Não Feche Os Olhos
22 Perdão
Notas iniciais
*
Estava dentro do carro. Minha timidez era nítida diante do meu pai, embora talvez o motivo fosse idiota. Fazia tanto tempo que não era bem tratada por ele, que nem sabia ao menos como reagir.
Tentei não pensar muito nisso. Olhei para a janela na lateral direita do carro e encostei a testa no vidro. O dia estava frio. Sabe quando algo de ruim acontece e o sol se esconde durante o dia inteiro? Então, o dia estava daquela forma. Mas dessa vez, eu tinha certeza que nada daria de errado. O sol se escondia apenas por uma coincidência habitual.
Minha respiração embaçava o vidro lentamente. Levei um dos dedos ao vidro e rabisquei uma palavra, quando senti uma mão quente pousar sobre a minha que estava livre no banco.
– Manu, eu sinto que tudo isso logo vai passar. Eu te garanto que vamos voltar a ser uma família ok? Pode demorar um tempinho, mas é em breve. — Ele ainda encarava o trânsito quando olhei pra ele. Ele parecia mudado desde o último dia que parei para analisá-lo. Ele parecia ainda mais intenso e transparecia certa aura de paz. Quando seus olhos se encontraram no meu, sorri levemente e assenti com a cabeça. Não precisei dizer nada, ele sabia tudo o que eu sentia diante daquela situação.
Chegamos ao hospital em poucos minutos. Desci do carro e olhei a entrada do hospital. Respirei fundo, coloquei as mãos no bolso do macacão e caminhei juntamente com meu pai até a entrada.
Assim que entrei, a recepcionista gorda me encarou com aversão. Sorri de lado, sabendo que nem aquele mal olhado ia acabar com meu dia. Preenchi alguns papéis e ela me mandou aguardar em uma cadeira.
– Vou dar uma olhada na sua mãe e na sua irmã ok? – Meu pai disse pra mim. – Você espera aqui que logo vão te chamar. –
– Tudo bem, vou me sentar ali. Se puder, traz notícias da Maria pra mim? – Ele concordou com a cabeça.
Acomodei-me a cadeira e comecei a brincar com meus dedos nervosamente.
O tempo parecia se arrastar. Cada vez que eu olhava o relógio na parede do hospital, eu me assustava ao perceber que apenas mais um minuto havia se passado.
Passei parte do tempo observando tudo o que acontecia ao hospital. Muitas emergências chegavam com pessoas em estados deploráveis. Famílias desconsoladas ao descobrir a morte de um parente, dor que jamais conseguiria imaginar. Olhei para a porta do hospital com o coração vazio e amargurado. Tantas pessoas passando por situações horrendas. Antes que eu pudesse desviar os olhos para outro lugar, vi alguém abrindo a porta. Era uma garotinha branca e loirinha, devia ter uns seis ou sete anos. Em seus braços, havia um porquinho em forma de cofre. Ela mancava e eu percebi o porquê quando observei suas pernas. A perna da esquerda era totalmente normal, mas a da direita era fora do comum. A coxa era atrofiada e fazia com que toda a extensão da perna da menina fosse torta.
Ao ver aquilo, meus olhos arderam e contive uma lágrima. Analisei o rosto dela. Uma menina linda e que apesar daquela situação, sua boca sorria largamente. Ela se aproximava cada vez mais de mim e eu não sabia exatamente o que fazer. Não sabia se desviava o olhar, ou permanecia firmemente nela. Ela chegou perto o suficiente de mim para começar a falar.
– Olá moça bonita! – Seus pequenos olhos brilhavam. Sua voz infantil despertou ainda mais minha intenção. –
– Olá menininha linda! – Consegui dizer sem engasgar. – O que está precisando? –
– Sabe, eu sei que é muito feio eu pedir... Mas, eu tenho uma doença que nem mesmo sei dizer o nome, que fez minha perna ficar assim. – Ela levantou a perna enferma. – Os médicos disseram que para melhorar eu preciso de uma cirurgia, mas ninguém da minha família tem condição e não temos plano de saúde. Então, estou arrecadando moedinhas para fazer a cirurgia. – Ela sacudiu o cofrinho com as pequenas mãozinhas. – A senhora teria alguma pra me dar? – Engoli em seco quando seus olhos caramelos pediram.
– E quanto é sua cirurgia? – Perguntei.
