Mágica Nerfal
6 Capítulo 6
Notas iniciais
— Frangitur illud signaculum! — Repeti pela quinta vez e nada acontecia, então, ouvir o sacerdote reclamar.
— Como pode isso? Ele não possui aptidão para bruxaria? — Todos ficaram parados me olhando, o sorriso do Jhonatan já havia sumido de sua face, eu já estava completamente satisfeito, quer dizer, se não está dando certo, talvez eu não fosse realmente bruxo afinal. O ancião ficou de pé olhou intensamente para mim e todos o olhavam desconfiados.
— Frangitur illud signaculum! — Ele repetiu comigo. Vi a boca dele se movendo e fui acompanhando lendo os lábios dele. Repetimos juntos duas vezes então meu sangue começou a ferver, não gosto dessa sensação, mas ao mesmo tempo sinto um prazer quando ela chega, é como se uma corrente elétrica saísse de minha cabeça e passasse por todos os membros do meu corpo. Fechei os olhos enquanto sentia meu sangue correr quente por cada veia de meu corpo.
— O que é isso? — Ouvi o sacerdote gritar, abrir rápido os olhos e o que? Me vi de joelho no chão e saia sangue de meus olhos, como não senti isso? Não conseguia me controlar, uma forte dor no estômago me fez colocar as duas mãos no chão, ficando ridiculamente de quatro. Vomitei sangue que escorreu pelas linhas do hexagrama e a maior parte se dirigiu para o cristal negro, levantei a cabeça com cara de choro, olhei pro ancião quando li seus lábios mais uma vez, ele estava pálido e assustado e com olhos arregalados.
— Não pode ser. — Ele estava surpreso o que me fez entrar em total desespero, olhei para o cristal negro, que brilhou como uma luz, tipo aquelas lâmpadas negras (aquelas lâmpadas pretas que destacam as cores claras), consegui me levantar e o cristal agora estava levitando, o que está acontecendo? Observei ao redor e todos pareciam surpresos e assustados, o fogo da vela vermelha cresceu, a água do recipiente se ergueu assim como o punhado de terra e uma fina camada de vento saindo do cata-vento. Uma bola sombria saiu do cristal e os elementos foram absorvidos por essa pequena esfera, eu estava tão assustado que não consegui me mover, olhei rápido para o Jhonatan e conseguir ler os lábios dele perguntando para o sacerdote.
— O que está acontecendo?
Ele o ignorou por completo, parecia tão perdido e surpreso como qualquer um. Meus pés se desgrudaram do chão e eu estava suspenso no ar. Aquela esfera se aproximava aos poucos, eu estava apavorado, mas uma parte do meu corpo desejava que aquele orbe tocasse em minha pele, o estranho é que ele pulsava como um coração batendo, sempre que ele se contraia e expandia de forma retraída emanava uma energia ruim e sentimentos desesperadores de angustia, medo e aflição se espalhavam por toda parte. Senti como se todos os meus maiores pesadelos estivessem ali dentro esperando sair para me destruir. Ergui minha mão direita contra minha vontade, coloquei o dedo indicador para frente e encostei na esfera sombria, apesar do terror que estava sentindo.
Uma luz muito forte emanada do orbe com meu toque, clareou a sala e todos, me incluindo, fechamos os olhos. Quando abri os olhos novamente, pude sentir... Sentir toda minha pele queimar o que me fez querer arrancar ela com unhas e dentes, como se minha pele estivesse sendo consumida por chamas. Por mais contraditório que possa parecer eu estava sentindo um frio afiado dentro do meu corpo, como se estivesse congelando e senti meu coração parar de bater. Comecei a ouvir gritos desesperados de dor, rangido de dentes, pessoas chorando, barulhos estranhos de coisas quebrando, para ser bem sincero, acho que são ossos e eu gostei disso? Um sorriso brota dos meus lábios, toda aquela dor, todos aqueles sons, tudo que está acontecendo agora, como posso estar realmente gostando de tudo isso? O quão sádico eu posso ser? Não sou assim, mas algo dentro de mim quer realmente que eu seja. Um desejo incontrolável de destruir tudo começa a surgir, não sei exatamente explicar o que estava sentindo, era raiva? Ansiedade? Tristeza? Medo? Prazer? Não faço ideia. Mas parou rapidamente e eu pude ver que todos a minha volta estavam em choque, paralisados o que me incomodou, abaixei a cabeça e ouvi o ancião falar.
— Erick. — Levantei a cabeça para olha-lo. — Preciso falar com você jovem. — Olhei para aquele velho tão frágil de pé, afrente de seu troninho. Senti minha cabeça pender para o lado enquanto imaginei prazerosamente rasgar a pele do pescoço dele com minhas próprias unhas. O que eu estou pensando? Balancei minha cabeça em confusão, recobrando minha sanidade mental. Simplesmente ignorei ele e tentei sair correndo de lá. A garota de franja branca fica há minha frente e me impede com fúria nos olhos.
