Mágica Nerfal
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Corri desesperado tentando recordar o caminho de casa, pensei em pegar um ônibus local qualquer, mas não me sinto confortável. Estou chorando e confuso e as pessoas são muito curiosas, fora o fedor de mijo das minhas calças. Ótimo. Agora está mesmo chovendo. O que aconteceu comigo agora a tarde? E se eu estiver sonhando?
— Deixa de pensar merda Erick. Você sentiu aquela dor. — Pensei um pouco alto, enquanto continuava correndo no meio da chuva por um caminho que acredito que me levará pra minha casa. A dor que senti era insuportável. Fora que, literalmente ninguém aguentaria ser arremessado contra parede daquela forma. Droga. Estou confuso e até por um momento parei de correr e fiquei próximo a um poste com luzes oscilantes. As gotas de chuva escorriam pelo meu rosto, minhas roupas estavam encharcadas e meu cabelo caído em minha testa. Olhei em volta, a rua que eu entrei sempre foi meio deserta a esta hora, era só o sol se pôr e não se via mais ninguém neste lado da cidade.
Me encostei em uma das paredes de um prédio velho, onde de manhã funciona uma peixaria, tentei parar para pegar fôlego e refletir um pouco.
— Ok Erick. Tenha calma. — Eu disse alto e saiu mais desesperado do que eu imaginei. — O que foi isso? Com que cara eu vou chegar em casa depois de uma experiência dessas? Vou chegar em casa todo ensopado e dizer... — Falei sarcasticamente. — Boa noite pai, boa noite mãe. Como vocês estão? Participei de uma espécie de ritual demoníaco e alguma coisa perturbadora entrou em mim, mas não precisam se preocupar, provavelmente não irei matar vocês enquanto dormem. Até amanhã, ou não né? — Parei de falar alto, quando uma das janelas ao alto de outro prédio velho, acendeu as luzes depois de meu alto e desesperado pensamento. Desencosto da parede e continuo andando pela chuva tentando lembrar de tudo que aconteceu hoje. O temporal estava cada vez mais congelante, as gotas pareciam gelo caindo do céu, quando respiro é até possível ver a fumaça que saia de minha boca.
Avisto minha casa, titubeei para entrar, mas sei que lá, vai estar quente, seguro e aconchegante. Abri a porta devagar e entrei, meus pais estavam na sala de jantar conversando.
— Boa noite estou encharcado e com frio, não estou com fome, até amanhã — tá bem, não foi exatamente como imaginei, eu realmente pareci perturbado e com muitos problemas. Andei rápido, mas escutei a minha mãe gritar.
— Erick, Volte aqui agora. — Não voltei.
Ela não me entenderia, não me escutaria e eu estava com muito frio e exausto. Subi as escadas correndo, entrei em meu quarto, tranquei a porta e passei direto pro banheiro. Tirei as roupas geladas e molhadas e liguei a água morna. Relaxei. Fechei os olhos e por um segundo até pareceu que nada havia acontecido. Abri novamente e minha parede do banheiro, que? Estava coberta por algum tipo de erva preta que crescia e crescia sem parar indo até o teto, arregalei meus olhos com o susto, pisquei por dois segundos e as ervas não estavam lá. Saí correndo do banheiro, vesti rápido minhas roupas de dormir a primeira que vi pela frente. Sentei-me a frente da janela do meu quarto, com uma expressão facial nada calma, em baixo da minha janela tem um tipo de banco baú, pedi para meu pai fazer quando eu tinha 6 anos e era viciado em histórias de piratas, sempre o deixo próximo a janela. É muito bom sentar lá e ver a chuva cair, ou as folhas douradas do outono que caem com o forte vento e ver a neve no inverno, é sempre aconchegante.
Escuto um barulho de batidas rápidas na porta do meu quarto.
— Erick. Abre a porta. — Meu pai ordena autoritário, ele é o tipo de homem rígido que não costuma falar de sentimentos, que pensa que no mundo existem apenas o bom e o ruim. Meu avô consegue ser duas vezes mais conservador que ele, então de certa forma consigo entender o porquê ele ser do jeito que é. Apesar de tudo, sempre que precisei de meu pai ele estava do meu lado.
— O que foi? — Perguntei enquanto abria a porta e voltava a sentar no meu banco baú.
— Você nunca chegou da escola tão tarde, sua mãe e eu estávamos preocupados, o que aconteceu? — Ele se sentou ao meu lado e esperou a resposta. Parecia tão confiável que quase conto tudo a ele e chorava igual uma criança em seus braços, mas não podia, nós somos de uma família de estrutura muito religiosa, ele é pastor. Eu seria cem por cento tachado como filho do demônio ou satanista, tipo, sei que tem algo sombrio dentro de mim, vi aquela coisa entrando, na verdade eu senti e não sabia exatamente o que iria acontecer comigo, mas eu sou homem o suficiente para descobrir e resolver tudo sozinho.
