Notas iniciais
Desculpem a demora, acontece que essa semana foi bastante agitada para mim. Semana passada quando eu estava terminando de digitar esse capítulo faltou luz e eu acabei perdendo o arquivo (desde então estou pensando em processar a Eletropaulo! Vai que eu fico rica com isso, não é mesmo? rs) e tive que refazer o trabalho. Graças a Deus que a Ita-chan betou rápido (Deus a abençoe! rs) Sem falar que tá tendo construção aqui em casa... Tem coisa pior?

Espero que vocês gostem do capítulo.

Não precisava se lembrar.Não queria. No entanto por mais que tentasse, sempre terminava repetindo as palavras que o outro cuspira em sua cara na última vez em que o visitou. Ele estava mudado. Aquele jeito distraído com que o ruivo agia, sem se importar com nada, sempre amável e compreensivo havia sumido. Estava tão perdido na própria felicidade... Tão mergulhado e concentrado na beleza que era a sua vida, que não se importava mais em disfarçar o desgosto por todo o resto. Maldito. Tornou-se um egoísta hipócrita, isso sim! Logo ele, o anjo com rosto de menino dos olhos verdes... Logo ele! O anjo quebrou as asas no fim das contas e se revelou ser um demônio disfarçado. Todo esse tempo ele mentiu. Todo esse tempo ele enganou. E o pior: o que mais machucava Jarrell era que ele tinha acreditado que o outro realmente se importava com ele.



– Estou ocupado, deixa para outro dia — Disse na sexta á tarde no restaurante, sem olhá-lo, entretido demais servindo as mesas, como se o moreno fosse uma incomoda testemunha de jeová batendo em sua porta em uma linda manhã de sábado para oferecer-lhe a palavra divina.

Jarrell o seguiu pelo restaurante, desviando dos outros garçons que carregavam bandejas com taças. Queria pedir ao amigo que parasse de by Text-Enhance\">trabalhar um instante que fosse, mas Marc parecia ignorá-lo.

– Deixa para outro dia? É a segunda vez essa semana!- se queixou. — Você sabe que esses shows só acontecem uma vez by Text-Enhance\">por ano! Com certeza vai está lotado de mina gostosa por lá! Você tem que ir!

Marc respirou fundo, engolindo a frase que sabia que iria magoar o amigo. Virou-se e o encarou. Não queria dizer que achava que o moreno estava sendo imaturo e superficial, então tentou ser mais razoável.

– Jarrell, eu estou namorando, você sabe. Não tem como eu ir a esse tipo de lugar, me desculpe, mas a Malu me mataria se descobrisse que eu fui sem ela. Eu poderia chama-la, mas ela acha esse tipo de evento supérfluo e chato.

– E desde quando a Barbie manda em você?

É claro que ele não entenderia. — Marc pensou.

– O nome dela é Malu e ela não manda em mim! E... — O gerente do pequeno restaurante o chamou — Só um instante Sr. Dolson. — ajeitou os óculos — É óbvio que você não entenderia, então não adianta explicar. Agora me deixe by Text-Enhance\">trabalhar antes que eu seja demitido por justa causa! — sussurrou.

– Eu não sou nenhum retardado, é claro que eu posso entender!

– Não, não pode.

– O que você está querendo dizer com isso?

Marc suspirou.

– Jarrell eu estou trabalhando, por Deus, vamos conversar outra hora. A comida não vai caminhar até as mesas sozinha!

Jarrell olhou a sua volta.

– Tudo bem, mas você vai comigo hoje no show?

– Você não escutou nada do que eu falei? Já disse que não, a Malu quer me apresentar aos pais dela, depois disso nós vamos ao cinema.

Apresentar-se aos pais? Ir ao cinema? Jarrell sentiu seu estomago revirar. Aquilo era demais para ele.

– E depois o que? Ela vai te emprestar uma sapatilha e vocês vão dançar balé de um lado para o outro como duas gazelas saltitantes ao som de Beethoven? Ou vocês vão começar a tricotar um lindo macacão rosa para os seus futuros filhinhos?

– Não seja ridículo!

– Ridículo? Pelo menos não sou eu quem está brincando de casinha com aquela Barbie sem peito!

