Más Coisas na Casa da Bessie

1 Más Coisas na Casa da Bessie


Annie era enfermeira, uma jovem e esbelta enfermeira com a sua vida inteira pela frente. Trabalhava num lar de idosos, o mais influente da região, denominado "Casa da Bessie". Todos os dias, cada manhã e cada noite, uma vez na manhã e outra na dita noite, caminhava para trás e para a frente através dos coloridos e alegres corredores, revistando o estado de saúde dos diferentes habitantes da Casa. Seu cabelo dourado, sempre atado. Seu uniforme, ligeiramente apertado, ligeiramente sedutor, favorecia a sua figura esguia, corpo bronzeado digno de um modelo. Facto engraçado: ninguém fazia a mínima ideia de quem era a Bessie.

O lar era até um local animado. As tardes eram preenchidas pelas vozes doces, já roucas e desafinadas, dos amigáveis velhinhos. Mas era uma querida música a cantada por aquelas cordas vocais, um timbre recheado de vitalidade acumulada e experiência. Tratavam-se todos como irmãos ou, pelo menos, como amigos chegados. Todos exceto um. Há sempre a exceção. Neste caso, a exceção dava pelo nome de George Olmaier.

George era velho. Imensamente velho. Velhíssimo. Um velhadas. Um velhaco velhadas. Seu corpo era obeso numa forma irregular. Peito inchado e descaído, a pele da cara como que escorrendo pelas bochechas abaixo. Os olhos eram azuis, o cabelo curto grisalho. As mãos, enrugadas mãos de gordos dedos, não conseguiam parar de tremer. Estava doente o pobre Olmaier. A morte estava próxima, e ele sabia-o. Vivia os seus últimos dias isolado, sentado a um canto, no seu sofá, embrulhado nos eternos mantos da depressão. Muito calado, falava só de vez em quando para resmungar uma coisa ou duas. De resto, só abria a boca para comer.

Annie preocupava-se particularmente com esse paciente. Já ninguém lhe atribuía muita importância. Era só um velho rabugento que morreria em breve. Só Annie se importava, e importava-se bastante. Acreditava ser capaz de o fazer ver a vida de uma forma mais feliz. Não lhe restava muito tempo. Só desejava que ele morresse com um sorriso no rosto.

Olmaier apenas confiava em Annie. Só e apenas só em Annie. A sua enfermeira, a sua menina. Era ela que o alimentava, era ela que lhe dava banho, era ela que o tratava, era ela que dele cuidava. Mais ninguém se arriscava a tal empreendimento. E o rabugento também dificilmente o permitiria. Só queria Annie, Annie, Annie. E Annie não se importava. Annie gostava dele.

A melancolia tomava conta da vida do velho George. Cada inspiração era para ele um fardo. As dores comandavam-lhe braços e pernas. A garganta magoava-o quando falava. O coração, fraco, era sem dúvida o órgão mais preocupante. Cada vez mais fragilizado, perdendo vigor. Mais fraco, sempre mais fraco. Já travara umas quatro vezes em distintos períodos, irregulares, chegando a haver meses e até anos de intervalo entre os incidentes. Mas, ao lado de Annie, estava bem, por enquanto. O melhor que podia estar.

Todo o santo dia, quando lhe vinham trazer o almoço, Annie sentava-se a seu lado. Ouvia atentamente as suas palavras saindo da ancestral boca com dificuldade. Costumavam ser memórias, breves lembranças do passado, ou então longos sermões e intensos queixumes. Eram muitos os queixumes, múltiplos discursos de raiva e inimizade. Fúrias suas contra eventos, objetos e pessoas. Particularmente contra pessoas, grande incidência nas pessoas. Eram muitos os cidadãos odiados por Olmaier, tal como muitos eram os seres que o odiavam a eles. Assim se mantinha o equilíbrio da natureza.

Grande parte dos inimigos de Olmaier eram outros habitantes da Casa. Tínhamos Barfast, um gordo com deficiências respiratórias, Leliana, uma velha que não se calava, Joseph, que não parava de se vangloriar, Sult, um funcionário das limpezas que estava sempre a implicar com ele, e, finalmente, Karla, uma enfermeira colega de Annie. Todos por ele odiados, todos o odiando. Equilibradamente equilibrado.

