Não pare a Música

33 Capítulo 33 - Elos


Notas iniciais
Olá, minha gente! Sim, desculpem a demora. Como expliquei no Facebook e no Twitter, eu tinha um projeto para entregar até dia 10/03 e um intercâmbio durante o mês de Janeiro todo, por isso não pude atualizar a história. Massss já to de volta. Outra coisa é que as postagens agora serão às sextas-feiras! Semanalmente ou, no máximo, quinzenalmente ;)

Ino olhou o celular em mãos sem saber o que fazer. Estava no metrô, sentada em um dos bancos com o vagão balançando enquanto ouvia a música em volume baixo no celular. A cabeça estava confusa, podia dizer que, desde o momento em que flagara Hanabi até então, ainda estava em choque, tentando compreender o que tinha acontecido. Bem, era óbvio o que estava acontecendo, ela não era idiota, mas, ainda assim, era… irreal demais.

O som estava marcado em sua cabeça, quantas vezes já não o havia ouvido naqueles anos todos no ballet? Uma das bailarinas que havia se suicidado já tinha parado três vezes no hospital pela bulimia, e não dava para esquecer como era entrar no vestiário feminino antes da aula e ouvir aquele som… Odiava-o, com todas as forças, tinha nojo, chegava a ficar arrepiada só de lembrar porque, céus, era tão difícil ficar longe daquela doença quando todos ao seu redor pareciam dispostos a abraçá-la como se fosse normal…

E então havia a expressão de Hanabi, a surpresa, a vergonha e o medo quando a encontrou do lado de fora do banheiro… Não houve tempo para perguntas, embora Ino estivesse certa de que não teria conseguido dizer nada enquanto Hanabi a encarava em pânico. Os olhos se encheram de água conforme os segundos se prolongavam, Hanabi sabia que ela havia entendido, e por isso fugiu, sem lhe dar tempo para…

Para o quê?

O que faria?

O que diria?

O começo de sua adolescência inteiro havia sido marcado pela presença da psicóloga repetindo que ela não precisava daquilo, que ela devia se aceitar, se amar, que não devia ir pela cabeça dos outros… Ino orgulhava-se de nunca ter cedido, de ter sempre permanecido longe daquele abismo que a engoliria se olhasse demais para ele. A porta do banheiro por muito tempo fora algo que ela sequer encarava, convencendo-se toda vez a nunca se demorar lá dentro, fugia como se cada segundo ali fosse tentador, ainda mais depois que Orochimaru virou seu professor… As coisas haviam melhorado depois que Sasuke, Neji e Sakura entraram em sua vida. Os amigos davam um tipo diferente de suporte e, mesmo que Sasuke e Neji não fossem de demonstrar seus sentimentos com facilidade e fossem difíceis de ler, eles sempre pareciam acertar o momento em que ela precisava de socorro, de conforto, de alguém para se colocar entre ela e aquela maldita porta.

Hanabi era a modelo ideal, quase inalcançável, por que ela… por que logo ela? Não conseguia aceitar. E, quando havia saído às pressas, despedindo-se de todos no automático, por um momento, um breve e rápido momento, seus olhos se encontraram com o de Konohamaru. E ele sabia. Pela forma como ele correu na direção que ela havia acabado de vir, Konohamaru com certeza sabia. Então: por quê??

Mordeu o lábio, incrédula demais para sentir raiva no momento, mas não o bastante para não reparar na grossa lágrima que tinha escorrido pelo rosto e agora secara. O olhar se perdeu na paisagem através do vidro. Os passos que a levaram pela estação foram impensados, um torpor gélido e desagradável, como se o cérebro estivesse congelado e ela não conseguisse obrigá-lo a raciocinar, a sentir o que quer que fosse. Não se sobressaltou quando o braço de Neji passou por seus ombros, mesmo sem lembrar quando tinha ligado para o amigo. Ele ficou em silêncio enquanto esperava que ela dissesse o que havia acontecido. E foi naquele momento, quando os lábios enfim verbalizaram o que tanto a assustava, que os olhos se encheram de lágrimas, como uma torneira a ser aberta de repente:

— Hanabi é bulímica — sussurrou, e nem o conforto da casa de Neji era o suficiente para diminuir o peso daquela verdade. — Ela tem bulimia… — repetiu em choque, e as mãos tremeram ao cobrir os lábios quando os soluços romperam altos.

