Não Feche Os Olhos
7 Uni-Duni-Tê
Notas iniciais
Ps: Esse capítulo é só mais uma aventura com a nossa querida Manu e o nosso príncipe André *-*
– Eu também preciso te fazer uma pergunta. –
– Pergunte primeiro então. -
– Não, tive uma idéia idiota. Vamos fazer o seguinte, no ‘três’ os dois perguntam ao mesmo tempo pode ser? – Balbuciei a cabeça.
– Não acha isso muito infantil? – Estreitei os olhos e ele sorriu com o corpo.
– Não mais infantil que fechar os olhos e fazer ‘uni-duni-tê’ entre os sabores das barras de cereal. – Ele apreciava debochar de mim. Isso era irritante, mas estranhamente engraçado.
– Cale a boca e comece a contar! – Tentei expressar raiva. Não acredito que ele tinha assistido aquele escândalo.
– Um...
– Dois... – Enchi os pulmões me preparando para a pergunta.
– Três!
– Porque você estava me evitando nesses últimos dias? – Nós dois dissemos cada palavra ao mesmo tempo. – Eu evitei? Foi porque você começou! – E novamente respondemos como se tivéssemos ensaiado aquela cena.
– Ok, chega de repetir o que eu digo. Quer responder direito a isso? Pelo o que eu me lembre, te cumprimentei um dia aí na semana passada e você mal respondeu. Simplesmente sumiu. – Justifiquei a minha pergunta. Ele sorriu maliciosamente e ainda assim era um sorriso lindo.
– Moça, eu trabalho aqui. Naquele dia me encheram de serviço e mal tive tempo pra respirar. Eu ia me desculpar na hora que vi você abrindo aquela porta, – ele apontou pra saída da biblioteca – Mas você não me esperou falar. E ainda nem olhou pra mim quando me despedi de você. Achei que estava brava comigo ou algo parecido e com seu misterioso dom de aparecer e desaparecer em lugares sem ser notada, não senti autoconfiança suficiente para ir procurar você. E nas raras vezes que a via, ficava sem graça em questionar o porquê de estar brava. – Ele parecia sincero. Encontrou meu olhar e fez um biquinho. – Mesmo tendo sido um mal entendido, me desculpa por ter parecido que estava te evitando?
– Tudo bem! Então... Então quer dizer que estávamos um evitando o outro por causa de uma confusão que eu fiz? Que maravilha! Desculpe-me também... Eu sou meio louca pra essas coisas. – Articulei os braços enquanto falava de uma forma única, coisa que eu fazia quando estava visivelmente mais tensa do que de costume.
– Sem problemas. A confusão foi nossa, não sua. – Ele se levantou do chão e estendeu a mão para eu me levantar também. Logo aceitei a ajuda. – Vem.
– Já entendi, já entendi! – Precipitei em dizer – Eu sei que não pode ficar na biblioteca dia de sexta feira, eu já estou saindo não se preocupe.
– Hey calma, eu não estou te expulsando daqui não. Eu ia te mostrar uma coisa que achei aqui na biblioteca, mas se quiser ir embora pode ir.
– Mas, não vão brigar com você por me deixar aqui dentro? – Fiquei meio confusa com o convite dele.
– Só vão brigar se a verem aqui... E, aliás, quero arriscar! – Ele piscou selando mais um pacto silencioso nosso. – Agora vem aqui, deixa eu te mostrar uma coisa legal. – Ele remexeu em uma prateleira e dentre os livros retirou um envelope. Aproximei dele curiosa.
– O que é isso? – Apontei para papel meio amarelado, talvez fosse muito antigo.
– Então, eu estava procurando mais alguns livros interessantes pra ler e... -
– Interessantes? – Cortei ironicamente.