Nos dias que se seguiram, após Annie tomar conhecimento de todas estas rivalidades, soldados começaram a cair em pleno campo de batalha, isto metaforicamente falando. Barfast, que comera algo convenientemente estragado, segundo se diz, falecera numa assombrosa indigestão. Leliana tivera a sua língua arrancada à força durante a noite e afogara-se no próprio sangue. Joseph tivera alguma da sua pele do peito furiosamente extraída, desenhando a sua carne um gigantesco número um. Os três, mortos.

Todos os habitantes da Casa se tornaram então extremamente paranoicos. Havia um assassino entre eles. Todos o sabiam, exceto aqueles que já haviam caído na inevitável senilidade. Todos, infelizmente, o sabiam. Mas Annie não contaria nada a ninguém. Só ela sabia daquilo que conetava as vítimas. Do ódio, da raiva. Só ela a conhecia. Seria um segredo só dela. Dela e dele.

As forças policiais pouco demoraram a interrogá-la sobre o assunto em busca de provas. Mas ela nada contaria. Nada. Nada de nada. Não falaria. Ainda acreditava na sua missão. "Curaria" o velho Olmaier. Tratá-lo-ia. E ele teria a hipótese de morrer feliz.

Nessa noite, ele falou-lhe. Contou-lhe os tempos em que se aguentava sobre as duas pernas. Contou-lhe sobre Neila, sua falecida esposa. Falecera de cancro o mês passado. Cancro do pulmão. Quem fumava em casa era ele. Era uma adorável mulher, sempre bem disposta. E, quando jovem, era tão mas tão bonita. Devia tê-la visto, Annie. Lembro-me de Roma. Lembro-me tão bem. Ela tinha comprado aquela roupa propositadamente para mim. Aquele caríssimo vestido vermelho. Para mim, imagine. Eu, um simples pescador. Sem dinheiro, sem posses, sem dono. Para lhe dar, só tinha o tempo, o meu tempo. Todo ele. Com todo o meu amor. E quando nos abraçámos pela primeira vez? Devia ter lá estado, Annie. As estrelas, a lua. Aquele sorriso. Aqueles lábios aproximando-se dos meus, tocando os meus. Foi mágico, minha querida. Mágico. Lembro-me como se fosse ontem. Mas isso foram outros tempos.

Não, não foram, George. Esses tempos podem voltar. Eu sei que sim.

Annie não falaria a ninguém daquilo que sabia. Nunca. Iria levar o velhinho para o bom caminho. Iria parar de viver naquelas memórias de amor para abraçar o amor real. Ele seria salvo simplesmente porque podia ser salvo. E, intimamente, ele queria-o. Todos queremos ser felizes.

Passaram semanas até ao homicídio seguinte. Sult dos serviços de limpeza: morto por sufocamento. Encontraram-no sentado numa cadeirinha de madeira, seu rosto colado a um apertado saco de plástico. A boca aberta numa expressão de puro desespero, digna de um peixe fora de água, por exemplo.

George falava de longos passeios. Dos percursos que fizera com a sua amada, das suas aventuras. França, Estocolmo, Cairo. Foram muitos os destinos por ele mencionados. Nunca mais teria oportunidade de os visitar. Isso era certo. Estava demasiado sensível, demasiado frágil. E velho. Velho, velho. Era um maldito velho. E isso frustrava-o.

Todos temem a morte, principalmente a sua. Mas não tem de ter medo, George. Não está sozinho.

Olmaier não mudava. Seu semblante tornava-se cada vez mais triste e sombrio. Se falava pouco, agora falava ainda menos. Agora, recusava a sua comida. Passava dias e noites ali sentado, na poltrona que todos já reconheciam como sua, mirando o céu noturno. Annie lembrou-se: "as estrelas, a lua". Uma lágrima fluiu através do seu rosto belo. E sabia que partilhava essa lágrima com o velho que, fitando os astros na sua tela negra, não tinha outra opção senão lamber essa água que lhe invadia a face. Ali ficava, no seu sofrimento solitário. O sabor salgado devorando-lhe o palato, as mágoas negras consumindo-lhe a alma.

