Não se Esqueça das Rosas
6 Carona
Notas iniciais
Alexa franziu o cenho para a garupa da moto assim que Thomas a indicou, estalando a língua baixo em reprovação.
–O que foi? Não gosta da moto? –O garoto estreitou os olhos escuros, ofendido.
–Não, relaxa. É só que eu tô usando saia... E é uma garupa. –Ela o encarou fixamente, esperando que não tivesse de explicar mais que isso.
Thomas continuou com a expressão confusa por alguns segundos antes que finalmente entendesse. Quando o fez, revirou os olhos sorrindo.
–Ah, não tem nada. Sua saia é até grande... –Analisou-a lentamente, estirando os olhos sobre as pernas de Alexa.
O queixo da garota despencou e as sobrancelhas se aproximaram, formando um vinco em sua testa.
–Para de ser tarado! –Encarou a garupa por meio segundo. –Foda-se.
Antes que Thomas pudesse entender o que estava acontecendo, Alexa havia montado na moto. Ela enroscou os braços na cintura do garoto, o puxando levemente e o surpreendendo com o calor que emanava.
–Que pegada, hein, Blues? –Thomas brincou, um sorriso torto no rosto.
–Isso não é nada. –Ela acompanhou, sustentando um falso tom convencido.
–Ah, é? Me mostra o que mais você pode fazer. –Ele ligou o motor, o ronronar da moto invadindo o ar.
Alexa riu, encarando o céu nublado e sem estrelas enquanto o veículo começava a deslizar pelo asfalto.
–Você não aguentaria o meu ritmo, Turner. –Ela imitou um sussurro sensual que fez o garoto jogar a cabeça para trás, rindo.
A moto finalmente tomou velocidade, a paisagem se tornando um simples borrão para os jovens. Alexa havia apoiado o queixo na jaqueta do garoto, o cheiro do couro invadia o ar ao seu redor e o vento frio a deixava sonolenta.
–Você acha que vai ter muita gente na festa? –A garota perguntou. Seu tom parecia suave, mas a expressão era preocupada.
–Hum, acho que sim. É uma festa para comemorar o fim das aulas, então ela deve ter chamado muita gente. –Thomas deu de ombros, distraído.
Alexa conteve um suspiro de alívio, erguendo os olhos para o céu e sorrindo. Talvez Blair não percebesse sua presença se desse um pouco de sorte... A última coisa que a garota queria era ser expulsa de uma festa publicamente.
Tinha de convencer-se mentalmente de que realmente precisava estar naquele evento, precisava de algo que distraísse o Cobra. A conversa que tivera com Logan mais cedo ecoava em sua mente:
“Um garoto veio aqui. –Dissera o amigo. –Ele parecia alerta, mas tentava parecer durão e tudo mais. Bem, ele carregava um pacote. Era pequeno, eu não dei atenção no início... –A mandíbula de Logan estava travada, aquilo era um mau sinal. –Ele abriu e era uma carta enrolada em alguma coisa. Eu estava apressado e teria fechado a porta do prédio na cara do garoto, se o papel do envelope não estivesse todo manchado de vermelho... Droga, Alexa, eu pensei que ele tivesse te matado!”
A garota varreu as palavras de Logan para longe de seus pensamentos, sacudindo a cabeça e enterrando o rosto na jaqueta de Thomas, permitindo que o cheiro do couro preenchesse sua mente. Seus olhos estavam um pouco úmidos com a lembrança, mas nada que não pudesse ser confundido com o efeito do vento gelado em seu rosto, graças aos céus.
Por algum motivo, ela se sentia segura naquela garupa. A velocidade, a imponência de uma moto... Tudo era tão novo para Alexa. E parecia impossível que algo a ferisse no mesmo plano onde Thomas estava. Não porque ele fosse protege-la, ela não sentia isso. Era mais como se o garoto simplesmente não se encaixasse em qualquer forma de sujeira no mundo, ela não podia o imaginar passando por alguma situação violenta ou algo do tipo.
