Notas iniciais
Flavi, espero suas reações ansiosamenre

Intimidade é um conceito interessante e que adolescentes pouco dominam, porque não percebem que ela se instaura aos poucos, sem uma declaração explícita de consentimento. Ela apenas acontece.

Era ainda o primeiro ensaio da quadrilha e as coisas pareciam normais. Os alunos procuravam seus pares, Melissa havia convencido quem precisava de que ela e André deveriam ser os noivos na dança, Laulau corria encontrar Dudu e Tom ficava para trás com Cass, ambos assistindo os amigos se afastarem.

— Eu lembrei hoje, está no meu armário. – Cass falou.

— O que? Ah, minha jaqueta?

— Sim.

A peça de roupa havia ficado na cadeira ao lado da cama da jovem bruxa ou escondida embaixo de seus travesseiros a semana toda.

— Eu já estava pensando em abrir um boletim de ocorrência.

— Não será necessário.

— Vou te seguir até seu armário para ter certeza.

Ela girava os olhos, mas ria. Continuavam caminhando até a quadra, mas paravam de falar.

Você vai em casa hoje a noite? – ele a perguntava em sua mente.

Sim. – ela respondeu – Assim que todo mundo em casa dormir.

Tá. Tente não trapacear dessa vez.

— Quem estava trapaceando?

— A ideia é você seguir minha energia, não fazer uma mera consulta de localização e teleportar até lá.

— Se você tentar ir para algum lugar realmente longe dessa vez, eu posso tentar usar meus poderes de verdade.

— Então estou te entediando. Vamos ver como vai se sair hoje.

— Eu estou confiante.

— Ótimo. – avistaram a quadra. Alguns alunos já davam os braços, tocavam as mãos, dançavam – E lá vamos nós.

— Confesso que não tinha pensado no toque quando pedi pra você ser meu par. Você não está desconfortável com isso, está?

— Não. Você está?

— Não.

Não estavam desconfortáveis, mas nenhum deles perguntou se estavam ansiosos.

Cavalheiros cumprimentaram as damas, damas cumprimentaram os cavalheiros. As professoras de educação física e de artes pareciam ter bastante para discordar em apenas cinco minutos de ensaio, o que gerava algumas risadas discretas entre os alunos. Uma delas gritou de repente, para encerrar a discussão:

— Caminho da roça!

E os pares se juntaram imediatamente, prontos para seguirem em fila. Tom e Cass deram os braços, o toque na dança tinha propósito, suas auras não estavam ali se explorando livremente, mas era confortável. Se olharam trocando pequenos sorrisos assim que se juntaram e logo seguiram a fila de alunos.

— Garotos! Eu quero um sorriso! – a professora de artes gritava – Meninas, vocês não sabem quem estará assistindo! Vamos, onde está o charme?

Cassandra queria rir. Todos queriam na verdade, mas a ideia de precisar performar charme enquanto andava de braços dados com Thomas a deixava vermelha.

Seguiram dando uma volta pela quadra, logo era a hora do túnel. Fizeram o movimento sem perceber, estavam frente a frente de mãos dadas e braços estendidos, ao lado de seus colegas. Para Tom, o contato com Cass era a única coisa confortável naquela situação. Não se achava habilidoso dançando, pelo menos não quadrilha, era o mais alto, teria que se abaixar muito para passar pelo túnel, e o número de interrupções por divergências criativas das professoras o fazia se perguntar se elas tinham mesmo um plano. Mas ali estava, segurando as duas mãos de Cass. Ela olhou para ele dando uma risada nervosa com a professora que reclamava que Laulau não estava levando a sério. Ele riu também. Os alunos começavam a passar pelo túnel, eles estavam quase no fim da fila, Melissa e André passaram por baixo dos braços deles e agora estavam a poucos metros de distância. Tom pensou que Cass acabaria olhando para André Talvez com vergonha, talvez nervosa… E se surpreendeu quando os olhos de Cass não saíram dos dele.

Eles passaram pelo túnel e deram as mãos novamente do outro lado, esperando os últimos passarem. Cass não sabia por que, mas agora estava com vontade de sorrir enquanto olhava para Thomas.

— Vamos de novo! – gritou a professora de educação física – Posição inicial!

