Não Posso Deixar De Respirar.
4 Deixando o lar...
Notas iniciais
— Emily! — Toby gritou e 3 segundos depois a garota já estava na porta da casa com uma mochila no ombro. Ele a puxou para dentro da sala, ela deixou que a mochila caísse ao chão e eles se abraçaram por um longe minuto. Logo Toby pôde perceber que ela estava chorando, ele a soltou do abraço e limpou uma lágrima que escorria pelo seu rosto, porém logo escorreram mais duas.
— Meu pai — Emily tentou dizer, mas foi interrompida por um soluço — estava doente e... — mais um soluço — morreu no hospital.
— Eu sinto muito. — Toby disse sinceramente, a envolvendo em seus braços de novo. Partia-lhe o coração ver Emily chorando, sua voz embargada e entrecortada por soluços, seus grandes olhos castanhos ganharam grandes olheiras em volta. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo que pendia quase na cintura, e Toby também percebeu que ela estava 2 cm mais baixa que ele, sendo que da última vez que se viram (antes do apocalipse) ela era mais alta, tendo 17, e Toby 14. E como se fosse mais velho a abraçou fraternalmente até que ela se acalmasse um pouco.
— Vou pegar água pra você. — Toby disse, indo pra cozinha enquanto ela se sentava.
— Obrigada. — Emily disse, secando as lágrimas, agora que já conseguia falar normalmente. — Minha mãe...Ela foi visitar meu pai, sabe...E não voltou mais. Eu adormeci, e acordei dias depois, segundo meu celular — ela deu um meio sorriso — que eu descarreguei todo ouvindo música e tentando aceitar toda essa loucura. E acho que não vou conseguir me desfazer dele — disse tirando o celular do bolso e o guardando na mochila. — Aliás, tenho a impressão de que você quer saber o que tem na mochila.
— Você acha? — Disse Toby, sarcástico. Emily sorriu fracamente e abriu a bolsa. Dentro haviam no mínimo 5 armas pequenas, algumas facas e munição embrulhadas em roupas, também tinha um pacote de salgadinho que ela ofereceu à Toby, que começou logo a devora-lo.
— Onde conseguiu? — perguntou o garoto, com as sobrancelhas arqueadas de surpresa.
— Delegacia, perto da minha casa, perto da minha casa. Estava tomada de zumbis, mas consegui pegar essas e um carro. — ela disse com orgulho na voz.
— Você roubou? — ele perguntou mais surpreso ainda.
— Estamos em um apocalipse zumbi, o que é roubo?! — ela fechou a bolsa, ofendida. Toby fez uma careta.
— Desculpe.
— Tudo bem. — o silêncio reinou por alguns minutos, só se ouvia o "creck" dos salgadinhos.
— O que faremos? — Emily perguntou desanimada.
— Sobrevivemos. — respondeu Toby, mas sua falta de certeza fez parecer mais uma pergunta que uma resposta.
— Pra que? — ela insistiu.
— Nem antes de tudo isso tinha-mos a resposta...Nunca deixou de ser um paradoxo. — ele respondeu com um sorriso fraco, ela revirou os olhos e sorriu de volta, mas só porque não podia negar que aquele sorriso dele era lindo.
— Certo, então...acho que devo trazer a comida pra cá, então... — disse ela se levantando do sofá e se espreguiçando. Deixou escapar um bocejo, foi o suficiente pra Toby a puxar pela cintura de volta para o sofá, os dois riram.
— Mais tarde. — pediu Toby — Durma primeiro, você está horrível.
— Obrigada. — ela disse se fingindo de ofendida.
— Você entendeu. — ele comentou cansado e ela riu de novo.
— Claro. Durma também panda. — ela disse, se aconchegando no sofá e culpando as olheiras de Toby.
— Olha só quem fala. — o loiro respondeu, voltando do quarto com dois cobertores. Colocou um por cima de Em e se ajeitou com o outro no sofá menor.
[...]
— Toby, Toby! — Toby semi ouvir Emily cantarolar nervosa. Estava meio dormindo, meio acordado, não sabia dizer se realmente ouvira ou sonhara.
— Em... — ele sussurrou ainda de olhos fechados.Ela olhou pra ele de esguelha enquanto passava a passos de rápidos de um quarto para o outro. — An..oi? — ele se pôs sentado coçando os olhos com as costas da mão. Ainda estava tudo meio borrado, ainda sentia o estômago roncar e a cabeça rodar. — Em? — ele chamou de novo, ela apareceu arrastando uma mala do seu quarto. — Onde vai com isso? — Toby perguntou coçando a cabeça.