Na manhã seguinte, Karla perdera a vida numa trágica se bem que inexplicável overdose. A polícia acreditou ter-se tratado de um suicídio. O cadáver fora encontrado na casa de banho do lar. No quarto onde costumava dormir, num cofre escondido debaixo da cama, estava fechado um fragmento de pele pertencente a Joseph e a língua de Leliana, duas das vítimas registadas. Concluiu-se então que fora Karla a assassina em série responsável por tudo. Fora ela que instaurara o caos naquela benigna instituição. Matara e guardara "troféus" para poder mais tarde reviver os seus crimes. Uma verdadeira psicopata.

Era a última da lista. O tormento havia acabado.

Não conseguira fazê-lo parar de sofrer até aquele macabro projeto ter sido terminado. Tentara. Esforçara-se sem contar a ninguém. O nosso segredo. Ninguém podia saber. Tinha de proteger o pobre Olmaier. Não lhe podiam fazer mal. Já sofreu demasiado, não estou certa? Deus, dá-me forças para enfrentar tudo isto. Empresta-me a tua força.

Após o último homicídio, tudo parecia ter mudado na vida do velho Olmaier. Um sorriso inocente tentava ocupar-lhe a cara toda. A força há muito perdida parecia ter voltado. Os músculos rapidamente se fortaleceram. Seu coração aqueceu, protagonizando batimentos dignos de um adolescente. As pernas passaram a suportá-lo como o faziam no seio da juventude, os braços recordaram a sua flexibilidade e dinâmica. Estava animado. Parara de repensar as épocas passadas. Parara de se maçar e de maçar os outros com histórias longas e depressivas. Tornara-se feliz. Pela primeira vez em muito tempo, sentia-se vivo.

E Annie, a sua enfermeira, também bebia dessa fonte súbita de alegria. Ver o velho feliz fazia-a feliz. O mal havia passado. Já ninguém teria de morrer. Graças a Deus. Não é fácil guardar um segredo, especialmente um tão grande. Tanto sangue, tanto choro. Mas, com tudo isso, ele conseguira ultrapassar a tristeza. A dor dos outros permitiu-lhe superar a sua própria dor. Graças a Deus que algo bom aconteceu. Graças a Deus que acabou bem. Acabou tudo bem.
Nas mãos dele, de George Olmaier, não havia sangue. Não estavam manchas sangrentas visíveis nas suas roupas. E ela estava tranquila, de consciência tranquila. Pois se ele estava bem, ela estava bem.

Todavia, a felicidade é efémera, como tudo no mundo exceto a terra e o céu. Aquele lindo sorriso em breve se desfez, desfalecido sob o peso da doença. A inevitável velhice, a mortalidade, maldição que nos fora imposta por Adão, esse primeiro louco. Em breve, estaria preso à cama onde dormia. Esperando o fim, rezando pelo fim.

Lá estava ele, no seu leito de morte. A seu lado, sentava-se Annie, a enfermeira, secando os olhos com um lenço branco. Não previra isto. Ainda ontem ele estava tão bem. As dores que o assolavam eram fortes, mais fortes do que nunca. Eram as piores dores que alguma vez havia sentido. Os seus pensamentos começaram a embrulhar-se, a confundir-se. Tudo por causa da dor.

Annie, obrigado por tudo o que fizeste por mim, minha querida. O senhor sabe? Sempre soube que eras tu. Não posso dizer que agiste mal, isso seria uma hipocrisia da minha parte. Só deste voz à minha fúria, fizeste ouvir os meus desejos mais sombrios. E sei que o fizeste por bem. Fi-lo por si, senhor Olmaier. Fi-lo porque o amo.

E, curvando-se sobre a cama, beijou-lhe os lábios numa última prova de amor. Amava-o. Mas isso não o impediu de morrer. Seu coração parou ali, naquele exato instante. O dela continuava a bater, agora mais sensível, como que faltando uma parte de si. Incompleto. Annie sentia-se incompleta. Mas todo o sangue valera a pena. No fim, valeu a pena. Isto porque, na cara dele, naquela cara velha e enrugada, ela viu um sorriso. Um sorriso terno, doce e verdadeiro. Por isso, e só por isso, valera a pena.

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