Mãos frias
1 Violet
Notas iniciais
Era engraçado, porque ela nunca usava luvas. Mesmo no frio mais insuportável, lá estava ela, com as palmas expostas, os dorsos pálidos, os dedos finos e trêmulos. Às vezes, eu tinha vontade de segurar suas mãos e esquentá-las, nem que por alguns instantes, apenas para livrá-las do martírio de estarem nuas. Eu nunca o fazia, é claro. Afinal, as mãos não pertenciam a qualquer pessoa.
Pertenciam a ela.
Violet havia chegado ao colégio pouco antes das férias de julho. Se a estranheza da situação não fosse o suficiente para gerar burburinho, a estranheza da novata envolvida na situação seria. Não só o nome que a identificava, mas todo o resto de si era peculiar. Se fisicamente passaria quase invisível, sua personalidade soturna, suas roupas em desalinho e seus hábitos incomuns não o permitiriam. Afinal, estávamos em uma das cidades mais frias do país, em pleno inverno e, ainda assim, ela nunca usava luvas.
Eu não consigo sequer conceber o inferno que Violet deve ter passado nas duas semanas seguintes à sua chegada. Talvez tenha sido assim que aqueceu as mãos naqueles primeiros dias: com o calor do ódio gratuito que a recepcionou no Colégio Sagrada Cruz. A despeito do mito tão fervorosamente propagado por nosso diretor de que “aqueles sagrados muros o bullying não atravessava”, Violet provou cada gota do mais puro veneno, dia após dia, sem jamais revidar, sem nem mesmo reagir. Era um novo tipo de resiliência, um que eu jamais compreenderia.
De início, eu não entendi bem o que motivara tamanha aversão a uma quase desconhecida. Então, eu comecei a reparar melhor, a ouvir melhor, e foi assim que descobri que Violet, a menina das mãos descalças, havia nascido com defeito. Ela tinha nascido gostando de garotas e, por isso, era terminantemente defeituosa.
Como eu.
Aquilo foi como um balde de gelo em meu estômago. Eu havia nascido e sido criada naquela cidade, sempre estudei no Sagrada Cruz, e essas duas coisas tinham me proporcionado experiências o suficiente para saber que, se eu sequer cogitasse admitir quem eu era, de quem eu gostava, jamais seria tratada como ser humano novamente. Para um colégio cristão, aquele lugar tinha muito pouco de Deus.
Então, eu escondi.
Mas Violet, a pobre Violet, havia sido jogada de mãos e alma nuas no meio do fogo cruzado — e as pessoas não cansavam de atirar. Nem assim ela vestiu sua alma, nem assim ela cobriu suas mãos. Através de seus olhos, ela transparecia; sua personalidade era quase translúcida, e eu achava isso lindo.
Eu a achava linda.
Por isso, às vezes, vendo-a exposta de uma forma e por razões que eu nunca ia compreender, sentia vontade de segurar suas mãos e esfregá-las, livrá-las do frio, nem que por alguns instantes. A parte que eu omitia nesse meu desejo nobre era meu desejo egoísta de ter a mesma coragem da garota cujas mãos eu seguraria, roubá-la de seus dedos frios; era a pontada insistente em meu coração, dizendo que os lábios dela deveriam ser tão frios quanto as mãos e que eu deveria esquentá-los também, talvez isso abrandasse o frio na alma (na minha ou na dela?). Então, é claro, eu não fazia nada.
Porque não eram as mãos de qualquer pessoa: eram as mãos de Violet. E, se eu as segurasse, nem que por alguns instantes, não sei mesmo que tipo de loucura poderia cometer.
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