Na hora do intervalo, me sentia velha de tanto fazer cara feia para o Alef. Mas porque cargas d'água ele tinha que me encarar sempre?

Só quando sentei na mesa do refeitório, notei que esqueci o meu suco. Ia levantar para buscar. Uma mão estendida me oferecia o suco que eu havia esquecido e suspirei de gratidão. Ninguém nessa Universidade nutria qualquer afeição por mim, e alguém fazer essa gentileza era no mínimo surpreendente.

Peguei o suco, mas quando vi quem o trouxe minha felicidade sumiu.

Alef sentou ao meu lado.

— Queria entender por quê você me odeia _ falou.

— Eu odeio todo mundo. Não se ache especial _ falei sério, eu só queria provoca-lo, não importando com o que. A colocação era ridícula, mas se isso o afastasse de mim, já seria bom. Mas ele riu uma gargalhada tão gostosa e longa que me contagiou.

Estávamos nos entrelhando no fim da risada.

— Olha só! Ela sorri _ zombou admirado com o meu rosto.

— Pensei que tivesse te matado _ lembrei da alucinação e fiquei pensando.

— Aonde? Nos seus sonhos? É sério que você me odeia tanto que queria jogar o seu carro sobre mim? _ sorriu divertido.

— Eu não te disse sobre jogar o carro em cima de você.

Nós entreolhamos e a situação ficou estranha.

Um grupo de meninas enciumadas o levou embora sob o meu olhar desconfiado.

O dia passou igual. Mas agora o Alef me intrigada em vez de irritar. Passei uma semana sem ter novos sonhos como aquele. O Alef me evitava, embora me olhasse de longe.

O que estava acontecendo? Tudo parecia tão ilógico.

Adormeci domingo à noite, durante um filme, no sofá.

Me percebi no deserto, mas não estava aonde eu parei antes. Estava entrando em um oásis.

Quando entrei no cenário paradisíaco Um lindo anjo me esperava. Como eu sabia que era um anjo? Estava implícito. Nem haviam​ asas. Mas eu sabia.

— Sofia _ falou feliz e surpreso _ Você me encontrou!

Levantou de perto do lago e caminhou para mim.

— Por que você me chamou? Não está em perigo.

— Não. Não estou. Mas estou preso aqui. Fui banido...

Uns sons horríveis como o arranhar de várias lousas abafaram a sua voz e eu não entendi mais nada. Via a sua boca se mover somente, e no minuto seguinte tudo girou e eu acordei tonta no meu sofá no meio da noite.

Não sonhei mais com aquilo, durante a noite.

Amanheceu, o som do Metallica invandiu o meu quarto. Levantei dançando e vibrando com o som alto. Baixos e guitarras, a minha paixão.

O Shane gritou algo. Devia estar pedindo pra abaixar o volume do som, ri divertida ignorando.

Tomei um banho rápido. Maquigem basica, olhos pretos e boca vermelha, aneis de níquel. Calça preta, camisa do Ref Hot Chili Peppers e botas tipo do exército, estava pronta.

Peguei minha mochila.

Cheguei na cozinha e engoli uma panqueca com suco de laranja.

— Você não senta pra comer, não? _ o meu irmão reclamou.

— Estou atrasada _ respondi de boca cheia e na defensiva, antes de sair.

Cheguei na escola ouvindo Angel, do Aerosmith pelos fones do celular. Vi o meu vizinho de armário antes de chegar.

Alef acompanhou os meus movimentos com atenção, embora disfarçando, quando eu pegava os livros. Encarei ele ao fechar o meu armário. Queixo levantado, tentava compensar a diferença de altura entre nós. Me encarou de volta, mas engoliu seco.

O sinal tocou e o Alef saiu mais rápido do que eu imaginei que ele poderia.

Segui para a sala de aula também.

Na hora do almoço escutava música enquanto comia. Bebi o meu suco quando ja estava satisfeita. Cantarolava Sweet Dreams quando o Alef se aproximou. Prendo a respiração ao vê -lo e respirei fundo em seguida. Cocei a minha nuca em desagrado quando ele sentou.

— O que diabos você quer comigo? _ praguejei.

Vi sua expressão de desagrado pela primeira vez ali.

— Olha a boca! _ me repreendeu.

Sorri agradada.

— O quê? Demon, diabo, satã _ falei rindo tão feliz por ver a sua cara.

Alef fez uma careta que era de repulsa e ultrage, se levantando apressado enquanto me ouvia. Teria saído antes, se fosse possível. Sorri bebendo o meu suco triunfante, como se comemorasse.

Nas aulas seguintes, ele tinha uma cara de "você foi muito má comigo e eu exijo um pedido de desculpas". Isso me fazia feliz. Estava rindo à toa.

Cantarolava Monster, de Meg & Dia, enrolando uma mecha do meu cabelo no dedo, enquanto fazia o trabalho de classe individual.

Na saída, uns garotos usavam o estacionamento para andar de moto. Eu estava com os fones nos ouvidos. Não ouvi ou vi quando uma moto vinha em minha direção por trás.

Não sei de onde ele veio, ou como fez aquilo, mas o Alef me tinha em seus braços e estávamos no espaço entre dois carros em um segundo. Olhei pra trás vendo o piloto da moto caído no chão, segurando a perna machucada e chorando feito um bebê.

— De onde você saiu? _ perguntei confusa.

Não tinha ninguém perto de mim, eu olhei para trás, pouco antes do acidente acontecer.

— Eu estava perto de você _ respondeu.

— Não estava _ ri, sem humor, da sua mentira.

— Eu salvei a sua vida. Vai recompensar me chamando de mentiroso? _ cobrou com decepção no seu tom.

— Vou. Porque você está mentindo.

— Você é impossível, Sofia! _ esbravejou e saiu zangado.

Me surpreendeu que ele agisse assim. Era sempre tão simpático que me dava nos nervos. Só agora, neste momento, o Alef parecia uma pessoa normal, com sangue nas veias.

Mas ele não estava perto e mim no momento do quase acidente. Não mesmo.

Sozinha em casa, após chegar da escola, liguei o som no máximo ouvindo Slipknot e fui arrumar o quarto.

Conectei o meu Mp3 player no som. Só as melhores músicas das bandas de Rock que eu gostava, seria uma viagem por Linkin Park, Evanescente, Skillet, Panteras, System of a Down, Drowning Pool, Van Halen, Kiss, Bryan Adams, Pearl Jam, Ramones, Rainbow, Iron Maiden, Led Zepellin, U2, The Who, Lynyrd Skynyrd, Alice Cooper, ZZ Top, Black Sabbath, Steppenwolf, Bon Jovi, Ref Hot Chlli Peppers, Guns um roses, Queen, Metalica... E por aí foi.

Sem o Shane em casa eu podia tudo.