Não deixe a neve entrar
1 Um dia
Notas iniciais
Jackson observou os primeiros flocos branquinhos e gordos caindo preguiçosamente do outro lado da janela de seu quarto. Era o início da primeira nevasca do ano. O rapaz sorriu e agasalhou-se rapidamente, deixando o cômodo logo em seguida. Quando nevascas aconteciam, ele adorava ficar do lado de fora, observando os flocos cobrirem lentamente toda a cidade com um manto branco.
A neve era a segunda coisa que Jack mais amava no mundo. Qual era a primeira? A combinação de grandes olhos verdes, longos fios louros e pele que parece permanecer bronzeada mesmo quando o Sol está encoberto pelas nuvens cinzentas do inverno. Por muitos, ela é conhecida apenas por Rapunzel Corona, mas para Jackson, ela era a garota teimosa que, há cerca de dois anos atrás, o fizera perceber que estava apaixonado.
E essa garota estava não muito longe dali, deitada em sua cama e pensando nos vários nadas que faria naquele frio dia de neve. Seus pais haviam decidido se mudar para a Califórnia, com o pretexto de ficarem mais próximos da única filha que tinham, e Rapunzel acabou indo morar com eles num sobrado simples que ficava num bairro próximo ao do antigo apartamento.
O plano da moça era voltar a dormir e acordar apenas quando já fosse tarde demais para tomar uma boa caneca de chocolate quente como café da manhã, ou descer de trenó pelos morros cobertos de neve macia, ou patinar no lago congelado, ou ler algum de seus incontáveis livros próxima ao calor da lareira.
Mas Rapunzel percebeu que nada seria como o planejando quando virou-se pela décima vez na cama, sem conseguir pegar novamente no sono. Pouco tempo depois, ouviu um ding! vindo de seu celular, indicando que havia uma mensagem não lida.
❄
[18/12 10:03] Cara de neve:
Numa escala de 0 a 10, qual a probabilidade de você vir explorar o mundo comigo?
[18/12 10:03] Punzie:
Numa escala de 0 a 10, qual a probabilidade de você jogar uma bola de neve na minha cara?
[18/12 10:03] Cara de neve:
Muito provável, Punz. Mas vai valer a pena!
[18/12 10:05] Cara de neve:
E, se serve de argumento, eu devo te avisar que já estou logo abaixo da sacada do seu quarto e vou escalar. Ou seja, se você não vier por vontade própria, eu te sequestrarei ;)
[18/12 10:06] Punzie:
Sendo assim, acho que devo chamar a polícia :D
[18/12 10:06] Cara de neve:
Ouuuuuu você pode se juntar a mim :D
[18/12 10:07] Cara de neve:
Não me obrigue a escalar sua sacada
enquanto canto “Um mundo ideal”
[18/12 10:07] Cara de neve:
PORQUE EU O FAREI
[18/12 10:08] Punzie:
QUE
[18/12 10:08] Punzie:
Você não faria isso, Jack
[18/12 10:08] Punzie:
Não, você ainda tem um pingo de amor próprio
[18/12 10:08] Punzie:
Sabe que, se fizer isso, sua dignidade vai ser
enterrada na neve, não é?
[18/12 10:09] Punzie:
...Jack?
❄
A garota desviou os olhos para a parede oposta, onde se localizavam as portas de madeira que davam para a sacada – estas sendo cobertas pela cortina de cor creme. Ela ouvia a voz de Jackson, cantando um dos clássicos da Disney levemente fora do tom.
O rapaz escalava a grande árvore desfolhada sem muita dificuldade, esforçando-se mais para lembrar a letra da música.
— Olha, eu vou lhe mostrar como é belo este mundo... – Jack começou.
A cada galho que avançava, ele cantava outro verso da música, até que finalmente estava na altura da sacada e próximo o suficiente para pular. Suas mãos limparam um pouco da neve fria que repousava sobre a grade preta de metal, apoiando-se na mesma. A barra gelada fazia suas mãos doerem, mas não demorou muito para que ele tomasse impulso e pulasse, seus pés tocando o chão da sacada.
