Mágica Nerfal
29 Capítulo 29
Notas iniciais
*--Daniella--*
— Conseguiu tirar o sangue dele? — Pergunta o Patryck por telefone.
— Ainda não e não quero que ele se machuque por causa disso, tenha calma farei do meu jeito! — Desliguei na sua cara. Sei que é errado o que estou fazendo com o Rick, mas essa dúvida consome meus pensamentos cada vez mais. E na verdade só preciso de uma gota de sangue do Erick, na droga desse livrinho. Por enquanto tenho problemas maiores para cuidar, preciso arrumar um falso pai, para se passar pelo meu URGENTE!!! Mas quem?
Quase ninguém na cidade lembra de fato, quem é o Senhor Richard Rindley. Ele passou tanto tempo escondido que nem seus amigos sentem mais falta dele, ao menos se um, se importasse realmente com meu pai além de mim, se algum amigo lutasse por ele tanto quanto eu, talvez, apenas talvez, meu pai ouvisse um adulto que ele conheça desde criança. Ao invés de mim, que pra ele sou apenas uma garotinha. Mas já que não tenho essa colher de chá, terei que infelizmente achar alguém para representar “meu pai”, evitando que o diretor Raven desconfie de algo ou até pior chame o juizado de menores.
Outro problema também é a festa. O baile é muito importante para todos na escola e preciso estar com a mente aberta para decoração, convites, jogos, comes e bebes, DJ, entre outras milhares de coisas. Talvez o Rick até possa me ajudar nessa, aliás ele é meio nerd, meio poeta talvez eu possa utilizar sua ajuda. Pera, claro que posso ele é meu melhor amigo. O que me dá uma ótima ideia para coletar o sangue dele hoje. Vamos sair para o bar Lua cheia, falaremos sobre o baile das rosas e por acaso lhe mostrarei uma rosa com muitos espinhos e arrumarei um jeito dele se espetar em um desses espinhos. É isso! Genial, ele nem vai precisar se machucar muito e nem vou parecer uma maluca, querendo machucar o fofo do Erick.
Hoje sai mais tarde do que de costume da escola, eu estava saindo distraída da sala VIP das líderes de torcida, carregando algumas pastas com ideias para o baile, quanto um impacto me leva para o chão. Aparentemente alguém estava a minha frente e também caiu de bunda no corredor, já é tarde não deveria ter ninguém na escola. Me apoio para levantar e olhar em quem eu esbarrei, mas não havia ninguém. Olhei ao meu redor, a procura de alguém que possa ter se levantado primeiro que eu, ou sei lá tem vergonha de mim e correu. Os nerds costumam fazer isso quando olho pra eles. Me levantei um pouco sem graça, aliás hoje mais cedo aconteceram coisas assustadoras comigo no banheiro, podia estar ficando louca? Não sei, mas assustada com certeza. Mesmo com muito medo e pernas tremulas me forcei a perguntar baixo.
— Tem alguém ai? — Ninguém havia respondido ou emitido algum som. Peguei minhas pastas que estavam no chão e andei pelos corredores, apenas o corredor principal o que leva até a porta de saída da escola, estava com as luzes acessas, os outros que levariam para outras salas e escadas, estavam com a luz apagada. É normal eu sair tarde assim da escola, não era noite oficialmente, mas todos já tinham saído e as únicas pessoa que ficam mesmo até tarde é o zelador e o segurança noturno. Fui até meu armário que fica no corredor iluminado, usei a combinação e abri, peguei minha bolsa e coloquei as pastas com minhas ideias dentro. Por um instante senti como se alguém estivesse do outro lado, da porta do meu armário aberto. Escutei alguém respirar e me arrepiei, fechei a porta rápido e olhei para ver quem era, mas mais uma vez não havia ninguém.
Apressei meus passos no corredor, basicamente eu estava correndo. Eu ainda deveria dobrar a direita para chegar a saída, mais um corredor antes me fez parar. As luzes de todo corredor estavam oscilantes, elas pareciam as luzes de natal, piscando freneticamente. Sempre que o relapso de luz assumia a escuridão, eu tinha impressão de ver alguém correndo de um lado para o outro no corredor, mas eu não tinha certeza, pois piscava muito rápido. A cada segundo o corredor passava de um denso escuro para uma corredor perfeitamente iluminado.
