1

Fitar o vazio era um hábito adquirido na infância para evitar o olhar das pessoas. Ele não era realmente uma pessoa tímida, muito embora não fosse também uma pessoa extrovertida. Podia-se dizer que ele era uma pessoa tranqüila e falava somente quando julgava necessário. Mas ele se desviava do olhar das pessoas. Porque tinha medo dos olhos. Não todos e não sempre, somente daqueles que pareciam que atravessavam seu corpo e alcançavam a sua alma. Ele tinha medo disso. Porque de alguma forma parecia que poderiam roubar a sua alma. Ele acreditava nisso. Ele acreditava no sobrenatural.

Mas ele não permitiria que roubassem a sua alma. Assim, era a sua proteção olhar para outro lugar. Esteve vivendo bem assim desde sempre. Até que as confusões começaram a acontecer.

O Sol estava quente demais e o calor o despertou. Piscou repetidas vezes e esticou os braços paralelamente para frente e depois para cima, enquanto mantinha as mãos abertas e os dedos unidos. Espreguiçou-se e bocejou, o rosto parcialmente coberto pelo capuz. O casaco moletom vermelho que vestia era maior que o seu número e suas mãos ficavam escondidas até a metade. Ueda acordou e percebeu que tinha adormecido no parapeito largo da janela durante o intervalo das fotos. Tinha colocado o capuz para se proteger da iluminação, mas tinha ficado quente e agora estava suando. Ele tirou e bateu de leve em sua franja cor de cobre para ajeitá-la.

Notou que algumas pessoas da produção o fitavam naquele momento, então olhou para o chão e comentou rindo que tinha caído no sono. Alguém disse para não se preocupar, que estavam terminando as fotos com Kamenashi e ele não se atrasaria. Outra pessoa o puxou para que fosse se sentar em uma cadeira alta e retocou a sua maquiagem. Olhou para o teto quando passaram o lápis em seus olhos. Depois, pelo espelho a sua frente, ele viu que um rapaz alto e magro estava ajeitando seus cabelos.

- Ta-chan, é a sua vez!

Dessa vez, Ueda olhou para a pessoa que lhe dirigira a palavra. Akanishi era alguém com quem ele se sentiam confortável. Os olhos de Akanishi eram transparentes, honestos demais para que pudessem ser alguma ameaça. Ele não perderia sua alma se o encarasse. Quando se conheceram, havia algo de arrogante na postura do mais novo que Ueda achou de certa forma atraente. Depois, conhecendo-o melhor, descobriu o rapaz alegre e despreocupado que ele costumava ser. Agora estava mais sério e, sob certo aspecto, mais triste. Ueda se preocupava com essa súbita mudança, Akanishi parecia que estava caminhando para um túnel escuro... Contudo, não significava que seria algo necessariamente ruim. Era apenas que esse túnel o impedia de enxergar se o amigo seria feliz ou não. Ainda assim, este Akanishi mais calado e sério era alguém que continuava a lhe deixar confortável. Por ser ele próprio de poucas palavras, não exigia que Akanishi fosse falante.

- Ok. Estou pronto.

- Vá rápido, está atrasando as minhas fotos! – ele disse com um tom falsamente irritado.

Mas Akanishi ainda brincava com ele e com Maru e esses poucos momentos descontraídos eram realmente valiosos para Ueda. Nakamaru também era uma pessoa que lhe fazia ficar à vontade. Porque Nakamaru tinha um olhar tranqüilo. O Maru irritado com as brincadeiras na frente das câmeras não existia nos bastidores. Bem, ás vezes com Jin ele se irritava de verdade, mas nunca durava muito tempo. Essa tranqüilidade acalmava o seu espírito e por isso Ueda achava que Maru era uma pessoa que podia protegê-lo.

Ás vezes, os três saíam para comer e era sempre divertido. Não havia o clima tenso quando Jin e Kame estavam no mesmo ambiente. Ele não sabia ao certo o que estava acontecendo entre as iniciais do grupo, mas existia a possibilidade de Jin deixar o grupo oficialmente e Ueda sabia que o sonho de Kamenashi era o sucesso do KAT-TUN. Com os seis integrantes. Obviamente, Jin estava prestes a quebrar este sonho. As discussões eram constantes e sérias, Ueda fugia para longe delas sempre que podia. Até mesmo porque depois certamente acabaria sendo tão bem informado pelos envolvidos quanto se estivesse presente na discussão.

- Desculpem, alguém poderia mandar Akanishi se calar? Ele está me irritando. Vou sair com rugas nas fotos! – ele disse em voz alta, fazendo todos os presentes rirem. – Estou indo!

- Já devia ter ido! – ainda retrucou Jin, rindo e coçando o nariz.

Ele saiu do camarim improvisado naquele quarto de hotel e seguiu o local das fotos. Maru e Koki estavam no corredor, conversando sobre algumas das piadas que eles estavam pensando em apresentar na próxima turnê. Taguchi estava com eles, rindo das piadas. Maru e Taguchi estavam de costas e Koki virado em sua direção. Assim que o viu, o rapper lançou um sorriso e Ueda fitou o chão e os cumprimentou erguendo a mão.

Koki era alguém que ele não conseguia encarar. Porque ele podia ter essas duas personalidades, uma em que era totalmente viril e a outra em que era gentil e carinhoso, Ueda não conseguia prever qual seria a sua reação. Seu olhar era um enigma e Ueda preferia se precaver. Ele gostava muito de Koki, mas ficava confuso com suas atitudes.

- Ganbatte ne, Ta-chan!

- Arigatou Junno!

Ele não se virou. Junnosuke era uma pessoa envolvida em uma luz brilhante demais, principalmente quando sorria, e isso impedia Ueda de o olhar. Aquela alegria e bondade que emanavam de Junno eram fortes demais para os olhos sensíveis de Ueda. Sua alma certamente seria sugada para essa luz.

Contudo, o olhar mais assustador para Ueda, dentro do grupo, era daquele que se aproximava. Kamenashi sem dúvida era o dono do olhar mais intimidador que Ueda já conheceu. Mesmo Nishikido não possui esse olhar. Os olhos de Nishikido são duros e sarcásticos, é certo que há algo de imponente neles, mas era diferente. Bastava ignorar o moreno para se proteger.