Neji ficou estático, mas não se mostrou tão surpreso pela notícia. Aproximou-se e segurou a mão de Ino, que repetia a mesma frase, talvez na tentativa de se convencer de que era verdade, talvez pelo impacto que aquilo trazia para ela em si.

Não havia o que fazer, não tinha o que dizer para confortá-la, pelo menos não enquanto ela ainda estivesse assustada demais. Viu-a se afastar e limpar o rosto, que só agora exibia a raiva e a indignação com o assunto.

— Meu Deus, ela deve pesar cinquenta quilos, Neji! Cinquenta! Ela é tão magra que… não! Eu… eu nunca pesei o que ela pesa hoje! E ela estava pondo o almoço para fora! Meu Deus, puta que pariu, eu não acredito! Por quê? Por que ela tá fazendo isso? Meu Deus do céu, ela é linda! Ela é… impecável! Ela-

— Ino — chamou, firme, e ela enterrou o rosto nas mãos e conteve o grito de frustração.

— Não acredito nisso… não consigo acreditar… Ela parece tão bem, tão segura, tão… — a voz vacilou, baixa, e ela encarou Neji como se a palavra seguinte arranhasse a garganta e causasse dor para ser dita. — perfeita… Por quê? — Ela o olhou, os olhos azuis escondidos pelas lágrimas, a confusão refletindo o quão perdida estava.

Neji respirou fundo e massageou o pescoço.

— Nem sempre nosso reflexo mostra a verdade, não é? Você sabe disso. Ela é modelo desde pequena, você deve imaginar tudo o que ela já ouviu, o ambiente em que ela cresceu não é muito diferente do ballet, a única coisa é que ela com certeza recebe mais atenção e, com isso, mais elogios e críticas, mais pessoas querendo dizer como ela precisa agir, se vestir, pesar, ser. Se já é difícil no ballet, piore ainda mais a pressão e você terá o que Hanabi viveu por todos esses anos. Eu não conheço ela, não sei como é a personalidade ou o emocional dela, mas todo mundo sobre pressão pode quebrar uma hora.

Ela balançou a cabeça, sem aceitar, levantou-se e andou pela sala até Neji puxá-la pela mão para a área externa da piscina.

— Vamos, é tradição — ele falou ao apontar a piscina com a cabeça. — Pula.

Ela concordou com um riso sem humor, retirou os sapatos e esvaziou os bolsos. Correu a pouca distância só por reflexo, pulou na piscina e afundou, sem pressa de voltar à superfície.

— Põe pra fora — a voz de Neji estava distante, mas ela ouvia, e por isso, ainda sob a água, gritou.

Não ouvir a própria voz e ainda ser capaz de sentir a garganta arder pelo esforço, os pulmões se esvaziarem, as bolhas de ar subirem uma atrás da outra, era terapêutico. Sentia que o silêncio a mataria, que toda a angústia a faria morrer sufocada sem ninguém por perto para socorrê-la. Gritou, até o ar acabar, gritou de novo e de novo a cada novo fôlego, e só parou quando os braços de Neji a envolveram, quando o amigo entrou na água para abraçá-la com força.

— Pronto… tá tudo bem, pronto... — ele sussurrou, os lábios contra as têmporas dela e a mão acariciando o cabelo loiro. — Vai ficar tudo bem… Não precisa ter medo...

— Quero ajudar ela… — Escondeu o rosto na curva do pescoço dele, e a voz saiu rouca.

— Ela precisa de um psicólogo, Ino.

— Eu sei, mas… não é como se eu pudesse dedurar Hanabi para alguém! Pra quem eu falo? Konan? Pain? Isso pode acabar com a carreira dela!

— O cara com quem você tá saindo não era o fotógrafo antigo dela? Você disse que eles eram próximos, ele não pode ajudar?

— Gaara?

Gaara conhecia Hanabi, e eles com certeza haviam sido próximos, afinal, Hanabi era apaixonada por ele. Talvez Gaara realmente pudesse ajudá-la ou conhecia alguém que o fizesse, além disso ele já estava naquele ramo há um tempo, devia entender mais do que ela sobre o assunto e como lidar com ele. Ainda assim, sentia-se mal… pequena… impotente.

