Não chore, Carpenter
1 Capítulo único
Lysandre sempre havia enxergado Emma como uma garota pequena.
Fisicamente, ela era assim mesmo. A primeira vez que a vira, no trem de ida para Hogwarts, ela tinha os cabelos loiros presos com dois laços cor-de-rosa, e parecia ter oito anos, não os onze exigidos para entrar na escola. A voz aguda e animada lhe lembrara de Ava, sua irmã mais nova, e isso lhe deixara triste.
Sua tristeza, como sempre, se manifestara com a raiva, e Lys admitia, agora, que fora um pouco rude demais com a menina. Isso, no entanto, não a afastou. A incentivara, na verdade, e ele se viu com uma pequena menina loira lhe seguindo pelo resto daquele dia e, como ele viria a descobrir, por todos os outros lugares também.
Ele acabou selecionado para a austera Corvinal, o chapéu resmungando que ele estaria melhor na Sonserina mesmo enquanto ele o retirava da cabeça. Sua mente viajava com as possibilidades de alianças poderosas que poderia usar para alcançar seu objetivo. Mesmo assim, não pode se impedir de observar a pequena menina nascida trouxa ser selecionada para a Lufa-Lufa.
Ele havia pensado, então, que acabaria ali. Se concentraria nas alianças e em aumentar suas habilidades. O que, é claro, não aconteceu. Emma cruzava seu caminho e tentava conversar com ele quase tantas vezes quanto passeava por sua mente. Se não se policiasse, logo cabelos loiros vinham para sua mente, ou se via imaginando quantos nuances haviam naqueles grandes olhos verdes. Ele era só uma criança, e os sentimentos eram puros, mas mostravam potencial.
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Lysandre não sabia, mas Emma se aproximava dele cada vez mais. Ele também não sabia, mas logo se tornara um dos seus objetivos protegê-la. Podia ser coisas bobas, como pegá-la nas diversas vezes em que ela tropeçava, ou algo mais grave, como quando ela caiu de uma vassoura no fim do semestre e Lys se apressara na sua própria vassoura para salvar a menina de uma queda fatal e a carregara, resmungando, para a enfermaria.
Ele tinha onze anos então, e era o garoto mais alto de seu ano. O coração ainda batia forte no peito enquanto levava a menina minúscula nos braços pelos corredores. Ela falava sem parar que estava tudo bem, que ela não tinha se machucado, apesar do corte que havia em sua testa. Os pedidos para deixá-la andar por si mesma caíam em ouvidos surdos, e talvez fora ali que o garoto desajustado e insensível começou a realmente se importar com Emma.
Isso não mudou seu comportamento com ela, isso era certo. Lysandre ainda revirava os olhos quando a lufana surgia e começa a falar sem parar, ou reclamava quando ela atrapalhava uma de suas tardes de estudo. Mas ele não andava mais rápido para ela não conseguir lhe alcançar, e na altura do terceiro ano os comentários mordazes tinham diminuído até a inexistência.
Foi nesse ano, também, que Lysandre experimentou pela primeira vez um vicioso sentimento: O ciúme. Ele sempre estivera ali, lhe cutucando no fundo da mente, nunca forte o suficiente para ele dar muita atenção. Agora, eles lhe atacavam a mente com pensamentos venenosos, e isso o assustava. Não estava acostumado a sentir coisas tão intensamente que não fossem relacionadas à raiva há… muito tempo.
O pico surgiu ao ver Emma cercada por alguns dos amigos dela. Os que se destacavam era um garoto nanico lufano, Matthew, e um grifinório alto metido a galã, Cameron. Emma sorria daquele modo só dela, a ponta da língua cutucando entre os dentes, e as gargalhadas eram altas. Ela nunca havia rido assim junto de Lys. Mesmo com o fato dele nunca ter tentado fazer ela rir, isso lhe deu uma pontada no peito.
Ele foi para lá, e a chamou. A sua voz era calma e o rosto, inexpressivo. Na sua mente, barulho, confusão, sentimentos guerreando para tomar o controle, a lógica perdendo para a emoção. O ciúme o queimava lentamente num fogo frio de raiva e possessividade. Ele não gostava muito. O garoto grifinório, muito menos habilidoso em controlar seu temperamento, surgiu, falando com impetuosidade ao colocar seu corpo imenso na frente de Emma.
— Por que ela deveria ir com você? — Ele perguntou, cruzando os braços. — Na verdade, por que ela devia ao menos estar perto de você?
— Saia de perto dela. — Lysandre respondeu, a voz sedosa, baixa. Um rosnado se formava no fundo de seu peito, e a raiva continuava a queimar tudo. Com a raiva ele se sentia confortável, uma velha conhecida.