Kamenashi, no entanto, era um olhar que podia ser sedutor, irônico, amargurado e ameaçador. Como se fosse uma serpente, seu olhar se esgueirava até a sua vítima. Por mais que Ueda fosse cuidadoso e o evitava, algumas vezes era impossível. Ele podia envolver sua presa com seu olhar. Koki era sempre hipnotizado pelo olhar de Kame durante os shows. Jin também já sofreu de sua influência alguma vez e se libertou, por isso também Akanishi lhe passava confiança. Se existe alguém que pode roubar sua alma, esse alguém era Kamenashi. E se existia alguém que pudesse protegê-lo, era Jin.

Ele sabia muito bem do poder de Kamenashi pelas poucas vezes em que experimentou olhares mais longos na direção do caçula... Nesses momentos, que pareciam demorar mais do que a realidade, ele sentia que perdia a sua segurança, seu sangue se agitava e seu corpo esquentava de maneira assombrosa. Algumas vezes, durante os shows, quando seus olhos se encontravam por casualidade, Ueda sentia como se o seu coração pudesse romper a sua pele. Ele sabia muito bem o que isso significava. A sua alma estava sendo sugada, obviamente. Por isso, ele tinha que se proteger de Kamenashi.

- Otsukareeee! – Ueda lhe sorriu, mas olhando para as mãos de Kazuya.

- Arigatou... – veio uma voz incerta. – Anooo... Ta-chan...

- Hai?

Eles pararam no corredor, mas Ueda olhava para os pés, um braço esticado rente ao corpo e uma mão, escondida no moletom, sobre a boca. Seu olhar vagueou enquanto esperava que Kamenashi continuasse.

-... Nada... Ganbatte!

- Hai, arigatou!

Ele seguiu o caminho, mas Ueda sentia que continuava sendo observado por Kamenashi. Seu olhar era tão intenso e poderoso que ele podia senti-lo em suas costas, que pareciam queimar. Não deveria se virar para olhá-lo. Sua alma seria roubada!

Sem que tomasse consciência, apressou seus passos curtos, chegando a correr para terminar o corredor.

2

- Ok, terminamos por aqui. Obrigado Ueda-san.

Abriu os olhos lentamente e enxergou o teto branco e o lustre apagado. Ele se levantou da cadeira em que estava fingindo dormir para as últimas fotos. Ele se inclinou para todos e agradeceu pelo trabalho árduo. Enquanto seguia de volta para o quarto em que os outros estavam, ele se espreguiçou e andou com passos largos, exibindo um sorriso satisfeito e contente.

Ele se sentia bem quando terminava algum trabalho. Principalmente trabalho com fotos. Antigamente as pessoas costumavam acreditar que elas roubavam almas. Ueda não gostava muito de tirar fotos, mas se esforçava por causa do seu trabalho. Até porque ele acreditava que roubar a alma estava mais na intenção do fotógrafo, por isso os olhos são mais perigosos que as máquinas.

Quando se aproximou do quarto, escutou as vozes alteradas de Akanishi e Kamenashi. Suspirou e esperou a tensão diminuir lá dentro antes de entrar. Sabia que eles só se exaltaram dessa maneira porque a equipe de maquiagem não devia mais estar com eles, raramente eles discutiam na frente de testemunhas. Jin seria o último a tirar fotos, assim que o trabalho daquela equipe terminou há algum tempo.

Ele se agachou e esperou a brigar passar. Definitivamente odiava essas brigas. Mordeu seu polegar algumas vezes. Não eram brigas produtivas, como as que tinham quando discutiam sobre algum trabalho. Alguma provocaçãozinha imbecil resultou naquilo, ele pode perceber pelo nível das palavras que trocavam entre xingamentos. Por isso, ele não se importava em fugir delas. Também não queria escutá-la, assim que permitiu a sua mente viajar. Ueda tinha um grande poder de concentração, ele realmente não precisava se afastar fisicamente para se manter distante. Tinha o seu próprio mundinho, podia ir e voltar dele quando bem entendesse.

Nesse mundo não havia preocupações tolas, ele podia ficar observando as fadas em um bosque enquanto elas produziam o pó das fadas. Ele gostava dessa cena. Pequenas fadas coloridas envolvidas em um círculo luminoso voavam de um lado para o outro com suas asas finas, transparentes, batendo tão rápidas quanto as de um beija-flor. Elas retiravam as substâncias da natureza e levavam para o céu, onde seria produzido o pó mágico. Algumas vezes, elas cantavam.

Então, o tremor começou. Terremoto. Foi o seu pensamento inicial. Ele piscou e tomou um susto com o rosto curioso de Kamenashi, agachado diante de si com uma mão ainda o sacudindo. Aqueles olhos maliciosos o encaravam de tão perto que Ueda rapidamente sentiu sua alma começar a deixar o seu corpo. Ele caiu no chão e se afastou com algum desespero. Rapidamente desviou seu olhar do caçula.

- Ta-chan... – ele riu – Estou te chamando várias vezes... Está dormindo acordado?

- Bem... – Ueda levou uma mão atrás de sua cabeça, sem jeito, ainda olhando para o chão. – Vocês terminaram a discussão idiota?

- Eh? Isso já foi há uma hora... Akanishi terminou as fotos e eles estão nos esperando para irmos jantar.

- Eh???

Ás vezes, ele se esquecia do mundo real enquanto estava com as fadas. Olhou para a janela e notou que o céu estava numa coloração laranja bem forte. O final da tarde.

- Vamos comer, Ta-chan. – Kamenashi insistiu ainda rindo – Eu gostaria de saber pra onde você viaja quando entra nesse transe...

Kamenashi não poderia saber de forma alguma sobre seu mundo particular. Aquela era a sua defesa. Não devia permitir que logo a maior ameaça de sugar a sua alma descobrisse sobre seu esconderijo.

- Só alguns pensamentos... Esqueça isso. Vamos comer!

Kame assentiu e, então, tomou a mão de Ueda para ajudá-lo a se levantar. Ambos de pé, seus olhos se encontraram automaticamente. Os de Kame sempre mantendo um olhar significativo – mas o que significava, Ueda não sabia realmente dizer e pensava que era melhor não descobrir – e os dele piscaram receosos.

- Ta-chan... Eu...

Não! Ele logo se alarmou. A sua alma seria roubada!

Antes que Kamenashi completasse a sua frase, Ueda deu um pequeno grito assustado, soltou sua mão com um gesto brusco e correu em direção ao elevador no exato momento em que ele abria as portas e revelava Akanishi e Nakamaru.

- Vocês estão demorando demais e...

Jin não terminou de falar porque um vulto invadiu o elevador e ele olhou com preocupação para Ueda, que se encostou no canto do elevador, olhando para o piso enquanto mordia a manga do seu casaco. Franziu a testa, estranhando aquele comportamento, mas não disse nada. Soltou a porta do elevador e se aproximou do Ueda.

