— Ei, um dia de respostas. Esqueceu?! Pode começar por isso.
Ele parou um segundo e olhou para trás em minha direção, então se reaproximou para revelar o motivo.
— Quando meu pai morreu e meu tio ganhou minha guarda, eu fugi de casa. Depois de ter me envolvido nessa vida, eu decidi que não viveria daquela forma. Então pedi ajuda ao Senhor Carmon e ele deu as costas para mim. Simples assim. Podemos ir a outro lugar...
— Espera. O quê?! – Demonstrei um semblante de choque. – seu tio ganhou sua guarda?
— É, Lucas. Meu tio ganhou a minha guarda. – ele completou, de forma calma.
Após a revelação, contive-me em ficar cabisbaixo e pensativo. O tio de Jack era uma pessoa não tinha um bom funcionamento do cérebro, além de ser pervertido. Ele tinha uma fixação por Jack que, quando criança, quase fora abusado por ele. Seu tio já havia tentando vendê-lo na internet para o tráfico de pessoas.
— Ei, acorda! – Jack estalou os dedos em minha frente, tirando-me de meus devaneios.
— Oi?! – Olhei ao redor tentando me lembrar do que estava fazendo, logo, ao recobrar totalmente os meus pensamentos, dei um longo suspiro. – Desculpe-me, Jack. Eu...
— Hoje é o dia da verdade, não o de desculpas baratas, Lucas. Agora vamos, por favor. – seguiu na frente, deixando bem claro que não se sentia confortável com aquilo.
Andamos por algum tempo sem trocar uma palavra sequer, também parecíamos não ter rumo. Paramos uma lanchonete qualquer para comer e seguimos até o lago em seguida. O mesmo lago no qual passamos no dia em que vimos o Elton ser agredido pelo Rafa.
Tudo estava igual, mesmo após todos aqueles anos. Tudo limpo e idêntico. Uma passarela branca acompanhava o imenso lago que ficava à nossa esquerda. Naquele dia eu corria dele e hoje, andávamos lado a lado. Jack com sua mesma expressão séria de sempre e eu, às vezes, olhando para ele e ensaiando algo para dizer, mas não obtive sucesso. Um banco de mármore se fazia presente um pouco mais à frente, então decidimos dar uma parada. O cheiro de orvalho estava por toda parte, assim como o canto dos pássaros. O banco era virado para o lado, aonde gansos e cisnes nadavam em harmonia.
— Tudo bem, acho que essa é a hora em que você me conta o resto da história. – me virei para ele, após me cansar do silêncio.
— Certo... – respondeu-me de forma curta, enquanto se ajeitou para começar a contar – Por onde eu começo?
— Como você entrou nessa vida? – meu coração batia tão forte que parecia querer sair pela boca, ao mesmo tempo que eu queria saber, eu não queria. Mas estava decidido em perguntar, pensei que talvez ele se sentisse melhor vendo que alguém se importava.
— Eu me envolvi com o Rafa depois de ter fugido com o meu tio. Ele se fez de amigo pra mim e eu realmente acreditei... Por um tempo. Ele estava envolvido com algumas pessoas da pesada na cidade, então eles me ofereceram proteção do meu tio. Eu aceitei e... Comecei a andar com eles. – Jack não demonstrava conforto ao contar a história, o que me surpreendeu de certa forma, a maneira fluida com que ele expunha as ideias era como se ele não se importasse – depois de um tempo, eu estava começando a fumar maconha e coisas assim, eles começaram a cobrar para que eu pagasse, como eu não tinha dinheiro eles deram um jeito de me prender à essa cidade. E então eu tive que fazer isso. – não houve esboço de reação. Ele estava estático, como se tudo aquilo não fosse com ele.
— E você fala tudo isso com tranquilidade? – Eu não conseguia entender toda a sua naturalidade. De certa forma isso me incomodava.
— É a minha vida, Lucas. Eu tive anos para aceitar tudo o que aconteceu e, com o tempo, essa história se tornou apenas o que é: uma história. – ele se ajeitou novamente no banco, virando o rosto para mim.
— Quem é a mãe da Mabel? – continuei, ignorando a última afirmação feita por ele.
— Uma moça que conheci anos atrás. Você não a conheceu. – desviou o olhar de mim e parecia observar a paisagem.
— Onde ela está agora?
— Morta e enterrada. – ergui os olhos.
— Entendo... Meus pêsames. – dei uma pausa para poder processar a informação, então continuei. – Como ela morreu?
— Rafa a matou.
— O que?! Mas... Ele não foi preso? – arregalei os olhos e mudei o meu tom de voz.
— Não. – ele riu em ironia, como se fosse óbvio – Ele saiu impune.
— Mas... Por quê? – questionei, reclinando-me no banco.
— Vingança. – falou, ainda carregando o tom de naturalidade de sempre, mesmo falando da mãe de sua filha que havia sido morta por seu inimigo. Ele não esboçou nenhum traço de raiva.
— Vingança do que?
— Eu nunca entendi direito quais eram as razões dele, para ser sincero. Talvez porque eu fiquei com a irmã dele anos antes, ou talvez ela ficou com ciúmes ou apenas para me ver sofrer. Eu realmente não sei.
— E a polícia, o que eles disseram?
— Eles desistiram de procurar pelo culpado há muito tempo, mesmo todos sabendo que foi o Rafa. Ter influência é tudo nessa cidade...
— Nossa. Eu sinto muito!
— Não minta, eu sei que você não sente. Por que sentiria?!
— Porque você sofreu. E ninguém merece passar por uma situação assim. – diminuí o tom de euforia na segunda parte da minha explicação, afinal, não sabia o que dizer.
— Que seja então. – depois disso o clima ficou estranho, um silêncio incômodo. Não trocamos mais nenhuma palavra, apenas continuamos olhando o lago.
Eu não sabia exatamente descrever o que eu estava sentindo, era um misto de ódio com pena e culpa. Ao mesmo tempo, meu coração estava acelerado e eu sentia uma enorme vontade de sair dali, sentia-me extremamente desconfortável por não poder fazer nada para ajudá-lo. Tudo o que eu podia dizer parecia não haver valor para ele, deixando-me desanimado na tentativa de ajudar. Cada vez mais, aquela imagem de criança que eu ainda carregava sobre ele, transformava-se em uma imagem bem rebuscada de sua versão adulta.
— Por que você não me fala de você agora? – ele pareceu querer acabar com aquele silêncio, algo que foi bom, pois estava quase enlouquecendo com aquela calmaria.
— O que você quer saber? – coloquei uma voz um tanto aleatória e desinteressada na tentativa de esconder minha confusão interior.
— Não sei. Como foi a sua vida, o que aconteceu de relevante... Conta aí! – e cruzou os braços enquanto seu olhar ainda se encontrava longe.
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