Foi nesse momento que Lysandre iniciou sua primeira briga escolar. Ele era alto, mas muito esguio, e só conseguira acertar um par de socos antes que o garoto musculoso tomasse a vantagem. Acabou caído no chão, um hematoma no rosto, um corte nos lábios, e sabia que encontraria pelo menos uma contusão no peito, que atualmente doía bastante.
Mas essa não uma das coisas colocadas na conta das derrotas: Podia notar com satisfação o hematoma que Cameron carregava no olho, e Emma, que tentara a todo momento impedir aquilo junto do outro lufano, agora se sentava ao seu lado, tateando seu corpo machucado e gritando com o grifinório.
Lysandre quase sorriu por ela estar ao seu lado e não do dele, até notar as lágrimas abundantes que a menina derramava e ver ela tentar esconder um soluço. Seu sorriso morreu instantaneamente.
— Não chore, Carpenter. — Lysandre sussurrou, colocando uma das mechas atrás da orelha dela. Ele nunca mais brigou com nenhum dos amigos dela depois disso.
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As coisas mudaram um pouco depois disso. Lys se via menos irritado com a presença dela, e ansiando por todos os momentos em que podia encontrá-la. Ele ainda era distante, quieto, mas qualquer pessoa poderia ver a suavidade nos seus olhos quando Emma estava presente. Alianças poderosas ainda eram importantes, é claro, mas estavam em segundo plano. Sentimentos quentes despertavam em seu peito. E, apesar de ele não saber ao certo o que fazer com eles, ele finalmente admitiu que, na verdade, os apreciava.
Lysandre nunca fora uma pessoa romântica, ou dramática de qualquer forma. Seu primeiro beijo com Emma foi impulsivo, e inesperado para ambos. Era o quinto ano, em uma tarde de outono fria em frente ao lago. Emma usava o grande manto do corvino por ter esquecido o seu, ventos fortes lhe bagunçando o cabelo e corando suas bochechas. Ela falava animadamente sobre algum projeto da aula de Tratos de Criaturas Mágicas, gesticulando com as mãos, mas Lys somente a observava. Aquela suavidade nos olhos, agora tão frequente, estava lá, e ele sorria sem nem mesmo perceber.
Emma estava no meio de uma sentença sobre unicórnios quando Lys se inclinou para a garota e selou seus lábios. O beijo era doce, suave, somente um encostar de lábios, mas mil emoções explodiam em sua cabeça, cada uma tentando tomar sua atenção, pensamentos surgindo em sua mente e logo sendo substituídos por outros. Quando ele se afastou, viu que o rosto dela estava corado, e ela lhe observava com os olhos arregalados. Lysandre somente sorriu, passando o polegar por seus lábios avermelhados, antes de olhar para longe.
— Então, onde vocês vão levar os unicórnios mesmo? — Perguntou, indiferente. E se os dois estavam muito sorridentes pelo resto do dia, bem, você não podia culpá-los.
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Lysandre nunca pediu Emma em namoro com palavras. Quando se sentavam juntos, ele colocava um braço ao redor dos ombros dela, e tomava sua mão enquanto andavam juntos. Às vezes, ele comentaria que gostava quando o cabelo dela estava solto, ou que aquele desenho tinha ficado bonito.
Ele se tornara amigável com Matthew, o amigo lufano de Emma, e até mesmo cordial com Cameron e Gregory, os dois grifinórios superprotetores. E, às vezes, quando eles estavam sozinhos, coisa que acontecia cada vez mais, ele roubaria um beijo dela, ou acariciaria seus cabelos quando ela repousasse a cabeça em seu colo.
As alianças poderosas já estavam esquecidas, e Lysandre parecia quase tão feliz quanto como quando era criança.
— Nós estamos namorando, não é? — Emma perguntara uma noite, quase seis meses depois daquele beijo. Ela nunca comentara sobre isso, talvez por medo de tudo ser um sonho, mas não conseguia mais se aguentar. Lysandre não falou nada por um longo tempo, olhando para a infinidade de estrelas exibidas da torre do relógio. Finalmente, ele deu a ela um beijo casto, doce.
— Sim. Eu acho que estamos. — Isso não estava nos planos dele, e Lysandre não sabia ao certo como lidar com aqueles sentimentos. Mas, ao sentir um sorriso nos lábios de Emma enquanto ela lhe beijava, ele sabia que valia a pena.
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As coisas boas tem uma tendência alarmante e desanimadora para acabarem, e claro que isso não podia ser diferente para Lysandre. Ele havia acabado de se formar e, fora da escola e com algumas alianças formadas, havia começado a colocar seu plano em prática. Era algo almejado desde que ele tinha nove anos, e o alvo era Andrew Cole.
