Não Me Deixe Ir
5 Estou no quarto 24, se você quiser...
Notas iniciais
Without losing a piece of me
How do I get to heaven?
Heaven — Troye Sivan
(...)
Afundei de novo na banheira.
Já sentia meus dedos enrugados, mas não queria sair dali. Estava tão bom não pensar em nada que não fosse a temperatura da água. O cheiro de sabonete caseiro, feito ali mesmo, me lembrava de quando eu era criança e minha mãe me banhava.
— Meus olhos estão ardendo. — choraminguei uma vez.
— É porque eles são sensíveis, muito azuis. — respondeu passando a toalha levemente no meu rosto.
— Como os seus. — seu olhar era o mais bonito que já tinha visto. Continua sendo.
— Exatamente. — sorriu — Toda vez que você se olhar no espelho vai lembrar de mim, não é legal?
Não, mãe. É um pesadelo.
O ar foi necessário, então voltei a superfície. Meus pés tocaram o chão gelado provocando pequenos choques pelo meu corpo. Ótimo, eu continuava viva.
Passei direto pelo espelho, parando em frente ao guarda roupa. O que eu vestiria? Querendo ou não vou ser julgada independente do que estiver vestindo. Se usasse um decote seria uma puta, gola fechada uma puritana solteirona. É tão ridículo.
A vida seria mais simples se as pessoas fossem elas mesmas. Se elas olhassem nos olhos dos outros e falassem sobre seus problemas, seus medos. A vida seria mais simples se a gente não precisasse provar que é bem-sucedido o tempo todo. Seria mais simples se a gente pudesse gostar das pessoas independente da vida que elas levam. Se a gente pudesse dizer sim sem constrangimento algum que está se sentindo um monte de merda e que a vida pode ser bem complicada sim. Talvez, se admitíssemos mais o caos que é sobreviver, não sofreríamos tanto. Talvez, se desfocássemos mais daquilo que dizem que é importante, mas que não faz sentido para nós, fossemos mais bem sucedidos no que realmente importa, viver.*
Mas isso não vale nada.
No final do dia eu volto para uma casa vazia, enquanto elas voltam para seus maridos e filhos. No saldo final eu não tenho nada.
Escolhi uma roupa que me sentia confortável, saia preta e camisa leve, com um casaco por cima. Salto baixo, e cabelos soltos, bagunçados. Não queria focar meu rosto no espelho, muito menos meu olhar.
Respirei fundo. É pela Jenny.
****
Na recepção Gemma sorriu ao me ver, suponho que minha aparencia estava melhor que nosso último encontro.
— Você está linda, Claire. — assenti.
— Obrigada, Sra.Hampton. Bem, será que você pode me dar o número de um taxista aqui do centro? — ela riu.
— Querida, só temos um taxista no aeroporto, não lembra? — revirei os olhos. Droga. — Joshua pode te levar até a casa da Jenny, o movimento está fraco e ele só pode usar o carro com supervisão de um adulto, já que completou 16 anos recentemente.
— Se não for problema.. — mordi o lábio — Eu só não lembro muito bem aonde fica a casa dos pais dela. — não estava no luxo de recusar.
— Joshua! — gritou — Venha cá!
O garoto apareceu com fones de ouvido e vidrado no celular.
— Jura? — arregalou os olhos com a proposta da mãe. — Levo sim, valeu! — me encarou.
— Obrigada, Sra.Hampton, sério. — me despedi.
— Se divirta, okay? Sorria um pouco, viva. — pegou em minhas mãos — Vai te fazer bem rever essas pessoas. — balancei a cabeça. Eu não tinha tanta certeza assim.
Andei até a entrada do hotel, indo em direção ao carro.
— Como você sabia que esse é o nosso carro? — Joshua franziu o cenho. Abri a porta do carona, me sentando. Ele fez o mesmo, colocando o cinto.
— Você não deve lembrar de mim, era muito pequeno quando eu fui embora, mas estive no seu batizado, sabia? — me olhou surpreso.
— Seu nome não é estranho, Walsh..
— Sim, sou eu. — cortei sua fala, não queria falar sobre isso. — Você sabe o caminho até lá?
— A Srta.Nelson me deu aulas particulares no verão passado, matemática.