Estava irritada, estava com ódio de si mesma porque tinha plena ciência de que sua raiva era menos pelo que Hanabi estava fazendo e mais pelo medo de se aproximar para ajudar e acabar se afogando junto…

— Você está indo pro fundo — resmungou, e Neji a segurou com mais cuidado.

— Não vou te deixar afundar. Eu nunca vou te deixar cair, nem você nem o idiota do Sasuke — ele garantiu, e o modo como os olhos perolados encararam os de Ino naquele momento a fez entender que ele não se referia à piscina.

Os lábios dela tremeram antes que um sorriso bobo acompanhasse as lágrimas e ela apertasse mais o amigo.

— Obrigada… de verdade, obrigada…

* * *

A escola estava silenciosa, e os sapatos de Sakura faziam barulho, por mais delicados que fossem seus passos. As salas ainda estavam fechadas, suas cortinas e janelas trancadas, mas Sakura já era acostumada a não ter qualquer empecilho em seu caminho. A chave em sua mão era uma das várias que estavam no molho de Tsunade, e sua madrinha nunca que repararia na ausência dela.

Amava aquela sala, costumava amar, agora aquele lugar lhe dava pesadelos, e não poder acordar e deixá-los para trás estava a enlouquecendo. O ranger da porta de madeira era agonizante, e a entrada agora livre dava-lhe boas vindas não à sala, mas às memórias, várias delas.

Era uma sala ampla e, diferente das demais, havia uma sacada após a porta de vidro. O sol iluminava o cômodo e o aquecia, o piso de madeira e as barras de dança permaneciam quentes a maior parte do dia e traziam uma sensação de conforto que agora a enjoavam. Tinha sido ali que havia confessado à uma amiga um segredo, dissera-lhe que era seu refúgio, um lugar escondido cuja chave só Tsunade tinha e que, por isso, era tão perfeito. Estava segura ali, a madrinha nunca descobriria que havia roubado a chave, então nunca a procuraria naquele lugar, teria tempo para chorar sem ser interrompida, para contemplar a própria imagem destruída no espelho, para treinar quando quisesse embora não acreditasse mais que havia motivo para isso.

Havia apresentado aquela sala como um refúgio para aquela outra garota, aquela cujo nome não queria pronunciar porque o fazer era desencadear mais uma crise de ansiedade, de culpa, de dor. Não havia reparado quando sua chave tinha sumido, estava tão entretida em fingir ser capaz de sustentar outro relacionamento fracassado, que não percebeu a chave sendo roubada da mochila, e só se deu conta disso quando Sasuke enfim falou ao telefone o nome da garota que tinha se matado, pulado da sacada de uma das salas da escola. Da sua sala. Do seu refúgio.

Deitou-se no chão, bem ao centro, e fixou o olhar nas pás do ventilador de teto que giravam lentamente. Se não houvesse mostrado a sala, não mudaria nada, haveria outras. A culpa não era dela, apesar de ser, apesar de lá no fundo uma vozinha chata e repetitiva lhe confessar que, sim, era. A culpa em seus ombros não era pelo que tinha dito, era justamente por aquilo que não mantinha no silêncio, sufocado no consciente pelo medo.

Tinha que ser forte. Ino era, Sasuke era, Neji era, ela precisava ser também. Ninguém ali desabava, não seria a primeira. Ninguém ali falava, não seria então ela a abrir a boca. Todos fingiam não ver, então por que agora a consciência vinha arrancar à força a venda de seus olhos?

Sasuke.

É claro… Ela sabia o motivo. Havia ouvido a conversa de Tsunade com Orochimaru, sabia bem o quanto o professor estava irritado, e tinha medo do que aquilo levaria. Era nojenta a maneira como Orochimaru falava de Sasuke, era doentio como o olhava, era assustador como Orochimaru parecia se divertir ao brincar com a cabeça dele: revirando as peças, destruindo as que queria, cutucando cada ferida para que doesse e isso o deleitasse, e impedindo qualquer um se aproximava para ajudar.

Ela sabia. Ela tinha tentado. Tobirama tinha tentado. E agora eram uma bailarina de porcelana sem vida e um pianista velho descartado. Grandes heróis… grandes fracassos.

