Notas iniciais
Demorou mas chegou

As horas passam e Cali aos poucos vai despertando para o que seria uma “nova vida”.....era assim que a liberdade significava. Não estava em casa, não estava com sua família, mas estava segura ao lado de quem a ama.

Era assim que ela se sentia? Segura? Talvez nem tanto. A insegurança lhe bateu e com ela o medo. Se havia acontecido uma vez, poderia acontecer de novo. Mas dessa vez, ele estaria aqui para lhe proteger! Será?

Será que ele a veria com os mesmos olhos que antes? Talvez a achasse suja por ser tão......”tocada”, ou melhor....usada pelos espectros. Talvez ele não a quisesse de volta, talvez sentisse....nojo.

Lembrou de casos assim enquanto vivia na terra. Lembrou de casos de maridos não conseguirem mais aceitar a esposa pois achá-la violada, ou em certos casos, o marido ou parceiro, não conseguir se livrar do sentimento de pena, e com isso, não conseguir mais se relacionar com a mulher.

Minos poderia despertar esses sentimentos: nojo, raiva, pena.......qualquer coisa que impedisse o relacionamento entre eles de fluir com antes.

Ela não suportaria olhar para ele e ver pena em seus olhos, seria de mais.

Ela havia sofrido, mas não queria pena, queria se sentir viva e amada como antes.

Talvez o melhor fosse na contar nada. Poderia inventar qualquer coisa a respeito do seu sumiço. Não gostava da ideia de mentir para seu Juiz, mas não queria correr o risco de estragar tudo entre eles.

Normalmente muitas mulheres; vítimas de violência sexual acabam se culpando pelo ocorrido. De algum modo, elas acham que a culpa é delas e que elas poderiam ter evitado. Infelizmente a atitude de alguns homens (ou algumas pessoas), contribui para isso.

Cali ainda não havia falado com Minos, não havia se quer levantado da cama. Mas essa sensação de culpa a invadiu, fazendo seu peito sufocar de tal maneira que a obrigou a levantar contra sua vontade.

Ao por os pés no chão, Minos que estava ao seu lado se põe de pé para ajudá-la a se levantar.

–Como se sente? – Ele pergunta com voz preocupada.

Dominada por uma sensação de culpa e vergonha ela fica em pé, e sem falar nada vai a passos rápidos para o banheiro.

Minos tenta alcançá-la, mas ela é mais rápida e se tranca no banheiro.

(diga-se de passagem que ele odiava quando ela fazia isso)

Como ela estava nua, ela veste um dos roupões pendurados no banheiro e se senta esperando as palavras lhe surgirem.

–Cali você precisa conversar comigo!

–Saia daqui! – Ela responde ríspida. Foi a única resposta que conseguiu pensar para dar no momento. Ficar sozinha lhe parecia a melhor opção.

–Meu anjo abra a porta. Vamos conversar! – Ele permanecia calmo, sabia que naquele momento, começar uma briga só iria piorar a situação. Por tanto, levantar o tom de voz, estava fora de cogitação.

–NÃO!!! Eu não quero conversar. Deixe-me sozinha! – A voz dela era brava mas não era alta.

– Cali eu não vou sair daqui!

Chega o momento que ela explode.

– E EU NÃO VOU SAIR DAQUI!

Apesar da imensa vontade de retrucar no mesmo tom, ele se conteve. Levou a mão ao rosto e apertou o canto dos olhos com os dedos em sinal de paciência. Esperou alguns segundos até o pico de adrenalina que lhe subirá baixar e falou:

– Por que você não quer falar comigo? Preciso que me conte o que aconteceu.

–EU NÃO QUERO MAIS ESTAR AQUI! – A vóz dela estava embargada. – ME DEIXE IR EMBORA PELO AMOR DE DEUS. – Ela agora não continha mais as lágrimas, e o barulho dela chorando, chegou aos ouvidos de Minos o fazendo preocupar-se.

Uma onda de angustia tomou conta dele. Por algum motivo ela não queria mais ficar ali....com ele.

–Se acalme e me conte o que houve!

–Eu não posso mais ficar aqui....- A voz dela ainda era entre lágrimas. – Eu quero voltar para minha casa. Para a minha verdadeira casa. Eu tenho uma casa, que não é aqui. – Ela não consegue conter um choro alto.