— Vamos sair daqui, agora. — disse ela jogando pra ele a mochila das armas. Mal teve tempo para perguntar o porque, um som de janela quebrada respondeu sua pergunta.
— Como vamos sair? — perguntou Toby, com a respiração entre cortada de pânico. Já ouvia os zumbis começarem a entrar no outro cômodo. Emily fechou a porta, impedindo que ele avançassem mais ainda.
— Eu vou ocupa-los jogando carne por essa janela — ela disse, apontando para a janela da sala que dava para o jardim — e você sai por aqui, pega o carro e traz pra perto da casa pra que eu entre e guarde a mala mais pesada, então vamos embora. — ela completou colocando na mão de Toby as chaves do carro que pelo olho mágico viu estacionado no fim da rua, quase na esquina.
— Por que eu fico com a parte da corrida? Suas pernas são mais longas. — ele reclamou com a mão na maçaneta da porta, que era perigosamente perto de onde os zumbis iriam se amontoar para a refeição.
— Eu sou sedentária, a maior corrida da minha vida foi do meu quarto ao portão pra pegar a pizza, agora vai logo! — ela disse jogando o primeiro pedaço de frango pela janela. Ao abrir a porta, Toby correu, percebendo que os zumbis todos pareciam bem ocupados buscando pedaços pequenos de frango.
Em um minuto ou pouco mais se viu de frente com um Sedan preto. O abriu e tirou a bolsa que trazia no ombro, jogando no banco traseiro, que caiu com um barulho metálico de armas e facas, e também houve o barulho de líquido se agitando dentro de um recipiente. Olhou para trás e viu dois galões de gasolina, não muito grandes mas por hora parecia servir.
1º problema do dia: como fazia aquilo ligar? Ele nunca tinha prestado muita atenção (lê-se nada) em carros. Bom, imaginou que a chave deveria fazer alguma coisa. Ele a girou e ouviu o carro roncar. Bom sinal. Mexeu em algo que imaginava ser o freio de mão, sem ter ideia do que estava fazendo. Finalmente pisou em um pedal, mas nada aconteceu.
— Qual é? Eu tenho certeza de que era isso que fazia o carro andar! — pisou mais forte e nada. Ficou ali tentando, tentando e tentando e nada. Ele girou o volante e o carro nem se moveu. — Merda! — ele continuou pisando, girando, mexendo no frio de mão até que...
— Saia daí! — ele ouviu. Emily escancarou a porta do condutor e o empurrou com o corpo para o banco do passageiro, fechando a porta com mais força que o necessário. Um zumbi logo começou a arranhar o vidro, e logo mais um, e logo 15 zumbis ao menos estavam arranhando e tentando quebrar o carro.
— Vamos dirigir por um bom tempo. — disse ela dando uma arrancada com o carro, fazendo o estômago de Toby se achatar contra as costas. Mas pelo menos agora ele sabia porque o carro não saia do lugar. Ele não estava pisando no acelerador e sim no freio.
[...]
Depois de umas boas duas horas na estrada, já era noite fechada, o tanque apontava pouquíssima gasolina mas Emily não parava de dirigir. Na verdade, nenhum dos dois sabiam exatamente onde estavam agora. Será que ainda estavam na cidade de Londres? Não tinha certeza, só sabia que sua boca estava seca...estava com sede.
— Cadê a bolsa com as garrafas d'água? — perguntou Toby se virando, varrendo o carro com o olhar. Emily respirou fundo.
— Não consegui trazer. — disse sem tirar os olhos da estrada.
— Cara, não brinca! — Toby voltou a se posturar no banco, de olhos fechados, a cabeça latejando.
— Eu precisava manter os zumbis ocupados, mas acabou a carne e...
— Aliás, onde você conseguiu o frango?
— Assaltei um mercado no caminho da sua casa...Teria cozinhado para nós mas tava estragado. — disse franzindo o a testa — Enfim, acabou o frango e eles estavam entrando na casa, você parecia ter morrido no carro, então peguei as facas e fui saindo de lá como pude, mas não dava pra voltar buscar a bolsa depois, estava tudo tomado...Sinto muito. — ela terminou de contar, se sentindo totalmente culpada.
— Okay...E desculpe, eu nunca dirigi antes. — ele confessou com um sorriso constrangido, Em riu.
— Jura? — ela disse sarcástica. — precisa aprender, quando eu morrer...
— Nem brinque com isso. — ele disse sério, quase no mesmo momento que o carro deu um solavanco e parou. Eles se encararam, sabendo que teriam que sair, e a experiência ao ar livre não era muito agradável.