Olhou para a mochila que jazia ao seu lado, o celular tocava a Valsa das Flores, Tchaikovsky, e, pela música, ela sabia quem era, apenas um de seus contatos possuía aquela toque. Relutou em atender. Desejava ignorar a ligação, chegar em casa e pedir desculpas ao mentir dizendo que não havia ouvido o celular. Mas isso poderia levar a madrinha a querer achá-la… E se ela enfim se desse conta da falta da chave? Perderia seu lugar especial, o único que a abrigava e escondia para que pudesse chorar sozinha e organizar os restos de sua mente.

Atendeu.

Sakura, onde você está??

— Eu-

Não importa. Venha para casa. Precisamos repassar o seu ensaio. Eu já fiz uma lista com as observações e quero que comece a treinar antes da aula de hoje.

Não…

Fechou os olhos, a voz ao telefone soava como sussurros, incompreensível pela distância que tentava colocar.

Sakura? Está me ouvindo?

— Sim. — Suspirou quando respondeu. — Eu-

Ótimo, venha para casa. Estarei esperando.

— Eu já-... Alo? Alo? — Sakura riu, amarga. — Típico…

Levantou-se como uma marionete preguiçosa a ter suas cordas puxadas, apagou as luzes da sala e trancou a porta enquanto suspirava com alívio por não ouvir voz alguma naquele corredor. Sua aula seria só à noite, mas as turmas mais novas já lotavam a escola, as vozes e as risadas das crianças traziam certa nostalgia a Sakura, e era impossível não se sentir melancólica.

Desceu as escadas sem pressa, a mochila nas costas pesava, e ela parou, por um breve momento, ao ver Orochimaru conversando com Naruto perto de um dos vestiários. O pianista não parecia contente… pelo contrário, Naruto parecia discutir com Orochimaru, o dedo apontado para o peito do professor que sorria, cínico. Quando Naruto a notou ali, tudo o que ela quis foi pedir que ele não estivesse discutindo por Sasuke, porque se estivesse, Sasuke se irritaria ao descobrir, e, pior, Orochimaru conseguiria o que tanto almejava: uma desculpa para fazer Tsunade enfim expulsar um aluno “problemático”.

Naruto sorriu, no intuito de disfarçar sua raiva e esperar que Sakura fosse embora. Orochimaru suspirou relaxado e prendeu o cabelo em um rabo de cavalo alto enquanto a atenção de Naruto voltava a ele.

— Já acabamos? — perguntou, divertido pela raiva nos olhos do pianista.

— Você não me respondeu.

— E nem vou. — Riu, irônico. — Não devo satisfações a você. Aliás, a única pessoa da companhia a quem devo satisfações é Tsunade, e ela concorda comigo sobre meus métodos de ensino e meus alunos. Se não está contente, o problema é unicamente seu. Sinta-se grato por pertencer à música, e não à dança.

— Então não tem motivo? — Naruto se exaltou. — Você não pode simplesmente implicar com alunos porque quer, sem qualquer razão, sem que eles tenham te feito algo para isso. Eles estão exaustos!

— Isso é pelos meus alunos ou por um aluno em particular, Naruto? — Orochimaru questionou, frio, e o passo que deu na direção de Naruto não o fez recuar.

— Você os sufoca.

— Eu os ajudo a atingir seu potencial.

— Você mata o potencial deles! É impossível dar o seu melhor quando se está exausto!

— Eles nunca vão ser perfeitos se não treinarem. Isso aqui é mundo real, Naruto, eles precisam ser perfeitos para terem alguma chance de sobreviverem! Precisam ser moldados!

— Moldados? — Naruto repetiu indignado. — Por você? Moldados?

— Ballet é feito de sacrifícios. — Orochimaru sorriu de canto. — E sim, eu os moldo, cada um deles. Lapido quem já tem o dom, descarto quem não tem futuro, ajudo quem tem uma chance a construir seu caminho do zero, e destruo quem se desvia para que possamos começar de novo.

— Você está se ouvindo? Não percebe o quão doentio isso soa?

— Naruto, eu tenho uma aula agora para dar. Que tal se preocupar mais com sua vaga na orquestra que com os meus métodos de ensino? Aposto que a maestra deve estar bastante curiosa ao seu respeito — falou ao lhe dar as costas e começar a se afastar.

— Está me ameaçando?

Orochimaru parou, e Naruto odiou como os olhos dele pareciam sorrir quando Orochimaru o espiou sobre os ombros.

— Estou. Fique fora dos meus assuntos e pare de se intrometer com meus alunos. É a última vez que te aviso.