As mãos do ruivo se fecharam fortemente, mas sua expressão não dizia nada. No fundo, ele queria socar a cara do amigo, no entanto, sabia ser incapaz, precisando de algum tempo para encontrar as palavras certas.

– Jarrell, por favor, vá embora. Hoje é sexta-feira, estamos lotados e eu tenho muita coisa para fazer. Eu te vejo mais tarde, quando não estiver mais trabalhando. Agora, pelo amor de Deus, poderia me deixar cumprir com as minhas obrigações?

– É exatamente o que estou tentando fazer: você cumprir com as suas obrigações! Suas obrigações comigo!

– Obrigações com você? — Quis rir.

– É. Você tinha me prometido que iria a esse show comigo muito antes dessa garota aparecer, em outras palavras, você não tem escolha.

– Sempre há escolha. — caminhou até a cozinha e pegou o próximo pedido — Além do mais, você sabe que eu nunca gostei desse tipo de show.

– Bobagem. Então porque você sempre foi?

– Para te agradar, porque mais eu iria?

– Então porque você não me agrada dessa vez também?

Marc fitou o amigo.

– Você vai sobreviver. Eu sempre fiz tudo o que você quis, me dá um desconto. Pela primeira vez na vida eu querome agradar, entende? Fazer o que eu quiser, na hora que eu quiser, só para variar. A Malu é uma garota legal e gosta de mim, eu não sei por que você implica com ela. Quer dizer, eu até sei. Sabe, eu te conheço mais do que qualquer outra pessoa. Às vezes eu acho que te conheço mais do que conheço a mim mesmo. Foram oito anos de convivência e todos esses anos eu sempre fui seu porto-seguro, a pessoa para quem você liga quando está com problemas e que limpa a sua barra quando você faz besteira. Mas agora você está sentindo que isso está mudando, porque finalmente eu encontrei alguém que me valoriza e que gosta realmente de mim. Você se sente inseguro porque acha que eu vou te trocar, pois eu nunca fui muito vaidoso e nunca me valorizei. Você acha que agora que eu tenho autoestima não vou mais perder meu tempo me rebaixando e me humilhando pela sua atenção. Isso tudo porque você não se dá valor nenhum, se sente como um lixo. Então você se pergunta: Como alguém sem nenhum problema de autoestima pode escolher ficar perto de um cara como eu? — Os olhos de Jarrell se tornaram tristes — E eu respondo: Como escolhem um salgadinho, um filme ou um maldito prato num cardápio. É simples. Não há magia nenhuma nisso. Porque, meu bem, você é igual a todo mundo. Não importa o quão arrogante você seja ou quão desprezível você trate as pessoas, você sempre será igual a todo mundo. Então pare de agir como se fosse um monstro comedor de cérebros, porque você não engana ninguém! — Tomou fôlego — Eu não preciso ser um perdedor para gostar de você! Meu namoro com a Malu não muda nada. Eu sei que estou passando muito tempo com ela ultimamente, mas isso não quer dizer que não sejamos mais amigos ou que eu vá parar de te ligar de madrugada para encher o saco ou perguntar se você estudou para a prova! — sorriu amigável — Eu gosto dela, sei que é cedo para dizer, mas talvez eu realmente gostemesmodela. E nada me deixaria mais feliz que saber que o meu melhor amigo também aprova o meu namoro.

Jarrell ficou sem palavras, primeiro pareceu atordoado, como se tivesse levado um soco, depois disse:

– Bastava dizer que não queria ir no show.

Os dois sorriram.

– Você é inacreditável. — zombou.

– Eu sei, é o que todo mundo diz. Bom, acho melhor eu ir embora.

– Tá bom. Te vejo amanhã. — começou a se afastar — Da próxima vez que nos encontrarmos, eu serei um homem. — Murmurou para si mesmo.

– O que você disse?!

Marc se virou e sorriu.

– É um dos motivos que eu não posso ir ao show com você.

Dopado, foi como se sentiu. A mente assimilou com lentidão a informação. E quando finalmente conseguiu entender foi como se uma manada de elefantes tivesse passado por cima do seu corpo. A surpresa era maior que qualquer emoção. Seus olhos se arregalaram e uma ligeira faísca de ódio iluminou seus grandes orbes negros.

