Não Escolhi Amar Ele
15 Capítulo 15 - Um Momento de Paz
(Daniel)
—Boas notícias – Diz o médico. – Está na hora de ir embora, você já está melhor e de alta.
Eu não via mesmo a hora de ir embora, todo aquele cheiro de hospital estava me deixando maluco, a correia dos médicos e o barulho das macas no corredor me apavoravam. Nunca fui fã de hospital, então era de se esperar que eu estivesse louco para sair daqui e me aconchegar em minha cama. Juntei todas as minhas coisas, que não eram muitas, um par de tênis preto e vermelho, uma calça jeans que minha mãe me trouxe anteontem, e uma camisa polo branca. Não via a hora de me vestir novamente, era agoniante ficar sem roupa esperando até que os médicos viessem olhar eu todo nu.
Minha mãe estava me esperando do lado de fora do quarto, correu e me deu um abraço forte, beijou minha testa, ficou me olhando como se eu tivesse ficado anos viajando para longe dela. No carro ela nem tocou no assunto de homossexualidade, ficamos quieto até certa parte do caminho, e então eu me dirigi com a palavra até ela.
-Mãe?
-Oi?
-Você está bem? Digo, em relação a mim.
-Estou sim meu anjo, eu te amo do jeito que você é.
O objetivo de tentar ver sua atitude em relação ao filho gay foi em vão, ela não demonstrou nada, pareceu não importar, mas também mostrou frieza enquanto respondia. Me pergunto se ela descobriu do Lucas, e o que tem feito o Fabio, meu celular estava totalmente destruído pela água da chuva, então, não tive mais contato com ele e depois da discussão dele com minha mãe no hospital, nunca mais o vi.
Quando cheguei em casa o Lucas estava no portão me esperando, desci do carro e recebo um forte abraço, e um aperto de mão “hétero”.
-E aí cara, está melhor? – Me pergunta ele
-Estou sim, os médicos disseram que não foi nada grave, apenas tenho que ficar alguns dias de repouso.
-Entendi – resmunga ele. – Você já sabe onde vai passar o Natal? Ou com tudo isso acontecendo se esqueceu?
-Não esqueci não, vai ser como todo ano, minha mãe vai para a casa dos meus avós e ficamos lá nos enchendo de comida e doces, depois volto para casa e durmo.
-kkkkk Meio entediante isso, não? – Retruca ele dando gargalhadas
-É o que tem. Mas, o seu natal como vai ser?
-Meu pai alugou uma chácara, vamos ficar lá com os parentes e alguns amigos da família, acredito que até a Melissa esteja lá.
-Affs! A vaca vai ir na sua confraternização?
-Sim né! Meus pais gostam dela, por ter sido minha namorada, agora tem um passe livre para festas da família. – Bom vou deixar você descansar um pouco depois volto, até mais.
Entrei em casa e fui direto para o banheiro, precisava urgentemente tomar um belo banho quente, deixar a água deliciosa escorrer por todo meu corpo, enquanto penso um pouco melhor sobre como será minha vida de agora em diante, sei que minha mãe não está feliz comigo, mas ela finge estar bem. Vou deixar ela continuar fingindo enquanto vivo minha vida. Peguei a toalha azul que estava pendurada no box de vidro, enxuguei bem a cabeça e os cabelos, passando por todo meu corpo levemente, em seguida peguei o pijama branco com bolinhas prestas que estava em cima dobrado em cima da pia, vesti e fui para meu quarto. Deitei na cama, macia e cheirosa, nada comparada aquela cama de hospital, dura e com cheiro de remédio. O silencio do meu quarto estava ótimo, me senti em paz, olhando o teto e pensando do Lucas, lembrando do abraço forte que ele tinha me dado.