— Você não vai sair daqui garoto. O ancião disse que quer falar com você.
— Não me importo. — Respondi com a mesma altura e autoridade, com que ela me impedira de passar. Um impulso dentro de mim estava me dominando, rangi os dentes tentando me controlar para não arremessar essa atrevida na parede.
— Deixe o ir Alexa. — Ordena Jhonatan também irritado.
— Você está louco? o anc.. — Ela não conseguiu terminar e o ancião atropela sua frase lhe dando uma ordem.
— Pode deixá-lo sair. Mas Erick, me procure quando estiver pronto para conversar. — Ele diz, mas não me viro para encará-lo — Jhonatan vá com ele. — Ele exige.
— Peço permissão para também o guiar até a saída senhor. — Suplica o sacerdote de capuz marrom, o ancião concorda balançando a cabeça, e Alexa abre a porta, vou na frente sendo seguido por Jhonatan e o sacerdote logo em seguida, no meio do caminho entre tochas acesas, uma dúvida surge em minha mente.
— Qual seu nome? — Perguntei irritado para o sacerdote.
— Oh! Permita-me apresentar, meu nome é Gabriel Soliver. — Fechei a cara enquanto andávamos.
— Grande merda. — Jhonatan deu um pigarro sorrindo e pude ver por traz dos ombros a careta que o senhor Soliver fez.
— Erick. Posso te fazer uma pergunta? — Suspirei, eu nem queria está tão irritado, nem sei o motivo desse alto nível de irritação, respondi a pergunta do senhor Soliver friamente.
— Além da que acabou de fazer agora? O que quer? — Percebi que o senhor Soliver, é muito esnobe, soberbo e autoritário o tipo de gente que sinceramente detesto.
— Como foi o sonho que você teve? — Ele fez a tão desejada pergunta dele.
— Para que você quer saber? São todos iguais cara. — Jhonatan intervém e faz outra pergunta, por cima da pergunta do sacerdote.
— Você ainda tem muito que aprender senhor Framer, — ele corrigiu Jhonatan com prazer com aquele ar de sabichão — acho que sua sacerdotisa a Paula, não te ensinou tão bem assim!
Ah! Então a professora Paula era sacerdotisa do Jhonatan. Ele continuou falando, enquanto Jhonatan parecia irritar-se com a crítica.
— Como ia dizendo, os sonhos não só podem, como são diferentes. Obvio que varia de cada pessoa, começa sempre flutuando no universo porque as linhas mágicas foram inspiradas nele, mas depois vem o elemento da natureza, que define seu dom, o ritual é apenas para apresentar aos espíritos seus novos protegidos.
— Você viu os elementos que se ergueram, — falei sarcasticamente ao argumento do sacerdote — então, suponho que já sabe qual foi o sonho que tive. Onde o você quer chegar senhor Soliver? — Vi o Jhonatan dar um sorriso afiado com minhas palavras direcionadas ao sacerdote, acho que o Sr Soliver também o irrita.
— É simples "Casulo". — Ok. Esse cara é um mala, franzi forte minha testa. Ele tem que falar casulo com esse tom de voz tão humilhante? — Os elementos não te escolheram.
— COMO? — Eu e Jhonatan paramos de andar e perguntamos ao mesmo tempo. Ele sorriu.
— É simples crianças, não foram os elementos que escolheram você Erick. Foram as trevas e ninguém escolhido pelas trevas está vivo para contar história. — Ele se virou para o lado contrário que estávamos indo e debochou de um jeito nojento e sarcástico. — Estou voltando crianças. Ah, Erick. As trevas é a pior coisa que pode ser adquirida por um bruxo, ela não é dominável, é impossível na verdade. Está indo pra casa agora? Cuidado para que essa raiva, que você está levando com você, não mate seus pais enquanto dormem inocentemente em suas camas, boa noite, casulo. — Ele desapareceu na escuridão, onde ele passava as tochas do caminho se apagavam, olhei pro Jhonatan e suspirei triste.
— Não se preocupe. — Ele disse — O ancião queria falar com você lembra? Provavelmente o assunto seja exatamente sobre isso, o velhote é maneiro. — Ele podia estar certo, mas eu não queria voltar lá, não agora.
— Jhonatan. Você pode me trazer até o ancião amanhã? — Ele sorriu, e assentiu com a cabeça.
— Claro. Estou aqui pra isso. — Apertamos as mãos e agora eu sabia, éramos amigos.
No meio de tanta confusão e o Jhonatan se mostrou um cara super legal. Mas, o que isso realmente significa? A amizade dele é algo bom para mim? Ele tem alguma coisa com tudo isso que aconteceu comigo afinal. Balancei a cabeça para meus pensamentos tentando me livrar desta linha de raciocínio, independente dele ser meu mentor, se não tivesse que ser ele seria outra pessoa. Tudo que aconteceu comigo ontem e hoje, aconteceriam de qualquer forma, suspirei, ainda bem que tenho um mentor que está sendo legal comigo e está sendo tão compreensível.
