Notas iniciais

Charles abriu a gaveta da escrivaninha, pegou uma caneta e assinou um cheque.
Catherine estendeu a mão para o pedaço de papel, mas ele tirou o documento de seu alcance. Encarando-a, esperou que a tinta secasse, sentindo prazer em provocá-la.
— Primeiro a prova. Depois do dinheiro.
Catherine abriu a bolsa, pegou um envelope e jogou-o do outro lado da sala. O volume bateu contra a parede e caiu no chão.
— O que é isso?
— Uma carta de despedida.
Charles caminhou até o local onde o envelope havia caído e pegou-o. Seu nome e o de Mary estavam escritos sobre o papel pardo. O lacre fora removido. Sem pressa, removeu a folha contida dentro dele e desdobrou-a.
****
Charles e Mary,
Sei que o que fiz é imperdoável, por isso não vou pedir perdão. Tudo que peço é que não me odeiem. Pretendia contar a verdade desde o minuto em que acordei naquele hospital.
O coração pesava no peito. Ele entregou o cheque, feliz por se ver livre daquela mulher odiosa. Catherine aceitou-o com um sorriso gelado.
As pernas pareciam incapazes de suportar o peso do corpo, e ele foi se sentar atrás da mesa para continuar lendo a carta.
Mas quando vi sua dor, Charles, e quando me ofereceu proteção e abrigo para minha filha, não tive coragem de dizer as palavras. Acreditei que seria mais fácil conversar com sua mãe.
Qualquer um poderia ter escrito aquelas palavras, pensou furioso, negando a emoção que sentia. A própria Catherine poderia ter redigido a mensagem para feri-lo, ou para extorquir dinheiro.
E então, querida Mary, quando vi suas lágrimas e o amor com que olhou para minha filha, também não pude falar. Continuo sendo covarde demais para dizer a verdade frente a frente, por isso deixo esta carta.
Não sou Anne Bingley. Nunca fui casada com Fitzwilliam. Só o conheci na noite em que sofremos o acidente com o trem. Ele me resgatou da chuva e, juntamente com Anne, alimentou-me e me deu roupas secas e uma cama para dormir.
Se estivessem na cabine naquela noite, talvez ainda fossem vivos. Como já devem ter percebido, sou responsável pela morte dos dois. Essa é uma culpa que carregarei até o último de meus dias.
Catherine não teria inventado tudo aquilo. Ou teria? As palavras soavam como se... ela se culpava pela morte de Fitzwilliam e Anne. Mas se a mulher que levara para casa não era Anne, então quem era?
A apreensão crescia a cada segundo. Levantou a cabeça e viu que Catherine o observava com um sorriso satisfeito.
— Onde conseguiu esta carta?
O sorriso desapareceu.
— Isso não importa.
Não suportava a ideia de continuar lendo a mensagem diante daquela mulher, pois sabia que a confusão e a raiva estavam estampadas em seu rosto.
— Saia daqui — ordenou.
O olho esquerdo da atriz tremeu. Ela ergueu o queixo e deixou o escritório.
Charles retomou a leitura.
E as mentiras também. Menti para vocês e fingi ser Anne para tirar proveito dos Bingley até minha perna estar curada. Então seria capaz de cuidar de mim mesma.
Em anexo encontrarão uma relação de todos os itens que levei comigo. Assim que estiver instalada e tiver um emprego, mandarei o dinheiro correspondente às roupas, à comida e ao tempo que passei em sua casa.
Charles leu a lista de roupas e artigos para o bebê. Coisas sem importâncias, bens materiais que não chegavam a somar cem dólares. Exatamente as coisas de que a sra. Gardiner sentira falta. Ninguém mais poderia saber disso.
Mas e as jóias que ela levara?
Os dedos tremiam sobre o papel.
Jamais poderei recompensá-los pela bondade, nem pelas mentiras e pela perda de um filho e irmão. Só posso dizer que lamento profundamente e estou muito envergonhada.
Não sei se serão capazes de sufocar o ódio que minha atitude despertará em seus corações, porque eu mesma me odeio pelas coisas que fiz.
Não têm motivos para acreditarem em mim, mas devem ter compreendido que não tenho mais nada a perder, e por isso quero que saibam disso: Fitzwilliam era um bom homem. Ele sabia amar. Era um filho e um irmão digno de orgulho.
Lágrimas queimavam seus olhos.
Eu não passava de uma estranha, mas ele e Anne me trataram com bondade e afeto. Sei que teriam gostado de Anne. Guardem para sempre em seus corações a memória de um casal que conheceu o amor.
Sinceramente, Jane Bennet.
Jane Bennet.
O suor escorria pelas costas, molhando a camisa. Charles passou a mão pela testa com impaciência.
Quem era Jane Bennet?
A maior parte das explicações fazia sentido. Quando pensava em como ela evitava falar sobre Fitzwilliam, quando lembrava o desespero para ler o relatório sobre a investigação...
Mas muitas coisas ainda eram confusas.
Como poderia ter certeza?
A resposta foi imediata.
— Estarei fora durante o resto da tarde — avisou ao secretário a caminho da rua.
Alugou um cavalo no estábulo público e voltou para casa num galope apressado.
