Mérion
1 Um sonho, três gêmeos e um festival
Notas iniciais
Ouviam-se muitos gritos e sons de destruição do lado de fora, até que com um estrondo a porta do cômodo, onde três bebês brincavam, é arrancada.
No mesmo instante um homem, de cabelos negros e feição tranquila, entra na sala e leva os bebês ao estábulo onde dois cavalos os aguardam, um para o homem, aparentemente pai das crianças, e outro para uma outra pessoa da qual via-se apenas as roupas azuis assim como as do homem que resgatou as crianças. Assim que montam seus cavalos os cinco cavalgam em direção à floresta. Mas, tão rápido quanto o vento a enorme criatura, responsável por todo aquele desastre, alcança-os na orla da floresta.
Uma criatura vil e horrenda com certa aparência de putrefação, seus olhos confundem-se ao pêlo longo e escuro, a boca aberta revelava centenas de dentes divididas em duas camadas, uma mais interna, para a mastigação, e outra mais externa, responsável por despedaçar sua caça. O monstro parecia poder engolir um planeta, tal como um buraco negro, e por essa razão era chamado de Devorador de Mundos, em suas mãos, enormes garras que destruíram as árvores no caminho desse gigante.
Durante a fuga uma das árvores arremessadas pela furiosa criatura acaba por atingir o cavalo que o derruba, e em questão de segundos chega ao local onde o homem com dificuldades tentava se levantar, aproveitando a distração e dificuldade da vítima o monstro com um golpe o acerta em cheio no peito, porém, com um reflexo ele consegue lançar um feitiço que derruba a criatura com uma luz intensa.
Com um grito Aglia acorda de seu pesadelo e rapidamente seus irmãos Rox e Lilia chegam ao quarto.
— O que houve? – Pergunta Rox, os olhos sérios castanho-claro procuravam o perigo.
– Foi o mesmo sonho, não é? – Complementa Lilia, os cabelos castanho-dourados presos em um coque desarrumado.
— Sim... – Responde se recompondo e sentando na cama, seus olhos violeta sempre cintilantes focaram suas mãos – estão cada vez mais nítidos, dessa vez pude ver o rosto dele.
— Isso me preocupa. Também tenho sonhado muito com uma nuvem de trevas encobrindo a floresta.
— A mim também, essa noite sonhei que muitos animais haviam morrido e aqueles que ainda estavam vivos tornaram-se seres malignos. Foi horrível, nada os parava. – Conta Lilia se dirigindo a uma cômoda ornamentada entre as camas das irmãs.
— Bom dia meninos, dormiram bem? – Cumprimenta Delfim, uma feiticeira muito bela de olhos azuis como safiras, cabelos azul-prateados lembrando muito a cor dos golfinhos os quais lhe dão nome.
— Um pouco. – Respondem os gêmeos em coro e todos sorriem.
— Continuam tendo pesadelos?
— Sim... — Aglia cala-se por um instante — Se ao menos soubéssemos o que eles querem dizer... – Suspira.
— Obviamente não é algo bom. – Continua Lilia colocando a mão no queixo os olhos azul-gelo fitando o teto.
—Você deduziu isso sozinha Lilia? – Indaga Rox, o cabelo negro como breu ainda despenteado caindo sobre os olhos.
— Vocês dois parem. – Ordena Delfim com as mãos na cintura e a franja, sempre cobrindo um dos olhos, posta atrás da orelha.
— Foi apenas uma brincadeira. – Responderam manhosos.
— Vocês com essa mania de falarem juntos. – Ri Delfim.
— O que esperava somos gêmeos. – Dizia Lilia já calçando suas botas marrom-avermelhadas sobre as calças verde-musgo.
— Mais que isso, trigêmeos. – Reafirma Rox também calçando as botas que trazia em mãos, as quais apenas se destacavam das calças pelo tom mais escuro de marrom.
— Vocês vão ao festival no reino? – Questiona Delfim se dirigindo a cozinha.
— Festival? – Confunde-se Lilia enquanto vestia um colete roxo sobre uma blusa azul clara.
— O festival em homenagem aos mortos no ataque do Devorador de Mundos.
— Ah! Sim havia me esquecido, seria uma boa ideia descansar um pouco dos treinos.
— Tem razão Lilia, mas é bem provável encontrarmos aqueles três. — Complementa Rox com seu longo casaco negro com detalhes de chamas na parte inferior em mãos.