— Eu só queria me exercitar um pouco, vim correndo, acabei tomando chuva e parei para esperar a chuva passar e cada vez ficava mais tarde e escuro, decidi vir na chuva mesmo. Só queria me secar e tomar banho, perdão pai, não era pra preocupar vocês. — Ele balançou a cabeça como se me entendesse e saiu do meu quarto.
— Sabe que pode sempre contar comigo né? — Não, não sei.
— Sim pai claro. — Não teria sido a primeira vez que menti pra ele obviamente, eu estava meio que arrependido por isso, mas tudo bem. Meio difícil de saber como seria a reação dele com uma coisa que nem eu mesmo saberia explicar.
Deitei-me na minha cama e fui tentar dormir. Olhava meu braço direito e quase nem lembrava daquela dor que senti antes, era como se nada tivesse acontecido, fiquei lembrando de tudo mais uma vez, então o cansaço me venceu e finalmente peguei no sono.
Abri os olhos. Que? Eu estava flutuando?
Eu estou no centro do universo? Era estrelado e colorido, cheios de nébulas de cores vibrantes e muito frio, tudo parece tão real, pra falar a verdade é tudo muito lindo. Devo estar sonhando. De repente, as estrelas e as nebulas ficam distantes e quase imperceptíveis, tudo fica escuro num completo e denso breu. Começo a me sentir sem ar, não literalmente sem ar, mas com dificuldade de respirar. Estou suando e me encontro flutuando num preto cenário que não me deixava ver absolutamente nada. Uma pequena bolinha branca vai surgindo ao longe, porém, eu não tenho noção de espaço aqui, ela era realmente pequena, ou só estava longe? Essa bolinha acabara de ficar vermelha e logo percebo que vinha em minha direção. Quando mais perto ela chegava, mais calor eu sentia. Até que essa bolinha se espalha em chamas e uma forte rajada de um fogo muito ardente vem direto pra cima de mim. Tentei correr/ flutuar, mas estava paralisado, não conseguia me mover.
Fechei meus olhos com força esperando que as chamas me carbonizassem, mas ao invés disso, me sentir cair e ouvi um barulho de “splash” como se eu tivesse acabado de cair numa piscina. Senti meu corpo mergulhando no que parecia, água? Abro os olhos e rapidamente prendo minha respiração, conseguia ver bolhas subindo em leves movimentos, naquela estranha água preta. Tentei nadar para cima mas uma forte rajada de bolhas brancas que subiam, me empurrou para cima e logo uma forte ventania me jogava ainda mais para cima. Quando a ventania parou fui caindo, fechei os olhos assustado e cai de cara num tipo de grama igualmente preta, igual todo o lugar onde me encontrava. Por fim, pude ficar de pé, mas logo me afundei num tipo de areia movediça. Que maluquice é essa? A areia movediça preta me engoliu por inteiro até finalmente soterrar minha cabeça.
Abri os olhos estava no meu quarto. Respirei fundo, estou todo suado, saí do meu quarto desci as escadas e fui para cozinha, abri a geladeira e peguei um copo com água, bebi rápido e coloquei o copo na mesa, voltei para meu quarto, senti uma dor crescente queimar minha mão direita. A dor estava se movendo e se concentrou de forma intensificada na ponta do meu dedo indicador. Estava queimando muito, como se eu estivesse mergulhando a ponta do meu dedo em óleo fervente, me ajoelhei no chão colocando meu rosto na cama e gritando, enfiando minha face num travesseiro para abafar o som do grito.
Abro meus olhos. De novo? Acordei num susto. Eu sonhei que tinha sonhado? Eu até pensei em ir para cozinha beber água, porém, não vou. Vai que acontecesse igual aqueles filmes de terror, que os mocinhos sonham as coisas, fazem a mesma coisa que fizeram no sonho e morrem, do mesmo jeito que eles sonharam. Olhei para o despertador e por incrível que pareça acordei meia hora mais cedo, da hora que marco para me acordar.