- Owe!! – Nakamaru protestou, colocando a mão antes que a porta se fechasse na cara de Kamenashi. – Jin... – ele repreendeu.

- O que é? Não viemos buscar o Ueda?

O caçula apenas entrou silenciosamente encarando Akanishi. As sobrancelhas unidas e aquele olhar de que fuzilaria o outro se tivesse a oportunidade. Seu olhar caiu sobre Ueda, próximo a Akanishi, que estava um passo a frente de Ueda, como se o protegesse. Essa situação apenas o deixou ainda mais irritado.

O elevador começou a descer e o silêncio ali era insuportável. Incrivelmente, a pessoa que havia provocado aquela situação parecia totalmente alheia a ela. Ueda esticou a mão para cima, observando o desenho de uma caveira sobre o esmalte preto em suas unhas e inclinou o rosto para o lado para visualizar melhor.

Maru tentou puxar assunto com todos, mas suas tentativas falharam miseravelmente.

- Moshi, moshi? – ele chegou a dizer. – Tem alguém além de mim neste elevador? Oieee! – ele sacudiu a mão entre o olhar Akame, que pareciam estar duelando em pensamento.

- Você fez alguma coisa para ele. – Jin disse repentinamente.

- Ei, não me ignora! – Nakamaru reclamou.

- Não fiz nada. – Kamenashi disse – Pare com essa mania de acusar as pessoas sem saber exatamente o que aconteceu.

- Ora... Me condena pelo mesmo crime que pratica. – Jin riu de canto e fitou o painel dos botões.

- Isso não tem nada a ver com a nossa briga de antes. – Kamenashi se irritou – Eu não fiz nada. Não é verdade, Ta-chan?

- Sim, ele não fez nada. – Ueda respondeu. Só queria roubar minha alma! E o bico que se formou em seus lábios apenas fez Jin ter mais certeza da culpa de Kamenashi.

- P-por que está fazendo essa cara, Ta-chan? – Kamenashi engasgou – Que diabos, eu só fui chamá-lo porque ele estava preso em pensamentos... De novo!

- Sim, foi isso. – Ueda disse e olhou para o chão.

- Está mais do que evidente que o Tatsuya tá chateado. Porque não admite logo que você encheu o saco dele? Apenas o deixe em paz. – Jin se encostou na parede e olhou para o teto.

- O que diabos eu fiz? Ta-chan?!

- Não é nada. Porque estão criando caso sobre isso?

- Porque alguém tem que tomar conta de você! – Jin explicou rindo.

- Ok, mas me desculpe em dizer isso... Não quero que logo você tome conta de mim. – Ueda disse, rindo, e olhando para Jin. – Em todo caso... Vamos esquecer tudo isso. Nada aconteceu.

- Então porque você não olha pro Kame? – quis saber Jin – Você é tão transparente... Nem ao menos consegue olhar pra ele. É claro que ele fez alguma coisa.

Kamenashi ficou em silêncio, mas seu rosto demonstrava claramente a sua insatisfação. Porque tinha que ser logo Akanishi a jogar em sua cara que Ueda estava incomodado com ele? Kamenashi sabia disso. Ueda estava magoado com ele, mas não fazia ideia do que poderia ter feito. Estava tentando conseguir um momento para discutir sobre isso, queria esclarecer a situação, mas daí Akanishi se intrometeu. Maldito Jin!

- Não é nada... – Ueda insistiu e dessa vez olhou para o visor acima da porta. Mais dois andares e estariam no estacionamento. Esperava que o assunto morresse quando a porta se abrisse.

- Realmente? – quis saber Nakamaru. – Já chega de climas estranhos no grupo e sim, estou dizendo isso por causa de vocês dois. – ele lançou um olhar enfezado para Kamenashi e depois para Akanishi – Chega, está bem?

- Hai, okaasan~...

Kamenashi e Akanishi se olharam depois da resposta sincronizada. Jin coçou o nariz e mal segurou o riso. Kamenashi movimentou a língua dentro de sua boca tentando abafar a sua própria risada.

- Então é isso? – Maru perguntou – Se é para me zoarem, vocês dois voltam a se dar bem? Entendi. Então voltem a brigar!

Mas Nakamaru também não pode deixar de rir. Ueda exibiu um largo sorriso com essa cena. Em alguns raros momentos eles ainda podiam agir como os meninos que haviam conhecido em 1998. Estava rindo com eles quando se descuidou e olhou para Kamenashi, que o estava observando. Ueda piscou repetidas vezes e quando a porta se abriu, ele saiu correndo.

3

Ele se inclinou, puxando todo o cinto de segurança com seu corpo, para conseguir olhar de perto no retrovisor. Ele viu Akanishi voltando correndo carregando duas sacolas, uma em cada mão, e mantendo o cigarro preso em seus lábios. Abriu a porta do motorista e lhe entregou uma sacola. Deixou a sua sobre o banco.

- Hum... Tá cheirando bem. – ele disse e sorriu.

Akanishi apenas o observou e deixou escapar um suspiro incrédulo. Se o humor de Kamenashi era inconstante – como Jin alegava ser e dizia que o caçula vivia em uma espécie eterna de TPM masculina – para o humor do Ueda simplesmente não existiam leis. Era uma pessoa sensível e podia se ferir com as palavras que lhe dirigiam, mas podia se mostrar feliz com pequenas coisas que ninguém mais realmente se importava nos dias atuais. Como uma brisa suave fazendo cócegas em seu nariz ou um sabor da infância. A textura de uma toalha após um show esgotante. Achar dinheiro na rua. Não que ele fosse avarento, mas porque era um sinal de sorte. De alguma forma, ainda existia algo em Ueda que merecia ser protegido, embora Jin não pudesse realmente explicar o que era.

Apagou o seu cigarro num cinzeiro de chão e voltou para o carro. Colocou o cinto e ajustou o espelho. Ele sempre se policiava ao máximo quando estava com Ueda para que o deixasse à vontade. Era um impulso que vinha junto com o desejo de protegê-lo.

- Vamos para minha casa ou para sua? – perguntou, enquanto guiava para fora do estacionamento daquele restaurante.

- A minha. A sua está uma bagunça. – Ueda respondeu tranquilamente enquanto ainda mantinha o rosto baixo, aspirando o odor da sacola. – Eh... O Yakissoba daqui é o melhor...

- Como você sabe que minha casa tá bagunçada? Faz tempo que não vai lá.

