Método Único
10 Capítulo 8
Mia
Não sou muito disso. Como já disse antes, meu senso de moda é deprimente, mas o negócio é o seguinte: DEFINITIVAMENTE eu preferia ter colocado uma bota ortopédica, do que esse maldito gesso. Ele é terrível! Não posso nem por minha calça jeans, ou minha legging...e tá frio!
Não vejo sentindo nesse exagero todo de gesso, se foi só um torsão besta. Tudo bem que o médico disse algo sobre ter trincado, mas não está QUEBRADO. E agora, por causa disso, tenho que ficar usando saia direto. SAIA. Eu odeio saia! Tá, ódio é uma palavra muito forte, titia diz que não devemos odiar nada e nem ninguém, nem mesmo as aranhas, mas eu REALMENTE não sou fã de saia, vestido, enfim, essas roupas que pedem disciplina na hora de andar, e cuidado na hora de sentar. Calça e legging é são as melhores invenções!
Porém, não tive muita escolha. Quando recebi alta do hospital, Camila me trouxe uma muda de roupa, e nomeio do moletom largo do colégiom do suéter branco e da camisa de manga, também branca, lá estava ela. A bendita saia.
— Vem cá... pode misturar os uniformes de verão e inverno? – perguntei esperabçosa.
Camila revirou os olhos. — Pode ficar tranquila, Mia. O diretor vai entender quando vir esse pequeno detalhe branco no seu pé.
Suspirei derrotada.
— Agora vá se trocar, porque se não, chegaremos atrasadas na aula.
Poxa, nem para me darem uma folguinha... Tive uma recuperação rápida, foi o que o médico disse. Mas então por que esse gesso inútil-que-nem-me-deu-direito-a-faltar-aula?!
Vesti o uniforme e...Ótimo! Não tinha espelho ali.
— E aí? Mia já está pronta? Ué, cadê ela? – ouvi David chegar.
Abri a porta do banheiro depressa.
— David, David, Daaavid! – fui até ele, pulando em uma perna só.
Quase caí, mas ele me pegou.
— Ei, cuidado... – disse rindo, mas surpreso.
— David, por favor, me ajuda! Você tem alguma calça velha que eu possa usar?
— Calça velha? – pareceu confuso.
— Ah... — Camila revirou os olhos de novo.
— Sim! Para me emprestar. Quer dizer, pra me dar na verdade (já que pretendo cortar)
Foi então que ele, parecendo tentar entender, olhou para mim, notando o pequeno, curto e desconfortável motio do meu desespero.
David coçou a cabeça e, depois que começou a tirar o casaco, percebi que seu rosto estava um pouco vermelho.
— Bem... – começou ele, até Camila interromper.
— Tá, já chega com esse drama. – disse, pegando minhas roupas sujas e colocando num saquinho – Vamos logo, que detesto cheiro de hospital.
Ah, é verdade... Isso a deixa com dor de cabeça.
Peguei minhas muletas (sim, ainda tinha mais isso), e quando fui pegar minha mochila no sofá, David passou na frente, e a pegou para mim.
— Eu posso levar, D, não tá pesada.
Mas ele saiu andando com ela no ombro, sem olhar para mim.
Eu sorri, balançando a cabeça. David... Sempre cuidadoso.
No caminho para a escola, Camila perguntou, pela milionésima vez, se eu já tinha me lembrado do que aconteceu na floresta. Eu já tinha dito a ela sobre tudo: como chegamos lá, o que deixou David meio bravo por eu ter mentido para ele (mas já pedi desculpas e prometi que não faria mais), porque nos perdemos, contei sobre a cachoeira, sobre como torci o pé... Mas ela não parecia satisfeita. Queria saber mais. Só que eu não recordava de nada depois que me machuquei, e ela ficava indignada com isso.
A única coisa que, mesmo que não me lembre bem, eu tinha certeza, é que Sensei cuidou de mim, Só de pensar nele me carregando...