Me levantei e fui até o computador, já estava sem celular há alguns dias, então precisava me comunicar com meus amigos, conversar, ver as notícias que haviam ocorrido durante meus dias no hospital, mesmo que poucos, coisas acontecem a todo momento, igual quando minha mãe se separou do meu pai, foi tão rápido, em um dia estavam se amando como dois adolescentes e uma semana depois, estavam sentados em uma mesa, em frente a um advogado conversando sobre seus direitos. Olhei todos sites de notícias como de costume diário, e após terminar resolvi abrir meu Facebook para olhar o que estava rolando na escola e ao meu redor, assustei com o número de notificação de mensagens recebidas, todas do Fabio, ao todo eram 16.
-Oi Dani, como você está?
-Dani, já saiu do hospital?
-Seu celular está comigo, peguei com medo de sua mãe mexer nas suas coisas, me chama aqui quando ver as mensagens.
Tinha mensagem pra caramba, aproveitei que ele estava online e puxei assunto. Perguntei quando podia ir buscar meu celular, e claro, agradeci por tudo que ele tinha feito por mim, não é todo mundo que faz isso por qualquer pessoa, além de bonito ele é legal e gentil, tudo o que qualquer pessoa deseja para um relacionamento, pena eu amar o Lucas e não o Binho.
-Então Dani, o que você acha de vir aqui em casa pegar seu celular e aproveitar para jantar ou assistir um filme, sei lá... – diz ele em meio nossa conversa monótona
-hahaha tá bom, umas 20:00 eu apareço ai, mas não posso ficar muito tempo.
Meu braço direito ainda estava dolorido e um pouco roxo, as pancadas que levei foram fortes, peguei a pomada que o médico receitou e passei no local afetado, estava doendo muito, mas logo que o remédio fez efeito comecei a sentir um alivio. Separei algumas roupas para ir na casa do Fabio, nada fora do normal, camiseta branca do Bart Simpson, adoro esse desenho então sempre tive roupas da série, uma bermuda vermelha que minha mãe me deu no início do mês e penteei o cabelo para poder ficar apresentável. Quando estava procurando meus tênis novos para calça-los, ouço a campainha tocando.
-Ah oi, entra ele está no quarto dele. – Diz minha mãe sendo receptiva com alguém.
Não faço nem questão de ir ver quem é, afinal já estou de saída e não posso ficar sem meu celular por mais um dia.
-Toc-Toc. – Bateu na porta do meu quarto.
-Entra! – Respondi e continuei procurando
-Vai sair? Perguntou. Me virei para olhar quem minha mãe havia deixado entrar direto no meu quarto, e estava falando comigo.
-Lucas? Oque faz aqui? – Fiquei espantado com a visita dele.
-Vim te chamar para tomar sorvete, mas parece que você está de saída!
-Ah, sim. Fiquei surpreso, não esperava você aqui agora.
-Não gostou que eu vim até aqui? Se quiser posso voltar outra hora sem problemas nenhum, apenas pensei que você quisesse distrair um pouco sua mente, depois de todos os acontecimentos. Mas parece que você já pensou nisso também- Disse ele terminando a frase em um tom sarcástico
-Vem comigo, vou até a casa do Fabio buscar meu celular. – Convido ele e continuo a me arrumar.
Saindo na rua vazia sem movimento algum, ergui a cabeça e observei o céu estrelado, lindo, cheio de brilho. Sempre onde havia um espacinho em preto, também havia uma luz branca, pode parecer clichê, mas isso me deixou confortável, sabendo que minha vida pode sim mudar para melhor agora que minha mãe sabe sobre minha sexualidade. Um arrepio toma conta dos meus braços, alguns dedos começam a se entrelaçarem nos meus. Eu olho para o lado e vejo o sorriso mais lindo e sincero do mundo, vindo com toda força e destruindo tudo o que me preocupava.
-Tudo bem eu segurar sua mão? Não tem ninguém vendo, então pensei que pudesse. – Diz o Lucas com o olhar meigo e doce. Me deixando totalmente sem reação e sem jeito de negar esse pedido.
-Tudo bem sim, pode segurar. – Respondi e quando ia me sentar no banco frio do ponto de ônibus ele me agarrou forte, um verdadeiro abraço de urso, apertando toda minha estrutura óssea.
