Más Intenções - Litor
35 Capítulo 35 - Um Pouco De Peso Na Consciência
Lia respirou fundo e virou de uma vez, encontrando um par de olhos azuis a olhando profundamente. Não havia raiva ali, não havia dor. Se ela não o conhecesse bem, até acharia que seus olhos demonstravam alegria.
- Oi... — Sussurou Lia, se aproximando da cama para não precisar levantar a voz.
- O que te traz ao meu humilde quarto?
- Eu vim ver como você tá, ué. — Disse ela, ainda sem jeito.
- Tô bem, pronto pra disputar uma maratona. — Ele riu, mas ela continuava séria.
- Dói muito? — Ela olhava pra perna dele, indicando-a.
- Pior que não sinto minhas pernas. O que mais dói é esse corte na boca.
- Ah... Mas já tá bem melhor.
- ... Do que da última vez que você veio me visitar? — Disse Vitor, pegando Lia no flagra.
- É. — Disse ela, olhando para os lados, procurando fugir do assunto, procurando outro. Ele não tinha muito o que falar também. Quando a coisa começou a passar dos limites do constrangimento, ela foi ameaçando sair, dando passos lentíssimos para trás. — Bom, já vi como você tá. Não quero acordar seu irmão... Acho que vou indo nessa.
- Só uma pergunta. — Disse ele, quando ela quase alcançava a porta. — Tudo isso é peso na consciência? — Ela se aproximou de novo, analisando o tom dele.
- Um pouco. E eu também tava preocupada.
- Porque? Achei que eu era a pessoa que você mais odiava no momento.
- E você é. Mas eu não sou desumana nem nada. Até se fosse o Orelha, eu estaria aqui. — Despistou.
- Hm, que bom saber que você viria no meio da madrugada só dar uma olhada no estado do Orelha. Você é uma pessoa ótima. — Ele riu.
- Não fica se achando, Vitor. Você não é tudo isso.
- Nem você. Pra ficar achando que o que falou pra mim me deixou tão afetado que eu cheguei a bater de moto por sua causa. Fique tranquila porque você não teve nada a ver com isso. — Mentiu ele, friamente.
- Ótimo. — Ela saiu, sem nem se despedir.
Ao perceber o olhar de Vitor fixado na porta por vários minutos depois de Lia sair, numa mistura de raiva e arrependimento, Sal decidiu nem perguntar nada e só fingir que ainda dormia.
No dia seguinte, Vitor recebeu a visita de Rosa, Pilha. Orelha chegou um pouco depois, fazendo amizade com Sal, que também manjava de computadores e trocava dicas com o nerd. Pela tarde, Sal puxou seu notebook pra fora de uma mochila e começou a explorar o site de Orelha, acordando Vitor de seu cochilo pós-almoço, devido à suas risadas.
- Desculpa, irmão. É que esse TV Orelha é demais!
- Demais... Demais de ruim. — Disse Vitor.
- Essa Lia é bem louca, não sabe lidar com bebida como a gente. — Ele sorriu pro irmão, que permanecia sério, mandando uma mensagem com o olhar: Não queria falar nela. Sal voltou a atenção ao notebook e o que era divertido passou a dar uma expressão de concentração nele, o que deixou Vitor curioso.
- Que tá vendo aí?
- Peraí. — Indicava Sal, esperando o vídeo terminar pra olhar pro irmão. — Você não tem jeito mesmo! — Sal riu.
- O que?
- Usou bonito essa roqueirinha, ein. Não muda! — Vitor percebeu que Sal assistiu o último vídeo da TV Orelha.
- Ela mereceu.
- Nossa, cara. Aposto que sim. — Ironizou Sal. — Vem cá, isso é só ódio ou tem amor aí?
- Amor? Você tá maluco?
- Cara... Eu ouvi um pedaço da conversa de vocês na madrugada. — Vitor revirou os olhos. — Não entendi nada.
- Ah, antes do meu acidente a gente teve uma discussão por causa desse vídeo e ela achou que isso influenciou.
- E influenciou?
- Claro que não! Dirigir na chuva por si só é perigoso.
- É verdade. Mas o que ela fez pra "merecer"?
- Ah, ela me usou pra dar uma dura no ex, até ele rastejar um pouco mais pra ela voltar. O cara traiu ela.
- Nossa... Que droga. Mas sabe como é, gente que foi traída nunca mais é a mesma coisa. O trauma fica.
- É. — Disse Vitor, se preocupando com a afirmação de Sal. O trauma deve ter ficado nele também.
- Mas e aí, eles tão animados pra essa festa do colégio de vocês semana que vem, você não pensa em ir, se melhorar?
- Duvido muito.
- E aí, já tá sentindo essa perna? — Sal indicava a perna quebrada de Vitor.