Cada palavra foi dita com demasiado cinismo.

– Então depois do jantar, os pais vão oferecer a filha de sobremesa?

Marc não percebeu que o amigo não estava mais brincando. Riu-se.

– Claro que não! Eles me matariam se desconfiassem! Malu e eu planejamos isso há algumas semanas. Nós fingiremos ir ao cinema, mas ao invés disso iremos para a minha casa.

– E seus pais?

– Hoje eles sairão para jantar, só voltarão de madrugada.

– E se não der tempo?

Marc sorriu.

– Posso não ter tanta experiência como você, mas sei que esse tipo de coisa não demora tanto...

Jarrell ficou calado. Tudo aquilo era tão estranho... Inacreditável demais. Ele não queria imaginar. Jamais. Nem por um segundo. A verdade era perturbadora demais para ele.

Sentiu-se sufocado, esganado por mãos invisíveis, que só o queriam fazer mal.

– E quando você pretendia me dizer isso?

O ruivo deu de ombros.

– Estou dizendo agora.

– E você acha isso certo? Quantos anos essa garota tem? Quatorze? — Cruzou os braços.

– Quinze.

– Só quinze? E já quer transar?! Mas que vadia! — Gritou.

Alguns dos clientes os fitaram assombrados. Marc o agarrou pelo ombro e o levou até um lugar mais reservado, só para funcionários.

– Ei! Isso é jeito de falar da minha namorada? Você não respeita mais ninguém não, é? — fechou a porta.

– E você? Cadê o seu respeito por ela, hein? Vai transar com a garota, não, pior, você vai TIRAR A VIRGINDADE DELA sendo que ela só tem quinze anos!

– Nós somos namorados! Não é como se eu fosse um cafetão comprando a virgindade de uma pobre garota inocente em um leilão clandestino! Nós dois estamos de acordo e muito animados com a ideia! Pensei que você também iria ficar!

– Eu? E o que eu tenho haver com as suas fodas?

– Nada, é que...

– Eu não sou seu nutricionista para ficar me preocupando com aquilo que você come! Então se quer comer porcaria, vá em frente e coma! EU NÃO TO NEM AI! Só que depois não venha reclamar quando tiver uma indigestão!

– De que diabos você está falando?

– Eu estou falando... — Sentia tanta, mais tanta raiva, que não aguentou e explodiu — Caralho Marc! Você é um estupido filho da mãe mesmo! Droga! Egoísta miserável!

– Que?! De onde veio isso? O que eu fiz?

O moreno jogou as mãos para o alto, sem saber o que dizer. Estava sufocado, precisa de ar, então saiu da sala sem dizer tchau. Marc chamou por ele, mas Jarrell o ignorou.

Não entendia por que, mas se sentiu traído, atingido com um tiro certeiro pelas costas pela pessoa que mais confiava no mundo. Ele era o melhor amigo do ruivo, e durante muito tempo foi o único que ele teve, e quem é essa garota? Uma merdinha que ele conheceu numa droga de ensaio de coral? Jarrell e Marc se conhecem há oito anos, e ela há quanto tempo o conhece? Oito semanas? Ah, pelo amor de Deus! E a coisinha nem ao menos é isso tudo! Ele merecia coisa muito melhor! Alguém carismático, cheio de disposição, que goste das mesmas coisas que ele e que possa o fazer rir quando ele estiver triste, ou que aguente ouvi-lo contar sobre as merdas que ele leu na internet, aguente escutar suas críticas sobre livros que você nunca lerá ou sobre suas inúmeras fantasias sobre viagens que ele jamais fará pelo mundo. Que tolere seus devaneios, seu jeito sonhador, sua simpatia excessiva e seu enorme coração. Ele merece alguém bom, que conheça cada estrela do céu, que conheça suas manias e imperfeições e que as aceite. Alguém que o aqueça quando fizer frio, que cuide dele quando ficar doente, que... Que seja seu mundo, seu refugio... Seu porto-seguro.