Os alunos começaram a se separar de novo e foi André que notou o momento em que as coisas começaram a virar. Era algo mínimo, só um começo, mas sinal suficiente para um bom observador. Cass e Thomas se olhavam nos olhos e foram os últimos a soltar as mãos.

*

Você ainda me ouve? – a voz de Thomas ressoava na mente de Cass.

Sim, muito bem.

— Acho que distância física está deixando de ser um problema.

A garota estava no quintal dele sob a parreira e de olhos fechados, se concentrando.

Você está muito longe? – ela queria ter certeza.

Acho que o suficiente, vem descobrir.

A garota desapareceu do quintal e soltou um grito assustado quando percebeu que apareceu onde não havia chão sob seus pés, estava entre as nuvens. Percebeu que não caía, mas se irritou quando percebeu que Thomas, ao seu lado, dava risada.

— Filho da puta! – ela bateu no braço dele.

— Ai! – ele estava rindo, mas havia mesmo doído – Calma lá, você gosta da minha mãe.

— Que susto, inferno!

Ela reclamava, seu corpo não ficava parado em um eixo, não sabia se comportar quando estava flutuando, aos poucos estava ficando de cabeça para baixo.

— Isso é uma fraqueza, você precisa conseguir entender onde a pessoa está antes de seguir a energia dela. – Tom explicou.

— Eu tô ficando enjoada.

— É só fazer força igual você faz pra ficar em pé.

— Como? Isso nem faz sentido.

Ela se debatia, o que o fazia rir mais. Vendo que ele não a ajudava, ela alcançou o tornozelo dele e o puxou, isso o descer alguns centímetros, mas continuava ereto.

— Calma, nervosinha.

— Vou teleportar a gente daqui.

— Ainda não, a vista é legal. – ele ofereceu a mão para ela – Vem.

Com ajuda, ela se colocou “em pé” ao lado dele, segurava em seu braço para não sair à deriva. Estavam sobre uma cidade pequena, entre as nuvens, mas conseguiam ver algumas poucas luzes acesas nas casas e os postes iluminando as ruas.

— Eles não vão nos ver? – ela se preocupava.

— Não, fique tranquila.

Ela tentava respirar fundo e se segurar firme. Aos poucos foi percebendo a beleza da cidadezinha e o toque dele a deixava mais tranquila para aproveitar. Afinal de contas estava flutuando! Era algo fantástico.

— Você sempre vê as coisas assim?

— Não, eu evito abusar do poder.

— Digo pela sua altura.

Ele riu a cutucando nas costelas.

— Olha que eu te solto.

— Aham. Sei. Mas onde estamos exatamente?

— Foi a primeira cidade onde minha família morou quando chegou na Terra. Isso depois de aprendermos a língua e tudo mais…

Ficaram em silêncio, analisando o lugar. O toque havia alcançado um status comum, mesmo que não houvesse propósito. Havia conforto, sim. Um vínculo, com certeza. Mas nada que os deixassem desconfortáveis.

— Faz frio aqui. – Cass se encolheu.

Era verdade. E ela estava sempre com frio, mas nunca com um agasalho mais eficiente que uma camisa xadrez. Poderia abraçá-la para ficarem ali um pouco mais, chegou a cogitar isso, mas se continha. Era tudo tão recente, o término com André, essa nova configuração onde não precisavam mais se encontrar às escondidas depois da aula porque ninguém falava o dia todo com ela para que tivesse de inventar explicações. Às vezes se perguntava se estariam mais próximos assim desde março se ele nunca tivesse sugerido que ela saísse com André.

Passou o braço por trás das costas dela apenas para saber como ela reagiria, deixando sua mão encontrar o outro braço dela e, para sua surpresa, ela aceitou bem o toque. Se encolheu deixando que seu tronco tocasse o dele e encontrasse algum calor.

O vento soprava, uma nuvem avançava passando por eles e logo ficariam encharcados.

— Melhor irmos. – ele disse.

— Mas isso é tão incrível!

Ela ria olhando as gotículas de água passarem por eles e cobrirem sua visão.

— É que… – ele percebia que já estavam ficando molhados, estalou a língua.

— Vamos então, para o cubinho de açúcar não derreter.