– Não me interrompa – Ele me olhou divertidamente e eu dei de ombros – E dentre os livros achei esse envelope. É uma carta endereçada à Alicia Monteiro, de um cara, possivelmente namorado dela, Josué Santos. É uma carta de amor de aproximadamente sessenta anos. – Abri a boca surpresa. – Tem idéia do que isso é? Uma relíquia! – Ele continuou. – Naquela época, era restritamente proibido namorar dentro da escola, então os dois trocavam cartas. Sempre nesse mesmo lugar.
– Romântico isso hein? – Eu estava bastante admirada. Peguei o envelope de suas mãos e abri com o objetivo de ler o que continha dentro.
– Hum, mais ou menos. Assim que encontrei o nome de ambos, pesquisei o histórico escolar deles por um dos computadores, coisa que é ilegal e esse vai ser nosso segredinho – ele abaixou o tom de voz quando contou sua ‘arte’ — E descobri que ele foi assassinado por uma de suas cinco namoradas.
– Cinco? – Gritei incrédula.
– Uhum. Parece que ele trocava carta com todas elas e cada uma em um canto especial. Uma delas descobriu o quanto galinha ele era e resolveu por fim nele. Ela o amava tanto que tirou a vida dele com um tiro no peito e depois suicidou com um na cabeça. – Ele falava tudo àquilo com certa admiração por ser uma história tão complexa. Articulava os braços inquietamente, imaginando cada cena que descrevia. – Ela deixou uma carta de suicídio no mesmo lugar em que era designado ao namoro dos dois e creio que ninguém nunca havia encontrado... Até ontem, quando eu fiquei tão ansioso por saber dessa história e revirei a biblioteca de noite até encontrar todas ou quase todas as cartas. Na verdade ficou faltando uma que ainda não encontrei.
– Espera aí, toda essa história é real? Tem certeza? – Eu estava tentando acreditar, mas parecia uma enorme narrativa de um complicado livro da literatura brasileira.
– Bom, eu pesquisei em jornais antigos e descobri que tudo foi real. Em vários jornais daquela época, essa história macabra de amor apareceu na primeira página. Voltando ao assunto das cartas, encontrei quatro: Uma do suicídio da Helena e as outras três que Josué deixou pedindo desculpa para cada namorada, Ruth, Janaína e Alicia. – Ele levantou cada dedo ao pronunciar o nome alternadamente delas — A última carta, que provavelmente para Margarida, eu não encontrei. Deve estar escondida em algum canto por essa biblioteca. Duvido que alguma delas tenha chegado a ler a carta que ele deixou no dia anterior a sua morte, apenas Helena. Parece que ela tinha sido a primeira a descobrir a traição do namorado.
– Minha nossa que safado! História dramática e muito esquisita, mas incrivelmente interessante. – Eu meio que fiquei sem palavras. Não sabia se era pela história ou até por estar na presença dele. Ele transmitia animação e meu corpo reagia bem àquilo. – Primeiro, acho que você está fascinado por isso. Segundo, acho que está claramente obcecado em achar a última carta, por isso contou tudo isso pra mim e ia pedir a minha ajuda. Terceiro, se a sua intenção era mesmo me deixar curiosa e a fim de te ajudar a procurar pela carta... Bem, temo dizer que você está certo! – Fiz um gesto malicioso com as mãos. – Vamos começar a procurar. — Ele percebeu minha animação. Meia hora atrás eu estava chorando e agora sorria com algo tão simples e idiota. André me admirou orgulhosamente, como se estivesse feliz por ter me ajudado a sentir melhor.
Começamos a vasculhar por entre os livros de cada prateleira e embaixo de cada estante de livros. Eu tinha esquecido quase que completamente da aula e André fez questão de não me lembrar. Ele sabia que eu precisava me distrair e não ia aguentar assistir o restante das aulas durante aquele dia.
*
Algumas vezes o observei olhando discretamente para mim, forçando para eu não perceber o ato. Creio que estava certificando que eu não estava chorando de novo. Mas mesmo sabendo que não havia segundas intenções em cada olhada, meu rosto não deixou de ruborizar.
