Não existe realidade mais clique aqui real do que
2 Capítulo 02 - Confissões.
Notas iniciais
Não me lembro direito como tudo aconteceu. Eu estava saindo de uma lanchonete com um cachorro-quente devorando-o sem nenhuma fome. Estava chovendo e a pista estava molhada, quando na curva da estrada surge um carro descontrolado, que derrapa e capota duas vezes. Meu extinto protetor faz com que eu saia feito um raio em direção ao carro, deixando para trás cachorro-quente e nem se importando com a chuva. Dentro do veículo encontro uma mulher e ao seu lado um homem, ambos gravemente feridos. Solto o cinto da mulher e a puxo para fora, cuidando para que não se machuque ainda mais com os estilhaços do vidro, a deixo numa área segura, quando volto à direção do carro vejo a gasolina se espalhar pelo chão, indo em direção à faísca que saia da parte da frente do motor. Preciso agir rápido e AGORA! Quando me aproximo um pouco mais, vejo uma garotinha no banco de trás presa pelo cinto com os cabelos castanhos emaranhados em seu rosto. Algo em si faz com que corra em sua direção, preciso ser rápida. Desabotoo-o cinto, mas seu pé está preso pelas ferragens, com cuidado arrebento as soldas e a tiro o mais rápido que posso, coloco-a ao lado de sua mãe, me viro para ir de volta ao carro, mais chego tarde. No momento que eu me viro, o carro explode em chamas, matando ali o homem que havia. Não posso fazer mais nada, mas ainda preciso levar a menina e a mulher para um hospital o mais depressa possível. Não posso leva-las de carro, até mesmo porque não tenho um. Só há um modo… O vento é forte, mas minhas asas são mais. Voar é uma experiência maravilhosa à quais poucos têm privilégio de fazer. Normalmente quando voo, sinto-me livre, leve e é a maior sensação imaginada pelo homem. Mas no momento minhas asas estão tensas, pois não estou voando só. Estou com vidas em meus braços e preciso salva-las. Estaria cansada, se eu pudesse estar cansada. Mas no momento que relembrei de minhas origens, todas minhas limitações humanas foram aniquiladas. Voo cruzando estradas e toda a cidade, até avistar o hospital e pousar logo atrás dele. Entro pelos fundos do hospital, me certificando de que ninguém me viu pousar. Vejo a primeira mulher que passa a minha frente e peço sua ajuda, ela vê que as duas estão desacordadas, logo coloca elas em duas macas e as leva para a emergência. Agora sei que elas estão em segurança e ficaram bem. "Posso relaxar", penso sorrindo de leve, já indo em direção à porta para ir embora. Mas quando estou prestes a cruzar a porta, eu paro. Algo me atrai feito um imã. Não posso explicar, não posso parar, mas dentro de mim cresce algo estranho que diz que não posso abandonar aquela pequena garotinha, me sentado e permanecendo ali mesmo. Sei que é arriscado e não devo, mas não quero ficar longe dela, não posso, não consigo. Vê-la naquele estado fragilizada, fez algo despertar dentro de mim, uma vontade de cuidar e proteger ela. Foi aí que tomo uma decisão arriscada e egoísta de permanecer ao seu lado, haja o que houver, irei fazer do possível ao impossível, fazendo para que cada dia de sua vida possa vive-la da melhor maneira possível, para que chegue o mais perto do que é viver o paraíso. Alguns anos após o acidente… — Eu vou te pegar… – Eu cantarolava no jardim enquanto brincava de Pic com a Nick. — Não vai não. – Ela devolvia. Todas as tardes eram assim, logo após ela voltar da escola nós nos divertíamos brincando de Pic, esconde-esconde, ou até mesmo de arminhas d’ água. Logo após Nick se recuperar do acidente de carro, eu mudei para a casa ao seu lado, assim possibilitando eu vê-la todos os dias. Eu passo meu maior tempo com ela e ela comigo. Sua mãe Abigail gosta muito de mim e confia Nick a mim. Durante toda sua infância nenhuma criatura ousou atacar eu ou ela, com minha aura oculta nenhuma criatura, tanto do céu quanto do inferno poderia me achar, mantendo Nick segura. Sua infância foi tranquila. Seis anos depois, 27 de fevereiro de 2014 – Califórnia — Atualidade. Salto pela minha janela pousando suavemente no chão. Vou andando em direção ao jardim de Nick e subo em sua arvore facilmente, escalo seus galhos com agilidade e graça, fico em pé num dos galhos e vou andando em direção à janela de Nick. Paro um segundo para admirar a noite. Um lindo céu turbilhado por estrelas, a brisa está leve, calma como a noite. Perfeito para voar. Um sentimento de nostalgia toma conta de mim quando lembro o quanto tempo já não voo. Suspiro ao lembrar de como era bom e reconfortante deixar minhas asas expandirem atrás de mim, balanço a cabeça em negativo para esquecer essas coisas, elas já não fazem parte de mim. Continuo andando sobre o galho e chego à janela de