Máscaras na Nuvem
3 A casca de Sr. Johnson
Notas iniciais
Dia nublado. Outro dia como qualquer outro. Desde que acharam as estruturas antigas, de milhares de anos, na superfície da Lua e, mais recentemente, em Marte, olhar para os céus, aqui da terra, perdeu um pouco do sentido lúdico, tratando-se do campo da religiosidade. O universo podou a espiritualidade. Mas para alguns, foi o contrário. Olhar para o céu tomado de nuvens, fez aqueles com fé, perceberem como eram cegos. E, quão grande era a criação de seu Deus, ou deuses.
Uma questão de ponto de vista, o que para uns é tudo, para outros se torna nada. E, se dúvidas, Desmond Johnson, é um desses que não tem nada a ver com isso. A ciência, os estudos, e a medicina tomaram, desde muito cedo, o lugar que os mitos, ou a fé, para muitos, tinha na vida dos demais.
A crise foi benéfica para as empresas que puderam exceder os limites éticos e morais com o intuito da solução dos problemas apresentados. Para Desmond, isso foi crucial.
Vestindo um terno impecável, que hoje, não excede o preço de uma passagem no transporte público, graças à tecnologia que permite a criação de fibras e tecidos a baixíssimos preços, a figura galante de olhos verdes e pele cor de bronze atravessa a rua arrancando olhares de rabo de olho.
Sem dúvidas tem classe e, de acordo com seu porte, uma boa quantia em créditos na sua conta.
A aparência diz muito sobre você no mundo das mega corporações. É um cartão de visitas e um passe vip para certos lugares.
E entrar em certos lugares é tudo o que um hacker de alto nível quer. Porque, convenhamos, quem imaginaria que um criminoso entraria fisicamente no lugar que ele quer roubar?
A maioria dos lugares que estão na lista de Desmond, não pensa.
Jogo fácil. Quando seu implante ótico conecta ao sistema da rede local, o vírus indetectável avança. Pelos seus olhos ele pode ver todas as salas privadas, públicas, fluxos de créditos, entre outras. Aquela simples visita ao café de classe alta dos bairros da Zona Alta no centro novo da cidade da Liberdade é tudo o que precisa.
Em um minuto, mil créditos na sua conta. Centavos de créditos de cada conta, algo difícil de ser encontrado, ainda mais com os programas que criam informações falsas. Em dois minutos, mais mil créditos e dados importantes, banco de dados e tudo o que estiver nas primeiras camadas dentro dos bancos de dados.
Bandido esperto é aquele que não exagera.
A vida é fácil quando se entende os meios de ganha-la, Desmond, fala isso sempre que perguntam. O canal de notícias na rede interna do edifício alarma algumas pessoas com o anúncio de uma perseguição em andamento às margens do rio 32. Desmond não liga muito para aquilo. Ele sabe que aquilo não causa nenhuma interferência no seu trabalho ali.
Cem anos atrás, talvez mudasse algo, mas os sistemas não sentem, nem perdem atenção. Logo, é indiferente um crime em andamento ou não, pensa o hacker enquanto avalia alguns dados roubados.
"Senhor, você está detido"— A voz surpreendeu Desmond que nem esperava ser abordado por um garçom. Olhou apreensivo para o lado dando de cara com um agente de segurança. Ele carregava um bastão eletromagnético e tinha uma expressão bem intimidante. Era um homem alto, de mais de 1,90 de altura, e com o equipamento da segurança privada, parecia quase um androide.
Os demais frequentadores do local se assustam com a atividade. Um crime bárbaro acontecendo perto dali e agora isso. O que estava acontecendo na cidade? Onde estavam as autoridades?
"Porra Desmond"— Pensei consigo mesmo. Ele sabia que só tinha uma opção: fugir, caso contrário, iria tomar umas pancadas sérias além de ser mandado para a prisão. E todo mundo sabe, pobre na prisão, fica lá até criar raiz.
Sem pensar, um soco atingiu o segurança e o jogou a um metro para trás. Desmond é brabo, acreditem. Imediatamente o alarme tocou, e as luzes de perigo acenderam em vermelho. A gravação de segurança entrou em ação pedindo calma aos demais.
Desmond olhou para um lado e para o outro. Pensou rapidamente, fodeu. Não devia ter agredido o agente. Levantou e saiu correndo, não tinha muito mais o que fazer, não podia ser pego, custaria mais créditos do que ele havia juntado durante o último mês.
Mas, enquanto corria se perguntava como havia sido descoberto. Não é qualquer que poderia fazer aquilo. Bom, não deveria ser. Ou era? Desmond estava confuso, em meio a perguntas não percebeu quando outro segurança surgiu do nada e o atingiu.
A pancada foi forte o suficiente para fazê-lo perder o equilíbrio e caminhar com passos tortos até se escorar numa pilastras.
Criminosos eram tratados assim. Ou você anda na linha, ou a porrada come mermão.
Seu olho esquerdo estava fechado, mal podia enxergar. Mas com o direito, pode ver a cara que o agente fez.
"Mas que po.."— Nem deixou o agente terminar de falar, o empurrou para longe e voltou a correr.
Infelizmente, para Desmond, a ativação do alarme envolvia algumas outras coisas além do aviso e das luzes piscando. Ocupado e preocupado, não teve tempo de reação para avaliar as mensagens que tinha no implante ótico. O portal, por onde entrou e por onde todos passavam para acessar o interior do edifício, possui um equipamento de bloqueio de aparelhos eletrônicos, seja ele qual forma.
Apenas os equipamentos de mais alto nível tinham algum tipo de bloqueador. Não era o caso.
Ao atravessar o portal, seu corpo caiu pesado no chão.
Seus olhos apagaram e ele não sentia, via, ouvia, mais nada. Escuro, sem sinal.
"Puta que pariu"— Exclamou batendo com a mão no monitor ao seu lado. A tela mostrava a palavra: “Desconectado” em letras cavalares. Levantou-se de sua cadeira e pegou um chocolate que tinha deixado posicionado especialmente para quando terminasse de trabalhar.
Andou até a lateral do quarto e passou por um espelho. A tiara que permitia a conexão neural direta, sem a necessidade de implantes, ainda estava em sua cabeça. Olhou-se, um hábito que criou desde a primeira vez que pilotou. Diferente do outro, ele não era alto ou tinha porte físico invejável. Era um homem baixo, magro e com um aspecto cansado.
A realidade era complicada, mas ele estava bem, era o que pensava. Sua conta já estava abastecida, a próxima encomenda garantiria seu bem estar por pelo menos seis meses.
Infelizmente, para Desmond Johnson, um Hacker de alta classe, não estava tudo bem. Se tivesse olhado com mais calma e atenção para o espelho perceberia isso. Mas, infelizmente, ele fazia aquilo para ver seu reflexo, ter seu choque de realidade.
Não viu o que aconteceu. Apenas acordou atordoado, em um lugar escuro, fracamente iluminado por luzes laranja à distância. Sentia um pouco de frio, seu corpo estava dolorido e bem debilitado. Não se lembrava de nada.
Teria caído? O choque de sair da realidade aumentada às vezes demora um pouco para fazer efeito. Mas, se caiu, porque estava ali? Mesmo confuso, fraco, ele tinha certeza que não estava em um centro médico ou qualquer coisa do tipo.
Estava sem roupas, completamente nu. E não estava sozinho.
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