– Ah a senhorita resolveu vir de calça foi? – Lá estava ele tentando quebrar o silêncio com uma pergunta idiota.
– Ãnh – Eu não sabia bem o que responder – Bem, eu não me lembrei de tirar a calça legging hoje. Não está tão desconfortável, então vou ficar assim mesmo. – Reparei minhas pernas enquanto dizia cada palavra.
– E a camiseta de banda por cima do uniforme? Não acha isso meio nerd? – Ele estava me implicando. O modo como soletrou a palavra ‘nerd’ deixava claro isso.
– Olha só quem está falando de ser nerd, o cara que estava procurando um livro chamado “Os mistérios da internet”. – Dois pontos pra mim.
– Você é bem espertinha pra quem tem doze anos. –
– Eu não tenho doze anos! – Dei um tapa de leve no seu ombro.
– Ah sim, fez treze essa semana não foi? – Riu ele, deslizando a mão sobre o local onde havia recebido o tapa fingindo dor.
– Não que seja da sua conta e não que eu esteja pedindo presente, mas faço dezessete amanhã. D-e-z-e-s-s-e-t-e! – Arqueei as sobrancelhas imitando a cara de ‘isso é óbvio’ como ele havia feito antes.
– Ok, eu acredito que uma baixinha como você vai fazer dezessete anos... – Respostas desafiadoras eram com ele mesmo.
– Idiota! – Cuspi a palavra.
– Tagarela! – Nós dois estávamos nos divertindo.
– Chato! -
– Boba! -
– Vamos ficar o dia inteiro nisso é? – Eu não tinha mais nenhum adjetivo em mente a não ser lindo, animado e doce; mas não iria deixa-lo mais convencido do que parecia ser.
– O dia inteiro não, porque eu preciso fechar a biblioteca agora.
– O quê? – Espantei ao olhar as horas. Já eram 18:00. Nenhum de nós dois havíamos almoçado. Duvido que ele também tenha notado a velocidade em que as horas passaram. – Não acredito que já é essa hora!
– Passou rápido né? Não senti nem a fome do almoço. Foi divertido ficar aqui contigo. Você é uma pessoa... Interessante! – Ele tentou me elogiar ou me provocar, mas não deixei nenhuma das possibilidades se afirmarem.
– Foi divertido mesmo. Toda essa história maluca de décadas atrás nos deixou bastante ocupados. Bom, eu preciso ir. Tenho que saber onde deixei meus materiais. – Percebi que não havia os carregado comigo para dentro da biblioteca.
– Ok moça, até amanhã então! – Despediu timidamente com as mãos.
– Acho que amanhã eu não apareço. É sábado, volto mais cedo pra casa. – Meu rosto se moldou ao desapontamento, eu queria vê-lo no dia seguinte.
– Tudo bem, então até segunda. – Também senti uma ponta de decepção em suas palavras.
– Mas a biblioteca não fica fechada as segundas? – O lembrei.
– Essa é regra da escola... Você segue as regras da escola? – Encurvou a cabeça para o lado.
– Bem, na verdade não! – Mais uma vez ele tinha razão.
– Então, até segunda moça! – Ele sorriu e abriu a porta da biblioteca de modo gentil para eu passar.
– Até André! – Sorri e fui embora. Senti seu olhar em mim, enquanto descia as escadas até me perder de vista. Procurei meus materiais e os encontrei dentro do banheiro, ainda no boxe em que me tranquei.
Sai do colégio feliz. Esse havia sido um bom dia. Um ótimo dia.
Cheguei em casa e tomei um banho. Esquentei uma lasanha no microondas e comi sentada na cama do meu quarto. Deitei a cabeça no travesseiro, mas demorei a fechar os olhos. Repassei cada momento do meu dia perfeito. Fazia meses que eu não perdia o sono por boa coisa. Recordo de ter adormecido sorrindo.
Notas finais
FELIZ ANO NOVO PRA TODOS VOCÊS *-----------* BOAS FESTAS E ATÉ 2013!
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