Naruto cerrou os punhos, e Orochimaru voltou a andar. Estava sendo ameaçado… pelo que? Por quê? O que Orochimaru tinha na cabeça para achar que poderia tratá-lo daquela forma? Que poder ele tinha?

— Com seus alunos ou com Sasuke? — gritou de volta e se arrependeu no instante seguinte quando Orochimaru parou e se virou com um riso baixo e perigoso.

— Como eu disse, ajudo meus alunos a seguirem seus caminhos, Naruto. Se Sasuke sai do dele, por qualquer motivo que seja, estou no meu direito de destrui-lo para que ele recomece do caminho certo. Algumas coisas não basta você só arrumar, você tem que… resetar, partir do princípio. Eu não implico com Sasuke, ele que é arrogante e teimoso demais para não seguir no caminho que desenhei para ele. Sinceramente? — Olhou para cima ao refletir. — Acho que ele gosta… como uma criança que desobedece os pais para chamar a atenção, sabe? Você só é o novo jeito que ele encontrou de fazer isso. E, como professor, não posso deixar tal comportamento passar, sou um educador afinal, não posso permitir que ele faça o que quer e ache que ficará impune. Agora, com licença, tenho que dar a minha aula. O primeiro ensaio geral está perto, preciso garantir que os meus alunos estejam prontos.

Naruto permaneceu com os olhos arregalados enquanto Orochimaru sumia pelo corredor, e a raiva e a indignação não o abandonaram mesmo depois de deixar a escola para se dirigir ao almoço que teria com sua mãe.

Sentado agora no restaurante caro enquanto a mãe fazia os pedidos, a mente recapitulava cada palavra dita por Orochimaru. Aquele professor era louco, e olha que já havia conhecido vários professores exigentes e arrogantes! Mas Orochimaru os superava em tudo! A única coisa que o tranquilizava era que, no ano seguinte, Sasuke não teria mais que aguentar aquele maldito. A nova série era de responsabilidade de uma outra professora, e isso lhe trazia uma onda de alívio inimaginável, apesar de não entender por que Sasuke não compartilhou de sua animação quando o havia lembrado desse detalhe.

— Naruto? Precisa conversar? — Kushina tocou sua mão, e Naruto piscou ao voltar à realidade.

— Se eu cometer assassinato, você finge ser meu álibi? — perguntou dramático, e Kushina abriu a boca surpresa antes de rir.

— Deixa eu adivinhar: Sasuke?

Ele gemeu ao enterrar a cabeça nas mãos.

— Não diretamente. Mas… esquece. Vamos primeiro falar da cirurgia. Você aceitou?

— Sim. — Ela sorriu. — E já escolhemos a data. Vou precisar ficar internada, fazer os exames pré-cirúrgicos, e então faremos a cirurgia.

— Como mudou de ideia? Foi o pai? — Sorriu animado com a confirmação da notícia que havia recebido do pai com boa parte de desconfiança, afinal, sua mãe era mais teimosa que ele próprio, era difícil que voltasse atrás em tão pouco tempo.

— Não posso deixar as pessoas que eu amo desamparadas — ela explicou, e o sorriso de Naruto diminuiu lentamente conforme reparava o olhar cansado que a mãe exibia.

— Isso é por minha causa?

Kushina sorriu, doce, do modo como as mães fazem quando decidem se sacrificar e estão irredutíveis quanto à sua decisão.

— Nós precisamos cercar quem amamos de amor, Naruto, precisamos estar ao lado dessas pessoas e dar suporte a elas quando mais precisam. Não posso fazer isso nem por você nem por seu pai deitada em uma maca de hospital ou dentro de um caixão. Não é por você ou por seu pai, é por mim, porque eu decidi que quero estar bem para ficar com vocês.

— Decidiu isso pela discussão, não foi? Pela discussão com meu vô — Naruto sussurrou alarmado. — Mãe…

Kushina negou com a cabeça, e Naruto acompanhou quando ela pegou seu celular e tocou no visor para que acendesse. Ela sorriu e mostrou-lhe a tela, e era óbvio que ele já sabia o que veria, havia sido ele mesmo que tinha colocado a foto de Sasuke dançando como tela de bloqueio.