- Mas é a sua casa. – ele respondeu, desta vez virando o rosto para Jin, que já estava segurando o riso. – Ela nunca está organizada.

- Mentira. Quando o Pi vai lá, ela fica organizada... Ou algo perto disso.

- De qualquer forma, minha casa tá mais perto.

- Hai! No final... Somos você e eu. Acho que realmente nunca sairemos para nos divertir como KAT-TUN.

- Você está incomodado com isso?

- Não, realmente não. Já vejo a cara de vocês por mais tempo que eu desejaria.

-... Mentiroso.

- Owe... Estou sério.

- Mentiroso.

- Cale a boca.

- Você gosta de nós, admita. Ou não teria voltado para o grupo. – ele disse de forma triunfal.

- É... Eu não teria voltado... Demo ne, Tatsuya... Isso não vai durar muito tempo.

- Eu sei...

Jin o olhou. Ueda havia virado o rosto de novo para a frente, mas mantinha um sorriso.

- Enquanto Jin for o Jin... Ficará tudo bem.

- O que está dizendo? – ele riu – Eu não entendo isso.

- Você não entende nada.

- Owe!

4

Kamenashi colocou o copo sobre a mesa. Estava em um bar com Maru e Koki. Após o jantar, Junno foi embora. Akanishi e Tatsuya foram embora juntos antes do jantar porque, depois que desceram do elevador, Akanishi veio lhe bronquear novamente e Kamenashi não segurou a língua. Não era para ter terminado assim. Akanishi conseguia estragar tudo. Sempre.

Porque aquele imbecil ainda tinha alguma influência sobre Tatsuya? Não entendia como Tatsuya, mesmo sabendo que a saída de Akanishi estava próxima, conseguia manter a sua tranqüilidade e nem ao menos questionar os planos de Akanishi. Até mesmo Junnosuke havia tido uma conversa séria com aquele desmiolado. E Tatsuya se manteve calado quando soube. Apenas olhou para Jin e sorriu.

Porque Tatsuya olhava Akanishi nos olhos e fugia dos seus? O que tinha feito de errado? Queria poder se desculpar se ao menos soubesse a razão para isso. Mas Ueda não lhe contava nada. Apenas fugia. Nunca seria capaz de entendê-lo como Akanishi conseguia. Bem... Para alguma coisa aquele imbecil tinha que servir.

- Ficar remoendo essas coisas não vai adiantar, Kame-chan! – Koki lhe disse, próximo ao seu ouvido, quando jogou um braço sobre seu ombro. – Não esquenta.

- De verdade... Eu não sei porque Tatsuya está bravo comigo! Nunca mais discutimos ao ponto de chegar à agressão física e entendemos que é sempre em prol do grupo, ainda que tenhamos visões bem diferentes...

- Não esquenta... – Koki repetiu e lhe sorriu mostrando os dentes.

- Você... Já tá bêbado!! – Kame resmungou, mas riu em seguida. – Né, Maru? O que eu fiz de errado? – e ele exibiu o seu bico.

- Você devia conversar direito com ele... Eu não sei de nada. – Maru sacudiu os ombros.

- Como posso conversar com ele se o cão de guarda me impede?

- Então peça ao Jin para lhe dar um tempo. Que você vai apenas conversar com ele. – explicou o mais velho pacientemente.

- Não farei isso. Não posso fazer isso. – ele cruzou os braços, emburrado. Não era apenas Koki quem já estava bêbado.

- Certo. Fiquem nessa besteira até o final da vida de vocês. Não vai conseguir falar com o Ta-chan porque o Jin não deixa porque vocês estão brigados e guardando rancor sabe-se lá do quê e há quanto tempo. Excelente decisão, líder!

- Não sou o líder. O líder é o Tatsuya.

- Às vezes penso que essa falta de um líder oficial nos deixa realmente sem rumo. – suspirou Maru.

- Então seja o líder voc...

- Não, obrigado! – ele nem pensou duas vezes em refutar a proposta de Koki, o que apenas fez os dois rirem.

5

- Você vai morrer! Olha o tamanho da minha varinha! Socorro, socorro!

- Jin, se você quebrar meus bonecos de coleção do Harry Potter... Você sabe que corto o teu saco da forma mais lenta e dolorosa que for possível. – Ueda disse, sorrindo e piscando para o mais novo.

Jin, deitado de barriga, olhou para cima, para Ueda, e fez um bico. Sabia que seu rosto manhoso, com o cabelo cobrindo-lhe parcialmente a face direita, era adorável. Mas nunca funcionava com Tatsuya. Levantou-se do chão recolocou os bonecos na estante e fez cara de bom menino para ele. Depois que seus preciosos bonecos da Hermione e do Harry estavam de volta em seus lugares, Tatsuya contornou Jin e se sentou no chão de pernas cruzadas para ligar a TV. Jin sentou ao seu lado e, pouco depois, deitou-se com a cabeça repousada em uma almofada no colo do outro.

Na televisão estava passando alguma série americana, que era a preferida de Jin, mas ele manteve-se calado e Tatsuya olhou para baixo. Jin o observava com uma expressão séria e isso o alarmou.

- Nani?

- Porque você tá fugindo do Kame?

E se tinha algo que aquela honestidade em Jin lhe incomodava era isso. O mais novo não sabia nada sobre etiqueta e como entrar em assunto de forma delicada. Ele tinha essa personalidade e falava o que pensava sem nenhuma peneira. Isso estava lhe rendendo cada vez mais problemas, mas, ainda era algo que Tatsuya julgava que se podia classificar como uma qualidade.

- Não estou fugindo. Como posso fugir de alguém do grupo? Nem que se eu quisesse.

- Só que você sempre parece incomodado quando o vê... Aconteceu alguma coisa?

- Anooo... Sobre isso...

Jin o olhou ansioso pela resposta. Ueda olhou para o teto, refletindo. E em seguida começou a falar. Enquanto contava, sentia-se constrangido. Certamente Akanishi consideraria os seus temores uma bobagem sem tamanho. Ele diria para deixar de lado essas histórias bobas e provavelmente riria da sua cara. No entanto, quanto mais contava, mais Akanishi se mostrava interessado.

Não riu uma vez sequer.

6

Kamenashi piscou quando o viu caminhando a passos rápidos e fortes em sua direção e ficou desconcertado. Sua mente procurou por algum motivo que pudesse ter deixado Akanishi zangado daquela forma. Automaticamente, fechou seu punho, preparando-se para se defender e contra-atacar, caso fosse necessário.