— Ah. — não fazia ideia — Bem, obrigada pela carona.
— De nada, eu que agradeço. — sorriu.
Depois de alguns minutos paramos em frente a uma casa amarela, sem grades, com muitas flores no jardim. Desse detalhe eu lembrava bem.
Continuei parada.
— Já destranquei as portas. — disse sem jeito.
— Eu sei. — balancei a cabeça.
Um pé depois o outro, sussurrei enquanto saia do carro. Não voltei a falar com Joshua, poderia assim perder a coragem de continuar o caminho até a porta.
Toquei a campainha.
Depois de alguns segundos em silêncio uma Jenny 10 anos mais velha abriu a porta. Os mesmos olhos verdes e cabelos escuros, agora enormes. Ela me fitou estática. Segui suas mãos achando que ela fosse me abraçar, mas não, ela bateu. Um tapa de verdade. Com força.
— Isso é pra você aprender a não sumir por uma década e achar que está tudo bem. Não está, tá legal? Não. Está.
Coloquei a mão na bochecha e consegui sentir o calor do local.
Ela.me.bateu.
— Jenn, eu sinto muito. — meus olhos já estavam marejados, mas a dor do tapa não superava uma dor ainda mais profunda.
— Porque você fugiu, Claire? Por que? — e então ela me abraçou, também chorando — Eu estava aqui, sempre estive.
— Sei disso. — afaguei suas costas — Eu fui egoísta.
— Foi mesmo, você não pensou nas pessoas que estava deixando pra trás. Ir embora de Madison resolveu alguma coisa por acaso? — balancei a cabeça — Claire, eu sinto muito. — assenti.
— Não mais do que eu. — sorri fraca.
— Não vou pedir desculpas pelo tapa porque você mereceu, mas posso te convidar para entrar. — sorriu afastando a porta — Entra, vai. Estamos entre amigas aqui.
Segui seus passos, passando da sala para os fundos, onde toda uma estrutura tinha sido montada. Cadeiras espalhadas pelo jardim, balões coloridos em todo lugar, e uma fonte de champanhe.
Para mim a melhor parte.
— Meninas, quem faltava já chegou, então podemos começar! — Jenny disse empolgada. Fitei as outras mulheres ali presentes, que me encaravam da mesma forma. — Eu já volto, sinta-se a vontade.
— Já estou. — ela sorriu.
Eu estava apavorada.
Notei que elas ainda me encaravam, então fiz o que parecia certo. Arrumei uma taça e me servi de champanhe.
— Claire Walsh? — não demorou tanto quanto eu esperava. Me virei.
— Sim. — preferi não sorrir entusiasmada, seria falso.
— Eu não sabia que você viria. Na verdade, a Jenny comentou alguma coisa essa semana, mas eu não acreditei. Depois de 10 anos, imaginei que nem se lembrasse de nós. — assenti quieta — Sou Becca, Becca Kylie, mas agora Jhonson. — riu — Me casei no verão passado.
— Que bom, felicidades para os noivos. — ergui a taça.
— Essa é Tory Vega, ela estudou com a gente no terceiro ano. — chamou a amiga que estava ao lado escutando a conversa. — Ela se casou com Mike Vega, um dos principais jogadores do time de Lacrosse.
— Ah, claro! — fingi que lembrava delas — É um prazer rever vocês.
— E você, Claire? É casada? — a tal Tory, ou a Becca, não sei — as duas eram muito parecidas — perguntou.
— Não, não. — virei a taça — Não encontrei um homem que fizesse jus a esse título. — ri enérgica, as duas me seguindo por educação.
Consigo imaginar o que estão pensando.
"Coitada".
— Ela está vindo!!! — todas as mulheres se arrumaram em um circulo, ficando em volta de uma cadeira.
Vi uma garçonete servindo a mesa, e corri até ela.
— Oi. — me encarou desconfiada — O que elas estão fazendo? — ela riu tímida.
— A Srta.Nelson colocou muitas roupas por cima da que estava usando por que ela vai ter que adivinhar o que é cada presente. Se errar, tira uma peça de roupa.
— Ahh.. — faz sentido — Obrigada. — voltei para onde estava.