— Não é pelo seu avô — ela falou firme. — É para estar com você nesses momentos. Para te ouvir falando mais sobre suas paixões, suas conquistas, e também para mandar ao quinto dos infernos quem quiser dizer que você não merece ser feliz. É para compartilhar todos esses momentos com você, com o seu pai. Não quero perder isso.

— Quer conhecê-lo? — Naruto perguntou de súbito. — O Sasuke. Quer conhecê-lo?

— Já estamos nesse nível de apresentar para os pais? — Ela riu, mas Naruto se levantou já sinalizando para o garçom.

— Ele está ensaiando em casa agora, a gente fala que precisei passar rapidinho lá para trocar a blusa porque… — Naruto olhou para a mesa e sorriu ao passar o indicador pela borda do prato com molho e então na camisa branca. — Ops! Que desastrado que eu sou, não é? Devia ter me educado melhor, dona Kushina!

Kushina riu, alto, e o riso fez o peso dos ombros de Naruto sumir, fez a culpa se dissipar, pelo menos uma parte. Digitou depressa uma mensagem para Sasuke avisando que passaria em casa com a mãe e rezou para que o bailarino não o interpretasse mal nem resolvesse fugir. Não conteve o sorriso com a ideia… pelo que conhecia de Sasuke, não seria difícil de imaginá-lo agora mesmo evaporando de seu apartamento.

Mas isso não aconteceu… e foi fácil descobrir o motivo. O som da música clássica podia ser ouvida do lado de fora do apartamento, uma melodia que fez sua mãe fechar os olhos e cantarolar enquanto Naruto destrancava a porta. Como combinado, Sasuke havia afastado os móveis da ampla sala para que pudesse usar o espaço para ensaiar, e ele o fazia, concentrado demais para sequer abrir os olhos com o barulho da porta sendo aberta.

Sasuke trajava o short do uniforme do ballet, uma regata cinza simples encharcada, e um fino elástico prendia seu cabelo. A joelheira que havia infernizado que ele usasse estava ali, devidamente posicionada, mas sua atenção logo se voltou para o sorriso ladino que Sasuke exibia ao dançar.

Ele se divertia, provavelmente acertava os passos, vibrava com a música. Os passos fluíam como se Sasuke nem ao menos tivesse que pensar para executá-los, e isso era tão bonito… O modo como o corpo dele balançava, abraçado pelas notas que dominavam o ambiente, era magnético. Nenhuma reação, fosse sua ou de Kushina, conseguiu se fazer presente enquanto as piruetas de Sasuke se seguiam, uma atrás da outra, uma mais graciosa que a outra…

E então a música atingiu seu ápice, a nota mais alta roubando seu fôlego e o de sua mãe por saberem de cor a música e sentirem o coração acompanhar suas batidas. Sasuke elevou o braço, ao topo, como se quisesse tocar o céu em uma prece sôfrega. O suor fazia a pele brilhar no movimento, e os músculos esticados clamavam pelo encerrar da melodia. A cabeça dele pendeu para trás, com um descaso que sabiam que não era da coreografia, mas sim pela vitória de concluí-la com êxito, e o peito subia e descia com fervor antes de o riso alegre e aliviado subir pela garganta e tomar-lhe o fôlego.

— Isso foi… lindo — Kushina falou, impressionada.

Sasuke abriu os olhos com a voz, e Naruto se arrepiou com o impacto dos olhos negros sobre si antes de se dirigem à sua mãe.

— Eu… eu mandei mensagem — falou depressa ao perceber a dúvida enquanto Sasuke endireitava a postura.

— Não vi. Mas a casa é sua, Naruto — Sasuke respondeu sem se abalar, e pegou a toalha que tinha deixado por perto para secar o rosto e a nuca.

— Sim, mas não queria te atrapalhar no ensaio, então… — embolou-se ao tentar explicar, e Kushina riu, atraindo a atenção de Sasuke finalmente.

Era uma mulher mais velha, com cabelos vermelhos, que ele não se lembrava de ter visto antes e que não entendia ao certo o que fazia ali. Mas a casa era de Naruto, não tinha direito de questioná-lo sobre quem entrava ou saía dela. Ainda assim, por mais que fingisse ser racional, o cenho franzido e o leve enrijecer do corpo diziam óbvio: a ideia de outra pessoa naquela casa, que não fosse ele próprio, o desagrava fortemente, ainda mais quando ela parecia tão próxima de Naruto, os braços entrelaçados, uma distância quase nula entre eles.