— Com certeza, eles não vão perder a oportunidade de fazer seu "teatrinho". – Confirma Aglia irritada afastando dos olhos as longas madeixas em degradê, do vermelho sangue ao branco as quais caíam sobre um casaco leve marrom com detalhes de galhos nas mangas, enquanto colocava um sinto dourado.
— Eu havia me animado... Por que me lembraram disso?
— Vão e se divirtam um pouco, vou esperá-los para o treino noturno. – Delfim contrapõe.
— Treino?!
— Isso mesmo, ou também se esqueceram que combinamos ontem de termos um treino noturno para aperfeiçoar suas habilidades em combate cego?
— Bem...
Delfim ri – Apressem-se em terminar o café, o festival já deve ter começado.
Já devidamente preparados os irmãos dirigem-se para o corredor de entrada da casa.
— Não seria melhor deixarem os broches em casa? – Observava Delfim enquanto os gêmeos vestiam suas capas de viagem.
— Mas eles são tão belos, tenho certeza de todos na cidade vão admirá-los. – Diz Lilia enquanto faz todos rirem com seus gestos exagerados demonstrando a beleza dos broches, esses que são no formato do botão de Lilia, uma flor muito rara muitas vezes conseguida apenas pelos melhores magos.
— Delfim tem razão, todo o reino estará no festival, podemos perdê-los ou, mesmo sendo pouco provável, alguém pode roubá-los. – Afirma Rox já desprendendo seu broche e o guardando em uma pequena caixa de jóias em cima de uma penteadeira no corredor.
— Devo concordar com você Rox, afinal estes broches são a única coisa que nos restou de nossos pais. – Reafirma Aglia também guardando seu broche, todos se silenciam por um instante e Lilia segue os irmãos e assim trancando o pequeno porta-jóias com uma rápida magia.
Todos fitam o porta-jóias por um instante, os irmãos pensam nos pais que não chegaram a conhecer, o pouco que sabiam sobre eles era o que Delfim havia contado, segundo ela, eles eram grandes amigos e foram mortos no dia do grande ataque do Devorador de Mundos ao reino dos magos. A morte dos pais era um assunto pouco comentado na casa, pois sempre que algum dos gêmeos perguntava algo, Delfim rapidamente desviava o rumo da conversa. Lilia ao ver que todos estavam deprimidos retira-os de seus devaneios.
— Certo, podemos ir então?
— Com toda certeza minha cara irmã.
— Primeiro as damas. – Curva-se Rox.
— O senhor é muito cavaleiro Rox. – Lilia o cumprimenta ao passar pela porta.
— Tens toda a razão irmã. – Aglia faz o mesmo.
— Senhorita Delfim? – Rox estende a mão.
— É muito gentil de sua parte meu jovem. – Aceita Delfim a companhia segurando a saia de seu vestido azul-água.
Dessa forma seguiram entre risos a um pequeno cercado próximo a casa onde estavam quatro belos cavalos devidamente selados e prontos para a viagem.
Luxon, inteiro negro com uma meia-lua branca em sua testa, o segundo castanho-alaranjado exceto pelas patas, cuja cor é castanho-escuro, Pars, Luma castanha com manchas brancas e patas pretas e Abella de pelagem inteira branca exceto por uma pequena estrela acinzentada em seu peito.
— Olá Luma, como está? – Lilia dá uma maçã e acariciando o focinho de sua jovem égua. A mesma responde a carícia com um relinchar.
Em seguida Rox monta Luxon – É melhor nos apressarmos ou chegaremos muito tarde ao festival.
— Acalme-se um pouco irmão, eles ainda não foram alimentados.
— Realmente, mil perdões Luxon. – O cavalo apenas dá um leve relinchar e sacode a cabeça.
— Você algumas vezes é pontual demais Rox. Chega a esquecer de seu próprio cavalo.
— Perdão irmã, jamais deveria cometer tal gafe em sua presença, afinal é uma fauna.
— E você um Elemental muito...
— Irmãos podem, por favor, me passar a escova? Pars precisa mais dela do que suas mãos.
— Aqui está, perdoe-nos.
Com os animais devidamente alimentados e escovados o trio segue em direção ao reino onde ocorria o festival homenageando os mortos no ataque do Devorador de Mundos.
— Eu adoro este festival, é sempre muito alegre.
— E é uma bela homenagem àqueles que morreram quatorze anos atrás.
— De fato. Para falar a verdade gostaria de saber quem enviou o Devorador de Mundos atacar a cidade, pois pelo que sei, eles estão presos em um lugar onde apenas um Lorde poderia os encontrar e libertar.