– É dez mil reais, sem a tal da fisio... Fisio... – Ela não conseguia soletrar aquela palavra.
– Fisioterapia? – Terminei.
– Uhum! Nunca consegui dizer essa palavra direito. – Ela soltou um riso bobo. Eram dez mil reais que ela precisaria, e lá estava ela com um porquinho meio cheio de moedas. Enfiei as mãos nos bolsos, procurando algo. Achei uma nota de dez reais e me odiei por não ter mais dinheiro. Coloquei a nota dentro do cofrinho e os pequenos olhinhos dela brilharam.
– Dez reais? – Ele levantou a cabeça e me encarou. – Não vai te fazer falta? –
– Não, não vai não! Pode despreocupar! –
– Muito obrigada moça! – Esperei uns segundos.
– Vêm todos os dias aqui? –
– Venho sim, todos os dias nesse horário. –
– E cadê sua mãe? – Ela fez uma careta.
– Ela tem que trabalhar, para ver se consegue o dinheiro para a cirurgia... Mas ela disse que com o trabalho dela, nunca vamos conseguir. Por isso, resolvi começar a pedir pela rua. -
– E seu pai? – Me arrependi de perguntar.
– Papai morreu, há muito tempo! – Ela abaixou a cabeça.
– Eu sinto muito... – Comprimi os lábios formando uma linha.
– Tudo bem, ela está com o Papai do céu agora. Ele é um anjo e está me protegendo todos os dias. – A garotinha suavizou a expressão.
– Uma última pergunta, qual o seu nome mocinha? –
– Eduarda Lopes, prazer. – Ela apoiou o porquinho em um dos braços, e estendeu o outro para apertar minha mão.
– Manuela Rodrigues. – Meu nome foi dito em uníssono. Uma médica ou enfermeira havia me chamado e arqueei os olhos para encará-la. – Estamos te esperando para a cirurgia. – Voltei os olhos para a Eduarda.
– O prazer é todo meu viu? – Apertei seus dedinhos pequenos. – Prometo que sempre quando te encontrar, vou te ajudar com a cirurgia ok? – Baguncei seus cabelos e ela sorriu agradecida. Levantei-me e segui a tal mulher pelo corredor em direção à sala de cirurgia.
*
Abri os olhos e minha visão ficou turva. Tudo o que eu vi foi a cor branca. Pressionei os olhos com força e levei um dos braços para minha testa, enquanto tentava me lembrar do que havia acontecido. Estar naquele lugar me dava um pouco de pânico.
Girei a cabeça e meu corpo todo respondeu com um gemido. Uma dor atravessava meu corpo todo me fazendo soltar o ar com um resmungo. Olhei o aparelho que apresentava meus batimentos cardíacos, observei uma agulha injetada em minha veia me enchendo de soro. Foi assim que recordei da cirurgia.
– Você não está fazendo esforço, está? – Virei à cabeça com dificuldade para a porta do quarto. O sorriso mais lindo do mundo estava lá.
– Não estou... Estava tentando apenas descobrir onde eu estava! – Soltei um sorriso fraco. Ele se aproximou e deu um beijo na minha testa.
– Trouxe essa margarida pra você, iria te dar, mas acho que o beijinho na testa te fez mais feliz! – Ele ironizou o poder de sedução dele enquanto colocava a flor em cima da mesinha. Ele era mais lindo ainda quando fazia essas gracinhas. E mais sexy ainda naquela roupa. Uma camiseta branca e um casaco escuro por cima. Calça Levi’s escura. Eu achei que tinham feito algo com meu cérebro também, o meu príncipe encantado estava ali no meu quarto e eu estava admirada pelo o que ele vestia, sendo que bastava ele sorrir e pra mim ele estava lindo. Nem precisava estar vestido e nem nada... Bastava sorrir. É... Ele não precisava estar vestido... Soltei uma risada maliciosa.
– Você até que tem razão! Só bastou você chegar pra me fazer feliz. –
– Oxi, o que fizeram contigo? Você está concordando comigo e até aceitou eu jogar charme... – Ele me notou confuso se divertindo com a situação.
– Não se acostume, logo eu volto ao normal. – Mostrei a língua. E ele me imitou num gesto bem mal feito.