Isso o deixa arrasado. Ele esta confuso. Será que havia deixado de amá-lo?

–Minos estou te pedindo me deixe sozinha!

–Eu já disse que não!

È ai que numa explosão de raiva ela destranca a porta e sai do banheiro com toda a fúria impregnada em seu corpo e alma. Ela avança na direção de Minos e quase o derruba. Ele tenta segurá-la pelos ombros mas ela o chuta e foge. Ela corre em direção a saída a passos tão rápidos que ele quase teve dificuldades para acançá-la.

Minos vai atrás dela e por sorte, não havia ninguém por perto.

Cali estava quase saindo de seu portão, quando ele a alcança.

A segurando firme pelos ombros ele a encara procurando na sua face aflita alguma explicação para isso tudo, mas tudo o que vê, é um rosto fraco, cansado e olhos marejados de tanto chorar. Ela esta histeria e esperneando em seus braços. Estava fora de si.

Ele mais uma vez chama por ela.

–Cali para com isso, para e me escuta.

Ele não é atendido. Então não vê outra opção. Como não havia modo de acalmá-la e não querendo chamar atenção dos demais, ele a golpeia, a fazendo perder os sentidos e cair desmaiada ainda presa em seus braços. Fora a coisa mais dolorosa que ele já fez, mas não havia outra opção.

“desculpe meu anjo, isso doeu mais em mim do que em você”.

Ele a leva para o quarto novamente a depositando na cama. Em seguida ele chama Aiacos para conversar que fica aliviado por ela ter voltado. Ele então, conta rapidamente o que aconteceu; desde como a encontrou de afogando, até o episódio histérico que havia acontecido a pouco.

Ele pede que ele cuida dela caso ela acorde.

–Aonde você vai?

–Esfriar a cabeça!

Ele sai atordoado, deixando para trás Aiacos sem entender nada.

Sua cabeça está a mil.

“Será que ela não me quer mais por isso tentou fugir e acabou se afogando no rio? Mas por que estava sem roupas? Ela deve ter as tirado para ficar mais leve enquanto nada! Ahhh por Hades, o que está havendo?”

Enquanto caminha ele encontra com Radamanthis. Este por sua vez esta com uma expressão de tristeza e esperança ao mesmo tempo. Todos sabiam de sua situação. Havia vezes que quando voltava de seus encontros com Pandora, ninguém conseguia chegar perto dele. Tamanha era sua raiva por ter que permanecer longe dela. Mas hoje, ele permitiu a aproximação de Minos ao notar sua face preocupada e melancólica.

Problemas diferentes; vidas semelhantes. Ambos estavam no mesmo barco, a vantagem de Rada, é que ele já aprendera a lidar com certos sentimentos e situações de estresse quando o assunto era brigas ou discussões entre um homem e uma mulher.

Sem delongas e com um linguajar simples e objetivo, Rada o confortou e o convenceu a não desistir e a ter paciência pois algo havia acontecido para ela estar agindo assim e só ele pode intervir, seja lá, qual for o problema.

–Ela tentou fugir de mim!

–Não. Ela não tentou fugir de você, ela tentou fugir do problema que a cerca.

–Como pode ter certeza?

–Eu não tenho, mas as mulheres são assim. Acham que o melhor é esconder os problemas da gente, preferem fingir que esta tudo bem, ou simplesmente fugir deles.

–Por que fazem isso?

–Por que nos amam, e não querem nos preocupar.....

Rada deixa a frase morrer no ar e Minos retorna pensativo.

Ele colhe algumas flores para tentar animá-la e quem sabe, conversar com ela.

Ao entrar no quarto, ele vê Aiacos de pé na frente da cama e sua garota sentada ainda de roupão com o lençol lhe cobrindo as pernas.

–Obrigada Aiacos! – Minos agradece e Aiacos se retira para deixá-los a sós.

Minos se aproxima e Cali fita o lençol da cama a fim de evitar encontrar seu olhar com o dele.

Ele deposita as flores no lado vazio da cama e se senta ao lado dela. Devagar ele a toca no rosto e levanta seu queixo para que ela olhasse para ele.