— É provável que nunca saibamos quem foi.
— Isto me enraivece e entristece, porque seja lá quem tenha feito isso continua impune pelas tantas mortes que causou sem motivo.
— Não há com o que se preocupar Aglia, lembre-se que enquanto existirem pessoas de bem o mal não ficará impune.
— Tem razão irmão.
Toda a cidade estava enfeitada com faixas e bandeirolas, somado a um palco de madeira centrado na praça em frente ao palácio, onde alguns músicos tocavam alegres e alguns poucos aldeões dançavam.
Sendo quase meio-dia pararam em uma das muitas barracas que disponibilizam diversos quitutes.
— Hoje todos estão mais animados! Há algum motivo especial Acassia?
— Na realidade não, talvez seja porque o Regente e os três reis do drama não apareceram ainda.
— Isso é mais impossível que uma fênix que não goste de fogo.
— De fato. – Ri Acassia, cabelos curtos e acinzentados, olhos castanhos e vestes simples de cozinheira.
— Hum... Estes bolinhos estão maravilhosos como sempre Cass.
— Obrigada, não é nada muito extraordinário. – Suas bochechas ficam rosadas demonstrando o lisonjeiro com os amigos.
— Como não. Nem Delfim consegue fazer bolinhos de amora tão bons.
— Verdade seja dita, você é a melhor cozinheira que conhecemos.
— Muito obrigada. – Acassia abre um largo sorriso. – Mas quem é essa Delfim de quem tanto falam?
— Ela é nossa tutora e mestra, ela tem sido como uma mãe para nós desde que nossos pais morreram há quatorze anos.
— Falando em mestre quando pegarão suas jóias?
— Delfim acredita que ainda não estamos preparados. – Lilia se faz de enraivecida, mas logo desmancha a pose e volta a comer seu bolinho.
— Pelo que vejo já conseguiu a sua Cass.
— Não foi fácil, porém não precisei de muita habilidade em duelo, sabem como sou ruim nisso. – A mesma mostrava um par de brincos com uma jóia multicolorida em forma de gota envolta em ouro.
— Se treinasse mais seria uma ótima duelista.
— Amo cozinhar e prefiro continuar a ajudar meu pai na padaria. – Dizia tirando uma forma de bolinhos do forno.
— Sabe, Delfim tem certa razão em não nos encorajar a pegar nossas jóias, com os pesadelos que temos vai ser difícil enfrentar nossos piores medos.
Acassia atendia os muitos clientes famintos e ansiosos por provar os bolinhos de amora da jovem, enquanto isso os gêmeos comiam e observavam a festa, uns dançavam em frente ao palco, alguns vendiam ou compravam lembranças e lanches e em alguns pontos grupos de amigos reunidos conversavam alegres, vez ou outra viam passar uma fada ou um elfo, algo pouco comum em Efalos.
— Temos visitantes incomuns esse ano.
— No entanto a maioria não veio para festejar, eles estão sempre entrando e saindo do castelo, espero que não seja um mau sinal.
— É pouco provável, nem mesmo as Sombras gostam do Regente. – Alguns magos que estavam na fila aguardando seus pedidos riram junto aos quatro amigos.
Despedem-se e seguem rumo ao palco para desfrutar das músicas e baladas tocadas ali. Chegando a última esquina antes da praça o trio avista três figuras vindo em sua direção, duas delas acenavam a todos com um visível sorriso, a do meio caminhava com olhar de desprezo vendo todos festejando. Seria impossível confundir, dois meninos e uma menina. Cabelos roxos de um tom quase negros.
— Ora, ora, se não é o trio negro. – Desdenha Aglia.
Ao ouvir as palavras o trio com vestes em tons escuros se vira para a interlocutora, seus olhos cor de sangue fervem de ódio ao pousar sobre a mesma e seus irmãos.
— Vejam irmãos se não é o trio da floresta. O que pensam que estão fazendo aqui? – Esbraveja Alys à frente dos irmãos Rean e Deneb.
— Não o mesmo que vocês, é claro. Já que não somos pessoas falsas. – Retruca Rox, cujo sangue fervia ao ver os três.
— Como ousa falar conosco dessa forma?
— Me questiono porque não ousei antes. Afinal vocês não são nada além de magos que não sabem usar seus poderes para outra coisa além de pregar peças e se vangloriar por, supostamente, serem da família real.
— Não seja hipócrita caro Rox, você também possui o elemento das trevas.
— Porém eu o uso corretamente, devem saber que o elemento trevas não é apenas desordem e destruição.
