Quando o moreno acordou já estava com a decisão tomada. Já passava das três das tarde e seu corpo doía mais do que tudo. Caminhou até o banheiro e tomou um banho, depois vestiu qualquer roupa e saiu. Menos de um minuto depois já estava apertando a campainha da casa da frente. Katia abriu a porta.

- Oi peste. — Segurava uma bacia enorme com massa de bolo — Não me diga, deixe-me adivinhar: você sentiu o cheiro do meu delicioso bolo de chocolate com passas e veio como um ratinho garantir a sua fatia? Desculpe te decepcionar malandrinho, mas este aqui será servido depois do jantar... E antes que pergunte você não está convidado. Na minha casa não deixamos entrar animais.

Jarrell sorriu. Adorava o humor ácido da mãe de Marc.

- Deus me livre morrer pelo seu veneno, ou como você prefere chama-lo: pelo seu bolo. — uma pausa — Eu estou procurando--

- Marc? Quem mais seria? — ela mesma respondeu a sua pergunta.

- Você é adivinha.

Ela sorriu sonhadora.

- Não me diga que está atrás do meu filho para coloca-lo em mais uma confusão? O que vai ser dessa vez? Vão pichar a prefeitura? Fazer tatuagens de mulheres nuas na testa? Ou tacar fogo em algum sem-teto?

- Não me dê ideias se não quer que eu as realize.

- Maldito dia que eu te apresentei a ele.

- Com isso eu tenho que concordar. Então, onde o "Robin" está?

Katia respirou fundo, se arrependendo antecipadamente.

- No quarto.

Jarrell passou por ela.

- Obrigado.

Subiu as escadas.

- E não desarrume o quarto! — Ouviu seu grito quando já estava no corredor.

O corredor estava escuro, apesar de ainda estar cedo. Percorre-o todo, parando de frente a porta do último cômodo. Estava tudo tão silencioso que jurava ser capaz de poder escutar a respiração do ruivo do outro lado daquelas paredes, mesmo que soubesse que isso era impossível.

Já estivera ali mais vezes do que poderia lembrar, e ainda assim se sentia como se fosse a primeira vez que adentraria aquele quarto. Sentiu o frio na barriga ao que levou a mão a maçaneta. Girou-a e abriu, sem nem avisar que o estaria fazendo. Há muito perdera a timidez e o bom-senso.

- Surpre... — Fitou o garoto dormindo na cama — ...sa.

Entrou no quarto, se aproximando da cama com cautela. Admirou o quarto do amigo por alguns segundos, grande, confortável, com móveis enormes e caros, quase todo na cor branca, como se fosse o paraíso, por exceção de dezenas de pôsteres de bandas de rock e filmes de ação pregados no teto, a única parte que não deve ter sido decorada pela sua mãe. Sua cama era uma cama de casal e ficava no centro do quarto, tão grande que parecia três vezes a do Jarrell. O moreno imaginou como seria dormir todos os dias em um quarto assim, tudo tão chique, tão limpo e organizado. Marc tinha sorte, muita, muita sorte.

- Ei. — Cutucou o seu ombro — Acorda "Fiona", acorda! — Sorriu — Seu "Shrek" já matou o dragão e está pronto para te levar para o seu príncipe de meio metro! Vamos você não pode o deixar esperando!

Marc demorou a abrir os olhos, estava cansado demais, não queria acordar. A claridade do quarto machucou seus lindos olhos verdes, então cobriu o rosto com a coberta, se encolhendo como se fosse um feto. Esperou que aquela voz irritante fosse só uma um ilusão da sua mente e desaparece com o tempo, mas Jarrell continuou exigindo a sua atenção.

- Nossa, Ken, essa sua Barbie acabou mesmo com você ontem à noite, hein! O homem não consegue nem levantar, caramba, mas que fogo!

- Cala a boca! — Tirou a coberta do rosto e se levantou, caminhando em seguida para o banheiro. Estava vestindo apenas uma calça de moletom preta e não tinha a melhor das expressões.

Jarrell respirou fundo, sentindo o coração acelerar. Não o seguiu até o banheiro, ficando apenas ali, em pé no meio do quarto, sem dizer nada enquanto encarava com um olhar distante aqueles lençóis brancos. Não sabia no que pensar, o que dizer, nem ao menos sabia por que estava ali, mas somente sabia que precisava estar. Sua alma precisava saber, mesmo que sua mente já soubesse a resposta, ele precisava ouvir Marc dizer em voz alta, só assim teria certeza. Certeza que não o tinha perdido.

O ruivo demorou a voltar para o quarto, mas Jarrell esperou paciente.

- Se for para me criticar como fez lá no restaurante ontem à tarde, é melhor você ir embora. — Foi direto. — Eu não estou com paciência para aguentar suas reclamações.

Marc andou até o guarda-roupa e vestiu uma blusa azul.