Continuou a música, agora já no refrão, vendo Rapunzel abrir as portas:
— Um mundo ideal
É um privilégio ver daqui
Ninguém pra nos dizer o que fazer
Até parece um sonho...
A loira ria da cena, corada. Ele parou por um momento e admirou a beleza da menor – o pijama composto por uma calça folgada e listrada de branco e preto e um moletom do Batman que roubara de Jackson. Nos pés estavam pantufas de unicórnio e, nos ombros, um grande edredom felpudo roxo, que escondia parte dos longos cabelos louros da garota. Rapunzel parecia realmente pequena no meio de toda aquela roupa.
— Sua vez de continuar – ele começou –, agora é a parte da Jasmine.
Rapunzel balançou a cabeça negativamente e agarrou a mão gelada do maior:
— Vem, tá muito frio aqui fora!
Jackson foi puxado para dentro do quarto da garota, e logo em seguida as portas foram fechadas. Aquela não era a primeira vez que ele via o cômodo, mas era sempre uma experiência empolgante. Entrar no quarto de Rapunzel era como entrar em seu mundo.
Ele analisou as já conhecidas paredes – três brancas e uma lilás –, os móveis todos repletos de objetos considerados extremamente necessários pela loira, como livros, pelúcias, CDs, produtos de beleza, ou apenas enfeites. Dessa vez, pisca-piscas dourados haviam sido adicionados ao mural de fotos da garota, além de um pequeno Papai Noel que repousava sentado sobre o criado mudo, segurando seu grande saco vermelho e lançando um sorriso doce.
Rapunzel era tão organizada, mas parecia ter um carinho especial com a organização de seus livros. Havia uma estante branca de três prateleiras pregada na parede colorida. Na primeira prateleira, estavam os livros favoritos da garota. Na segunda, sagas e trilogias que se apertavam para caber naquele pequeno espaço. E, por fim, a terceira prateleira, os livros que ela não gostava tanto, mas não queria se desfazer deles.
Havia uma prateleira como essa no antigo apartamento de Rapunzel, e Jack lembrava-se de vê-la sempre mais preenchida a cada vez que voltava lá. Mas ele não gostava de se lembrar dessa época.
Depois da viagem de trem, os dois decidiram engatar um relacionamento. No começo, "tudo são flores", como as pessoas dizem. O dia todo se passava entre carinhos de um lado, mimos de outro, beijinhos aqui, abraços acolá, como num conto de fadas. Mas a vida é diferente e o "felizes para sempre" não é como os filmes da Disney contam. Logo as primeiras brigas começaram a acontecer e se tornavam cada vez mais frequentes, quase como se fosse os antigos Jackson e Rapunzel vizinhos que se alfinetavam o tempo todo. O albino não queria aceitar que aquilo estava dando errado. Eles gostavam um do outro, certo? Então, por que as brigas frequentes só os davam cada vez mais certeza de que não eram um bom par?
Jack ainda se lembrava daquele dia como se fosse ontem, e isso doía. Ele lembrava-se perfeitamente de quando Rapunzel pediu um tempo. Lembrava-se de ter sido contra, pedido pra ela pensar melhor. Lembrava-se de cada palavra usada quando ela disse que era melhor serem apenas amigos. Ele com certeza não queria ser apenas um amigo da loira, porém, não contestou. Preferia isso a ter de se afastar dela.
— Você é doido de querer sair no meio de toda essa neve! – Rapunzel riu enquanto se sentava na cama bagunçada.
— Eu gosto da neve, você sabe disso.
A menina bateu com a palma da mão no colchão, incentivando Jackson a sentar-se ao seu lado e ele o fez. Repentinamente, a grande porta se abriu com a força do vento, fazendo com que alguns flocos de neve invadisse o cômodo. Rapunzel correu para fechá-la, com a ajuda de Jack.
— E você ainda queria que eu saísse lá fora. – a menor ironizou.