- Sim, se fosse só ela, já tava andando. — Brincou ele. — Na realidade ela não dói, a outra já sinto também mas dói toda hora que me movimento.
- Mas cara, quando que aquela Fatinha volta?
- Tá interessado, é?
- E quem não estaria? — Ele riu com Vitor.
- Ah, já ia esquecendo. O Orelha falou que os professores deixaram o conteúdo pra mim no colégio, eu queria começar a ler o que eu perdi. Não só pra recuperar, mas pra ocupar a cabeça do tédio.
- Claro, segunda vou lá buscar. Professores te amam, né? Tem coisas que nós dois temos muito em comum.
Sal foi fazer um lanche enquanto Raquel entrava no quarto exibindo um sorriso otimista no rosto. Observou alguns dados no monitor e tirou a bolsa que transferia sangue para Vitor.
- Já tá tudo ok com a circulação, sem risco de infecção na perna operada. A outra foi só uma fissura, semana que vem já tá sem gesso. Vai receber alta mais cedo do que imagina.
- Que bom, doutora.
- É, tá tudo indo muito bem na realidade, tá se recuperando rápido. — Raquel fez uma pausa para pedir à enfermeira que tirasse o curativo do antebraço de Vitor, permitindo que ele visse pela primeira vez o profundo corte na região. — Um ferro da moto entrou no seu braço com a colisão, mas já fiz pontos quando você tava sedado. Estava bem pior antes. — A enfermeira começava a tirar os pontos da ferida até ir embora. — Eu sei muito bem que não teve aposta nenhuma com a Lia. — Disse Raquel, olhando para Vitor como quem descobriu uma travessura de criança. — Não sei seus motivos, e nem quero me meter, Vitor. Mas não acho que você seja um vilão nessa história.
- Parece que a sua filha não te contou toda a história.
- Não. Ela não me conta nada, na verdade, Vitor. E eu não tenho direito de saber essas coisas. Mas pensem bem. Eu nunca tinha visto minha filha tão feliz antes, como era com você.
Vitor já começava a tentar movimimentar e a sentir sua perna operada. Já conseguia sentar na cama e sentia bem menos dor. Mas nada de Lia voltar a fazer visitas no fim de semana. Fatinha, por sua vez, foi fazer companhia ao amigo, ignorando a existencia de Sal, fazendo ele adorar ela ainda mais. Era outro que gostava de dificuldade. Fatinha tirou de uma sacola algumas fotos de ternos, gravatas e calças sociais.
- Olha que maravilha. Decidiram que a festa do colégio vai ser com trajes de festa americana. Vou arrasar, sim ou óbvio? — Disse Fatinha, adorando a ideia. Os dois irmãos riram e Fatinha olhou pra trás só pra lançar um olhar reprovador para Sal. — Não falei com você, viu?
- Vai arrasar, Fatinha, óbvio. — Respondeu Vitor.
- É claro né. E você também, porque vai comigo. — Sal e Vitor arregalaram os olhos.
- Você pirou? Eu nem consigo andar e você quer que eu vá numa festa?
- A doutora já falou que você pode estar bem até o fim da semana, com muletas ou cadeira-de-rodas...
- E você acha que eu vou ir pra uma festa assim? Pirou, Fatinha.
- Ai, Vitor, por favor! O idiota do Bruno vai, com uma gringa sonsa do hostel. Eu não posso ficar por baixo, né.
- Fatinha, nem pensar. É minha palavra final. — Disse Vitor.
- Eu posso ir com você se quiser. — Disse Sal, a testando.
- Tá maluco.
- Ué, você não ia gostar de chegar com um cara bonitão? — Ele sorriu.
- É. Você pode ser chato mas é bonito. E se acha, né? Mas tudo bem, nas últimas das opções eu te chamo, mas nem pensar em encostar em mim. — Fatinha voltou-se a Vitor. — Bom, quero ver como eu vou voltar hoje pra casa já que ônibus em domingo é difícil. Só por você, né anjo.
- Posso te levar pra casa. Tô com meu carro aí. — Ofereceu Sal, fazendo Fatinha pensar. A implicância com ele era evidente, mas a preguiça de esperar numa parada por um tempão era bem maior.
- Tá bom. Eu te dou esse prazer, mas não vai achando que eu tô te dando mole.
- Ok, jamais pensaria isso. — Disse Sal, sorrindo.
Quando os dois estavam saindo, Fatinha mandou Sal ir na frente para dar um último recado à Vitor, parando na porta do quarto.
- Só uma coisinha que pode te animar: A Lia vai. — Vitor ficou instantaneamente nervoso. — Pensa nisso. — Disse Fatinha, piscando pra ele e saindo com Sal.
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