Entender isso é voltar nove anos atrás, quando a família de Lysandre estava viva e ele sorria o tempo todo. A situação feliz foi quebrada por esse homem, um amigo de família com problemas mentais e astúcia abundante. Andrew matou, um pouco por inveja, um pouco por sua doença, toda a família dele. Ele era só um garoto, e nunca teve a chance de pará-lo. Isso não o impediu de tentar, de qualquer modo, e uma grande cicatriz desbotada em seu peito mostrava o último esforço para detê-lo antes que fosse incapacitado e depois encontrado pelos aurores, deitado numa poça do sangue de sua família.
Andrew saiu impune, a doença mágica muito violenta para que lhe culpassem, e só teve de passar alguns anos no St. Mungus antes de ser declarado saudável. Mas Lysandre sabia melhor. Não havia insanidade nos olhos dele ao levantar a varinha, ou ao passar indiferente pelos corpos de sua família com o intuito de lhe matar.
No fim, o homem acabara bastante poderoso, a sua suposta “superação” lhe dando fama e logo poder político e financeiro. Mas Lysandre não fora selecionado para a Corvinal á toa, e menos ainda fora considerado para ser um Sonserino. Gradualmente, ele cortava o poder de Cole. Um comentário para a pessoa certa aqui, um feitiço naquele papel ali… Ele estava desmoronando tudo o que homem construíra, e Andrew estava começando a ficar com raiva.
Não fora difícil para o louco, então, descobrir a coisa com que o garoto mais se importava: Uma bonita moça loira com nome de Emma Carpenter. Menos difícil ainda fora sequestrá-la, e mandar uma mensagem para Lysandre lhe encontrar e poder ver o que ele fazia com aqueles que o desafiavam.
Emma sempre fora contra todo o plano de Lysandre. Talvez por um medo de que isso acabasse com uma morte, e ela não podia deixar isso acontecer. Agora, acorrentada num porão sujo, mesmo com o ódio profundo pelo homem que a aprisionava, ela sabia que teria de o impedir, ao vê-lo entrar imponente, com um fogo nos olhos.
As palavras trocadas pelos dois foram frias, um jogo de astúcia e poder invisível aos olhos de Emma. Não demorou muito para que houvesse um duelo. Os feitiços voavam e muitos encontravam o corpo de Lysandre, lhe dando cortes, hematomas e muitos outros machucados que Emma preferia não imaginar no momento. Lágrimas caíam de seus olhos quando Lysandre, parte de uma orelha faltando e segurando o peito de forma que sugeria algumas costelas quebradas, conseguiu acertar um feitiço estuporante em Andrew.
Emma sentiu seu coração afundar, por que sabia ele se tornaria um assassino agora. Mas, ao invés disso, ele se aproximou dela, cambaleando, e se ajoelhou do seu lado.
— Não chore, Carpenter. — Lysandre disse, enxugando uma das lágrimas dela, e tentou sorrir em meio à dor. Ele a libertou com alguns feitiços rápidos, antes de depositar um beijo em sua testa e se levantar mais uma vez, indo em direção a Andrew.
O homem se deitava desmaiado no chão, um filete de sangue saindo de um corte feio na testa. Lysandre o observou com olhos frios, entorpecidos pela dor. Tudo acabava aqui, a vingança que consumira sua vida desde que era só um garoto. O homem que lhe tirara a inocência e lhe condenara a uma vida de raiva e dor agora estava no nível de seus pés, vulnerável a tudo que ele podia fazer com ele. Ele levantou a varinha, o encantamento na ponta da língua.
Foi interrompida, apesar disso, por alguém lhe abraçando. Ele ainda era muito alto e ela muito pequena, então os braços conseguiam descansar mais facilmente no estômago, onde não o machucaria. O corpo de Emma contra o seu era quente e reconfortante, e trazia boas memórias para a sua mente.
— Não faça isso, Lys. — Ela sussurrou, e ele podia sentir as lágrimas dela lhe molhando a camiseta. — Não se torne pior que ele, por que eu sei que você é melhor. Sei disso desde aquele dia, em que você não expulsou a garota nanica do seu compartimento no trem. — Ela soluçava em meio a frase, e Lysandre podia sentir suas próprias lágrimas silenciosas descendo pelo rosto.
Lysandre sempre pensara em Emma como alguém pequena, que ele devia proteger. O que ele não havia percebido até agora fora o fato de que ela o havia salvado, mais vezes do que podia contar. O salvara de se afogar na raiva, culpa e dor, e lhe dera a oportunidade de sentir amor e felicidade. Ela o havia salvado de ser um assassino. Lysandre, por fim, compreendeu que Emma era alguém muito grande. Um sorriso triste nos lábios, ele baixou a varinha.
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