— Acho que não vamos conseguir sair daqui tão cedo…
Rapunzel encarou a imensidão de seus olhos azuis por alguns segundos. Tinha de admitir, Jackson Overland Frost era a personificação da palavra beleza. Ela deu um sorriso mínimo com o pensamento, e logo uma ideia lhe veio à cabeça.
— Quer chocolate quente?
Jack assentiu com a cabeça, ao passo que a loira levantou-se e o guiou até a cozinha. Essa estava ainda mais enfeitada que o quarto da garota. Uma toalha vermelha e verde com estampas de bonecos de neve e árvores de natal se estendia sobre a mesa de seis lugares. Os armários brancos haviam sido enfeitados com flocos de neve feitos de cartolina vermelha, além de ramos de pinheiros decorados com fita de cetim também vermelha. Sobre o balcão havia um pinheirinho e, na grande janela sobre a pia, uma guirlanda mediana. Frost perguntava-se como estaria o restante da casa e, principalmente, de onde Rapunzel e sua família tiravam disposição e dinheiro para deixar a casa tão decorada. Era provável que até mesmo o banheiro possuísse uma decoração de Natal.
Rapunzel estava na ponta dos pés, mas ainda assim não conseguia alcançar a caixa de chocolate em pó na última prateleira do armário. Ela mordia o lábio inferior e esticava-se o máximo possível, se negando a subir numa cadeira ou algo do tipo por pura questão de honra e dignidade.
Para Frost, aquela cena era cômica e muito, muito fofa. Sua vontade era guardá-la num potinho cor-de-rosa decorado com glitter – o que não seria tão difícil mesmo, devido ao seu tamanho.
Rindo, ele se aproximou da menor e pegou a caixa, entregando em suas mãos.
— Eu conseguiria pegar. – a pequena ralhou.
— Não conseguiria não.
— Conseguiria sim.
— Nem pensar.
— Estava quase alcançando!
Jackson estava se divertindo com aquela situação. A menina ficava mais fofa ainda de braços cruzados e fazendo bico. Ele encostou-se no balcão enquanto Rapunzel pegava o restante dos utensílios necessários.
Com a caixa em mãos, a loira leu instruções de como fazer a bebida.
— Não sabe fazer chocolate quente? – perguntou com um sorriso travesso nos lábios.
— Eu sei, mas quero fazer direito.¹ – ela respondeu sem tirar os olhos da receita.
Após ler o passo a passo com atenção, a menina voltou-se para o armário e apanhou uma lata de leite condensado e uma caixa de creme de leite.
— Pode pegar o leite na geladeira, por favor? – ela pediu e o garoto o fez.
— Já reparou quanto leite vai nisso? Leite líquido, condensado, em creme…
A garota riu e concordou enquanto colocava todos os ingredientes em uma panela. Então, ela parou por um segundo.
— Uh... Jack? – chamou e o mesmo a encarou. – Pode acender o fogo pra mim?
Instantaneamente, um sorriso ladino surgiu na face do platinado. Ele estava claramente achando aquilo a coisa mais engraçada e patética do mundo.
— Você não sabe fazer isso sozinha? – debochou vendo a garota bufar e entregar-lhe um isqueiro branco. – O que seria de você sem mim, não é mesmo?
Ela revirou os olhos enquanto Jackson acendia uma das seis bocas do fogão e, em seguida, dava espaço para que ela passasse com a panela. Ele parou para observar o isqueiro em suas mãos, vendo que nele ainda tinham as iniciais J e R marcadas com caneta retroprojetora². Aquilo logo lhe trouxe uma lembrança guardada em seu cérebro, algo de quando ele ainda fumava. A vida de Jackson não era fácil e fumar ajudava a diminuir o estresse, pelo menos por alguns minutos. Por isso, ele sempre andava com um maço de cigarros e um isqueiro branco no bolso. Quando Rapunzel descobriu, pegou o isqueiro para si, escreveu suas iniciais e entregou-lhe um pirulito dizendo que, a partir daquele dia, os cigarros seriam substituídos por doces e memórias boas. De fato, a substituição funcionou. Vez ou outra ele ainda sentia vontade de fumar, mas nada que não pudesse superar com um pirulito.
