Notas iniciais
Ola meninas, como vão? Obrigada por lerem esta fic, aqui vai mais um capítulo para vcs, espero que gostem. Pois bem, como ainda estou sem net em minha casa, não sei quais serão os dias que vou postar a fic, mas saibam que vou postar até o fim, bjs.

A perna de Jane doía mais que as costas, indicando que ainda estava viva. O cheiro de sangue era forte e, no alto, ouvia a chuva batendo contra o metal. A cabeça latejava e a perna continuava doendo. Queria gritar, mas não conseguia. Queria rezar, mas era incapaz de coordenar os pensamentos. Felizmente, sucumbiu à dor e mergulhou na escuridão.

Algum tempo depois o odor de antisséptico e goma penetraram em seus sentidos. A perna ainda doía, mas não com a intensidade de antes. Tam­bém podia sentir a cabeça, mas o pulsar constante acompanhava as batidas do coração. Abriu um olho e encontrou a claridade incômoda do sol pe­netrando pela pequena janela do quarto de pare­des verdes. Abriu a boca, mas só pôde emitir um som rouco.

— Fique quieta, querida. Você sofreu um golpe violento. O médico disse que não deve se mover.

— Onde... onde estou...

— Quieta. Não tente falar e mantenha os olhos fechados.

Jane seguiu as instruções da desconhecida.

Era uma enfermeira. Estava em um hospital. Um lençol branco a cobria; um tecido frio envolvia sua pele. A perna estava imobilizada. Tentou mexer as mãos, abrindo e fechando os dedos, e ergueu um braço de cada vez, afastando-os poucos cen­tímetros do colchão.

Abriu os olhos novamente e levou a mão direita ao ventre num gesto protetor.

Ao abdome plano!

— Oh, meu... — Tentou levantar a cabeça do travesseiro.

— Não, não, fique deitada—a enfermeira ordenou.

— Meu bebê! Onde está meu bebê? — O movi­mento e as palavras drenaram toda a energia de que dispunha e, tonta, caiu contra o travesseiro.

— O bebê está bem — a mulher respondeu. O rosto dançava diante de seus olhos com um borrão amorfo, misturando-se ao ambiente.

Bem? O bebê estava bem?

— Onde? — conseguiu perguntar.

— Vamos cuidar dela até sentir-se melhor. Des­canse, pois assim poderá tê-la em seus braços mais depressa.

Jane fechou os olhos contra a dor aguda que ex­plodiu em sua cabeça.

Ela? Tivera uma menina?

Uma lágrima brotou de seu olho e correu pela têmpora.

Quando acordou novamente, Jane levou algum tempo para lembrar onde estava e o que acontecera. Estivera em um trem. Algo horrível havia ocorrido, e fora parar em um hospital. Tivera uma filha.

Com dificuldade, sentou-se e afastou a coberta para examinar a perna esquerda inchada e coberta por bandagens. Os dedos tocaram o curativo na cabeça.

— O que está fazendo? Não devia ter se levan­tado! — O aviso veio da porta, e uma enfermeira uniformizada correu a empurrá-la de volta sobre o travesseiro.

— Quero ver meu bebê — Jane exigiu.

— Vou chamar o médico. — Ela apontou o dedo para dar ênfase às palavras. — Não se mova!

Alguns minutos mais tarde, um homem baixo e magro entrou no quarto acompanhado por duas enfermeiras. Uma delas carregava um pequeno volume envolto em flanela.

— Oh! — Jane levou a mão ao peito e esperou que ela se aproximasse. — Posso segurá-la?

A enfermeira olhou para o médico, que fez um movimento afirmativo com a cabeça. A criança foi posta nos braços da mãe.

O bebê de rosto corado piscou como se estivesse acordando. Tinha cabelos claros e uma compleição robusta. Os olhos que ela tentava focalizar eram de um azul profundo, de uma sabedoria mais ade­quada a uma mulher idosa do que a um bebê. Ela franziu a testa e, ao fazê-lo, tornou-se muito pa­recido com a mãe dela.

— É uma linda criança — a enfermeira comen­tou. — Há muito tempo não víamos um bebê tão grande e forte por aqui.

Jane suspirou aliviada. Sua filha estava bem. Era grande, forte e saudável.

— É melhor levarmos a menina de volta ao ber­çário para que possa descansar, sra. Bingley.

Tomada pelo amor maternal, ela precisou de alguns instantes para registrar as palavras da enfermeira.