No entanto, Akanishi parou diante de si, tão perto que Kamenashi pode sentir a sua loção pós-barba e a temperatura de seu corpo, e não disse nada, apenas o encarou e bateu suas mãos na penteadeira que havia logo atrás dele, mantendo-o preso dessa forma. Akanishi o olhava diretamente em seus olhos com uma expressão séria e, de certa forma, ameaçadora. Kame piscou e entreabriu os lábios, querendo dizer alguma coisa, mas não sabia muito bem o que deveria dizer.

Jin, então, estreitou o olhar, como se o analisasse ou estivesse procurando algo dentro dos seus olhos. Ficaram assim por algum tempo. Nem mesmo com a chegada de Koki e Maru, Akanishi se moveu. Ele simplesmente os ignorou.

- O que tá acontecendo? Vocês tão brigando? – Maru estranhou.

- Como eles podem estar brigando nessa posição? – Koki lhe bateu na nuca, rindo.

- Bem... Esses dois tão próximos assim, você pode separar que sempre vai ser briga! Hey, Jin! Diga alguma coisa! Kame?

- Eu... Não... Sei... – foi a resposta cautelosa de Kamenashi. – O que você quer afinal, Akanishi?- e ele começava a se irritar.

- 1...

- 1?? – repetiram Kame e Maru.

- Porque 1? – perguntou Koki.

- 2.

- 2??

- 3...

- Você tá bêbado?? – Kamenashi começou a se enfezar.

- 4...

- Eu já falei pra você não vir aos ensaios desse jeito, seu imbecil!

- 5...

- O que diabos você tá contando? – Maru perguntou.

- 6...

-...

- 7...

- Endoidou de vez... Eu falo para vocês pararem de bater na cabeça dele, eu falo! – comentou Koki, cruzando os braços e encostando-se à parede apenas esperando o final daquela cena.

- 8...

Kamenashi estava nervoso e preenchia a bochecha com a língua para demonstrar sua insatisfação.

- 9... 10.

Jin fez uma expressão confusa. Inclinou o rosto para o lado, pensativo. Depois, se endireitou e tateou o corpo sob os olhares cada vez mais curiosos dos outros.

- EU DISSE!! – ele gritou, assustando a todos, principalmente a Kamenashi.

- Maldito... – resmungou. – Não grite na minha cara...

- Há, eu bem disse!! Eu te venci, Kamenashi Kazuya! — Jin reforçou, erguendo os braços para cima, vitorioso, dando as costas para um Kamenashi completamente confuso.

- Nani? Afinal, o que está acontecendo?! – Maru insistiu.

- A minha alma continua comigo. – ele respondeu e depois deixou o camarim.

Um silêncio opressor tomou conta do ambiente. Maru levou uma mão à boca e levantou as sobrancelhas, resignando-se ao fato de que a sanidade de Jin estava definitivamente perdida. Koki manteve uma expressão confusa e ainda olhando para a porta piscou diversas vezes. Kamenashi manteve a boca aberta e uma mão erguida, assim como o seu indicador, como se fosse dizer algo, mas logo se conformou de que jamais em toda a sua vida seria capaz de entender Akanishi Jin.

7

- Você o que???????

Tatsuya parou o movimento de vestir a camiseta e olhou assustado para Jin, que, encostado no armário vizinho ao de Ueda no vestiário, exibia um sorriso vitorioso.

- Olhei para o Kame mais de dez segundos e minha alma continua comigo. – ele sacudiu a cabeça para enfatizar o que dizia.

- VOCÊ É IDIOTA??

Jin estremeceu com o grito e piscou.

- Isso foi muito perigoso!!!

- Não foi nada, estou aqui, não estou?

- Mas podia ter perdido a sua alma... Não faça as coisas sem pensar. – ele reclamou, demonstrando que estava mesmo preocupado. – E você contou a eles o motivo?

- Não sou idiota a esse ponto. – afirmação esta que fez Ueda o olhar com deboche – Não ia revelar o seu segredo. É a sua forma de se proteger, não é? Em todo caso, você não precisa mais ficar com medo do Kame. Ele não é tão poderoso quanto você imagina.

Ueda o olhou em dúvida.

- Bem... Nunca conheci alguém que perdeu a alma antes o que significa que não sabemos como é quando isso acontece. Você pode ter perdido a sua alma e nem ao menos ter se dado conta.

- Eh... Eh?! Não... Eu sei que não. Sou eu, Akanishi Jin! – e ele sacudiu a cabeça, confirmando o que dizia, como se isso fosse um argumento irrefutável.

- Isso vamos ter que observar... Mas, mesmo que não tenha perdido a sua alma, isso não significa que vai ser o mesmo comigo. Não sou tão forte quanto você, Jin.

- Ora, o que está dizendo?

- Você sentiu alguma coisa enquanto o olhava?

- Nada. Bem... Talvez vontade de rir... Sabe... Tava o Koki e o Maru na sala e eles não paravam de falar e eu não conseguia me concentrar. E o Kame tava bravo. Ele faz aquela expressão que sempre me dá vontade de rir.

Ueda sacudiu a mão, impaciente.

- Não. Eu me refiro ao seu coração. Ele bateu mais rápido? Você sentiu seu sangue esquentar e começar a perder a firmeza no corpo? Suas mãos ficarem trêmulas?

- Não senti nada disso.

- Pois esses são os sintomas que eu tenho quando olho para o Kazuya e minha alma começar a ser sugada.

- Isso é assustador...

- Eu sei muito bem disso! É o que eu estou te dizendo! Isso é perigoso, você se arriscou demais! Você poderia ter tido a sua alma roubada e...

- Não é isso!

- Hã?

- Você tá apaixonado pelo Kame e isso é assustador! Ahhh que nojo, Tatsuya!! – Jin fez uma careta e lhe deu as costas – Porque você foi se apaixonar pelo segundo cara mais insuportável do planeta?! Só seria pior se fosse pelo Tegoshi. Aquele cretino fica rodando o Pi como formiga em volta do doce. Do MEU doce. Tenho vontade de lhe chutar o traseiro toda vez que ele se esfrega no meu Pi e...

Ueda piscou. Mordeu o lábio inferior, olhando para o lado, pensativo. E já não escutava Bakanishi. Porque, pela primeira vez na vida, o mais novo havia lhe dito algo que fazia algum sentido. Mas Tatsuya pensou que agora ele estava mais enrascado que antes. Como ele poderia ter certeza de que estava apaixonado? E de que aqueles sintomas não eram da sua alma sendo sugada?