Rapunzel pegou duas canecas no armário. Uma delas tinha o desenho de um beagle, enquanto a outra era branca e enfeitada com bolinhas verde-mar. Despejou chocolate quente quase até a boca em ambas, depois colocou três marshmallows em cada. Entregou a caneca de bolinhas para Jack e os dois sentaram-se na mesa, sobre a qual a loira havia colocado um pote cheio de cookies.
O albino bebericou o chocolate quente em sua caneca, sentindo o líquido queimar sua língua. Sua careta de dor fez Rapunzel sorrir enquanto assoprava a própria bebida, a fim de que esfriasse o suficiente para conseguir tomá-la.
— Onde estão seus pais? – ele perguntou.
— Compras de Natal. – respondeu. – Já ouviu falar da Cidade do Papai Noel Flobie³?
— Aqueles colecionáveis?
— Exato. Meus pais são meio obcecados por essa coisa. Chega a ser engraçado até, eles dizem que eu preciso crescer e largar minhas pelúcias, mas não abrem mão de sua coleção de casinhas. – os dois riram. – Enfim, nessa época do ano sempre acontecem queimas de estoque ou vendas de peças da edição limitada, eles não perdem uma.
— Eu ouvi dizer que até fazem fila pra isso.
— Sim, é verdade! Por isso meus pais sempre vão para a porta da loja muito antes do horário de abrir e saem de lá bem tarde.
— Então a casa é só nossa pelo resto do dia? – ele arqueou as sobrancelhas dando um sorriso maroto que fez Rapunzel corar e encolher-se, rindo de nervoso.
— Para com isso, peste!
Jackson gargalhou com a reação da menina, ela era mesmo um doce. Sem poder evitar, ele pegou-se admirando a garota à sua frente pela milésima vez em meia hora. Rapunzel era simplesmente a garota de seus sonhos: meiga, inteligente, sensível e incrivelmente bonita. Ele sentia uma necessidade enorme de protegê-la, de estar sempre abraçando e beijando aquele anjinho à sua frente.
Só quando Punzie fez uma careta estranha, como se dissesse “que diabos…?”, é que Jack percebeu que talvez a tivesse encarado por tempo demais. Quase imediatamente, desviou seus olhos para sua cabeça, vendo os pequenos marshmallows flutuarem dentro de todo aquele chocolate.
❄
Os dois estavam sentados próximos à lareira da sala de estar, jogando Uno há quase uma hora. Se havia um cômodo naquela casa que estava completamente decorado, com certeza era aquele. Cada centímetro daquela sala, desde o teto até o piso de tacos de madeira, estava enfeitado com algo que remetesse ao Natal. Os sofás estavam repletos de almofadas vermelhas e brancas de estampas natalinas, assim como as da cortina que emoldurava a janela. Em uma das paredes, três renas de cartolina carregavam um trenó e, na oposta, uma guirlanda em formato de coração se pendurava sobre a cabeça de um enorme Papai Noel eletrônico que tocava Jingle Bell Rock e vez ou outra dizia um “Ho Ho Ho! Feliz Natal!”. Sobre a lareira havia um ramo de folhas e flores vermelhas, além de três grandes meias; próxima a ela estava um enorme pinheiro, decorado com bolas douradas, pratas e vermelhas, além de pisca-piscas coloridos e, no topo, uma grande estrela dourada. Por fim, no chão havia um tapete verde felpudo, sobre o qual estavam sentados.
— Uno! – Rapunzel gritou, quebrando o silêncio.
— Não dessa vez, Punz. – Jackson abriu um grande sorriso maligno, lançando o tão temido +4 sobre o monte de cartas, fazendo a face da loira se contorcer em uma careta. – Uno.
A menor bufou enquanto tirava quatro cartas do baralho. — Que cor você quer?
— Azul.