— Bem… — Naruto se aproximou, e Sasuke o viu ficar parado ao seu lado enquanto olhava a mulher com certa hesitação. — Às apresentações. Esse é Sasuke… meu…

Houve uma pausa, uma discreta, curta, ínfima pausa, que Sasuke percebeu, que ele sentiu quando os olhos azuis de Naruto buscaram os seus ainda enquanto falava. Era um pedido de permissão? Dúvida? Medo? Não sabia, mas era uma pausa que não deixaria pender no ar e, por isso, tão logo os lábios de Naruto terminaram de pronunciar o pronome possessivo, Sasuke fez questão de estender a mão e completar:

— Namorado. É um prazer.

Naruto arregalou os olhos, e Kushina sorriu, tão natural e espontânea que a ficha de Sasuke caiu, afinal, aquele sorriso era particularmente muito parecido aquele que o tinha feito refém. Ela apertou sua mão antes que ele a deixasse cair pelo choque, e Naruto coçou a nuca sem graça quando Sasuke o olhou de relance.

— É de fato um prazer, querido, eu sou Kushina. A mãe dele. — Ela não o soltou. — Naruto, vá logo trocar essa camisa, filho, eu vou fazer um suco para o seu namorado. Depois desse treino todo, deve estar com fome, não?

— Eu- — Sasuke balbuciou.

— Vem, vamos para a cozinha. Você gosta de suco do quê? Já almoçou? — ela perguntou, e Naruto apenas deu de ombros quando Sasuke o olhou em busca de ajuda e saiu pelo corredor para trocar de camisa.

Naruto já havia conhecido os tios de Sasuke, os três, e em uma situação não muito propícia, então o bailarino sobreviveria a cinco minutos com sua mãe. Retirou a camisa com facilidade, mas não conseguia dizer o mesmo sobre o sorriso no rosto.

Sasuke era imprevisível… Sim, estavam juntos. Sim, era um relacionamento, um que não haviam nomeado de propósito. Sasuke nunca o tinha colocado em palavras, eles nunca haviam falado sobre isso… Tinha medo de que Sasuke fugisse, de que escorregasse por suas mãos se o pressionasse com aquele tipo de assunto, mas agora...

Sorriu sem esconder a felicidade, e o modo como Sasuke corou quando entrou na cozinha para observá-lo com sua mãe deixou claro que ele sabia que retomariam aquele assunto mais tarde, especificamente quando chegassem do ensaio no final do dia.

A mente permaneceu animada demais para se importar com as provocações de Orochimaru durante as aulas, e nem mesmo Sasuke parecia no humor para discutir com o professor durante o ensaio. O silêncio no carro enquanto Naruto dirigia para casa era engraçado, Sasuke fingia prestar atenção no céu escuro, e Naruto podia jurar que não precisaria de muito para deixar o outro envergonhado, afinal, sua mãe havia feito um excelente trabalho quanto a isso mais cedo. Nunca saberia quantos diferentes tons de vermelho Sasuke conseguia atingir se não fosse por Kushina.

Estacionou o carro sem perceber que não havia perguntado a Sasuke se ele dormiria ali ou em sua própria casa, contudo, Sasuke desceu do carro no automático, massageando a nuca e bocejando cansado do treino. Às vezes, Naruto tinha certeza de que Sasuke só se deixava levar, exausto demais para tomar decisões banais.

— Seu ensaio hoje foi muito bom — sussurrou ao abraçá-lo pelas costas enquanto girava a chave na fechadura. — Quer comer alguma coisa?

— Do que adianta eu falar não se você vai me enfiar comida do mesmo jeito? — Sasuke resmungou, o sorriso de Naruto em seu pescoço fazia cócegas, e era tão bom…

— Esse é o espírito, Teme. — Naruto beijou-lhe a pele e abriu a porta de casa para que entrassem. — Vai me ajudar?

— Tenho outra opção? — Sasuke sorriu irônico enquanto acompanhava Naruto à cozinha e desviava dos pulos do cachorro afobado que vinha os recepcionar.

— E perder a chance de ficar na cozinha com o melhor cozinheiro que conhece? — Naruto sorriu empolgado, e Sasuke arqueou a sobrancelha.

— Você está ficando convencido, Dobe.

— Claro que não! Estou apenas reafirmando minhas qualidades!