— Aaaah! Eu precisava muito fazer isso, estava morrendo de vontade de te abraçar forte de novo, e sei que você também estava precisando de um abraço. – Disse ele e novamente me deixando pasmo com suas atitudes. Eram duas coisas que jamais imaginei ver ele fazendo, e em tão pouco tempo de intervalo.
Retribui o abraço, segurando firmemente minhas mãos por trás dele e encostando minha cabeça sobre seu ombro, respirei fundo, o som de seus batimentos cardíacos me deixaram calmo, seguro e confiante. Neste momento eu não estava me importando com mais nada, com mais ninguém. Mas espera ai... se alguém ver ele abraçado comigo, vai descobrir que ele é gay.
-Lucas... Se alguém ver você assim, vai ferrar sua vida. Melhor a gente parar. – Disse soltando ele e nos separando levemente, como alguém que não quisesse soltar, mas era obrigado a isso. Realmente eu não queria soltar, pois tudo estava perfeito.
-Relaxa meu lindo. – Disse ele. – Quero aproveitar cada segundo ao seu lado, antes que não seja mais possível.
Fiquei me perguntando qual o motivo dessas atitudes tão repentinas, o que teria feito ele pensar assim, será que foi por causa do “acidente” que aconteceu comigo? Ou alguma outra coisa? Realmente não sei. Gosto dele, mas tenho medo que se machuque por minha culpa.
De longe avisto o ônibus se aproximando, me afasto do Lucas e dou um sorriso leve, de cantinho da boca, então ele aproxima sua boca rapidamente e me dá um leve selinho. Corri e sentei nos bancos altos do busão, encostei na janela por que adoro ficar olhando para fora enquanto faço o percurso e pensando na vida...
Sol radiante, nuvens claras por todo o céu, grama verde embaixo dos meus pés. O cenário perfeito para relaxar em baixo de várias arvores enormes, me jogo no chão, abro as pernas e os braços olhando fixamente para o céu azul bebê, alguns pássaros voando, de repente alguém deita em cima de mim, com um abraço forte. E quando olha diretamente em meus olhos, só consigo enxergar a pessoa que eu sempre quis ao meu lado. Lucas segura meu rosto delicadamente e me beija, passa as mãos no meu cabelo, fixa seu olhar ao meu e diz “Te Amo” eu fiquei totalmente admirado e não sabia o que dizer. Em alguns segundos depois o céu lindo e claro começou a ficar escuro, uma nuvem gigante e negra se aproximava, com trovões e raios vermelhos. Um enorme trovão explode no céu.
—Dani... Daniel! – Diz Lucas me dando uns empurrões no banco do ônibus
—Ahn? O que?
— Tudo bem cara? Você estava viajando, totalmente perdido em outro mundo.
— Me desculpa, está tudo bem sim. Só estava pensando na minha vida. – respondi tentando desviar o assunto. – Ainda bem que você me chamou, estamos chegando levanta.
O ponto de ônibus era bem em frente da casa do Fabio, descemos e atravessamos a rua, toquei o interfone para chama-lo.
— Quem é? – Responde ele.
— Oi Fabio, sou eu, Daniel.
— Ah, oi delicinha, vou abrir o portão e você entra. – o portão se destranca automaticamente e Lucas olha pra mim com um cara enciumada.
— “DELICINHA”? – Diz ele olhando para mim e dando gargalhadas um tanto “falsas”
— Ué.... Quer que eu faça oque? Kkkkk – respondo e continuo indo em direção a entrada principal da casa. – Vem! Vamos indo.
O quintal dessa casa é bem grande, do lado direito um pequeno jardim com gramado, e o restante da frente, uma garagem que cabe 2 carros, a luz que ilumina toda a parte frontal acende automaticamente por sensor, e no fundo tem uma piscina, não muito grande, mas o suficiente para umas 10 pessoas adultas se divertirem tranquilamente. Nunca perguntei qual o serviço dele, mas parece ser bem rentável. E lá estava ele na porta da sala de estar, me aguardando.