Jarrell balançou a cabeça, se sentindo cansado. Caminhou até o ponto de ônibus e pegou o primeiro que passou, sem ao menos ver para onde ele ia. Não queria ter destino, queria apenas ir embora. Fugir. Do que ele estava fugindo não sabia dizer e tampouco tentou descobrir.

Concentrou-se na avenida e nas pessoas que o cercavam, notando detalhes que ele jamais percebera. Nunca se dera conta de quantos mendigos havia em sua cidade. Por toda sua vida imaginou que essa era uma especialidade das cidades urbanas, mas aparentemente a pobreza é um problema geral,privilégiode todos. Também jamais reparou que grande parte desses mendigos são crianças, provavelmente a maioria sem pais. Indignado parou de olhar para fora da janela e se concentrou ao seu redor. No ônibus havia cerca de vinte e cinco pessoas, todos estavam sentados, concentrados em suas revistas, celulares e afins. Ninguém conversava com ninguém — com exceção daqueles que já se conheciam -, aparentando estarem muito mais preocupados com seus próprios problemas do que com as pessoas que o cercavam. E porque é que eles deveriam estar afinal? Eles nem se conhecem! Nem sabem se são ladrões, prostitutas ou traficantes! E se um deles assaltar o ônibus? Nada disso, é melhor cada um cuidar da própria vida e continuar vivendo, até porque eles não estão ali para fazer amigos. Por um segundo Jarrell imaginou o que aconteceria se houvesse um acidente e essas pessoas morressem. Isso pode muito bem acontecer, não seria a primeira vez. Então neste caso, como seria a sensação de morrer cercado por desconhecidos? Isto é, se houvesse tempo para sentir algo. Ainda assim, como seria saber que vai morrer e não há ninguém que você ame para segurar a sua mão e dizer que tudo vai ficar bem? No momento em que você vê a chama da morte queimar sua carne e pensa: Porque agora? Porque eu? Então você se arrepende, mas não há mais tempo para consertar seus erros, a vida já foi. Você está morto. E tudo o que você tem é a companhia de vinte e cinco desconhecidos, que por ironia do destino pegaram o mesmo ônibus que você.

Jarrell encarou cada rosto daquele ônibus com atenção, tentando imaginar no que pensava cada uma daquelas pessoas. Estava observando uma senhorinha de cabelos acinzentados ler sua velha agenda, quando ela pareceu perceber, o olhou de volta, sorrindo com ternura.

– Posso ajudar?

– Na verdade, não, ninguém pode me ajudar.

A senhora fechou a agenda e se levantou.

– Então neste caso, talvez você não precise ser ajudado. Não se preocupe, seja o que for, vai passar. — Garantiu e em seguida desceu no seu ponto.

O moreno desceu dois pontos depois. Felizmente reconheceu onde estava. Caminhou por meia hora até um modesto barzinho onde passou às três horas seguintes. Não tomou quase nada, pedindo a cerveja apenas para ficar encarando-a com tédio. Alguns conhecidos vieram falar com ele, mas logo foram embora. Quando deram onze horas da noite, ele pagou a conta e saiu, indo para uma boate que ficava ali perto. Entrou com seu RG falso sem encontrar nenhum problema já que não tinha cara de menor de idade. Bebeu, dançou, até que decidiu flertar com algumas garotas. Não demorou muito e já tinha o telefone de uma.

– E que tal se formos para a sua casa? — Ele falou no ouvido dela.

A loira sorriu envergonhada.

– Hoje não dá!

– Que? — não escutou por causa da música alta.

– Eu sou médica, tenho plantão daqui a pouco!

– Sério? Isso é mau! — Ele estava mais decepcionado com o tempo que tinha perdido com ela do que com qualquer outra coisa.

– Mas você tem o meu telefone! Vai me ligar, certo? — quis saber, preocupada. Era difícil conhecer caras legais por causa do seu serviço, ela mal tinha tempo para viver, quanto mais para namorar!

– Claro.

"Como se vocês, homens, alguma vez fossem dizer que não ligariam". — a médica pensou consigo mesma.

Jarrell inventou uma desculpa qualquer, se despediu e saiu da boate. Pegou um ônibus e desceu apenas no último ponto.