- Na verdade... — Esperou até que Marc o encarasse — Eu vim para me desculpar.

O ruivo não conseguiu esconder a surpresa.

- Que? — Duvidou dos próprios ouvidos.

Percebendo isso, Jarrell tomou coragem para continuar.

- Eu pensei muito ontem a noite e entendi que eu não tinha o direito de me meter na sua vida daquela maneira, muito menos de ser tão arrogante. — Ele deu de ombros — Mas você me conhece, esse sou eu: um merda autoritário e arrogante que acha que pode controlar o mundo todo. — Marc cruzou os braços — Você me pegou de surpresa, eu fiquei chocado, mas só, já passou. Agora eu entendo que...

- Não seja ridículo! — Soltou de uma só vez, quase gritando.

Jarrell se assustou.

- Eu não estou sendo ridículo! Estou sendo sincero! Você mais que ninguém deveria saber o quão é difícil para mim ser...

- Sincero? — Cortou sua frase, os olhos pegando fogo. — Ou humano?

- Do que você está falando?! — franziu o cenho, completamente perdido.

- Estou falando de você ser um miserável egocêntrico sem sentimentos! De ser um egoísta tão idiota que não enxerga nada além do próprio umbigo! De ser um manipulador, arruaceiro, que tem uma pedra no lugar do coração! Ou pelo menos não é isso que você quer que todos pensem de você? Não é? Agora eu pergunto: Porque você quer que todo mundo pense que você é um idiota? Porque assim todos vão ter medo de você e não se aproximarão? É um tipo de escudo do mundo? Ou porque assim você vai consegui finalmente ter atenção do seu adorado papai? Você é tão patético que precisa se humilhar dessa maneira por um pouco de atenção? Eu tenho tanta pena de você!

Nada podia descrever o que ele sentiu. A sensação era de ter milhares de facas rasgando todo seu corpo, enquanto observava um demônio alimentar-se da sua alma. Não tinha tempo para pensar em nada, o medo apagava e controlava tudo. O medo te dominava e o choque da sua realidade simplesmente deixava seu corpo dormente, tão anestesiado que mal podia sentir-se vivo. Talvez foi por isso que Jarrell pensou que tivesse morrido e ido para o inferno naquele momento, porque tudo aquilo era surreal demais para ele.

- Eu vim tentar fazer as pazes, mas se é isso que você pensa de mim acho melhor eu ir embora. — Tentou sair do quarto, mas Marc não permitiu que ele fosse; tendo que empurra-lo para que o moreno ficasse longe da porta.

- Não! Você não vai embora sem me escutar! Você sempre foge de tudo! Dessa vez eu não vou deixar! — Fechou as mãos, nunca sentira tanta raiva em sua vida — Eu não aguento essa sua covardia. Eu não suporto isso!

- Ah é?! E o que mais você não suporta em mim?! Pegue um papel e uma caneta, que tal começarmos a listar? Porque até ontem eu jamais imaginei que você sentisse tanta raiva e magoa de mim! Pensei que nós éramos... — O coração de ambos acelerou — Pensei que fossemos como irmãos.

- NÓS SOMOS! — Gritou, enfurecido.

- Irmãos não dizem o que você acabou de me dizer.

- E o que você me disse ontem, hein? Isso não tem importância? Claro que não, né?! Só importa o que acontece com você, o que acontece comigo nunca importa! Eu estou cansado disso!

- Eu já pedi desculpas! O que mais você quer?! Que eu ajoelhe? Beije seu pé?

- Não!

- Então o que?

Marc caminhou até o outro lado do quarto, tão confuso e irritado que quase não conseguia pensar.

- Você não entende. — Se sentou na sua cama.

Jarrell continuou em pé.

- Então me explique.

O ruivo suspirou.

- Nós somos amigos há tanto tempo, — começou a dizer, a voz baixa e tristonha — que muitas vezes eu acreditei que conhecia mais você do que qualquer outra pessoa conheceu ou vai conhecer. Mas nestes últimos dias eu estou me dando conta de que isso não é verdade. É apenas uma ilusão que eu inventei, porque queria muito que fosse real. Eu tenho vivido essa mentira há anos. — respirou fundo — Acontece que eu não sou seu dono e você não é meu bichinho de estimação. Eu não posso cuidar de você a vida toda. Sei que um dia você vai... — Marc piscou várias vezes rapidamente, não querendo chorar — Um dia você vai descobrir que não precisa mais de mim para viver, como uma criança que cresce e decide se mudar da casa dos pais. Mas isso nunca irá acontecer comigo. — Olhou para a janela — A verdade é que você nunca precisou de mim para nada, — voltou a encarar o amigo — eu é quem sempre precisei de você. Todo mundo acha que você se aproveita de mim, mas sou eu quem me aproveito de você. — ele sorriu tristonho — Você é a pessoa mais inteligente que eu conheço, nunca tiraria notas vermelhas na escola se quisesse. Você poderia ser qualquer coisa que quisesse, mas escolheu logo o que ninguém deseja. Você escolheu o caminho mais difícil. Eu não sei por que você age assim, mas na verdade eu nunca me importei porque essa é a única forma de nós dois continuarmos juntos. Você precisa achar que não sobreviveria sem mim, porque só assim me manteria por perto. Eu estou me aproveitando da sua fragilidade emocional para me tornar importante na sua vida, me tornar essencial, mas a verdade é que eu não sou nem um pouco.

