Não Sou Quem Você Imagina!
35 Capítulo35
Notas iniciais

[RECAPITULANDO]
Se ela amara e respeitara Fitzwilliam como a mãe acreditava, como fingia ter amado, não cairia nos braços de outro homem.
Já permitira que ele a beijasse.
Por que acreditava que beijá-lo seria suficiente para assegurar seu lugar entre os Bingley?
O pensamento o enojava.
A ideia o intrigava.
A imagem o provocava.
Seria o verdadeiro teste de seu amor por Fitzwilliam. Depois disso não haveria mais dúvidas.
Charles mal podia esperar pela partida dos convidados.
***
Apesar de todo o trabalho com os convidados, os criados e Caroline, Jane conseguiu viajar a Meryton e enviar mensagens e uma parcela do pagamento a Agência Pinkerton. Deixou ordens no serviço de telégrafos para que toda e qualquer correspondência em seu nome fosse retida no posto e retirada somente por ela.
***
Depois de cinco dias, os convidados partiram. Jane sentiu-se tão sozinha ao ver Charlotte ir embora, que subiu para o quarto e chorou pela ausência da nova amiga.
Mary a seguiu e a surpreendeu sentada ao lado da janela.
— Qual é o problema, minha doce menina?
Envergonhada, ela enxugou as lágrimas e piscou para a luz do sol que penetrava pelas vidraças.
— Nenhum.
— Entendo. Não quer contar.
— Não é isso. Apenas... temo que me considere tola.
— Jamais pensarei algo semelhante de você.
— É que... me apeguei tanto à sra. Lucas, que fiquei triste ao vê-la partir.
— Bem, isso é muito natural. As mulheres precisam de companhia, gente da mesma idade com quem possam conversar. E você só tem contado comigo.
— Por favor, não pense que não aprecio sua amizade.
— É claro que não. Compreendo a solidão. Mas você poderá ver Charlotte novamente. Costumamos encontrar os Lucas pelo menos uma vez por ano.
Jane assentiu, tomada por uma tristeza ainda maior ao perceber que, na próxima reunião entre as famílias, a amiga saberia sobre sua traição e desonestidade.
— Por que não vai descansar um pouco? — Mary sugeriu. — Virei acordá-la para o jantar.
Jane aceitou a ideia de bom grado. Estava tão cansada, que só precisou tirar o vestido e deitar-se sobre a colcha para adormecer imediatamente.
***
No dia seguinte, Jane foi levar o jantar ao quarto de Caroline.
— Soube que não tem comido bem. Os criados estão preocupados.
— Por que se importam comigo? — Caroline não tomava banho há dias. Passava o tempo todo sentada na mesma cadeira, vestida com uma velha e amarrotada capa. — Tudo que têm de fazer é trazer os jornais.
— Estou preocupada, Caroline.
— Por quê?
— Porque não gosto de ver um ser humano se destruindo. Trate de tomar banho e vestir-se imediatamente, ou trarei as criadas aqui e faremos isso por você.
— Você não se atreveria.
— Não me desafie, Carol.
A sra. Patrick a encarou, mas encolheu os ombros e abaixou a cabeça.
— Amanha cedo mandarei trazerem água.
— Sim, faça isso.
Jane sentou-se e esperou até que a mulher houvesse comido quase todo o jantar.
— Como é seu bebê?
A pergunta a pegou desprevenida.
— Helena? Bem, acho que é parecida comigo. Gostaria de conhecê-la?
Ela encolheu os ombros mais uma vez.
— Comece a banhar-se e usar roupas limpas, e prometo trazê-la para que a conheça.
Caroline fez um movimento afirmativo com a cabeça, como se nada daquilo tivesse importância.
— Mandou o telegrama?
— Mandei. Creio que a resposta vai demorar algum tempo. Pedi ao serviço de telégrafo para reter toda a correspondência em meu nome no posto, o que significa que terei de ir até lá constantemente. Se estivesse em condições de viajar e assumir algumas responsabilidades, poderia fazer isso por mim.
— Não conte comigo. Vai acabar desapontada.
Jane olhou para o relógio sobre a lareira. O jantar seria servido em alguns minutos.
— Já desapontou muita gente?
— Algumas pessoas.
— Entendo. Ninguém gosta de provocar decepções. — E partiu levando a bandeja.
Apressada, passou pelo quarto e pegou Helena para levá-la à sala de jantar, onde a deixava em um cesto próximo da mesa. Mary fazia questão da presença da criança.
— Fiquei muito satisfeito com a visita de meus associados — Charles comentou depois da refeição, surpreendendo Jane. — Reconheço que conseguiram superar-se com as refeições.
— Não posso aceitar elogios — Mary protestou. — Anne cuidou da cozinha e dos criados. Eu só me preocupei em supervisionar a lavanderia e a arrumação dos quartos.
— Fez um bom trabalho, Anne.