Forcei a vista quando uma mancha escura parou no meio do corredor, parecia uma pessoa, uma mulher. Ela ficou por um tempo parada no meio do corredor, mas quando as luzes oscilaram quase umas cinco vezes, ela desaparecera. OK, agora definitivamente estava mais que na hora de eu sair daquela escola. Corri até a porta de saída, cheguei até ela que infelizmente estava trancada? Peguei minhas chaves de capitã líder de torcida, que felizmente tem a chave desta porta. Encachei minha chave na fechadura, juro que tentei roda-la com toda minha força, mas nada de a porta abrir, provavelmente trocaram a fechadura, droga mas logo agora?
Escutei uma porta ranger atrás de mim, ofeguei temendo olhar para onde poderia vir esse barulho aterrorizante, me virei devagar quase chorando. A porta do zelador estava se abrindo lentamente, minha respiração ofegante esperava o pior.
— O que faz sozinha aí pequena Dani? — Fala calmamente o zelador, Sr Pedro é o cara mais gentil e doce que conheci em décadas.
Sempre que eu ficava sozinha na sala das líderes de torcida ele me levara café, ou chá e bebíamos juntos, ele sempre tinha boas ideias e ótimos concelhos para me dar. Sim, talvez o Pedro fosse a única pessoa no mundo que soubesse meu segredo, que meu pai esta vagando nas trevas de uma depressão. Corri chorosa e assustada, para lhe abraçar aliviada.
— Obrigada por ser você a aparecer! — Agradeci lhe abraçando forte.
— Ho ho, calma pequena Dani! O que aconteceu? — O soltei e limpei meu rosto.
— Acho que estou ficando maluca!
— Se tem uma coisa que a pequena D, não é — Ele sorrio gentil fechando a porta de seu quarto — é maluca! — Sorri.
— Você pode abrir a porta por favor? Minha chave não tá abrindo! — Lhe pedir.
— Do que você está falando? A porta já está aberta! — Ele disse com estranheza.
E tinha razão, não só aberta, ela estava escancarada. Como se alguém, ou melhor dizendo, alguma coisa, tivesse saído deixando a porta aberta. E sim, me fazendo parecer mais louca do que já acho que sou.
*--Williams--*
Sentado, num dos bancos no alto da praça de Luce Nerfal. Onde a estátua da filha de Jhon Nerfal se encontra. Foi aqui, no festival rosa de prata, que eu e Charlote demos nosso primeiro beijo. Enquanto os fogos de artifícios explodiam no céu, nós dois jovens apaixonados desfrutávamos de nosso amor mágico. O sol estava se pondo, deixando tudo num clima alaranjado, pássaros voavam para as árvores procurando abrigo para sua proteção noturna.
Eu já iria me levantar e sair do local, cansado de esperar por ela. Mas uma delicada e macia pele, acabara de alisar meus ombros. Sua mão era gelada, olhei para cima e ela parecia emocionada olhando o pôr do sol. Seus olhos estavam encharcados e enquanto uma de suas finas mãos estava apoiada em meu ombro direito, ela segurava um colar de cruz contra o peito, com muita força. Por que não consigo ler sua aura? Sua aparência é de alguém infeliz, mais não sinto nada quando se trata de Sabrina. O que ela quer? Por que parece tão infortunada?
Em fim ela olhou para mim, me dando um sorriso simples de canto e que parecia verdadeiro. Sentou-se num banco ao lado, colocando as pernas para frente e segurando os tornozelos. Eu simplesmente não pude tirar os olhos dela, a luz alaranjada do calor quase imperceptível do sol que se vai, realçava o brilho no seu olhar, esquentava seu pálido rosto e dava um bronzeado quase indiano em sua pele.
— O pôr do sol é lindo! — Ela suspirou forte, jogando a frase pairar pelo ar. No entanto eu não conseguir me conter, levantei-me e fui em direção ao mesmo banco que ela. Ela por qualquer segundo olhara para meu rosto, encarava emocionada o sol. O que me intrigava.
— O que é você? — Perguntei. Um silencio irritante estava quase rasgando-me de ansiedade. O único barulho que ouvíamos eram dos pássaros e as águas da fonte da praça, que escorriam pelos anjos.