Fui para banheiro, tomei um bom banho com água morna, dessa vez não fechei muito os olhos, não queria ver nada de estranho de novo. Fiquei parado na frente da pia e me encarei no espelho. Eu, Erick Mackdayne. Cabelos castanhos escuro, pele branca, olhos azuis e um corpinho magricelo, estava me sentindo bem apesar de tudo, mesmo sabendo que banho sempre me faz sentir assim. Observo atentamente meu rosto, geralmente possuo fortes olheiras, mas hoje não tinha nenhuma, passo meus dedos onde deveria estar escuro e algo perturbador me chamou atenção. Minha unha do indicador da mão direita estava, pintada? Tipo, esmalte ou essas coisas? WTF? Tento arrancá-la coçando com meu dedo indicador da outra mão, mas aquela coisa simplesmente não saia. Estava pintada de preto com listras meio curvadas e prateadas, tentei esfregar, lavar, até lixar, mas a unha parecia que era natural, como se minha unha já fosse desse jeito e meio que a luz da lâmpada refletiu na minha unha e foi um reflexo intenso. No mesmo instante lembrei que Jhonatan e a professora Paula tinham a mesma coisa. A ideia de perguntar algo para eles me causou um tremendo arrepio, aliás foram eles que me causaram isso. Droga, meu pai vai me matar quando ver isto.
Sempre saí atrasado de casa e mesmo assim ainda era cedo demais e meus pais geralmente estavam dormindo. Desci as escadas cauteloso, evitando qualquer tipo de barulho. Vesti a primeira roupa que encontrei no meu guarda-roupas, que foi uma camisa preta, calça jeans de cor clara, sapatos cinza e deixei meu relógio na cama, hoje o único acessório que eu usaria seria minha mochila, não quero nada que chame a atenção das pessoas para meus braços, mãos, dedos e unhas, principalmente unha. Nessa mesma ordem ou outra qualquer que levasse até minha unha estranhamente pintada.
Eu nem queria ir para escola hoje, mas meus pais surtariam se vissem aquela unha preta com aqueles detalhes prateados. Seria tipo, você é gay? Você agora é delinquente? Tá servindo alguma seita? Quer conversar sobre isto? Mesmo se fosse qualquer uma dessas opções, o que eu não queria ter que fazer hoje, é sentar e explicar coisas que não faço a mínima ideia do que sejam. Sentei-me no banco de madeira da parada e encostei meu pescoço no encosto e olhei aquelas nuvens de uma manhã possivelmente ensolarada. Lembrei rápido do sonho, mas minha atenção foi perdida quando uma testa, cheia de cabelos loiros apareceu e ficou em minha frente, tapando minha visão das nuvens.
— Oie Rick. — Eu tentei me levantar do banco, graças ao susto que tomei, levantei meu pescoço e bati minha testa na testa da Dani.
— Au!
— Ai! — Gememos juntos e depois rimos, ela se sentou ao meu lado e fez a pergunta que eu estava esperando.
— Tão cedo? Deixou de ignorar o despertador? — Sorri, mas não respondi, até iria contar pra D. tudo que me aconteceu ontem, mas antes preciso saber o que tá acontecendo comigo.
O ônibus escolar chega, a Dani falou, falou, falou até que estávamos no corredor, pegando alguns livros no armário e só prestei atenção na última pergunta feita por ela.
— O que você acha? — Nem sei o que ela tinha dito antes.
— Siga seu instinto. — Puts. Não queria parecer um mal amigo e dizer a ela que tudo que ela disse, eu não havia escutado nada, mas ela geralmente fala de sapatos, ou roupas, então eu teria dado uma resposta neutra. Ela olhou pra mim fez um pequeno e fofo biquinho de "Ok!", meio que levantando os ombros.
Entrei na sala como se fosse pegar algum prêmio ou estivesse pedindo o último donuts pra tia da cantina, desesperado. Olhei para onde o Jhonatan deveria estar sentado, mas ele não estava lá. Saí da sala e Dani me parou.
— Ok. Fala o que tá acontecendo!? — Eu tenho que procurar o Jhonatan ou a professora Paula, então falei rápido.
— Eu já volto, tá bem? — Ela fez aquela cara de "vá! Volte logo e me conte tudo o que está acontecendo", na verdade ela levantou uma das sobrancelhas e afastou o pé direito me dando caminho levantando a mão direita. Saí a todo vapor, corri pelos corredores, entrei na sala dos professores e perguntei a professora Vera.
— Onde está a professora Paula?
— Ela não compareceu a aula hoje, posso ajudar você, precisa de algo? — Apenas agradeci e sai da escola, fui direto pelas portas dos fundos e andei rapidamente, as vezes até corria tentando me apressar, cadê eles? Estão fazendo outro ritual macabro? Eu simplesmente estou "PUTO!" com tudo isso. Cheguei enfim ao meio do campo de futebol americano, quando fui surpreendido por aquela voz debochada de garoto rebelde.
— Demorou por quê? — Era o Jhonatan sentado em um lugar na fileira do meio, no meio da arquibancada.
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