–O que eu fiz para você querer me deixar meu anjo? – A voz dele agora também soa embargada, e isso não passa despercebido por ela.

Após alguns minutos de silêncio, minutos esse que ela usara para refletir. Viu que seu juiz estava se culpando por ela querer ir embora sem ao menos saber o que havia acontecido. Ela julgou que ele estaria passando pela mesma situação que ela: se culpando por algo que não fora sua culpa.

Ela não podia deixar isso acontecer, seria o mesmo que admitir que a culpa pelo que havia acontecido era dela também. Porém não tinha forças para expor sua situação.

–Eu apenas quero voltar para casa. Pro lugar onde eu pertenço.

Minos não sentiu sinceridade em suas palavras, então retrucou de forma amorosa.

– Você não pode voltar eu sinto muito. E mesmo se pudesse eu não deixaria.......você não esta sozinha meu anjo....pode me xingar e me bater o quanto quiser, se for para você se sentir melhor eu não vou me importar, e quando você estiver pronta pra falar eu vou estar pronto para ouvir.

Ela se levanta e para em frente a janela.

Ele se aproxima e ao perceber sua aproximação, ela recua alguns passos a fim de permanecer longe dele

. Ele estica o braço e a toca no rosto.

–Esta com medo de mim?

Ela encara o chão e ele ergue seu queixo

–Fale comigo meu anjo, por favor. Esse seu silêncio esta me matando aos poucos.

Por fim ela revela.

–Não de você!

–Então de quem?

Ela então começa a lhe contar tudo o que havia acontecido..............

Em cada ato revelado era um pedaço de Minos que morria. Ele mordia os lábios tentando conter a fúria.

Ela a abraça forte enquanto as lágrimas corriam soltas no rosto de Cali

– Por quê não conversou antes comigo?

– Por vergonha.......e medo....medo de você sentir nojo de mim.

– Como pode pensar isso Cali? – Ele dizia tentando enxugar as lágrimas que insistiam em cair.

– Muita coisa passou pela minha cabeça Minos. Eu já passei por momentos ruins mas esse vai ser muito difícil de apagar. Não sei como vou conseguir conviver com isso. Eu sinto nojo e vergonha de mim mesma. – Ela se vira para a janela novamente não conseguindo olhar nos olhos de Minos enquanto conversavam. Minos pensou em chamar a atenção dela novamente, mas mudou de ideia, pressiona lá só iria piorar as coisas, ele apenas a abraçou por trás e acariciou seus cabelos.

– Você não tem por que sentir vergonha ou nojo de si mesma Cali. Se tem alguém que deve se culpar, esse alguém sou. Eu deveria protegê-la, no entanto meus próprios soldados fizeram isso com você. È vergonhoso eu ser chamado de Juiz se não consigo manter a ordem. È culpa minha isso tudo ter acontecido. – Ele encosta a cabeça quando termina de falar.

Cali então volta a encara-lo e ele volta a falar.

– Eu juro por Hades que todos eles vão pagar pelo que fizeram a você. Nenhum sairá impune disso.

– Minos eu não quero que você.... – Shiiii! – Ele a interrompe. – Cali eu não vou deixar isso passar. Eles vão morrer pelas mãos de Minos de Griffon.

– Eu já perdi gente de mais Minos; não quero perder você também.

– Você não vai....mas esqueça isso agora. Eu vou trazer alguma coisa para você comer.

Quando ele se afasta e caminha em direção a porta ela o chama

– Minos!

– O que foi?

– Vai ficar tudo entre nós depois disso tudo? Digo, vamos conseguir ser os mesmos?

– Cali. – Ele se aproxima e a abraça. – Nada vai conseguir afastar você de mim. Eu vou lhe dar o tempo que precisar. Você pode conversar comigo sem rodeios sobre qualquer coisa a qualquer momento, eu vou sempre estar aqui pra você.

– Obrigada.

– Pare com isso, sou eu que tenho que agradecer por você ter aparecido.

Com delicado beijo nos lábios ainda trêmulos de Cali, ela se retira para buscar algo que Cali pudesse comer.

Notas finais
ficou bonzinho? rsrs :D Até breve Se alguma ideia surgir em minha mente eu tento escrever o cap da outra fic bjs