Não era pra ser assim
4 Capítulo Quatro
Sua boca percorre a minha em movimentos firmes, ansiando por algo que não faço ideia do que seja. Desde pequena me deparei com imagens de homens e mulheres em momentos constrangedores, onde mais que lábios eram usados durante algo íntimo. Perguntava-me porque as pessoas se dedicavam a algo tão molhado como a boca de outro colada na sua... Agora, tudo parecia ganhar um sentido.
Ergo as mãos e coloco-as sobre o ombro de Matthew, não para afastá-lo, mas para me sentir um pouco estável diante da situação em que me encontro. Ele acaricia o meu rosto com uma mão enquanto a outra é colocada em minha nuca, puxando-me de encontro ao seu corpo. A mão que estava contra o meu rosto cai para as minhas costas, de repente sou erguida e me vejo sentada em seu colo. Apesar de não querer me afastar de seus lábios, a posição que sou posta me incomoda, por isso, descolo nossas bocas, distanciando-me o máximo possível de seu corpo.
Minha pele arde por mais contato físico, no entanto, sei que ultrapassamos todas as barreiras do decoro. Poderia não ter vivido em sociedade por toda a minha vida, até agora, porém, tinha conhecimento do que era certo e errado. Uma mulher direita não podia se entregar aos encantos de homem algum.
— Perdão — Matthew sussurra, volto os meus olhos para ele e percebo que não é apenas a minha pele que arde, o desejo em seus olhos é notável e se assemelham as chamas de uma lareira. A íris que costuma ser do mesmo tom do céu de verão, se tornaram escuras como a noite.
Não possuo forças para desviar o olhar do seu e um anseio quase descontrolado se apossa do meu corpo. Nossas respirações estão pesadas, devido a intensidade do momento em que vivemos. Fecho os olhos em busca de algum controle. Ergo os joelhos contra o peito e abraço-os.
— Sei que não deveria ter feito isso, mas, acredite, tenho tentado me controlar desde o instante que pus os olhos em você. — Abro os olhos e encaro-o. — Não faço ideia do que está acontecendo comigo, mas, não consigo tirá-la da cabeça.
Matthew se aproxima e fica de joelhos diante de mim, ergue a mão para me tocar, porém desiste.
— Não quero desrespeitá-la. Não farei nada que não seja do seu desejo — murmura. — Acho que é melhor que voltemos para casa.
Ele se levanta e estende a mão para me ajudar a levantar. Em seguida, recolhe os alimentos e a tolha. Quero dizer algo sobre o que aconteceu, no entanto, não faço ideia do que falar. Matthew não me forçou a nada em momento algum e correspondi a sua investida. Todas as vezes que nossas peles se tocavam havia algo que queria consumir cada centímetro do meu ser. Pude reconhecer o desejo percorrendo o meu sangue e brilhando em seu rosto. Todavia, queria saber mais sobre cada reação que ele despertava em mim. Então, o que me impedia de dizer a ele? Convenções sociais? Decoro? Ou havia algo mais?
Não queria tomar nenhuma decisão precipitada. Talvez, refletir sobre a situação me ajudaria a tomar uma atitude. Seja refrear suas investidas ou corresponder a elas.
●
Minhas aulas não aconteciam sem a presença de Matthew. Micaella ficou intrigada com o anseio do irmão de estar sempre presente, no entanto, como uma boa tutora, manteve seus olhos sobre mim e me ajudando em tudo que era necessário. Havia certos momentos que Micaella precisava se retirar para resolver algum problema na casa e me entregava aos cuidados de Matthew. Porém, ela não imaginava que ao invés de continuar com as aulas, acabavámos nos entregando aos nossos desejos.
Após o retorno de nosso passeio, ficamos um dia inteiro sem encarar um ao outro. Entretanto, Matthew invadiu meu quarto no dia seguinte e expôs sua indignação com a situação.
— Não podemos continuar assim. — Ele entrou de supetão no quarto, deixando-me sem reação. Havia aberto a porta esperando por algum criado, no entanto, aqui estava ele. Além disso, não fazia ideia se deveria ou não fechar a porta.
Quando percebeu que não tinha saído do lugar ainda, Matthew fechou a porta com delicadeza, prensou-me contra a parede, ergueu minha cabeça e sustentou meu olhar.
— Não posso continuar assim — murmurou.
— O Senhor não deveria estar aqui — sussurrei, ainda sem saber direito como agir.
— Não me importo com nada nesse momento além de você. — Puxei a respiração. — Sei que posso tê-la afastado ontem com minha declaração, mas não vou suportar o seu desprezo.
— Não é desprezo.
Uma dor tocou os seus olhos, fazendo-me engolir em seco.
— Só estou confusa. Não sei o que estou sentindo.