E, afinal, o que seria pior? Ter a sua alma roubada ou estar apaixonado por Kazuya?

8

Havia algum tempo até o próximo compromisso ele aproveitou o momento para tomar um pouco de Sol no jardim da agência. O prédio, por causa do ar-condicionado, estava uma verdadeira geladeira e Kamenashi precisava se aquecer um pouco. Sentou-se no gramado, enquanto fumava. Ele não percebeu que estava sendo atentamente observado.

Ueda se encostou atrás de um pilar e olhava para a figura de Kamenashi, que parecia reluzir debaixo do Sol. Pouco depois, surgia Jin com seus óculos escuros, logo atrás, apoiando-se nas costas de Ueda para poder enxergar também. Depois cutucou o mais velho.

- Agora é a sua chance!

-... M-minha chance do que?

- Ora, de descobrir. Vá lá e o encare por mais de dez segundos. Se sua alma não sucumbir, a resposta é que você tá apaixonado.

- Eh??? Eu não vou fazer isso. E se minha alma ‘sucumbir’, e obrigado por usar um termo pouco sombrio, o que vai acontecer comigo?

- Ué, vai morrer. Como alguém pode viver sem alma? Vai lá!!

- Não, eu não quero!! – e ele tentou se virar e fugir, mas Jin lhe segurou pela gola.

- Ora, deixe disso! Como se eu pudesse deixar você morrer assim! Se algo estranho acontecer com você, pode deixar, eu quebro a cara do Kame... Agora vai lá!!!

E sem um pingo de consideração, característica marcante em Akanishi, ele o girou e apoiou o seu pé com o coturno que usava na bunda de Tatsuya e o empurrou com toda a sua força. Despreparado, o boxeador cambaleou por vários passos e não evitou um pequeno grito que chamou a atenção de Kamenashi. Akanishi foi rápido em se esconder atrás do pilar. Ueda não pode fazer nada além de permanecer parado na posição em que estava.

- Ta-chan? – Kamenashi o olhou com curiosidade e desconfiança, mas depois sorriu. – Também veio tomar um pouco de Sol?

- Ah... É... Tá frio lá dentro né?

- É... Vamos, sente aqui. – ele bateu no chão ao seu lado.

Nervoso, Ueda hesitou, mas logo se arrependeu por isso ao pensar que certamente Kamenashi estaria achando sua atitude estranha. Apressou-se em sentar no lugar indicado pelo mais novo e sentou completamente tenso ao seu lado. Olhou para frente o tempo todo e pode sentir os xingamentos que Akanishi estaria lhe dirigindo naquele momento. Arriscou-se a olhar para trás e o viu movimentando as mãos, como se estivesse falando para agir logo.

Jin, seu cretino! Estou com muito medo agora!! Porque eu fui lhe dar ouvidos?

- Anooo... Tatsuya...

Não, Jin tem razão... Eu preciso descobrir o que é isso logo o que eu sinto... Seja o que for... Preciso descobrir. Agora é a minha chance!

- Un?

- Anooo... Você... Bem... Eu queria te perguntar uma coisa. – e ele encarou o mais velho.

Oh, puta merda! Ele tá me olhando, ele tá me olhando... Meu corpo está começando a esfriar e a tremer! Estou com tanto medo que meu coração já tá a mil por hora... Ganbatte, Tatsuya e...

- ITTE!! – Ueda gritou quando uma pedra atingiu sua mão. Olhou enfezado para o pilar.

- Eh... Nani? O que aconteceu?

- Aquele pilar maldito!! Vou pegá-lo mais tarde!! – ele gritou.

Kamenashi olhou para seu amigo. Tatsuya estava definitivamente muito estranho.

- O que o pilar... O pilar te fez algo? – não fazia nenhum sentido o que Ueda estava dizendo.

- Ah, esqueça isso! – ele sacudiu a sua mão direita.

- Você está bem?

- Estou sim, é só que o cretino... – e, irritado com Jin, ele se esqueceu por um momento de tudo e virou o rosto para Kazuya.

Seus olhos finalmente se encontraram e as palavras se perderam na boca de Tatsuya. Estava encarando aqueles olhos estreitos e rasgados de tão perto que seu rosto inteiro ardeu em chamas. Por sorte, sua pele era mais morena e dificilmente podia se notar o rubor em suas faces.

1... Está começando... 2... Não consigo parar de olhá-lo... 3 É perigoso, eu tenho que fugir... 4... Mas... Kame é tão bonito... 5... Seu olhar faz meu coração vibrar... 6... Minhas mãos estão geladas... 7... É perigoso demais... 8... Eu preciso... 9 FUGIR!!!!!!!!

Ele quebrou o contato visual no último segundo, levantou-se, e saiu correndo gritando. Kamenashi permaneceu parado com a mão estendida no ar, estava tão próximo de tocar o rosto do mais velho... Ele estava surpreso com a reação de Tatsuya. E confuso. Ele, definitivamente, não conseguia entendê-lo.

Kamenashi, no entanto, voltou a si quando reconheceu o rapaz que estava se aproximando a passos largos e aquela postura arrogante. E, por instinto, levantou-se quando Jin já estava perto demais. Ele segurou em sua gola e Kamenashi o encarou.

- O que diabos você pretende com Tatsuya? – ele forçou sua voz a sair mais rouca e ameaçadora, usando termos pouco respeitosos.

- Isso não é da sua conta, seu cretino. – ele respondeu no mesmo tom de voz e, por um momento, a realidade se confundiu com o dorama Gokusen. Parecia mais um confronto entre Hayato e Ryu.

- É melhor ficar longe dele!

- O que é? Está com ciúme?? Não devia se preocupar com Yamapi ao invés de Tatsuya?

A mente de Jin sempre se enchia de fumaça quando o assunto era Tegoshi e Yamapi. E Kamenashi sabia disso.

- Eu devia ter batido naquele nanico quando tive a chance naquela balada!

- Sim, você devia. – Kamenashi concordou, amansando a sua voz porque Jin tinha caído na sua conversa.

- Ele é um filho de uma puta!

- Ele é sim. – e pegou os dedos de Jin em sua gola e os abriu para que o soltasse.

- Ora, porque ele tem que ficar dizendo por aí que o admira desde sempre? Ele está me provocando!!

- Sim, ele está. E se eu fosse você, daria uma lição no Tegoshi.

- Não é? Eu devia mesmo! – Jin colocou a mão no queixo, pensando seriamente naquela proposta.

- Porque não aproveita que eles estão no camarim agora? Só os dois...