– E então, — Ele se sentou na cama e apoiou uma das mãos em minhas pernas – Como está minha princesa preferida? –
– Tem mais de uma? – Deixei a boca entreaberta.
– Várias... Você sabe como eu tenho muitas fãs. – Franzi o cenho. Se eu não estivesse tão dolorida, teria metido aquele aparelho que media meus batimentos cardíacos na cabeça dele. – É brincadeira, não me mate? – Balancei a cabeça negativamente.
– Eu estou bem, seu idiota. Mas eu quero mesmo é saber da minha irmã... Como ela está? Ela já fez a cirurgia dela? – Alterei minha voz para um tom mais baixo.
– É difícil responder. Ela já fez a cirurgia sim, mas continua dormindo. O quadro dela é estável então, só vamos saber se ela está bem quando ela acordar e é só isso que eu sei. Além do mais, não me deram muitas notícias já que não sou parente de vocês... O que seus pais iriam pensar se soubessem que um cara que nunca viu na vida deles, estivesse vigiando as duas filhas deles? – Ele arqueou as sobrancelhas.
– É verdade, você até que tem razão algumas vezes. – Ele ignorou o que eu disse. – E você sabe onde meus pais estão? –
– No quarto da pequenina, imagino. – Mordi o lábio imaginando se meus pais tinham vindo me ver. – Moça, eles devem ter vindo aqui te ver ok? Eles estão mais preocupados com ela, porque afinal, é ela quem está por um fio. – Disse ele lendo meus pensamentos.
– Oh, é claro e eu não faria diferente deles. – Sorri. Ficamos silenciosos por uns minutos. André passeou a mão pelas minhas pernas, chegou a meus pés e brincou com meus dedos.
– Você é mesmo muito pequena! – Ele se divertiu. – Quanto você mede mesmo moça? –
– 1,65... – Bufei. Ele me olhou incrédulo. – Ok, ok... 1,60. – Ele comprimiu os lábios ainda sabendo que eu estava distorcendo a realidade. – 1,54. Pronto falei! Satisfeito? – Ele gargalhou.
– 1,54... Meus parabéns! – Queria levantar da cama e esganá-lo, mas antes que eu pudesse fazer isso vi um vulto na porta do quarto.
– Mãe? – Minha mãe estava encostada na porta e eu me questionei por quanto tempo ela realmente estava aqui.
– Quem é você? – Ela perguntou. Bela hora de apresentar meu – possível – futuro namorado, pensei.
– Mãe, esse é meu amigo André. André, essa é a minha mãe Samantha. – André se levantou da cama e estendeu a mão para minha mãe, que repetiu o gesto. Ela intercalou o olhar entre ele e eu. De alguma forma, ninguém acreditava quando eu o apresentava como amigo.
– Prazer senhora. Manu, eu vou buscar algo ali e já volto ok? – André disse saindo da sala enquanto deixava eu e minha mãe à sós. Eu sabia que era de proposito essa ação repentina dele.
Minha mãe aproximou da cama cabisbaixa e se sentou. Ela apertava as coxas nervosamente me deixando apreensiva.
– Manuela, eu quero te pedir desculpas. Eu errei com você... A culpa não é sua de a sua irmã estar assim, não é culpa de ninguém. – Ela levou sua mão de encontro a minha. – Eu estava enganada sobre você, você não é um monstro. Você salvou sua irmã, minha pequena e frágil Maria. Não sei suas razões de ter feito o que fez no passado, — Engoli seco — mas eu estou começando a considerar a esquecer daquilo. Nunca estive do seu lado, nunca conversei com você depois do ocorrido. Não sei o que passou pela sua cabeça... –
– Mãe... – Interrompi e ela me advertiu com o olhar.
– Mas também não quero saber mais. Você foi punida e já sofreu demais com isso. Está na hora de ter alguém em quem confiar de volta. – Lágrimas queriam rolar em minha face, mas as segurei. – Não estou dizendo que a partir de hoje, vamos ser as melhores ‘mãe e filha’ do mundo, mas estou dizendo que ainda temos chance de consertar tudo o que passou. – Se a dor não tivesse me impedido, eu a teria abraçado. Aquelas palavras saiam de forma tão singela de sua boca, que cheguei a duvidar que aquilo pudesse ser real. – Me desculpe por tudo? Por favor? –
Notas finais
Ps: Bem vindos leitores nooooooooooovos *-*
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