Sim, disso eu me lembrava, mas são imagens que parecem mais como uns flashes, mas não disse isso a Camila. Primeiro, por que David estava por perto, e segundo, porque, por algum motivo, tinha vergonha de contar, já que lembro muito bem de ter ficado estremecida ao reparar nas costas largas dele.
Balancei a cabeça, afastando aquela imagem.
Eu tenho que agradecê-lo! Só não sei como ainda.
No intervalo, fui atrás dele, mas passei pela sala de música, e vendo que estava vazia, não me aguentei. Provavelmente estava tendo uma reunião no pátio sobre o festival, então aproveitei para tocar um pouco. Sentei em frente ao piano, deixando minha muleta encostada ao lado, na parede. E comecei a tocar a música que tinha feito para meus pais, mas não estava pronta ainda.
Érick
Estava passando no corredor dos clubes, quando escutei um som de piano.
Foi com vocês que aprendi a amar
Foi por vocês que amadureci
Foi vocês que me fizeram sonhar
Foi com vocês que eu sorri
E é de vocês que vou sempre me lembrar
Mesmo não estando mais aqui
Aquela voz, já tinha escutado antes... Voltei alguns passos e a vi sentada na sala escura por conta das janelas estarem fechadas, tocando e cantarolando o ritmo.
O segundo sinal tocou e ela nem se moveu. Não tinha escutado? Ou pretendia matar aula?
— O intervalo já acabou. – disse me aproximando dela.
Ela levantou rapidamente os braços, como se estivesse sendo rendida.
— Foi mais forte que eu! – choramingou.
— Han?
Então virou para trás, e quando me viu, pareceu aliviada.
— Ah, pensei que fosse a Sra. Park – sorriu amarelo.
Fechou a tampa do piano e continuou a falar:
— Nem ouvi o sinal... – tentou alcançar as muletas sem olhar o que estava fazendo e, como esperado, uma delas caiu.
Apressei-me em pegar e entreguei. Quando Mia se levantou, se apoiando nelas, reparei que algo a incomodava, então a vi sobrepondo uma perna na outra, numa tentativa de esconder a pele a mostra.
Até que suas pernas não eram tão magricelas como pensei... Não que estivesse as cuidando! É só uma...observação.
— Por quanto tempo vai ficar com gesso? – perguntei no caminho para a sala dela.
— Acho que menos de um mês. Mas seu eu repousar direitinho, posso tirar em duas semanas.
— Hum... Então não abuse.
— Pode deixar! Quero muito me livrar disso. – olhou irritada para o pé.
Queria perguntar sobra a música que ouvi mais cedo. Nunca tinha escutado antes... Era inédita? Ela compôs? Como alguém com intelecto tão limitado pode compor algo assim? Talvez esse negócio de nascer com dom exista mesmo.
— Sensei, sua sala não é para o outro lado? – perguntou confusa.
Confirmei. — Quero ter certeza que não matará aula nenhuma.
Ela fez bico e entrou na sala, resmungando.
— Érick! – ouvi enquanto voltava para sala pelo corredor do segundo ano.
Virei para trás e vi Talia correndo em minha direção.
— Você está bem? Está machucado? – perguntou preocupada, verificando meu braço e meu rosto.
Sorri. — Se acalme, princesa. Eu tô legal.
— Certeza? Ai, quando soube o que houve, fiquei tão preocupada! Se perder naquele lugar...
— Nada demais. – disse, rindo – Pelo menos não estava sozinho.
— Então é verdade? Estava com uma garota do primeiro ano?
— Sim.
— Ah... – sorriu amarelo. Mas então começou a chorar.
— Desculpa! (snif) é que fiquei muito preocupada mesmo, e nem pude te visitar no hospital...
Por que ela estava chorando?
— Ei, não precisa...
De repente, ela me abraçou, soltando mais o choro.
Isso... é realmente desnecessário.
Afastei ela devagar, que soluçava, limpando o rosto. Sorri para ela e, mais uma vez, lhe assegurei de que estava bem.
Tive que deixa-la em sua sala também, para bancar o cavaleiro-que-da-apoio-após-ver-uma-garota-chorar. Ou seja, quem acabou matando boa parte da aula, fui eu.
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