— Então deixe-me ajudar.
Rápido como um relâmpago os seus lábios estavam nos meus e me entreguei aquele beijo.
Depois, não houve mais relutâncias da minha parte. Sempre que nos encontravámos em algum lugar. Sozinhos. Nos beijavámos como se não houvesse amanhã.
Esse era um desses momentos. Micaella estava ocupada com os preparativos da chegada do irmão e sobrinho, por isso, deixou-me sob os cuidados de Matthew.
— Não acha que deveríamos ajudar sua irmã? — resmunguei enquanto Matthew distribuía beijos em meu pescoço.
— Só vamos atrapalhar. Estamos melhor aqui.
Ele se afasta de mim com um sorriso de canto. Se aproxima da porta e a tranca.
— Não sei se é uma boa ideia — afirmo.
— Pare de se preocupar.
Quando ele retorna, os seus lábios estão mais firmes e urgentes. Suas mãos deslizam pela minha cintura como se quisesse perfurar o tecido do vestido. Meu corpo formiga por mais de suas mãos, de sua boca em minha pele e lábios. Era como se algo consumisse toda racionalidade do meu ser e só existisse a voz que clamava por mais de Matthew.
O espartilho fica frouxo e um gemido escapa de minha garganta. Todavia, algum alerta pisca na minha cabeça, o raciocínio parece voltar por um mísero momento. Afasto Matthew de cima de mim e percebo que estávamos deitados no chão. Não preciso de um espelho para saber que estou completamente desalinhada. O que aconteceria se Micaella chegasse agora e se deparasse com essa cena? Ela e o pai haviam estendido a mão para mim, tornado minha vida confortável. Micaella se dedicava todos os dias a me ensinar sobre como se portar diante da sociedade e despertando o meu eu para a leitura. Quão decepcionada ela ficaria quando nos visse nesse estado?
Sabia que tudo aquilo era errado. Não tínhamos um compromisso e nem mesmo se tivéssemos deveríamos nos render a essa situação. Era errado e sabia.
— Precisamos parar — resmungo em um fiapo de voz.
Matthew me observa sem ao menos dizer uma palavra. Os seus olhos estão mais escuros que o normal, um sentimento perpassa, no entanto, não consigo descrevê-lo e muito menos entendê-lo.
Ele abaixa a cabeça e um suspiro escapa por seus lábios.
— Perdoe-me. Estou descontrolado. Eu... — Sua voz some de repente, Matthew franze o cenho e suspira novamente. — Eu não estou sabendo lidar com o que sinto por você. Desculpe-me.
Estendo a mão e toco seu rosto.
— Temos que manter o decoro. Também não estou conseguindo lidar com todo esse sentimento e nem entendo como ele é. Mas, não quero ultrapassar os limites. Não creio que conseguiria encarar sua irmã nos olhos se fizessemos isso.
— Está tudo bem.
Ele me puxa para os seus braços e ficamos agarrados um ao outro por um longo tempo. Quando nos afastamos Matthew ajuda-me com o espartilho e meu penteado. Assim que acreditamos estar compostos, seguimos por caminhos diferentes.
●
A carruagem que traz os últimos integrantes da família Watson segue apressada para perto das escadas da casa. Micaella preparou uma grande recepção para o irmão e sobrinho. Há um banquete sendo preparado na cozinha, cada canto da propriedade foi limpo e arrumado, e agora, estamos todos de prontidão abaixo da escadaria da mansão. Um criado nos avisou que a carruagem se aproximava e fomos ordenados por Micaella para nos colocarmos diante da casa. Não entendia a necessidade de tudo isso, porém, acreditava que acolhimento era a palavra ideal para o que o restante dos Watson iriam sentir com sua chegada.
Micaella está trêmula ao meu lado, no entanto, há um sorriso gigantesco tomando conta de seu rosto. Nos últimos dias ela havia se tornado pura ansiedade, não conseguia pensar em nada e muito menos descansar por míseros minutos. Ela apenas desejava esse dia com todas as suas forças.
A carruagem para à nossa frente, Micaella se move mais para perto, enquanto um criado abre a porta. Um garoto de cabelos loiro escuro salta do veículo e pula nos braços de Micaella. Não parece ter mais que 10 anos, apesar de estar longe, noto os olhos azuis da cor do céu de verão, assim como os do tio, há um brilho de alegria, amor e muitos outros sentimentos em seu olhar.
— Ah, querido, senti tanto sua falta.
— Papai prometeu que não iríamos embora tão cedo — ele murmura alegremente.
— Ele costuma cumprir suas promessas.