A moto finalmente estacionou, despertando Alexa de seus devaneios. Haviam parado em uma rua larga, ao lado de uma casa grande e arejada, as paredes amarelas destoando do ambiente hostil e frio da vizinhança inglesa. Grandes lanternas japonesas vermelhas estavam penduradas nos galhos de uma árvore, balançando com a brisa noturna e emanando luz sobre as várias mesas dispostas no jardim, as quais estavam lotadas. Uma pista de dança improvisada foi feita na varanda com um arranjo de luzes coloridas e um som gigante que tocava músicas eletrônicas. Para completar o clima festivo, vários jovens passeavam pela festa segurando copos vermelhos e engatados em conversas animadas e repletas de risadas histéricas.
Alexa sorriu ao perceber o quão cheio estava o local, seguindo Thomas até a multidão de corpos.
–Ora, ora, ora... –Matt surgiu do meio do tumulto, caminhando até o amigo. –Se não é o meu garoto dando carona para a novata mais gata da escola. –Ele sussurrou quando estava perto o bastante para não serem ouvidos.
–Para de ser um babaca. –Thomas revirou os olhos, impaciente. Alexa se aproximou dos garotos, fazendo com que Tom recuperasse o tom mais alto: -Matt, essa é Alexa Blues. Alexa, esse é o Matt.
–Oi Matt. –Ela falou, acenando discretamente.
–Oi. –O garoto respondeu com um sorriso amigável. Em seguida, se virou para Tom: -A Blair tá te procurando, cara.
Thomas massageou uma das têmporas, parecendo estressado consigo mesmo.
–Droga, eu sabia que ‘tava atrasado. –Ele revirou os olhos. –Se me dão licença... –Desapareceu pelo mar de corpos, deixando os recém-conhecidos atônitos.
–Bem, eu posso te apresentar ao grupo. – Matt investiu, quebrando o clima pesado que havia se instalado entre os dois.
Alexa sorriu, assentindo com a cabeça.
–Isso seria ótimo.
O garoto deu um sorriso bobo, a guiando pela multidão até que chegassem em um círculo extenso de pessoas que riam. Alexa identificou uma garota muito maquiada que fazia parte do time da torcida e que sempre a olhava com desprezo, um rapaz do time de futebol americano, uma ruiva que fazia parte do grêmio e um punhado de pessoas que conhecia apenas de vista.
–Gente, gente! –Matt chamou a atenção do grupo, puxando Alexa para o centro do círculo. –Essa aqui é a novata, a Alexa Blues.
A garota se sentiu terrivelmente exposta, todos os olhares se dirigindo a ela por alguns segundos. De repente, a escolha das meias ¾ e da saia não parecia muito apropriada ao redor de tantas garotas produzidas com os melhores vestidos possíveis.
–Seja bem-vinda! –A ruiva do grêmio exclamou, se adiantando para Alexa. –Eu sou a Olive. Sinto muito que você tenha conhecido o Matt primeiro, nem todos nós somos assim, viu? –Ela indicou o amigo com um sorriso brincalhão.
–Ela fala assim porque tem ciúmes de mim. –Matt deu de ombros, enlaçando a ruiva com um braço.
–Ah, vá a merda, Peterson. –A garota corou, tentando se desvencilhar do aperto do menino.
–Bem, oi, Olive. –Alexa deu um sorriso constrangido.
A ruiva ficou radiante, puxando a novata pela manga do casaco.
–Ai, eu vou te mostrar os melhores lugares! –A empolgação brincava com a voz de Olive, fazendo com que ela parecesse um personagem fofo de desenho animado.
–Ela não é sua cachorrinha, Olive. –Matt retrucou.
A garota revirou os olhos, subitamente irritada.
–Matt, eu sei que sua vida é um saco, mas se contente em cuidar dela. –Ela empurrou o peito do garoto de leve.
–Eu tô brincando, baixinha. –Ele riu. –Eu vou buscar uns drinques.
–Certo. Alexa, você pode me acompanhar por favor até o banheiro? –Ela fez uma careta rápida, indicando a casa amarela.
–Claro. –A outra deu de ombros, seguindo a garota que praticamente saltitava em meio à multidão.
–Srta. Blues! –Um grito agudo cortou o ar.
Alexa girou nos calcanhares, distraída. Foi quando sentiu seu estômago afundar subitamente e uma bola se instalar em sua garganta, a expressão assombrada.
–Srta. Blues. –A voz repetiu, agora mais próxima. –Tenho uma carta pra você.
O garoto estava parado em meio à multidão, o rosto angelical inexpressivo. Em suas mãos, um pacote.
Aquilo não podia estar acontecendo.
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