Notas iniciais
Danse Macabre (opus 40), composta por Franz Lizt/Camille Saint-Saëns, francês. Primeira apresentação em 1875. A composição foi inspirada no poema de Henri Cazalis, que retrata uma superstição francesa, a qual diz que a Morte surge todo ano no halloween a meia-noite, e tem um poder de chamar os mortos para dançarem para ela enquanto toca violino até o amanhecer.
Escute-a aqui: http://www.youtube.com/watch?v=YyknBTm_YyM

Nesse capítulo, acompanhado com a música, é retratado a mentira, ilusão, fantasia, medo, desespero e beleza.

Hoje o vento e a brisa da noite estavam copiando a melodia dos meus passos. Em meu caminhar na subida para aquela enorme mansão, apenas pensava em como meus olhos poderiam ser hipnotizantes ou se meu vestido estaria brilhando até o fim dessa noite. Estranhamente, recebi um delicado convite para um baile em um famoso e desejado lugar. Eu, uma pessoa inexperiente diante a vida, certamente não esperaria por esse ocorrido, pois nunca sequer gastava meu tempo para ilusões. Essa noite arriscaria mais uma vez para tentar encontrar a felicidade e tentaria fugir antes de ficar aos prantos.

Relaxada com o vento gelado sendo minha companhia, parava diante daquele enorme portão. A única luz que incendiava o chão era a da lua, pois a noite parecia ser mais forte nesse lugar. Em vez de lâmpadas, as velas guiavam o meu olhar, o que poderia dar mais um toque de antiguidade na aparência do local, não deixando de colocar charme em nenhum ponto. Dentro do meu peito, sentia um aperto e um enorme desespero, minha mão travará logo que iria bater no portão para anunciar minha chegada. O pessimismo era pesado, uma parte de mim dizia-me para dar meia volta e sair daqui o mais rápido possível, mas a minha parte ingênua estava totalmente encantada e fascinada. Depois que esse furacão de dúvidas sumiu do meu peito, ignorei todas as consequências e apenas dei duas batidas.

Os portões abriram-se diante de mim e isso seria como se estivesse entrado na luz. Parei ao centro do salão e abri minha boca em um enorme sorriso de satisfação. O tapete era vermelho e o lustre gigante de cristais dava cor e brilho em todo o local. Com esse salão enorme não podia faltar a grande quantidade de convidados no local, todos elegantes se misturavam no meio dos sorrisos, conversas e risadas, tudo parecia estar animado. As mulheres eram bonitas e os homens eram gentis, ninguém estava sozinho, todos acompanhados. Finalizando o caminho da entrada, havia uma enorme escada que dava ao segundo andar, mas apenas algumas pessoas estavam lá em cima, a maioria eram idosos. Uma parte do salão estava vazia, provavelmente seria o local da dança, porém a música não dizia para dançarem. Era algo bonito de se ouvir, sons de vários instrumentos e um solo de violino que se partia lento para algo agitado como as batidas de um coração feliz. Fui recebida por vários sorrisos e palavras doces, o cheiro de perfume permanecia no ar e humilhava as rosas de decoração. As comidas e bebidas pareciam de mentira de tão elogiadas.

Minha mente rendeu-se as fantasias e meus pés automaticamente se moviam para poder presenciar tudo de perto. Queria andar pelo salão para ver os rostos das pessoas e para ser admirada, estava confiante de estar parecendo uma mulher desejada. Todos os convidados estavam usando máscaras coloridas e de diferentes formatos, esqueci-me que o baile era de máscaras. Senti-me um pouco fora do contexto, mas ao mesmo tempo não queria esconder meus olhos e pálpebras pintados.

Meu rosto virou-se em direção daquela enorme escada, parecia que o ar do baile estava ficando mais doce e animado. Todos os convidados olharam também, colocando um maior sorriso no rosto. Alguns cochichavam entre si e riam, mas a maioria de seus olhos brilhavam. Um homem elegante descia aquelas escadas usando um terno bem passado e uma gravata bem escolhida e arrumada. Seus sapatos brilhavam de tão limpos e suas mãos foram escondidas por duas luvas brancas igual neve, mas acredito que seu toque era quente. Ele desceu todas as escadas com delicadeza e parou na última, olhando todos os seus convidados, os quais responderam com suaves aplausos.

Meus olhos e coração de mulher se encantaram nessa majestosa figura que mais parecia um príncipe. Por máximo que tentava desviar o olhar, sentia-me presa e acorrentada nessa elegância. Meus sentidos se aceleraram quando, surpreendentemente, trocamos olhares um com o outro, e como resposta aos meus desejos, recebi um lindo sorriso. Seus passos voltaram-se para mim e suas mãos carregavam duas delicadas taças. Quando aquela incrível presença estava em minha frente, pude ver todo o seu rosto livre de qualquer imperfeição. Usava uma máscara clara como joia, escondendo tudo em volta de seus olhos, a mesma encaixava perfeitamente em seu nariz que mais parecia um desenho. Aquela máscara não impedia que seu olhar penetrasse em mim e me impedisse de gamar em qualquer outra pessoa.

O homem me ofereceu a bebia e aceitei, enquanto desfrutava de sua presença ele se apresentava e conversava sobre vários assuntos interessantes. Suas palavras eram pronunciadas com delicadeza e sabedoria, o tom de sua voz era capaz de aconchegar qualquer corpo agitado, nesse momento estava viajando para ilusões que jamais pensei que existissem. Fomos interrompidos quando a alegre música tornou-se calma e todos os convidados encaminharam-se para aquela parte do salão que até agora estaria vazia. Estavam todos indo dançar, e ele ofereceu sua mão para acompanhar-me em uma valsa.