Nick, abrindo-a por fora como se estivesse pelo lado de dentro. Salto para dentro a tempo de vê-la terminar uma cambalhota. — Sely! – Ela grita meu nome e sai correndo em minha direção, se jogando em cima de mim me derrubando no chão. — Olá, pequena – Digo afogando seus cabelos – Estava treinando? — Sim, sim. Amanhã tem aula! – Diz animadamente – Vou tentar entrar nas líderes de torcida, vou fazer o teste. — Tenho certeza que conseguirá, você é ótima. – Digo, sabendo que é verdade. – Você pode me mostrar algumas acrobacias? — Claro! – Diz empolgada. O jeito como ela se arruma e vai para a posição faz com que eu ria. Ela vira uma estrela e uma ponte de costas, e termina com uma abertura. — Lindo Nick! Faz mais… – Peço a ela. Para uma garotinha de 11 anos até que ela manda bem. O jeito como ela se dedicava a cada movimento, deixa bem claro o quanto ela se importa e gosta de ginastica e dança. — Bravo! Bravo! – Digo abraçando ela. — Espera, tem essa aqui. — Diz ela começando a se virar de costas para trás. Quando sua camiseta desse de leve, revelando um pouco de sua costa, mas o suficiente pra que eu veja um grande hematoma na base de sua coluna. — Nick… O que é isto? — Aponto para o roxo em suas costas. Ela se vira vê do que é que estou falando. — Ah… É bem… Que, não é nada. — Não. É sim. – Olho para ela. Ela está tensa e não quer ceder – Vem. — Pra onde? — Apenas confie em mim. Com os olhos brilhando ela vem ao meu lado. — Pegue a minha mão — Digo me aproximando da janela e colocando um pé para fora, pisando no galho. — O que? Eu não vou ir na arvore, ela é muito alta. Vamos cair! — Não vamos. Como você acha que eu subi aqui? – Olho desafiando-a – Além do mais, eu me equilíbrio muito bem, vou apenas ajuda-la. Ela sacode a cabeça com medo. — Vamos, confie em mim! Você confia em mim, né? – Pergunto olhando-a fixamente. — Sempre, Sely! – Diz sorrindo de leve. Estendo novamente minha mão, ela a pega e vem comigo. Já totalmente para fora, ajudo ela a se equilibrar, andando sobre o galho, chego a uma parte em forma de côncavo e me sento, Nick senta-se em meu colo. E com os braços a envolvo, deixando-a o mais confortável possível. — Então, agora me conta. O que, ou quem fez aquilo? — Olho sério para ela. Relutante ela olha para mim, suspira então diz: — É uma menina do colégio. — O que ela te faz? — Promete que não vai contar a minha mãe? — Prometo. — Bem, ela vem me atormentando desde o ano passado quando me mudei de escola. — O que ela te faz? – Pergunto séria. — ela me xinga e me humilha na frente de todos e às vezes... — Às vezes o que Nick? – Não quero que ela esconda nada de mim. — Às vezes na saída… Ela me bate. — E porque ela faz isso?! – Grito indignada. Por que alguém iria bater numa criança? — Porque ela manda eu ficar longe das lideres, e quando me viu pondo o meu nome, ficou louca. E ela não faz isso só comigo. Ela atormenta toda a 5º série. Ela e as valentonas dela se aproveitam de todo mundo, e… E elas roubaram a pulseirinha que você me deu de aniversário. — Mas você disse que tinha perdido… — Eu menti, não podia contar a verdade. Nem pra mamãe e nem pra você. Diz abaixando a cabeça, abraçando os joelhos. Como pode por todo esse tempo sofrer, sem ao menos machucar uma mosca. E pior: sofrer em silêncio. Abraço-a mais forte, escondendo as lágrimas. As minhas lágrimas! Não posso deixar ela sofrer mais. Não mais do que já sofreu. No meio da minha revolta, uma ótima ideia surge. — Vem Nick, você precisa descansar. Ainda mais depois do que você me contou, e você têm escola amanhã. Levanto-me e ajudo ela se levantar também. Pego sua mão e vou guiando ela pelo galho. Chegamos em sua janela, eu ajudo ela a entrar, logo depois pulo para dentro. A faço deitar em sua cama e a cubro. Sento-me na beirada. — Tô com medo Sely – Diz suplicante. Seu olhar me tortura, suas palavras me cortam. Mas isso não vai ficar assim. — Você não precisa ter mais medo. Não mais. Vou cuidar de você como sempre cuidei. – Digo tentando reconforta-la. — Mas e amanhã? — Amanhã será diferente. Ela nunca, jamais encostara um só dedo em você. Eu prometo. – Digo duramente, cerrando os dentes. — Queria que fosse verdade – Diz melancólica. “E será” Digo em pensamento. — Agora durma um pouco. Estou prestes a pular a janela quando ela diz: — Te amo Sely! – Diz através de um sorriso tímido. Eu volto e dou um beijo em sua testa. — Também te amo pequena – Digo me despedindo. Voltando para a janela e pulando para o lado de fora, vou correndo em direção a rua. A noite é longa, mais preciso resolver muitas coisas antes que o sol surja novamente no horizonte. Por sorte chego bem rápido lá. Paro em frente ao prédio amarelo e rosa. — Ninguém, nunca mais fará algum mal a você!
Fale com o autor