— Tudo bem, vamos lá. — Jenny disse. Alguém alcançou o primeiro pacote, e ela começou a tatear. — É um eletrodoméstico?
— Sim! — disseram em um coro.
— Tem que especificar! — uma das duas, Tory ou Becca, disse.
— Batedeira?
— Não!
— Liquidificador?
— Não! — riram — Mais uma chance e você vai ter que tirar uma peça..
— Torradeira?
— Não! É uma creppeira. — e com isso Jenny tirou a primeira blusa.
Assim se passaram as horas.
A lista de presentes era interminável, e logo ela já estava com a blusa normal e uma calça. Os utensílios não eram lá muito uteis, e mesmo sabendo os nomes eu não entendi as funções.
— Tudo bem, esse é o último. — pegou uma caixa retangular.
— Com certeza é o da Claire! — rainha da obviedade, quase respondi.
O efeito das taças de champanhe já estava começando a fazer efeito, levemente, mas já me sentia mais ácida.
— É um eletrodoméstico? — me encarou.
— Não.
— Hum.. — fechou os olhos — Uma joia?
— Não.
— Eu não faço ideia! — franziu o cenho — Um tablet, sei lá!
— Não! — ri da careta que ela fez ao abrir o pacote.
— Claire, eu, nossa! — sorriu correndo para me abraçar — Eu não posso aceitar.
— Claro que pode, está no seu nome, não está? — mostrei as passagens.
— O que é? — ToryBecca perguntou.
— Passagens para o Caribe!
— Uau!! — me encararam.
— A Jenny merece. — sorri — Agora pode tirar uma peça de roupa, querida.
— Com esse presente minha vontade é ficar de biquíni! — gritou.
— Eu ouvi biquíni? — uma voz masculina veio da sala.
— Sam! O que você está fazendo aqui? — ela correu até ele.
— Achamos melhor traze-lo para cá, você sabe como ele é fraco com a bebida. — Não. Não. Não. Eu sabia que conhecia essa voz.
Virei a cabeça para a fonte de champanhe.
— Obrigada. Parece que agora a festa é mista, meninas! Agarrem seus maridos que a verdadeira festa vai começar.
Gritinhos eufóricos.
Pensei novamente em como conheci Jenny.
Nós éramos tão diferentes já naquela época. Talvez a história de que os opostos se atraem deu certo pra gente. Ela era animada, comunicativa. Eu sempre fiquei na minha, falava o necessário. Nunca tive amigos da minha idade, as pessoas que conversava eram amigas dela, e que por educação conversavam comigo.
Peguei um mini-churros na mesinha, e mais uma taça para engolir tudo aquilo. Não o churros, mas esse lugar, essas pessoas.
É estranho você sentir falta de um lugar em que não se sente completa, mas sinto falta da minha casa na Califórnia. Principalmente agora.
— Claire, esse é o Sam 2.0 — Jenn se aproximou.
— Oi, Claire. — ele me abraçou — Você continua emburrada, né? — não contive meu riso.
— Sam! — a noiva o advertiu.
— E você sempre bem humorado. — sorri — Faça essa mulher feliz, está me ouvindo? Senão eu contrato Deus e o mundo para te fazer se arrepender.
— Sim, senhora! — bateu continência — Bom te ver, Claire emburrada.
— Digo o mesmo, Sam. — Jenny revirou os olhos.
— Me desculpe por isso, ele anda tão nervoso com o casamento que acho que bebeu demais na despedida de solteiro.
— Não se preocupe com isso, Jenn. Hoje é o seu dia, se divirta. — ela sorriu.
— Obrigada pelo presente, de verdade. Eu não sei nem como te agradecer.
— Se divertindo, talvez? — a abracei — Aproveite sua festa de despedida, seu casamento, e sua lua de mel.
— Com toda certeza. — me largou — Eu vou dar uma água para ele.
— Faça isso, até amanhã. — virei seguindo para o lado oposto.
— Claire.
— Sim? — me fitou em silêncio.
— Ele vai estar lá, você sabe.
— Sim. — tinha uma chance grande disso acontecer, eu sabia.
— Eles são amigos do futebol, e ele só não veio hoje por conta do pai que, bem, você sabe.
— Sim, mas não tem problema, sério. — falei alto o bastante tentando me convencer — Já é hora de seguir em frente, não é?