— Ah, claro, vai fazer uma lista agora é? — Sasuke provocou, e Naruto secou as mãos antes de se virar para ele e se aproximar, encurralando Sasuke entre o balcão e seu corpo.

— Eu faria — Naruto falou, o sorriso presente, os olhos azuis intensos e encarando Sasuke com uma estranha emoção. — Mas eu faria essa lista para tentar te convencer de algo em um momento específico, um que você roubou de mim mais cedo.

Sasuke franziu o cenho e entendeu, a pele pálida ganhando os tons da vergonha enquanto mudava o peso de uma perna a outra e tentava achar um meio de sair dali.

— Então… quer dizer que estamos namorando, Sasuke? Não me lembro de você ter feito um pedido oficial — provocou com um leve bico nos lábios, e Sasuke engoliu em seco sem saber o que responder ou como se sentir menos constrangido do que já estava sob a firmeza do olhar de Naruto.

— Achei que fosse óbvio — mentiu depois de limpar a garganta. — Você não está saindo com mais ninguém, nem eu, e estamos… juntos — falou depressa. — Simples.

Naruto segurou o riso.

— Simples — repetiu, e Sasuke bufou e tentou empurrar seus braços para longe, fazendo-o enfim rir. — Sasuke, você é tudo, menos simples. Mas — falou, o tom mais calmo chamou a atenção de Sasuke, e Naruto se aproximou mais, colando os corpos enquanto levava uma das mãos ao bolso de trás da calça que vestia. — como o seu pedido foi… antiquado — provocou. — Me deixe tornar isso oficial de uma forma um pouco melhor…

O brilho do metal atingiu os olhos de Sasuke antes mesmo que Naruto mostrasse os anéis, e a boca secou sem que ele soubesse o que dizer ou como se expressar sobre aquilo. Tudo o que conseguiu pronunciar foi:

— Alianças?

— De namoro — Naruto especificou com a mão direita de Sasuke já entre as suas enquanto tentava decifrar as emoções por trás dos olhos negros.

Ergueu a mão de Sasuke, sem desviar o olhar do rosto dele, e deslizou o anel de prata simples pelo dedo. Sentiu Sasuke soltar o ar que prendia e sorriu enquanto aproximava os lábios do anel.

Sasuke se arrepiou quando a boca de Naruto tocou sua pele. Não usava anéis, nunca tinha usado, era uma sensação estranha, um peso novo em sua mão que parecia carregar mais que somente o peso do metal. O coração acelerado não sabia o que pensar, e era irônico não ter palavras nem mesmo para provocar Naruto, para ironizar a situação, para falar qualquer coisa que disfarçasse o quão idiota se sentia por estar tão… apaixonado.

— Quando…? — perguntou sem entender.

— Depois que você nos declarou namorados, antes de voltar para a escola. Tive que correr um pouco para achar uma que não fosse extravagante demais, eu reparei que você prefere acessórios com design mais limpo. — Naruto sorriu, orgulhoso.

— Como sabe o meu número?

— Sasuke — Naruto sorriu com malícia, e as mãos deslizaram até a cintura de Sasuke para apertá-la enquanto aproximava os lábios dos dele. — Eu acho que já decorei todas as suas medidas nesses meses.

— Idiota — Sasuke sussurrou, e Naruto não escondeu a felicidade ao responder:

— Segundo você e esse anel, seu idiota.

Sasuke fechou os olhos, e o sorriso que lhe tomou a face ao ouvir Naruto se dizer seu foi de pura satisfação, uma que ele nem mesmo conseguiu conter e preferiu disfarçar ao afundar as mãos nos cabelos loiros e beijar Naruto.

Seu. Ah, aquilo soava tão bem em seus ouvidos... Seu. Gostava da forma como a boca de Naruto parecia deliciosa ao sussurrar aquela verdade contra a sua. Seu. Seus beijos, chupões e arranhões fizeram questão de frisar aquilo, como se assinassem um contrato ainda mais importante que o anel em sua mão, fazendo de Naruto o papel em branco no qual queria deixar seu nome em todas as linhas. Naruto era seu… e a ideia de doar-se a alguém nunca lhe pareceu tão tentadora...

Notas finais
Gostaram? Críticas? Sugestões? Comentários? Recomendações? Abraços? Beijoss ♥ ♥ ♥