Não era uma Lenda.
2 Um papo produtivo com sorvetes.
Notas iniciais
Após o ataque contra a menina da sétima série, James a convidou para tomar sorvete conosco na praça, para tentar acalma-la. O nome dela é Giulia, ela também tem cabelo ruivo e seus olhos são castanho-fosco. É um pouco acima do peso. James colocou curativo em seus braços arranhados na enfermaria do colégio logo depois do ocorrido. Agora são quatro da tarde e o sol não está tão quente.
No momento estamos andando beeeeem devagar pela praça principal.
— Onde você mora, Giulia? – Sebastian pergunta com um sorvete de morango na mão.
— No sul da ilha. – a boca dela está toda suja de sorvete de chocolate.
O sul da ilha é um dos lugares mais violentos, eu fico me perguntando o quanto esta garota já deve ter passado.
— O que você quer ser quando crescer? – pergunto.
— Eu quero ser policial! – quando ela diz “policial” os seus olhos ficam radiantes.
— Sério? Tem algum motivo especial? – James deve estar com dor no pescoço de tanto ficar olhando para baixo.
— Um dia um menino lá na praia não parava de me puxar pelo meu cabelo e eu batia nele toda vez que ele fazia isso, e ele dizia: “Nem doeu! Haha, você é menina, não sabe bater direito!”. Uma policial que caminhava por perto viu tudo e falou para ele: “Será que se eu bater em você vai doer?” e aí ele se cagou de medo e correu sem nem responder. E depois ela me disse, rindo: “Não se preocupe com esses covardões, querida. Eles não sabem o que uma menina é capaz de fazer.” Cara, depois daquilo eu sempre quis ser como ela, segura de si, botando medo em qualquer um que ameaçasse. – ela fala igual o Eminem, chega perdeu o fôlego.
— Uau. – Sebastian está sem reação, até parou de comer o seu sorvete.
— E vocês?
— Sinceramente, eu não sei. Só quero sair dessa ilha um dia. – digo.
O James está se preparando para falar.
— Quero ganhar uma bolsa em alguma universidade e fazer medicina. Ou filosofia. Ou artes. Ou...
— Qualquer coisa que não seja exatas, já entendemos. – Sebastian está rindo do James. – Já eu prefiro na área de exatas, me dou bem com os números. Eu também já quis ser policial.
— E por que desistiu? – ela perguntou com um tom de decepção.
— Sei lá. Mente de adolescente é estranha.
James está procurando o seu relógio de pulso feito de material renovável e arregala os olhos.
— Caramba, tenho que ir. Tenho treino daqui a cinco minutos. – ele fala isso tão calmo que parece que cinco minutos para ele é uma hora. – Vou indo. Tchau Giulia, foi bom te conhecer!
— Tchau! – ela faz o gesto de tchauzinho com a mão.
James sai correndo, deixando o seu sorvete de caramelo numa mesa da praça. E ele só se despediu da Giulia, traidor...
— Já está tendo treino? Estamos apenas no terceiro dia de aula.
— Estamos no terceiro dia de aula e o James já virou o capitão do time e a Giulia ganhou arranhões profundos nos braços por uma coisa sinistra. É, acho que três dias são mais do que suficientes para ele conseguir agendar os horários dos treinos. – Sebastian está encarando o seu sorvete de morango como se fosse precioso.
— Pessoal, eu preciso ir pra casa. Minha mãe acha que eu estou fazendo trabalho de artes na escola.
— Quer que a gente te leve? – Sebastian parece incomodado com algo.
— Não precisa, moro por aqui perto. Foi bom conhecer vocês. Tchau!
— Tchau Giulia! Se cuida. – estou me sentindo uma tia falando isso.
— Tchau, futura policial. – Sebastian faz um gesto de soldado.
— Ela quer ser policial, não da força armada, cabeção – dou uma cotovelada leve no braço do Sebastian.
— Eu não sei mais de nada.
Sebastian se senta num banco de cimento, com o seu sorvete quase acabado.
— O que acha que atacou ela? – ele está me encarando seriamente.
— Eu não sei. É difícil entrar águias numa escola. – sento do lado dele enquanto falo.
— Eu sei o que foi. Mas se eu falar para você, você não vai acreditar.
— Antes de você falar... – dou a última colherada no sorvete. – Pode falar, por mais bizarro que seja.
— Acho que era uma pessoa usando magia negra. – ele me encara mais sério do que antes.
— Oi?
— Sim, Harriet. Magia negra. Eu tenho certeza. Alguma pessoa que queria algo de alguém e se confundiu com a Giulia, porque se fosse ela o alvo, eu acho que não seria apenas uns cortes nos braços que iria deixar.
— Espera, quando você diz “se confundiu”, você quer dizer que...
— Isso mesmo o que você está pensando, o alvo era você.
Isso está ficando fora do comum. Magia negra? Em Limanoch? Alguém querendo me prejudicar? Muito improvável. Muito, muito improvável.
Se bem que o quê o Sebastian acabou de falar faz sentido... Ou eu estou ficando louca igual a ele.
— Mas eu não sou a única pessoa ruiva em Limanoch. Esse alguém pode estar procurando por outra pessoa.
— Olha, tem quatro pessoas ruivas em toda a escola. Você, Giulia, aquele cara esquisito que toca piano e aquela garota gorda. Se a “águia” queria você, poderia facilmente pensar que você era a Giulia, supondo que ela estava de costas. E eu acho que ela atacou Giulia pelas costas, porque se tivesse sido de frente Giulia teria gritado muito antes de a águia atacar ela.
— Por que alguém iria querer me atacar usando magia negra?
— Esse era o assunto que eu e James queríamos falar com você. E com seus pais.
O quê meus pais tem a ver com isso? Por que alguém iria me atacar com magia negra? E por que tudo está fazendo sentindo sendo que eu discordo com tudo isso? Não consigo entender o raciocínio de Sebastian, e de alguma forma ele fala isso tudo de forma tão convincente que faz sentindo mas ao mesmo tempo não faz. Credo, que complexo, tá parecendo aqueles filósofos.
Falando em filósofos...
Eu acho que o trabalho de filosofia é amanhã. Amanhã tem filosofia? Que droga, odeio ensino médio e suas grades de aulas aleatórias e difíceis de lembrar.
— Harriet, você confia em mim e no James? – Sebastian fala colocando a mão no meu ombro, tirando-me dos meus pensamentos.
Esse Sebastian é tão inteligente, mas faz cada pergunta idiota...
— Claro que confio, por quê?
— Porque vai ser necessário confiança nisso tudo.
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