Mesmo rodeados pelos convidados, sentia estar sozinha apenas com ele. Seu toque era realmente quente, parecia que eu era uma boneca frágil sendo carregada pelo dono. Meus passos foram guiados pelos dele e assim não me preocupei com a dança, apenas olhava em seus olhos e sorria. Oh, meu mundo estaria parado, o relógio para mim não existia mais. Estava vivendo um sonho, mas ao mesmo tempo não me sentia viva. E por mais incrível que fosse, sua presença parecia querer me prender em algo, mas por ser tão belo não conseguia pensar nas piores partes. Estava hipnotizada e qualquer mentira seria aceita por mim.

O desespero dominou meu peito quando seu rosto aproximou-se do meu. Tudo estava tão belo que seria impossível ser real, a perfeição só é possível quando há mentiras. E assim, olhando seus olhos de outra maneira, pude ver algo profundo que queria matar a fantasia e o sorriso, foi algo triste e cruel de se enxergar, mas sua beleza era o que a escondia de todos. Não soube o que fazer a não ser empurra-lo para longe de mim e dessa vez não houve pensamentos para impedir-me. Quando meus olhos se livraram daquela figura, pude perceber que todo o salão estava vazio e escuro, mas agora o homem havia sumido junto. Vi-me sozinha no meio das decorações mortas e as velas sem luz, parecia que tudo tinha sido abandonado fazia muito tempo.

Céus, isso tudo era verdade? Ilusões são realmente perigosas? Fui iludida pelo amor da mentira e quando percebi era tarde, tudo já havia sumido e todas as oportunidades desaparecidas. Se ao menos o rancor não invadisse meu peito talvez pudesse ter forças para pensar positivo novamente. Sentia cheiro de algo morto e nem o perfume das rosas parecia existir mais, tudo se tornou espinhos. A cor vermelha agora parecia sangue e estava mais espalhada como nunca, as manchas subiam a escada, acompanhadas com teias. Aos poucos, imagens de pessoas esticadas no chão foram surgindo, em qualquer lugar que pisasse encontraria uma máscara.

Senti uma mão tocar meu ombro e, quando virei-me, vi a figura do homem novamente. Sua máscara tornou-se preta e não conseguia mais enxergar seus olhos, pareci que tudo foi coberto por uma camada negra como se fosse pintura. Seu cheiro não era nada agradável, lembrava carniça, e seu sorriso só dava a aparência macabra que faltara em seu rosto. Minha fantasia não estava mais presente e a ilusão deu espaço ao medo e desespero, os quais iam florescendo dentro de mim a cada grito que socorro que dava. “Meu amor, não grite”, ele disse enquanto tentava me tocar, “apenas abrace-me e poderemos sorrir juntos.”.

Seus passos iam caminhando até mim novamente, acompanhados com uma melodia que podia caracterizar o fracasso e a covardia. Aquelas mentiras eram sedutoras, pois já me tornara a vitima perfeita para ser seu troféu, quem se entrega uma vez já se torna prisioneira. Estava certamente acorrentada, e agora tudo o que restava era um puxão para me ver em seus braços e suplicando por seus lábios. As mentiras eram fortes, mas tentei ser algo maior e coloquei minhas pernas para correr.

E nesse momento que meu coração já batia de acordo com a melodia macabra, todos os convidados apareceram em minha frente dançando. Seus ternos estavam ensanguentados e suas máscaras eram negras iguais à escuridão. Seus sorrisos deram a entrada para uma risada horrível e deselegante, seus sapatos deixavam todo o chão coberto de lama e terra. A presença de todos trazia impureza, sofrimento, indecisão e traição.

Tentei não olhar para trás em nenhum momento por máximo que queria tentar procurar a imagem que encontrei desde o principio, pois era triste abandonar minhas fantasias. Tentei não pensar em uma explicação para tudo isso, o que mais importa agora é fugir. Corri pelo salão e deixei meu vestido balançar de acordo com o meu desespero, e assim que passei pela porta com meus olhos borrados, não consegui mais escutar nenhum som, apenas a brisa do inicio que voltara a assoprar em meus ouvidos.

Meus passos pararam, estava ofegante. Por que não conseguia correr mais? Já estava fora de lá, só faltava me afastar de vez daquela mansão. Estava com tanto medo e indecisão... Acabei de ver todas as mentiras e impurezas, tudo o que estava sendo escondido de mim até agora! Mas, lembrava-me das fantasias que acabei de abandonar lá dentro... Aquelas ilusões que um dia já me afoguei foram deixadas para trás, o desespero me ajudou até agora. Isso não estava certo... Sinto saudade, quero leva-las em meu peito, pois são elas que cobrem todas as dores que o mundo trás para mim. Sim... Eu pertenço a elas.

Dei meia volta e caminhei novamente para o portão que agora se encontrava aberto. Na entrada, o homem estava sorrindo e esticava sua mão para mim. Atrás deles, todos os convidados riam e aplaudiam com seus olhos ensanguentados e com suas mãos sujas.

Segurei sua mão, rendia-me em seu abraço. Nossos lábios se encontraram e por fim olhei no fundo dos olhos negros, apenas com uma música calma de fundo. Não posso me libertar, irei ser sempre condenada pela ingratidão. Viverei sempre no medo e desejo, as mentiras me livraram da dor, pois tenho medo de tentar.

Irei sorrir para sempre com você.

Irei sorrir como você.

Notas finais
Obrigada por lerem até aqui! Ajudas para o próximo capítulo (ou sugestões) são bem-vindas ^-^
A história pode ou não acompanhar a música certinho, então é legal deixar o leitor encaixar cada coisa na música ou até imaginar algo opcional ♥

Curiosidade: A música usa em particular o xilofone para representar o som da morte/ossos.