- Não estou entendendo aonde você quer chegar. — Marc ficou em silêncio — Pra que toda essa conversinha maluca? Pra que tudo isso? Será que é pedir muito nós esquecermos esses últimos dias e continuarmos vivendo como se nada tivesse mudado? Eu não gosto dessas nossas brigas, isso é muito louco para mim!

O ruivo negou com a cabeça.

- O que você me falou ontem... A sua reação... Isso tudo me ajudou a entender que nós dois não vivemos mais no mesmo mundo. Nossas opiniões são muito diferentes uma da outra. É impossível haver acordo entre nós. — Marc não sabia o quanto daquilo era verdade.

- Que? — Jarrell ficou de frente para o outro, o ruivo não se levantou. — Isso tudo pelo que eu falei ontem? Eu já disse que eu estava errado! Sinto muito! Eu não devia... Não tinha o direito de me meter! Desculpe-me! Mas poxa, não acha que está exagerando? Desde quando eu e você não podemos nos dar bem? Tá maluco?

- Não é só pelo que você falou ontem! — Se levantou, parecendo perturbado — É por tudo! O jeito como ontem você me xingou e hoje apareceu todo sorridente, fingindo que nada tinha acontecido! Sem se importar com o que eu estou sentindo!

- Eu pedi desculpas!

- Exato. Você pediu desculpas porque está se sentindo inseguro. Se você não achasse que está prestes a me perder, jamais pediria desculpas. Isso porque você não quer o meu perdão, você só quer ter certeza que eu continuarei por perto. — Ele parou por alguns segundos — Mas eu devo ser o culpado. Afinal, durante todos esses anos eu fiz você acreditar que não é capaz de dar dois passos sozinho sem cair num buraco. Ao invés de te dar confiança, eu só te deixei cada vez mais inseguro, dizendo que você não era capaz. Igual a um médico louco que dá pequenas dozes de veneno diárias para um paciente para que assim ele nunca melhore e o médico possa cuidar do doente por toda a sua vida.

- Que? Não seja idiota! Isso não faz sentido! Você está agindo como um retardado!

- E o pior é que você nem percebe que isso é verdade... — Falou para si mesmo. — Eu não quero que você aja como meu cãozinho treinado. — Se afastou.

Jarrell se sentou na cama, a mão esmagando os lençóis. Seu coração pareceu pegar fogo.

- Você transa uma única vez e de repente não podemos mais ser amigos. — resmungou. Marc se virou, surpreso. — Foi ela, não foi? O que ela fez? Disse que não chuparia mais seu pau se você continuasse andando com um fracassado como eu?

- A Malu não tem nada a ver...

- Ela deve ter uma bunda muito boa mesmo para te deixar desse jeito, só pode! — Se levantou — O que essa piranha fez para te convencer a deixar de ser meu amigo? Eu espero que tenha sido algo muito bom para que você não se arrependa depois!

O ruivo bufou.

- Sua promiscuidade me assombra.

- Ah, agora eu sou promiscuo? — Indagou.

- Não! Isso você sempre foi!

A expressão de Jarrell se tornou carrancuda.

- Essa garota mudou mesmo você. — Soltou.

- A Malu não tem nada a ver com isso! Quantas vezes eu vou ter que repetir? Não se trata disso.

- Lógico que se trata disso! Antes dessa garota aparecer nós nunca discutíamos!

- Claro que discutíamos. Você quem nunca deu importância!

- Você... — Jarrell parou, olhou ao seu redor como se certificando de onde estava, e então respirou fundo. Havia algo de errado com ele, de errado dentro dele, como se alguma coisa tivesse morrido naquele instante. — Você está certo, eu não preciso de você. — Os olhos de Marc se arregalaram e Jarrell teve a impressão que ele fosse começar a chorar. — Então aproveite a sua vadia, eu não vou mais perder meu tempo com vocês. — Virou-se e saiu do quarto.

Desceu as escadas correndo.

- Porque os gritos? — Katia perguntou preocupada quando o viu.

- Pergunte ao comedor de putas que mora no segundo andar — E saiu.

Katia ficou parada boquiaberta, a expressão congelada, sem saber o que fazer.

"Comedor de putas?" - Ela repetiu.