- Sim, eu vou lá e... Só os dois??? Porque só os dois?? O News não é um grupo de 6? Tem que ficar os seis juntos o tempo inteiro!! – e ele deu as costas para Kamenashi e correu para dentro do prédio.

- KAT-TUN também é um grupo de seis e nem por isso ficamos juntos o tempo inteiro, seu imbecil. – ele rosnou enquanto via Jin cada vez mais distante – Alias, por culpa sua nunca fomos capaz de uma reunião em grupo sequer. – chutou uma pedrinha próxima.

Ele girou e logo se esqueceu de Akanishi. Precisava correr atrás de Ueda. Tinha uma forte suspeita de que a mente distorcida de Jin estava influenciando as atitudes esquisitas de Tatsuya. Precisava corrigir isso o quanto antes.

9

No terraço da agência, Tatsuya recuperava aos poucos a razão e o fôlego. Ali, sozinho e seguro, ele podia tentar pensar com mais calma. O primeiro pensamento que lhe veio foi que Jin era um idiota e ele, um imbecil por dar ouvidos a um idiota. Agora havia provocado Kamenashi e, conhecendo-o, Tatsuya sabia que o caçula não sossegaria até descobrir o que tinha sido aquilo tudo.

E, quando isso acontecesse, Tatsuya tinha certeza de que estaria perdido. Quando Kamenashi soubesse de toda aquela história, ele tinha certeza de que zombaria do seu medo. Kamenashi era cético e jamais acreditaria nessa coisa toda de alma roubada. E com relação a estar apaixonado por ele, certamente Kamenashi diria que estava envolvido com alguém. Ele sempre estava com alguém, afinal. Era incrível como a mídia nunca conseguia flagrá-lo em algum encontro romântico. Ou alguma ida a um motel. Se Kamenashi soube aprender algo – e muito bem – por ter entrado tão cedo no mundo do entretenimento foi justamente como driblar a imprensa e os paparazzos. Só eram divulgados momentos em que ele queria que fossem divulgados. Uma fofoca aqui e outra ali apenas para manter a imprensa e os fãs ocupados.

Isso porque Kamenashi era alguém extremamente metódico. Ueda não tinha a mesma paciência para pensar em planos e estratégias com relação a sua vida particular. Por isso suas fotos com Oomasa Aya foram divulgadas facilmente. Não se importou muito com isso e Aya-san também não. Eles não levaram o romance adiante, não combinavam.

Ele não era alguém que definia o amor como algo sexual. Ele achava que o amor estava acima da questão de gêneros e, por isso, a sugestão de Jin de que estivesse apaixonado por Kazuya não o assustou. Ele já tinha se apaixonado por outra pessoa do mesmo sexo no passado, embora também não tenha dado certo. O assustava mais o fato de ser Kazuya. Porque ele tinha uma personalidade assustadora. E aquele olhar...

Ueda se aproximou do muro do terraço e apoiou seus braços ali. Fechou os olhos e sentiu a brisa brincar com a sua franja. Isso sempre o acalmava, o contato com a natureza. Respirou fundo e pensou que seria um bom momento para se encontrar com as fadas. Precisava de um lugar bonito e tranquilo para pensar adequadamente na confusão que estava os seus sentimentos.

Ele percebeu a mudança aos poucos. Primeiro, o som dos corvos foi se diminuindo lentamente até que tudo se calou para, em seguida, começar a escutar uma música mais delicada. As fadas estavam cantando. O aroma também estava sendo modificado. Tatsuya sentiu o perfume adocicado que vinha do pó mágico. Ele já não estava mais no prédio da agência. Estavam em um bosque e centenas de fadas estavam voando na direção do céu.

Sentiu-se feliz.

Agora ele podia pensar em seus sentimentos. Andou alguns passos pelo bosque e notou a figura esguia de Kamenashi, usando um camisão branco de linho com figuras que lembravam art nouveau bordadas em fita de cetim perolado. Ele estava descalçado e parecia dançar com as fadas, suas mãos se movimentavam gentilmente acima de sua cabeça enquanto rodopiava.

Ele que havia acompanhado o crescimento de Kazuya não podia negar que o caçula havia se tornado em um homem muito bonito. E que se era dono de um gênio difícil, por outro lado, não havia pessoa mais determinada em conquistar seus objetivos. E isso era algo atraente. Kazuya tinha tanta confiança em si que exalava conforto e segurança a quem estiver com ele. A quem for seu aliado. Isso era algo que chamava a sua atenção. Ele gostava desse calor em Kazuya.

Mas aqueles olhos...

Aqueles olhos lhe despertavam sentimentos que não lhe deixavam confortável. Sentimentos que embaralhavam sua mente e era impossível raciocinar. E isso é algo que o deixa simplesmente amedrontado...

Contudo... Se Kazuya o protegesse... Tudo ficaria bem... Não ficaria?

E, de repente, o céu escureceu e um raio cortou as nuvens. As fadas se agitaram e o pânico surgiu entre elas. Tatsuya se alarmou, não entendia o que estava acontecendo. Foi quando uma mão se apoiou em seu ombro e ele se virou para trás.

Kazuya estava ali, usando roupas negras e o fitando com aquele olhar avermelhado...

10

Kazuya realmente se preocupou quando o rosto de Tatsuya se alterou. Ele parecia assustado e o caçula queria entender a razão para isso. Sabia que o boxeador se assustava facilmente porque era uma pessoa distraída. Mas o medo deveria ter passado assim que ele o reconheceu, Kame pensava. Ao contrário, Tatsuya parecia que tinha se assustado ainda mais quando percebeu que era ele.

- Tatsuya...

- K... Kazuya...

— O que está acontecendo, Tatsuya? O que diabos o Jin falou pra você agir dessa forma comigo?!

Ele fitou o chão, mas não podia disfarçar o seu alarde. Kazuya, o real e não a imagem idealizada que estava dançando com as fadas, havia entrado em seu mundo particular, como isso era possível? Isso significava que seu mundo estava perdido?

- Tatsuya, seja lá o que for... Não acredite nele antes de conversar comigo. – Kazuya o tocou nos braços, queria que ele lhe encarasse, queria uma conversa sincera com Tatsuya.

Tatsuya tentou se desvencilhar daquelas mãos porque sabia a intenção de Kamenashi. Ainda não estava totalmente recuperado da sua última tentativa em encarar aqueles olhos maliciosos e espertos. Não estava pronto para isso. Tentou resistir, mas Kazuya o segurou com mais força, e ele teve que se esforçar mais e tudo o que conseguiu foi levar a ambos para o chão.