O calor que invadiu seu coração tingiu o rosto de vermelho. Charles não tinha ideia de como aquelas palavras eram importantes para alguém que não esperava ouvi-las. Fizera o melhor porque estava habituada a agir assim, mas há muito aprendera a não contar com o reconhecimento de seus esforços.
Durante todos os anos de convivência com o pai, ele jamais a encorajara ou elogiara. Mesmo quando fora além dos próprios limites para agradá-lo, ele sempre encontrara um defeito para apontar.
— Obrigada — disse.
— Eu é que agradeço. Fitzwilliam teria ficado orgulhoso de você.
Ela abaixou a cabeça.
— Anne é uma bênção para nós — Mary apontou com alegria. — Mesmo que ela não soubesse identificar um talher de peixe ou servir à francesa, eu ainda a amaria. Fitzwilliam fez uma escolha maravilhosa.
Jane ofereceu um sorriso apagado.
— Esta noite irei jogar cartas com alguns amigos — Mary avisou, levantando-se em seguida. — A menos que precise de Gruver para alguma coisa, pretendo dispensá-lo depois que ele me levar à casa dos Austin. O motorista dos Dextrixhes me trará de volta.
— Pode dispensá-lo, mamãe. A menos que Anne tenha planos.
Ela balançou a cabeça, surpresa por ter sido incluída na discussão.
— Não esqueça o piquenique no próximo sábado — ele lembrou.
Mary demonstrou espanto.
— Já? Anne foi informada?
— Estamos falando sobre o piquenique da Fundição Bingley — ele explicou.
— Charles oferece comida e fogos de artifício para todos os empregados. É divertido assistir aos jogos.
— Posso imaginar. É claro que estarei presente.
Mary partiu satisfeita e Charles esperou que estivessem sozinhos para voltar a falar.
— Anne, importa-se de levar Helena ao meu escritório esta noite? Creio que já é hora de aproximar-me dela.
— Será um prazer.
Depois de amamentá-la e vesti-la com roupas limpas, Jane instruiu a sra. Gardiner para ir buscá-la no horário de dormir. Levou-o ao andar de baixo e aproximou-se do escritório com alguma incerteza.
Quando entrou, descobriu um berço que não estivera ali em sua última visita.
— Encontrei-o no sótão e eu mesmo o limpei — Charles contou ao ver a surpresa em seus olhos. — Penélope ajudou com o colchão e os lençóis. Achei que ela gostaria de mudar de cenário de vez em quando. É claro que não acenderei um único cigarro enquanto ela estiver aqui.
O gesto era tão surpreendente que Jane não soube o que dizer.
— Pedi chá para você. — E apontou a bandeja sobre a mesa, levantando-se para ir examinar a menina em seus braços. — Nunca estive perto de um bebê antes.
— Nem eu.
— Bem, então acho que não vou feri-la com minha ignorância, não é?
Ela balançou a cabeça e entregou a filha. Charles aceitou a criança com hesitação, aninhando-a junto ao peito.
— Sirva-se — disse, apontando para o chá. Jane obedeceu, acrescentando limão e creme à bebida.
— Quer uma xícara?
— Não, obrigado. — E sentou-se sobre o braço de uma poltrona. — Bem, Helena, como é a vida com todas aquelas mulheres lá em cima? Vai precisar descer de vez em quando para que elas não a amoleçam demais.
Contendo um sorriso, Jane foi sentar-se no sofá com a xícara de chá.
— Não sei como vocês mulheres conseguem atribuir características familiares a um bebê. Ela tem nariz pequeno, boca pequena, orelhas pequenas... de que cor são os olhos?
— Azuis. Sua mãe diz que ainda podem mudar de tonalidade, mas não acredito nisso.
— Os cabelos são claros, como os seus. E acho que a boca também é parecida com a sua.
Então conhecia o formato de seus lábios?
— E as sobrancelhas... Ei, ela sorriu!
Cativado, Charles passou cerca de uma hora com o bebê, falando com ela, afagando seu rosto e sorrindo.
O comportamento afetuoso levou-a a imaginar como seria ter um marido... uma família de verdade. Um dia Charles teria seus próprios filhos. A esposa poderia ficar sentada exatamente onde ela estava, observando-os, talvez tricotando ou cantando.
Talvez subissem juntos ao quarto e pusessem o bebê para dormir.
A sra. Gardiner chegou na hora marcada, interrompendo o devaneio.
Charles olhou para Jane.
— Ela tem de ir agora? Não podem trocá-la, ou fazer o que for necessário, e deixá-la aqui?
Jane assentiu para a enfermeira, que partiu e voltou com roupas limpas. Jane dispensou-a e trocou o bebê no berço, ruborizando enquanto era observada.
— E só isso?
— Por enquanto.
Ele a pegou novamente e segurou-o por alguns minutos, até que a menina adormeceu.
— Acho que a aborreci.
Jane colocou-a no berço e cobriu-a.
— É hora de Helena dormir — respondeu rindo.
Fale com o autor