Então ela sorriu e jogou um bloqueio, seguido de um reverter azul e outro amarelo. Por fim, pousou delicadamente a carta amarela de número 1 sobre o monte.
— Uno. – repetiu.
Jackson rosnou enquanto comprava uma carta do baralho e jogou um 6, também amarelo.
— Uno. – falou sem ânimo, já sabendo que perderia para a amiga mais uma vez.
Ela lançou sua última carta e ergueu os braços, sustentando um sorriso vitorioso na face.
— Venci de novo.
— Tudo bem, acho que já deu de Uno por hoje. – Jack suspirou e apanhou seu celular, checando as horas. Já eram quase três da tarde e a tempestade de neve ainda não havia cessado. Ele se jogou sobre o tapete, com os braços sob a cabeça, encarando o teto.
Rapunzel recolhia as cartas cuidadosamente, unindo os dois montes e embaralhando-os. Se aquelas cartas ficassem tão embaralhadas quanto seus pensamentos, com certeza seria bem difícil vencer, da próxima vez que fosse jogar Uno. A verdade era que o simples ato de pensar no nome de Jackson Frost já mexia consigo e deixava sua mente confusa, e estar na presença dele, então… Era como se a moça simplesmente ficasse perdida. Mas era compreensível, qualquer um se perderia ao mergulhar naquela imensidão azul dos olhos do platinado – só precisava ter cuidado para não se afogar.
De repente, uma memória invadiu seus pensamentos, fazendo-a sorrir.
— Jack? – chamou e viu os olhos do maior se desviarem do teto para si. – Se lembra daquela viagem de trem no ano passado? Quando ele bateu em um banco de neve e nós fomos à Duke and Duchess?
— Sim… – o albino assentiu, sem entender onde a garota queria chegar.
— Se lembra daquela Elsa?
Então Jackson riu, lembrando-se de quão fácil fora conseguir o número da moça, e de como mais tarde simplesmente percebeu que este não seria útil.
— Ah! Eu me lembro, sim. – sorriu. – E me lembro principalmente de você imitando-a.
— O quê? – ela gargalhou.
— “Jaaack” – ele reproduziu a imitação. – Parecia mais a Jean Grey chamando pelo Scott.
A loira jogou-se no chão, sem conseguir parar de rir.
— A minha imitação foi muito boa, ok? E a culpa não é minha se ela realmente falava como a Jean Grey chamando pelo Scott.
— Você fica muito fofa quando está com ciúmes. – ele sorriu, voltando a se sentar.
— Eu não estava com ciúmes. – Punz respondeu, estendendo-lhe a mão para que Jack a ajudasse a se levantar.
— Claro, e eu sou o Aquaman disfarçado. – ele riu. Então, numa fração de segundo, seu sorriso foi se tornando menor até desaparecer. – Quando… quando foi que tudo começou a dar errado? – questionou.
Mesmo que Frost não tivesse especificado, a garota sabia sobre o que ele falava, e pensar sobre isso fazia seu coração se apertar.
— Desde o início, Jack. – ela suspirou. – Nós nunca nos aturamos, você sabe. Era mais do que óbvio que não daria certo.
— Mas… mas foi bom, por uns meses… – o maior afirmou, relembrando o início do namoro. – E desde que te conheci eu só te irritava pra chamar a sua atenção.
— O… quê? Como assim?
— Ah, você sabe. Quer dizer, você é linda e…
— E você não pode perder a chance de conquistar uma garota. – ela sorriu sem ânimo, vendo-o assentir.
— E, de alguma forma, eu sabia que você não me daria bola. Quer dizer, você é tão culta, inteligente e especial, e eu... sou só eu.
— Só você? Jack, você é incrível. Naquela viagem, mesmo eu te evitando e discutindo contigo, você me ajudou tanto! E agora, depois de terminarmos, você continua sendo um grande amigo.