— Eles saem a noite... — comentou Toby.Emily confirmou com um aceno de cabeça, enquanto abria a porta do condutor.
— Você não vai sair, né? — Toby perguntou aflito, a segurando pelo braço impedindo que ela saísse.
— O que você quer? Esperar amanhecer? — ela perguntou com ironia.
— Na verdade sim. — ele respondeu sem soltar o braço dela. De repente eles ouvem um barulho vindo das árvores que ladeavam a estrada. Em fecha a porta imediatamente e abre a janela para espiar.
— Olá? — ouviram alguém dizer de dentro da floresta. Toby ia responder mas Emily tapou sua boca. — Tem alguém aí? — a voz perguntou de novo, mais próxima. Emily amaldiçoou o tanque por estar vazio e não poder dar o foro dali. Logo uma figura foi surgindo da escuridão. Parecia vir mancando, e a pouca luz que o farol do carro mantinha fazia se estender a sombra dele estrada à fora.
— Quem é você? — perguntou Toby, se esticando por cima de Emily. Era uma posição desconfortável, mas era o máximo que podia fazer.
— Não acredito! Meu Deus, olá, olá! — ele disse empolgado, havia meses que não via humanos — Meu nome é Giovani, Giovani Paviani, eu não como há dias! Na verdade eu nem sei há quanto tempo estou aqui, dormindo no meio do nada e fugindo dessas coisas...zumbis. — ele cuspiu as palavras com desprezo. — Se vocês pudessem me ajudar, me dar uma carona, que seja...
— Calma, jovem! — disse Emily sem paciência. — Nós nem te conhecemos, nem podemos te ajudar, sinto muito. — ela já ia fechando a janela do carro, mas Toby a impediu quando o jovem começou a protestar.
— Não, não, não me deixem aqui, por favor! Se me deixarem, vou morrer! E vocês se sentirão culpados, eu sei que sim! — o loiro tentava chantagea-los tocando no ponto sentimental.
— Muitas pessoas morreram, amigos, familiares...Você vai ser apenas mais uma. — Emily revirou os olhos.
— Emily! — Toby a repreendeu — E se fosse-mos nós pedindo ajuda? Talvez só nós dois não dere-mos conta de achar comida...Ele pode ajudar.
— Claro, com certeza! — Giovani confirmou. Emily então, depois de pensar por 5 segundos, desceu do carro de cara amarrada e abriu a porta do banco de trás para Giovani, mas antes que ele pudesse entrar ela pode ver um grande machucado em sua perna esquerda, logo o empurrou com toda força e ele caiu de costas no chão.
— Louca! — ele reclamou.
— Toby, ele foi arranhado! — ela gritou apontando para a perna de Giovani. Toby fez um "shiiii" a lembrando de que não deveria fazer tanto barulho, principalmente a noite. — Nós sabemos o que acontece com os que são arranhados e mordidos. — ela disse, abaixando o tom de voz e fechando a porta. Toby ficou perplexo.
— Você lembra de ter sido arranhado por um zumbi? — perguntou calmamente. O jovem no chão fez que não.
— Na verdade eu caí...
— Mentiroso! — Emily acusou. Toby censurou com o olhar e ela se calou.
— Eu tropecei tentando subir um morro, onde desci para beber água...Tem um rio por perto...
— Onde? — Toby o interrompeu com os olhos brilhando em expectativa. Sua boca já estava grudenta e ressecada, sentia que poderia beber um rio inteiro.
— Lá pra frente. — apontou Giovani, floresta à dentro.
— Nos leve até lá.
— Bem, estou com um pouco de fome, estava pensando se vocês não teriam alguma comida. — ele disse, fazendo cara de cachorro que caiu do caminhão. Em abriu o porta malas, surpreendendo os garotos, havia um bom estoque de comida. Giovani se aproximou a mão do porta malas, mas quase teve seus dedos espremidos pela garota que fechou o bagageiro com um estrondo.
— Come no caminho — disse entregando um pacote de bolachas — mostre-nos o rio. — ela segurava 3 de plástico vazias.
— Está meio escuro, não acha? — Giovani comentou com a boca cheia de bolachas.
— Pegue a lanterna no porta-luvas, por favor, Toby? — Emily pediu olhando com cara de nojo para Giovani, que além de tudo estava todo sujo.
— Dahora, você nem guarda luvas no porta luvas... — alfinetou mais uma vez Giovani.
Encarando Giovani com aquele olhar de "fale mais e vai perder a língua", ela acrescentou.
— E uma faca!
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