— Olha, você trouxe um amigo. – Disse ele com um tom de voz um tanto surpreso
— Sim, trouxe o Lucas, me desculpa não avisar que ele viria.
— Tudo bem, não tem problema. Já nos conhecemos não é mesmo Lucas?
Lucas olha para mim, depois direciona o olhar para Fabio e responde um pouco “seco” como se não quisesse puxar assunto algum. – Sim!
— Enfim pessoal, entrem e fiquem a vontade, sintam-se em casa, vou estourar algumas pipocas Dani, já que combinamos de ver alguns filmes e eu aluguei 3 na net now. Podem ligar a TV e escolher um dos filmes “Cada um na sua casa”, é uma animação muito divertida, pelo menos o trailer era. “A 5ª Onda” um filme de aventura e ação, onde extraterrestres invadem o planeta terra e tentam eliminar toda a humanidade. E “Exorcistas do Vaticano” se vocês gostam de terror precisam assistir esse, só não pode cagar nas calças de tanto medinho kkkkkk.
Enquanto Fabio foi para cozinha, veio latindo e correndo, uma cachorrinha muito linda, aparentemente da raça Poodle Toy, com um vestidinho lilás e coleirinha cor de rosa, ela é tão pequena que parece uma bolinha de lã com orelhas, peguei no colo e comecei a brincar com ela, eu amo animais, cães são meus preferidos, Lucas sabe disso apesar de não gostar tanto quanto eu.
— Fabio, não sabia que você tinha uma cachorrinha. – Gritei brincando com ela.
— Tenho sim, ela se chama Pink, no dia que você dormiu aqui ela estava na casa da minha mãe.
Que cachorrinha cheirosa, tem aroma de bebê recém-nascido, no qual as mães passam talco, shampoo especial e aquele monte de coisa que dá um cheiro especial, o latido suave e fofo, dentinhos afiados, porem com leves mordidas adoráveis. Resumindo, amei a Pink!
— Hey, já que o Lucas veio, chamei meu amigo Edu para vir aqui assistir filme também. Ok? – Fala o Fabio voltando da cozinha com uma jarra enorme de suco de laranja e alguns copos na bandeja.
— Ah por mim tudo bem. – Digo e olho para o Lucas.
— Tudo bem sim, mas eu não posso chegar tarde em casa, e o Daniel sabe disso. Esse seu amigo vai demorar? – Disse o Lucas com uma cara de merda, do tipo que não estava afim de ficar aqui.
— Relaxa, ele mora a 4 casas da minha, só estava tomando banho e já vem. E fica tranquilo, depois levo vocês dois embora.
CLAP, CLAP, CLAP, CLAP, CLAP... Barulho de palmas vem lá de fora.
— Deve ser ele, esperem aqui, vou lá abrir o portão. – Fala e sai correndo para atender.
Fiquei na sala brincando com a Pink enquanto Lucas passava os canais da TV todo entediado, eu não entendo por que ele não tenta se enturmar, o Binho é super legal, educado e gentil.
— Gente, esse é o Eduardo. Eduardo, esses são Lucas e Daniel.
Quando olhei para o tal amigo do Fabinho, fiquei admirado com tamanha beleza, não sei se é por que ele faz totalmente meu tipo de garoto ou se é simplesmente lindo. Com esses cabelos pretos, tão pretos que chega a refletir o brilho da luz, olhos meigos, cor de mel, sobrancelhas feitas, e lábios vermelhos como melancia recém cortada.
Aproximadamente 1 metro e 78 centímetros de um corpo magro, porem com alguns músculos a vista por causa de sua camiseta regata bem apertadinha, sua bermuda jeans faz com que suas pernas grossas e com pelos aparados fiquem bem visíveis, e um tênis branco e vermelho da marca puma, deixa o seu charme ainda mais irresistível.
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