Jackson bufou, passando a mão pelos fios platinados. — É esse o ponto, eu sou só um amigo. Mas, Rapunzel, você não vê? Não vê o quanto eu te amo e preciso de ti? – ele observou os grandes olhos verdes de Rapunzel ficarem marejados e sentiu o choro entalando em sua garganta. – Punz, desde que começamos a namorar, você só me fez bem. Eu me tornei uma pessoa melhor, minha vida ficou melhor e… eu tenho medo de que, sem você, tudo comece a desabar novamente.
— Jack, você não entende? – a voz embargada e as lágrimas da garota atingiram o peito do garoto como um tiro à queima roupa. – Eu não quero estar em um relacionamento onde sempre há brigas, não quero estar sempre gritando com você por algum motivo bobo. Isso dói tanto…
Jackson aproximou-se dela e segurou seu rosto com as duas mãos, secando as lágrimas que não paravam de rolar.
— Punz, nenhum namoro é perfeito. – começou. – Brigar, ficar magoado e até sentir um pouco de ódio um do outro faz parte e, de certa forma, é saudável pro relacionamento.
— Mas não quando isso acontece o tempo todo! – choramingou.
— Eu sei, mas nós somos mais maduros agora e nos conhecemos melhor.
A garota apenas suspirou e aproximou-se um pouco mais, enlaçando os braços em sua cintura e descansando a cabeça em seu peito. Sem demora, ele a envolveu em um abraço e beijou o topo de sua cabeça, desejando que pudessem permanecer assim pra sempre.
— Você foi a melhor coisa que me aconteceu desde que perdi meu pai. – ele sussurrou, sentindo a menor se remexer para secar as próprias lágrimas.
— Eu sinto falta da gente. – a loira admitiu. – Desses abraços quentinhos, de conversar contigo e de te beijar.
Jack acariciou a enorme cascata dourada de seus cabelos, apertando-a contra si.
— Não acha que merecemos mais uma chance? – perguntou.
Ela afastou-se devagar e o medo de que ela não voltasse criou um vazio em seu peito e fez seu estômago esfriar. Rapunzel tocou o rosto pálido alheio, acariciando com o polegar, e passou alguns segundos apenas encarando-o.
— Eu te amo, Jack. – ela finalmente afirmou, e o sorriso do albino a fez sorrir também. – Mas eu quero que me prometa que dessa vez vai ser diferente.
— Juro de dedinho. – ele levantou o mindinho, que foi enlaçado pelo da garota à sua frente.
Então ele a beijou e os dois souberam que tudo ficaria bem, enquanto estivessem na companhia um do outro. Olhando pela enorme janela próxima ao pinheiro de Natal, Rapunzel percebeu que finalmente havia parado de nevar e que o movimento voltara, as ruas repletas de crianças e adultos se divertindo em meio a toda aquela neve.
— Jack, parou de nevar! – ela sorriu. – Podemos ir lá fora agora, como você queria.
Entretanto, o garoto apenas puxou-a para mais perto, extinguindo qualquer distância que em algum momento houvera entre os dois naquele abraço, sentindo o calor que com certeza não era proveniente da lareira, mas do corpo da amada.
— Não me importo de ficar aqui contigo por mais um tempinho...
❄ bônus
Não muito longe dali, em uma loja de conveniências, uma garota lia um livro qualquer, sentada em sua cadeira atrás do balcão. O movimento na Duke and Duchess estava praticamente deserto por conta da nevasca, mas seu chefe não permitiu que ela voltasse para casa e fosse se aquecer em frente a lareira.
Elsa suspirou entediada e, quase imediatamente, o sino tocou, indicando que alguém tinha entrado na loja. Ela desviou o olhar do livro para o conhecido rapaz alto, moreno, de cavanhaque e sorriso cafajeste a sua frente. Ele usava um enorme corta-vento, calças de moletom e botas, além de uma touca de lã azul para se proteger do frio. Seria fofo se não fosse cômico.
— Boa noite, Duke. – ela disse se levantando. – O que o traz aqui em meio a uma nevasca?
— Digamos que eu vim buscar meu presente de Natal. – Flynn deu um sorriso ladino, passando por trás do balcão e puxando a namorada para um beijo.
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