Saímos da cabana, a lua está gigante e cheia e nenhuma nuvem no céu. Comecei a admirar ela e foi como um choque de paz. Eu estava encarando aquele imenso astro iluminando o céu e não conseguia parar, senti que estava sendo energizado por ela, fitando obcecadamente o quanto a luz prateada clareava a floresta noturna.
— Nós bruxos somos conectados a natureza, — comenta o garoto com ar rebelde ao meu lado — a luz da lua pode ser facilmente uma fonte poderosa de energia, assim como o fogo, o ar úmido da floresta, as plantas como ervas, cascas de árvores, flores e até raízes. — Continuei contemplando a beleza da lua e senti aqueles dedos ásperos tocarem minha mão direita. —Te falei que ia sofrer modificação. — Jhonatan segurou minha mão e eu pude ver, que a unha de meu dedo indicador agora tinha um tipo de olho desenhado no centro, parecido com o orbe que vi no ritual da descoberta. O resto de minha unha estava preta, mas parecia refletir a luz do luar ficando prateada. Jhonatan levantou sua mão e me mostrou sua marca também, agora olhando assim de perto pude ver, era como se fosse uma pequena asa vermelha esculpida no meio. — Lembra quando você me viu na sala de aula e você com certeza notou que minha unha refletia na luz parecendo brilhar? Significava que você estava em transição e não podia ver o desenho ainda. Agora que sua transição foi concluída você consegue ver nitidamente.
— O-obrigado. — Quando foi que eu comecei a gaguejar? Olhei para meu celular e o liguei, já eram vinte e duas horas, tipo, meus pais vão me matar! — Tenho que ir embora.
— Espera. Estacionei minha moto na praça, posso te levar se você quiser. — Nem pensei duas vezes, aceitei e fomos correndo.
Chegamos na moto dele, ele me entregou o capacete.
— Erick. Se segura.
Ele correu como um maluco, me segurei com força nas barras de ferro, que ficam no assento do carona na moto e sinceramente eu estava adorando a sensação de perigo combinados a alta velocidade, a lua, a estrada, o vento gelado no rosto, fechei meus olhos e agora sim, toda sensação que senti mais cedo no ritual, fora neutralizada. Não tinha dor, ou medo, nem raiva, muito menos ansiedade. Quando chegamos em meu bairro pedi que ele parasse no final da esquina de minha casa, meu pai não gostaria que eu andasse com pessoas parecidas com o Jhonatan, eu sei, ideia errada dele, mas meu pai é um cara religioso extremamente conservador.
— É hoje que meu pai me mata. — Brinquei e ele riu.
— Erick posso te pedir algo? — Acenei em resposta dizendo sim. — Não conta nada do que você é e nem do que aconteceu hoje pra ninguém ok?
— O que? Por que? — Perguntei assustado.
— Ama seus amigos? — Ele perguntou colocando o capacete novamente.
— Claro. Mais que tudo. — Ele acelerou fazendo zoada sem sair do lugar.
— Quanto menos souberem é melhor, menos perigo eles correrão, só confie em mim ok? — Ele saiu muito rápido com a moto, me virei e já estava na porta de casa, percebi que alguém estava me observando, olhei para casa da Dani que não fica longe, olhei para cima onde fica o quarto dela e a luz da janela apagou, logo depois de um vulto parar de me espionar. Se for a Dani já estou imaginando as perguntas amanhã.
Entrei em casa e não ouve pausa para respirar, meu pai sai das sombras da sala e pergunta.
— Onde você esteve Erick?
— OH céus pai. Que susto! — Falei dando um daqueles pulos assustados e tentei enrolar — Eu, eu estava estudando na biblioteca, por que? — Ele me olhou desconfiado e perguntou.
— Estava com quem? — Engoli em seco, mas tive que responder.
— Com a Dani e o Ruan. — Coloquei meus pés sobre o primeiro degrau e falei, antes que ele pudesse fazer mais perguntas. — Pai estou indo dormir, ok? Amanhã conversamos estou exausto. — Subi as escadas correndo, tomei meu banho quente e me deitei, olhando pro teto. Um sorriso doce acabara de brotar em meus lábios, na verdade me sentia diferente, mais vivo, mais curioso, apesar de saber que sou naturalmente muito curioso, mas era diferente agora. O que mais me empolgava em tudo isso, é a certeza de que minha vida iria deixar de ser tão ociosa afinal.
*--Longe dali--*
— Onde estou? — Uma voz áspera, acabara de surgir numa penumbra densa em algum lugar das cavernas nas montanhas do norte. Possivelmente daria pra ver no reflexo da luz brilhante da lua, dois olhos incrivelmente verdes e acesos como vagalumes. — Eu sinto. Eu sinto. As trevas me acordaram, onde está você essência maligna? Sinto sua energia! — Uma gargalhada alta, fez com que alguns pássaros empoleirados em árvores próximo ao local, se assustassem e voassem desesperados para longe.
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