— O que é você? — Ela finalmente me olhou. — A pergunta é recíproca, temos a mesma dúvida de um para o outro!
— O que você quer saber de mim? — Perguntei, mostrando-lhe que estou disposto a responde-la.
— Quando te toco, vejo um coração negro bater no meio de um breu! — Ela voltou a olhar o sol. — Vejo seus olhos verdes, ficarem luminosos e sua pele escura, de um jeito assustador. Sinto um frio quase incontrolável e uma vontade de correr com medo de você! Mas ai seu coração bate e uma parte dele, muito no fundo emite uma pequena luz! Então me explique você, Allan o que é você?
Me levanto, segurando as barras de ferro a nossa frente. Olho para baixo tentando procurar o melhor jeito de explicar, não quero assusta-la.
— Sabrina, eu — Me virei olhando sua cara de espera, estava atenta, ansiosa — não sou humano! — No entanto ela não esbouçou qualquer reação, como se fosse simples, ou obvio, então ela sabe sobre o mundo sobrenatural. — Sou de uma descendência poderosa de guerreiros, sou imortal, sou mágico, forte e infelizmente maligno! Quase todos que se envolvem comigo podem morrer! — A olhei inseguro, numa tentativa de vê-la recuar ou temer quem eu sou, mas ela não fez. Continuava imóvel como se ouvisse uma conversa habitual, uma conversa normal de suas pessoas que se conhecem, como se eu estivesse lhe dando apenas um “bom dia”, ou perguntando “como vai?”.
— Você não parece um bellator tenebrae! — Ela cuspiu sua sabedoria, me surpreendendo. — Esse tipo de guerreiro é o mais poderoso e indestrutível que existe em todo mundo, e sua aura negra é perceptível até para os humanos! Até aqui sua aura é de um humano comum! — Ela pode ver minha aura? — Sim posso ver sua aura, agora está com a cor de dúvida. Por que você é um humano tão estranho?
— Porque não sou humano! — Sentei-me no banco ao lado, o mesmo onde outrora estava sentado. — Há cento e trinta e dois anos atrás, eu não fiz o ritual da descoberta! A chave me amaldiçoou absorvendo minha transformação e me petrificando, numa estátua viva! — Ela apertou os olhos, mas ainda ouvia atenta. — Não sei exatamente o que aconteceu, mais senti as trevas e a maldição foi quebrada! Mas minha magia estava sumindo a cada segundo, mesmo que eu sugasse as almas de humanos, ela ainda continuava desaparecendo! Foi quando encontrei esses garotos, andando na floresta!
— Erick e Jhonatan? — Ela questionou, Assenti.
— Sim eles! Travamos uma luta e tive que entrar no corpo desse garoto o Allan, o mesmo que eu antes havia sugado sua alma!
— Por que você precisou usar o corpo dele? — Ela se levantou e se encostou na barra de ferro para me olhar de frente.
— Jhonatan tinha criado uma barreira de valquírias, que por ironia é o único tipo de barreira que não aprendi a escapar! — Lamentei, odiava ter que admitir mas por algum motivo eu confio na Sabrina.
— Então você entrou no corpo de um humano recém morto! Aliás a barreira de valquírias não atingem humanos! — Ela riu me olhando de forma admirada. — E por que você não assume sua forma original?
— Você acha que não tentei? — Me levantei ficando ao seu lado — O Allan é apenas um humano, ele não possui mana mágica, tentei entrar no corpo do Jhonatan com o pouco de mana que me restava! Mas... — Olhei para baixo me sentindo derrotado — Alguém lhe protegeu selando seu corpo com o escudo das almas!
— Como? O escudo das almas é uma magia de alto nível e sem falar que muitos de seus itens... — Sabrina parecia mesmo entender sobre o assunto, mas a interrompo terminando sua frase!
— Os itens estão quase instintos! — Sorri irônico.
— Sei que o Erick é um bruxo, vi as unhas dele também! Mas no que ele é tão diferente? — Ela me perguntou.