Com Kazuya por cima dele, Tatsuya fechou os olhos rapidamente. Pediu socorro mentalmente para as fadas, mas sabia que elas estavam enfraquecendo com a presença de Kamenashi em seu território. Podia ver os pontinhos brilhantes perdendo as suas luzes...

- Não! – disse alto e sem pensar.

- Gomen, Tatsuya! – Kamenashi se apressou. – Eu só queria entender... O que está acontecendo?

Algo no tom de voz de Kazuya o condoeu. E ele pensou que estava sendo injusto com o caçula. E com Jin também. Porque Kazuya estava culpando Jin por suas ações. Poderia ser perigoso, mas talvez fosse o mais certo deixar Kazuya saber por que estava sempre fugindo. Talvez fosse a hora de abrir o jogo e enfrentar o seu inimigo de uma vez por todas. Mesmo que corresse o risco de perder a sua alma. Ou o seu coração. Mas precisava encarar o fato de que não poderia fugir para sempre...

- A minha alma... – ele começou, ainda de olhos fechados. – Você... Quer roubá-la? – e ele finalmente olhou para Kamenashi.

Kazuya não respondeu e manteve o contato visual. Percebia o quanto Tatsuya estava se esforçando para lhe encarar. Ele não tinha entendido muito bem essa história sobre a sua alma. Mas Jin havia dito algo sobre isso também quando o encarou sem razão alguma. E Kazuya tinha a leve impressão de que eles estavam falando literalmente sobre roubar almas.

- Eu quero... – as palavras escapuliram dos seus lábios sem que pensasse direito sobre elas. – Eu quero roubar a alma do Ta-chan.

- Isso... – e ele começou a se agitar.

Kazuya segurou seus braços com mais firmeza e, estando por cima, tinha maior controle sobre a mobilidade dele. Conseguiu segurá-lo e disse, antes que ele desviasse o olhar.

- Por que Ta-chan já roubou a minha.

-... Eh?

Aquela declaração despertou a sua curiosidade. Piscou repetidas vezes, mas não quebrou o contato com Kazuya. Queria saber se tinha entendido o significado daquelas palavras. Poderia o mais novo estar apaixonado por ele?

- Assim... – ele continuou, a voz mais rouca. – Não é justo que Ta-chan me entregue a sua alma também? – ele perguntou, a voz mais baixa e devagar. Um sorriso carinhoso junto com um olhar apaixonado.

Esse olhar... Não lhe dava medo, Tatsuya percebeu. Seu corpo esquentou, mas, desta vez, era um sentimento mais carinhoso, não havia aquela malícia costumeira dentro dos olhos rasgados, que estavam brilhantes agora. Os olhos de Kazuya eram tão bonitos e ele não conseguia se desprender... Sentiu cócegas em sua barriga quando a mão macia tocou-lhe a face.

- Mais de dez segundos... – ele murmurou –... A minha alma não foi sugada... – e ele sorriu para Kazuya.

- Nunca faria nada que não fosse da sua vontade, Tatsuya. – Kazuya explicou, aproximando seu rosto e fechando os olhos antes deixar seus lábios caírem sobre os dele.

O beijo foi delicado e, aos poucos, o controle foi retornando para Tatsuya. Seu coração foi retornando ao compasso habitual, seu corpo já tinha se acostumado àquela temperatura, e ele não tinha mais a impressão de que sua alma estava sendo sugada.

Ele abriu os olhos e notou um pequeno círculo dourado pousando no ombro de Kazuya. A pequena fada ria envergonhada e piscou um olho para ele.

- Uruseee~

- Mas eu não disse nada. – Kazuya disse, mas não se importou em tentar entender o mais velho. Ele o amava desse jeito maluquinho que Tatsuya era. Ele riu e Tatsuya riu com ele.

Ele ainda acreditava que existiam pessoas que podiam roubar as almas das outras através do olhar. Mas agora já não precisava mais ter medo. O olhar de Kazuya era suficiente forte para roubar sua alma de volta, caso estivesse em perigo. Assim que precisava apenas se manter na companhia do caçula.

11

Ele coçou o rosto. Jogou a boca para um canto, depois para o outro, e por fim voltou a olhar para o rapaz desmiolado que falava sem parar por quase uma hora. A sorte era que ambos estavam com tempo livre, mas Yamapi preferia gastá-lo de outra forma. Assim que pensou que precisava interromper o falatório de Jin, que ainda continuava agitado sentado no outro sofá, à sua frente.

-... Jin, meu querido... – Ele disse quando conseguiu uma brecha para ter a atenção do rapaz. – Eu acho muito válido você contar o que te incomoda, você sabe que eu prefiro as coisas as mais transparentes possíveis entre nós. — Principalmente porque você é um idiota que acredita em tudo que te falam e eu preciso estar sempre limpando as minhocas dentro da sua cabeça. – Mas, se posso fazer uma observação... Porque diabos você deu ouvidos ao... Kamenashi? – perguntou, tentando conter uma risada.

Se Kamenashi sabia que para desviar a atenção de Akanishi era apenas atiçar o seu ciúme, Yamapi também sabia que para encerrar uma discussão com seu namorado bastava apelar para a rivalidade que ele tinha com a inicial do KAT-TUN. Por mais que fosse uma atitude repreensível, Yamapi se divertia em jogar ping-pong com Kamenashi usando seu namorado.

Jin se calou e levou uma mão ao queixo, inclinando o rosto para o lado, pensativo. Yamapi apenas esperou pacientemente. Demorou alguns minutos até que ele exclamasse, indignado:

- O Kame me enganou!!!!!!!!

E ele levantou do sofá do camarim do NEWS com um pulo.

- Sim, ele te enganou.

- É um cretino!!

- Ele é sim.

- Ele vai me pagar, vou chutar-lhe o traseiro para bem longe do Ta-chan e...

- Sim, mas não agora. – Yamapi disse, firme, e puxando Jin pela mão para que ele caísse em seu colo. – Agora você tem que se desculpar por ter desconfiado de mim.

- Gomen ne, Pi? – e ele fez o seu melhor rosto inocente.

- Baka, só isso não vai resolver nada. – ele disse, bravo.

- Eh? O que eu posso fazer, então? – Jin se assustou com o tom na voz de Yamapi.

O integrante do News, então, sorriu, empurrou Jin para que se levantasse e, em seguida, levantou-se também e guiou o mais velho até o banheiro. Trancou a porta. O raciocínio lento de Jin sempre provocava algumas discussões desnecessárias, mas também tinha as suas vantagens para Yamapi...

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!