— Eu te conheço como ninguém, Claire.
— Eu também me conheço, Jenn. Não vou voltar atrás.
— Não adianta discutir com você, é pior do que um bêbado. — disse irritada.
— Eu não to bêbado! — Sam levantou o dedo como se estivesse discursando.
— Até amanhã. — Jenn apoiou o noivo nos ombros, entrando em casa.
A noite já tinha caído, assim como a maioria dos maridos. Notei que perto deles garrafas ainda cheias de bebida estavam intactas. Uísque da melhor qualidade, caro. Pra que desperdiçar?
Fui até lá sorrateiramente e peguei uma das garrafas. Eu não ia dirigir mesmo.
Abri o lacre devagar, a garganta coçando.
— Todas as mulheres estão no champanhe..
— Minha mãe já dizia que eu não sou todo mundo. — despejei o líquido no copo.
— Então é verdade o que Sam disse, Claire Walsh, a rainha do gelo, voltou para casa. — me virei para encara-lo.
— Olá, Mike. — estendi a garrafa — Você não deveria estar lá com sua esposa? Becca, Tory, algo assim.
Ele riu.
— Típico de você essa superioridade. — levantei uma sobrancelha. Ele continuava o mesmo, só que o cabelo agora estava grisalho. — Tory é uma boa esposa, decente. — sorriu com o canto da boca.
— Guarde seus insultos para você, Mike. — me aproximei dele, chegando perto do seu ouvido, quase sussurrando — Utilize essas palavras que estão na ponta da sua língua para falar para ela durante o sexo.
Ele apertou meu braço.
— Continua violento, não é? — seus olhos soltavam faíscas de raiva.
— Está acontecendo alguma coisa? — Virei-me para a porta.
— Não. — Mike respondeu de supetão, me largando. — Só estou conversando com uma velha amiga. — riu falso — Adam, essa é a Claire.
Permaneci parada.
— É um prazer, Claire. — ele estendeu a mão. Apertei por educação.
— Eu tenho que ir. — peguei a garrafa em cima da mesa — Foi bom falar com você, Mike. Felicidades ao casal. — mostrei os dentes e saí.
Passando pela porta notei que uma névoa pairava pelo ar, e com ela o frio apareceu. Fechei os botões do casaco, eu tinha alguns quarteirões até o hotel.
— Pensei que só eu tivesse a sorte de ser tratado tão amistosamente por você, mas parece que não sou tão especial assim. — me limitei a fita-lo.
— Só pelo fato de que você conhece Mike, isso demonstra que você é especial, que é burro. — sua risada ecoou.
— Nossa, realmente estava acontecendo alguma coisa ali.
— Não estava, e me mesmo se estivesse eu não lhe devo satisfações. Não nos conhecemos.
— Nos conhecemos sim, nós passamos horas juntos no avião. Vai dizer que conversa mais com seus amantes de uma noite do que conversou comigo? — encarei-o — Viu? Você está sem resposta, eu tenho razão.
Continuei andando em silêncio.
— Para sua informação eu não sou amigo daquele cara, na verdade eu acho ele um idiota. Passou o tempo inteiro gritando para todo mundo que trai a mulher com sua secretária e ela não desconfia de nada.
— Ele é um idiota, sempre foi. — tomei um gole — Por que você tá me seguindo? Eu devo gritar e dizer que você quer me atacar?
— Pelo que pude analisar é mais provável você me atacar, não o contrário. — levantei uma sobrancelha — E nós estamos hospedados no Hampton, vi você chegando hoje cedo.
— Aliás, obrigada por ter pego meu táxi.
— Nós poderíamos ter dividido! — falou na defensiva — Não só o táxi, como também o quarto..
— Você é um babaca. — andei mais rápido, já avistando o hotel.
— Qual é, Claire! Eu posso estar levemente embriagado, coisa que você também está, mas não fui o único que sentiu essa atração.
— Boa noite, Adam. — empurrei as grades do portão.
— Estou no quarto 24, se você quiser.. — gritou.
— Tchau, Adam. — tirei o salto carregando-o em uma mão, enquanto levava a garrafa na outra.
Virei para trás.
Ele definitivamente não era de se jogar fora.
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