— É por isso que está aqui? Para saber do Erick? Por isso sentou na mesma mesa que ele no refeitório? O que você realmente está querendo Sabrina? — Perguntei segurando as barras de ferro, lhe prendendo em meio aos meu braços, tampando o caminho para que ela não pudesse passar. No entanto ela não pareceu ter medo, me olhou e falou.
— Acho justo você saber um pouco de mim, — Sorriu enquanto me olhava com seus belos olhos claros, a noite já estava pairando no céu, o tom rosado e roxo das nuvens, flutuavam no céu quase escuro, primeiras estrelas já apareciam, as luzes dos postes da praça estavam oscilantes, prontos para acenderem. — Há algum tempo eu também fui uma bruxa!
— Foi uma bruxa?
— Sim, mas fui enganada e tiraram-me todos os meus poderes! — Ela lamentou.
— Foi no ritual da descoberta? — Questionei.
— Não! — Seus olhos estavam encharcados como se ela segurasse uma mágoa. — Eu não sou uma bruxa da linhagem Nerfal Allan, sou uma filha da linhagem Liver!
— Liver? É uma cidade próxima a Mágica Nerfal certo?
— Sim! Nossas marcas não estão nas unhas! — Ela se virou ficando de costas para mim. Abaixou o pano de sua camisa deixando o ombro nu, para que eu pudesse ver a marca de um corvo. Passei as mãos por cima e desta vez não tive um flash de visões. Mas me arrepiei, era eletrizante era mágico. — Eu sou uma herdeira Liver, filha de Klaus Liver Owsher! Provavelmente você não o conhece... Em fim! — Ela se virou ficando de frente para mim novamente. — Mas agora estou presa a uma maldição, agora eu sou uma escrava e tudo que me resta é obedecer a um dono, um senhor!
— Quem te aprisiona? Posso te ajudar! — Perguntei enxugando as lágrimas amargas que desciam em seu rosto, por cima de sua macia pele.
— Infelizmente se eu disser o nome instantaneamente morrerei, é a condição de escrava! Sou submissa a qualquer capricho e ordem dada pelo senhor! — Juro que senti seu coração gritar por justiça, não só os olhos da Sabrina estavam molhados, mas os meus também.
— Se eu descobrir quem é esse seu senhor, prometo tirar-lhe o seu coração e esmaga-lo com toda força que eu tiver! — Falei levantando seu queixo.
— Se engana, se você acha que ele é alguém fraco! É muito mais poderoso do que possa imaginar! — Lamenta novamente em meio a lágrimas.
— Vou conseguir, mas antes preciso de meu corpo de volta! — Soltei os braços da grade (barras de ferro) e me virei olhando para a estátua de Luce Nerfal. Senti as mãos frias dela de novo encostarem meu braço e me virar. Sabrina precisou ficar de pontas de pé mas conseguiu me dar um selinho de leve. Por alguns segundos olhei intensamente para seus olhos, algo mais forte havia tomado conta de mim. Neste momento pareceu não existir Charlote, pareceu sumir maldição, ou até mesmo o fato de eu não estar em meu corpo original. Era este momento, era nosso, era mágico, era sombriamente uma paixão.
Agarrei-a com meus grossos e musculosos braços, segurando sua cintura, incrível como nossos corpos se conectavam. Seus finos e belos braços seguraram minha nuca e em fim a beijei. Um choque circulou meu corpo como se finalmente minha vida tivesse um motivo, como se eu me sentisse vivo, mais humano do que guerreiro das trevas. Uma brisa quente passou por nós e a apertei mais intensamente. Nossos lábio estavam conectados, nossos movimentos pareciam sincronizados e assim como meu coração acelerava sentir o dela acelerar, batiam do mesmo jeito, no mesmo segundo. Não bastou mais nenhum segundo para perceber que era ela, era pela Sabrina que eu deveria lutar, era por ela que eu poderia dar a minha vida. Nossos lábios se afrouxaram, soltei um pouco sua cintura.
— Sei como fazer você conseguir entrar em um novo corpo! — Ela sorriu.
— Sério? — gargalhei de volta lhe dando mais um selinho.
— Sim, — Ela gritou soltando um sorriso ardente feliz. — mas você precisa confiar em mim e eu preciso confiar em você!
— Será a melhor parceria que farei em mais de um século! — Falei lhe dando mais um beijo.
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