Assim que Micaella solta o sobrinho e desliza o indicador pelo nariz do menino, um homem alto, de cabelos avermelhados e grande porte sai da carruagem. Sua figura imponente me faz engolir em seco, e meu corpo treme ao notar as feições duras. Há uma frieza desenhando cada uma das curvas de seu rosto. Apesar do filho demonstrar inúmeros sentimentos em apenas um olhar, os seus olhos azuis esverdeados são inexpressivos.
— Meu irmão — Micaella murmura carinhosamente. Por um segundo vejo uma centelha de sentimentos percorrer o olhar do ruivo, porém, assim que seus olhos se fecham ao abraçar a irmã, quando tornam a abrir não há mais nada que ajude a decifrar esse homem.
— Senti sua falta, Ella — ele afirma.
Micaella se afasta dos braços do irmão e acaricia o seu rosto como se não pudesse acreditar que ele estava mesmo ali. Em seguida, seca uma lágrima que desliza pelo canto dos olhos e volta a abraçar o irmão.
É nesse momento que ele ergue os olhos que se fixam nos meus. Suas feições se encaminham para uma enxurrada de sentimentos que não posso compreender e muito menos acompanhar, sua boca forma uma linha firme. Contudo, ele não consegue desviar os olhos de mim. Como se tentasse decifrar o que eu era. Como se tentasse ler a minha alma e pudesse fazer isso.
— Michael, quanto tempo — Matthew se aproxima e puxa o irmão para um abraço, nesse momento que os olhos dele se desviam de mim. No entanto, suas sobrancelhas se unem e pela primeira vez leio o sentimento em seus olhos. Confusão.
O pequeno Barret se aproxima de mim com a tia logo atrás.
— Barret, essa é a Srta. Elizabeth Taylor. Ela mora conosco há algumas semanas.
— Prazer conhecê-lo, Senhor.
O menino vira-se para Micaella, confuso.
— Por que ela me chamou de "Senhor"?
— É o modo correto de chamá-lo, querido — Micaella afirma. Barret torna a olhar para mim e inclina a cabeça para o lado.
— Se a Senhorita irá fazer parte da família, pode me chamar de Barret.
— É um prazer, Barret. — Sorrio para ele e Barret retribui. De repente, seus braços circundam a minha cintura e quase dou um pulo com gesto de afeição.
Micaella volta-se para o irmão mais velho e sorri ternamente.
— Michael, essa é a Srta. Elizabeth Taylor. Elizabeth, este é meu irmão, Michael Watson — ela nos apresenta.
Ele se aproxima e estendo a mão como fui ensinada tantas vezes. Michael ergue minha mão e planta um beijo suave. Destoando de toda a frieza que navega por seus olhos. Após o momento de confusão há uns minutos, um muro se formou em cada parte de seu rosto, tornando ainda mais duro do que quando o avistei pela primeira vez.
— É um prazer, Senhorita Elizabeth — pronuncia cada palavra vagarosamente, e por algum motivo prendo a respiração.
— Filho — Sr. Watson chama sua atenção, ele solta minha mão com delicadeza e segue para cumprimentar o pai. Barret imita o pai, recebendo as boas vindas do avô. Seguimos para dentro da casa e o único pensamento que tenho é quão estranho e misterioso esse homem é.
Sr. Watson inicia uma conversa sussurrada com o filho. Minhas orelhas esquentam quando noto o olhar rápido deles sobre mim e imediatamente compreendo que sou pauta da conversa. Michael acena para o pai e a conversa se encerra.
Todos caminham para a sala de jantar, onde está sendo posto inúmeros pratos sobre a mesa. Sinto-me envergonhada por não saber onde ficarei nesse momento. Porém, Matthew logo vem em meu socorro e puxa a segunda cadeira próxima a cabeceira. Sento-me com Matthew ao meu lado. A minha frente está o irmão mais velho, entre Micaella, que está próxima a cabeceira, e Barret.
A comida é servida, enquanto Sr. Watson atualiza o filho sobre os últimos acontecimentos na propriedade da família. Micaella conta sobre as últimas fofocas da sociedade inglesa, arrancando algumas risadas do pequeno Barret. O ruivo se rende aos assuntos dispostos, especialmente quando é a irmã. Apesar da frieza que permeia por seus poros, é notável como tem Micaella em auto grau de afeto. Não é atoa que ela se enchia de feliciade ao falar do irmão mais velho.
Após a análise detalhada de Michael Watson uma hora atrás, ele não me dirigiu mais nenhum olhar. O que me levava a entender seus olhos fixos em mim na sua chegada, era a falta de compreensão para o que uma estranha fazia na porta de sua casa com seus familiares. Sr. Watson sem dúvidas havia feito uma breve explicação e tudo tinha voltado aos eixos. Eu só teria de aprender a socializar com mais duas pessoas. Depois disso, Micaella me apresentaria para a sociedade.
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