— Seu rato de floresta imundo! – Grita Alys erguendo as mãos para lançar um feitiço em Rox, os irmãos a seguem.
Lilia interrompe pondo-se a frente de Rox. – Resolveremos isso em outro momento com um duelo apropriado. O que me dizem?
— Pois que assim seja. – Bufa a garota — Nos encontrem amanhã ao meio dia na arena. — Complementa se retirando junto aos irmãos.
— Vamos logo dançar, viemos aqui para nos divertir e não nos preocupar com nada.
— Tem razão Lilia. Vamos Rox, terá sua chance de vingança mais tarde.
Depois de dançarem um pouco os gêmeos param para beber um suco, quando um homem de cerca de quarenta anos e já um pouco grisalho vindo do castelo sobe ao palco e empurra uma das cantoras para que esta desse lugar a sua passagem.
— Não! Por que ele agora? – Resmunga Lilia segurando a moça que caiu do palco.
— Que balbúrdia é essa? O que pensam estar fazendo? – Começa e aqueles que ainda não tinha percebido sua presença viram sua atenção ao mesmo. – Suas festinhas sem sentido estão atrapalhando os negócios do reino.
— Ao contrário do senhor gostamos de nos divertir. – Contrapõe Aglia.
— Garota insolente, saiba que diversão é apenas uma desculpa para vagabundos que não gostam de trabalhar.
— Mesmo sendo o Regente, deveria ter mais respeito com seu povo. – Esbraveja Lilia avançando para o palco.
— Ou o que? Vai mandar seus animaizinhos da floresta me atacarem?
Lilia se enfurece, a mesma se prepara para atacar o homem quando começam a surgir cochichos e conversas, o tom era de medo, porém a atenção de todos estava voltada para a floresta de onde vinha uma nuvem negra. Alguns mais assustados correram para se abrigar, mas antes que todos percebessem as nuvens já haviam chegado à cidade.
— Estas nuvens... Estavam nos meus sonhos!
As nuvens negras se agrupavam rapidamente por toda a cidade impedindo que qualquer raio de sol chegasse a terra, transformando o dia em noite.
— Abriguem-se! – Grita Rox e poucos segundos depois a chuva negra começa.
— Minha filha! – Aglia ouve o desespero da mãe, no mesmo instante procura ao seu redor tentando encontrá-la. Vê a criança abaixo de uma das faixas estendidas para o festival.
— Aglia! – Exclamam os irmãos.
A mesma apenas lança um olhar desafiador e corre em direção à menina.
— Tome.
Aglia entrega sua capa à pequena ficando desprotegida da tempestade, em seguida a faixa, única proteção das duas, voa com o vento. Aglia a pega no colo e leva de volta à sua mãe.
— Muito obrigada! – Agradece a mulher abraçando a filha. A jovem apenas sorri em retribuição.
— Você está bem? – Questiona a preocupada Lilia.
— Sim.
— Que tipo de magia será essa? – Indaga Rox estendendo a mão para a chuva que para antes que a pudesse tocar e todas as nuvens se dissipam.
Aos poucos todos retornam a área aberta do pátio.
— Pois bem! Festejem o quanto queiram apenas não me atrapalhem. – Informa o Regente surgindo na escadaria do palácio, entrando logo que termina sua fala.
Toda a cidade aplaude, grita e ri com o ocorrido.
— Não é maravilhoso isso?
— Poder festejar sem aquele homem nos atrapalhar! – Rox para por um instante. – Aglia?
— Aglia!
A dupla vê a irmã ajoelhada ainda no lugar onde estiveram abrigados.
— O que houve? Você está bem?
— E-Eu perdi todas as minhas forças de repente.
— Senhora Elizabeth, por favor! — Clama Rox a senhora, ela ordena que a jovem seja levada a sua casa o mais rápido possível.
Já no local Rox deita Aglia em uma cama enquanto a senhora prepara um antídoto.
– Provavelmente isso foi pela chuva. – Informa a senhora terminando a poção.
Os irmãos ajudam Aglia já inconsciente a beber a poção.
— Muito obrigada Sra. Elizabeth.
— Não foi nada, não fiz menos que a minha obrigação e além de tudo vocês estão sempre me ajudando com mantimentos para o boticário. – Aglia já começava a acordar. – É melhor que ela fique aqui e descanse por algumas horas até que a poção faça efeito e ela recupere suas forças.
— Certo, muito obrigado. – Os irmão fazem uma reverência a senhora.
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