Caroline e Mary estavam sentadas na varanda quando ele chegou.
— Charles! Você nunca chega tão cedo! — A mãe estranhou.
— Perdoe minha aparência, mãe — pediu, referindo-se aos cabelos desalinhados e à poeira nas roupas. Em seguida, virou-se para Caroline. — O que sabe sobre isto?
— O que é isso?
— Uma carta. Escrita por Jane Bennet.
Ela empalideceu e agarrou o copo, mas empurrou-o ao lembrar que era apenas limonada.
— Se sabe alguma coisa, é melhor dizer-me agora.
— Charles, o que está acontecendo? — Mary perguntou apreensiva.
Ele entregou a carta à mãe.
— Ainda não sei ao certo, mas vou descobrir. Reconhece a caligrafia?
— Sim, é a letra de Anne.
Charles olhou para Caroline.
— Comece a falar.
— Eu... não sei...
— É claro que sabe. Quando percebeu que sua filha não estava aqui?
— Na noite... em que caí da escada. Ela foi ao meu quarto e me contou tudo.
— Quem foi ao seu quarto?
— Jane.
Jane.
— E o que ela disse?
— Apenas que Anne havia morrido no acidente de trem, e que todos acreditavam que ela fosse minha filha.
— E o que você fez?
— Ora, chorei, é claro!
— E depois disso?
— Depois ela prometeu cuidar de mim, desde que eu colaborasse e não a delatasse.
Charles sentou-se e passou a mão na cabeça, frustrado e incrédulo.
— Como acha que ela teria conseguido perpetuar a farsa? Por quanto tempo pretendia seguir fingindo?
Caroline balançou a cabeça.
Mary parecia tão atônita quanto o filho.
— Então... o bebê...
— Não é sua neta, mãe. Aquela mulher nunca foi casada com Fitzwilliam. Eles se conheceram na noite do acidente.
— E quem é o pai da criança?
— Um rapaz que a abandonou — Caroline respondeu. — Jane esperou até não poder mais esconder a gravidez, e foi expulsa de casa pelo pai quando contou a verdade. Ela estava a caminho do oeste quando conheceu Jane e Fitzwilliam.
— Isso é absurdo — Mary gemeu. — Não acredito que ela tenha mentido para nós durante todo esse tempo.
— E você — Charles acusou a mãe de Anne. — O que pretendia ganhar colaborando com essa mentira? E mãe de Anne. Teríamos cuidado de você de qualquer maneira.
— Ela implorou... E parecia tão... Oh, eu não sei. Apenas concordei.
Charles sabia que era impossível resistir àqueles enormes olhos azuis. Sentira-se envolvido desde o primeiro instante, e ela não hesitara em usá-lo para tirar proveito de sua família e roubá-los.
Mary chorava, e suas lágrimas o endureceram ainda mais.
Era verdade. Aquela mulher que estivera sob seu teto não era Anne. Por isso nunca correspondera ao perfil esperado. Supervisionara os criados, planejara jantares e recebera convidados, e tudo com habilidade e graça. Sempre soubera que seu comportamento não refletia a formação da mulher que mandara investigar.
— Acha que ela voltou para a casa do pai? — Mary perguntou.
Caroline balançou a cabeça.
— Ele a deserdou. E tornou sua vida impossível em Londres, porque tomou providências para que ninguém a empregasse ou hospedasse.
O sotaque de Londres não era falso. Fora bem criada, vivera em sociedade.
— Que tipo de pai expulsa a própria filha de casa? — Mary suspirou.
— Está tentando defendê-la, mãe?
— Estou apenas tentando compreendê-la. A pobrezinha não tinha escolha. Principalmente depois que fraturou a perna naquele acidente. Para onde poderia ter ido? Como teria cuidado da... da... — Lágrimas encheram seus olhos. — Acha que ela vai continuar chamando a menina de Helena?
— Não interessa. Se está com tanta pena dela, pense em como Jane estaria pobre sem seus anéis, o colar e o bracelete, sem meu relógio e prendedor de gravata.
Caroline encarou-o com expressão chocada.
— O quê?
— É isso mesmo. A coitadinha roubou nossas joias antes de fugir.
— Tem certeza de que foi ela?
— Foi você?
— Charles! — Mary o censurou.
— Pode revistar meu quarto, se quiser.
— Talvez o faça.
— Se alguém houvesse me contado, eu não acreditaria — Mary comentou enquanto dobrava a carta. — Mas a mensagem é clara. — Ela se levantou e olhou para Charles com ar triste. — Sabe de uma coisa? Mesmo que pudesse voltar no tempo sabendo quem ela é, não teria agido diferente.
Mas Charles sabia que seu comportamento teria sido outro. Não se importaria com honra e consciência, por exemplo.
— Vou descansar — Mary avisou.
— Nunca imaginei que ela fosse capaz de roubá-los — Caroline disse com um movimento de cabeça.
Charles não respondeu. Estava furioso por não ter percebido, apesar de todos os sinais, por ter se deixado enganar com tanta facilidade. A tristeza da mãe, a amargura que vira em seus olhos, não ficaria impune. Encontraria Helena para que ela tivesse certeza de que a menina estava bem.
Encontraria Jane Bennet.
Fale com o autor