— O que disse?

O médico adiantou-se, e a enfermeira tomou o bebê de seus braços.

— Lamento, mas temos más notícias.

Jane piscou.

Já não ouvira notícias desagra­dáveis para toda uma vida?

— Seu marido morreu no acidente. Ela tentou sentar-se novamente.

O médico obrigou-a a permanecer deitada.

— Mas eu... — Jane começou.

— Sofreu um golpe bastante violento na cabeça, sra. Bingley. Deve se manter quieta pelos pró­ximos dias.

A outra enfermeira aproximou-se com um copo de água.

Jane bebeu o líquido fresco e deitou-se. Pre­cisava esclarecer algumas coisas com aquelas pes­soas. O quarto girou com velocidade espantosa e ela perdeu a consciência.

****

Dessa vez obteria respostas. Passando a língua pelos lábios ressecados, fez uma careta ao sentir o gosto amargo da boca. Tinha de lembrar. Seu marido morreu no acidente... sra. Bingley. Jane pensou na morena bondosa e sorridente e seu belo marido, as pessoas que a acolheram em uma cabine e a alimentaram com tanta generosidade.

Estava sendo confundida com Anne Bingley.

Como poderia explicar o que havia acontecido?

Cada vez que tentava conversar com o médico e as enfermeiras, eles a tratavam como se estivesse desequilibrada e a medicavam com sonífero.

Eles a puseram sentada e serviram mingau de aveia e uma xícara de chá. Mais tarde, uma en­fermeira que ainda não vira levou o bebê e orien­tou-a para que o amamentasse. Jane fez o melhor possível, de maneira ingênua e dolorosa, e viu maravilhada como a filha sabia instintivamente o que fazer, embora estivesse confusa e aturdida. Tocou a cabeça pequenina, os dedos minúsculos, e abriu a flanela que a envolvia para examinar a pele rosada e os pés delicados.

Era tão pequena... tão indefesa... e... lágrimas brotaram de seus olhos... tão completamente de­pendente dela. Dela! Como cuidaria daquela crian­ça sozinha? Não tinha dinheiro, nem um lugar para viver ou perspectivas de futuro. A constata­ção apavorou-a. Nunca alguém precisara dela an­tes. E quando alguém contava com sua ajuda, es­tava despreparada para a responsabilidade. Não suportava a ideia de não poder sustentá-la.

A enfermeira voltou pouco depois para buscar o bebê, e Jane cochilou. Quando acordou, o mé­dico estava a seu lado.

— Boa tarde, sra. Bingley. Hoje fez grandes progressos. — Ele removeu o curativo para exa­minar sua testa. — Creio que já podemos remo­vê-la com segurança. Não deve apoiar-se nessa perna por algum tempo, ou a cicatrização não será completa. Foi uma fratura e tanto, mas é uma mulher jovem e saudável, e estou certo de que em breve estará curada.

Para onde ele pretendia removê-la?

— O sr. Bingley, irmão de seu marido, chegou ontem. Ele está esperando por minha autorização para levá-la para casa. Creio que é seguro, desde que siga minhas instruções. Poderá partir ama­nhã cedo. Ele levará todas as orientações referen­tes aos cuidados que deve tomar.

Jane mordeu o lábio. Tinha medo de objetar e ser sedada novamente. Fingiu uma calma que não sentia, assentiu e apoiou a cabeça no traves­seiro. O médico partiu.

Poderia encontrar sua filha e partir sozinha an­tes do amanhecer. Jane olhou para o contorno da perna imobilizada sob o cobertor. E o que faria? Passaria o resto da vida mancando? Além do mais, não julgava-se capaz de locomover-se sozinha. E o que faria se fugisse? Para onde iria? Não teria condições de trabalhar por semanas... meses, tal­vez. E não poderia cuidar de si mesma e do bebê.

Pensou no pai e na infância confortável que ti­vera em sua casa e as lembranças a levaram a fechar os olhos. Doía saber que não havia sido importante o bastante para merecer seu perdão. Agora ele a odiava. Não conseguia deixar de pen­sar se um dia ele a amara, ou se fora apenas uma conveniência, já que havia administrado a casa e organizado as intermináveis recepções para seus clientes. Voltar estava fora de questão.

Quando o tal Bingley aparecesse, explicaria a ele o que acontecera. Certamente seria mais fácil argumentar com alguém de fora a convencer o médico e as enfermeiras.