Ela debochou enquanto se segurava nele. Era injusto, ele já gostava dela o suficiente, não precisava gostar ainda mais. Tirando isso da mente, ele desapareceu com os dois.

Cass se surpreendeu quando reconheceu onde estavam. Era a casa de Thomas, mas um cômodo onde nunca haviam estado. De toda forma, ela sabia que era o quarto dele porque o cheiro almiscarado e a energia já conhecida estava em todo lugar. Com os pés no chão, eles se separaram. Ela analisava o lugar: ele era muito mais organizado que ela, a cama ficava com a cabeceira junto da janela, um armário tomava a maior parte de uma parede, onde havia também algumas prateleiras com livros e CDs. Do outro lado havia uma escrivaninha e o que parecia ser uma pequena coleção de agendas.

Acho que tenho algo pra te emprestar. – Thomas pensou enquanto mexia no guarda-roupas.

Ela olhou para as próprias roupas, estava mesmo um tanto molhada.

Acho que já seca.

— Posso colocar atrás da geladeira.

Ele se virou entregando roupas perfeitamente dobradas e limpas para ela junto de uma toalha. Apontou algo atrás dela.

Pode se trocar ali.

Ela não havia visto aquela porta ainda, mas seguiu até ela e a abriu, entrando em um banheiro pequeno.

— Seu quarto é uma suíte? Depois você diz que não é rico.

— Se eu fosse rico, caberia uma banheira aí dentro.

Ela continuava ouvindo a voz dele em sua cabeça depois de fechar a porta.

Meu pai faria caber.

— Não entendo porque vocês não tem.

— Quanto mais magia para manter a casa funcionando, mais usamos umas baterias que ele carrega com energia dele, eu com a minha, Agda com a dela… Tem um limite para fazermos isso de forma sustentável.

Ela tirava as próprias roupas e via as que ele tinha a entregue. Era uma calça de moletom que ficaria grande e uma camiseta branca que poderia ser um vestido.

Seu pai trabalhava com isso em Eivar? – Thomas perguntava.

Mais ou menos. Ele era arquiteto, mas de grandes construções. Observatórios, teatros, parques…

— Que responsabilidade.

— É sim. Suas roupas são cheirosas. – ela pensou enquanto vestia.

— Obrigado.

— É uma de suas habilidades? – ela o ouviu rir – Eu não sei muito delas. Só que você flutua, faz flutuar outras coisas e consegue fazer as pessoas pararem de falar.

Ela abriu a porta do banheiro e se apoiou no batente para erguer uma perna e dobrar a barra da calça.

Chama Tabu. – ele respondia – Eu aprendi bem cedo, porque evita que eu perca energia.

— Como descobriu?

— Não sei bem, foi espontâneo no começo. Acho que com a minha irmã.

— Coitada.

— Coitada nada, ela ameaçava contar qualquer coisa só pra me irritar.

— E hoje é assim que você mostra que gosta das pessoas, entendi.

Cass sentiu que ele saiu do seu campo telepático por um segundo, olhou para ele e o percebeu girar os olhos. Isso a fez rir. Suas roupas molhadas passaram por cima de sua cabeça e se juntaram as dele, nas mãos do bruxo.

Eu já volto.

Ele foi e voltou sem as roupas que carregava, Cass analisava seus CDs.

— Você até que tem bom gosto.

— Claro que tenho.

Mas não me falou suas outras habilidades. É segredo por acaso?

— Não. Eu consigo esconder bem minha energia e a de outros, para passar despercebido mesmo.

— Você consegue se esconder mais do que eu consigo achar?

— Isso podemos tentar depois.

Ele se sentou na própria cama, olhando ela mexer nos CDs. Conseguia ouvir quase como uma segunda Cass mais distante que dizia “esse eu tenho, esse eu não tenho”.

— Vai ser um desafio interessante.

— Fora isso, eu construo dispositivos. Eu aprendi com meu pai.

— Eu acho foda quem consegue construir- Caralho, Baden Powell! Grande músico.

Ele deu risada com o como um pensamento sobrepôs o outro.

— Achei que você só conhecia rock. – ele cruzou as pernas a vendo se empolgar com o disco em mãos.

Eu sou apaixonada por grunge, tem a ver com o começo da minha adolescência e como eu me sentia sobre a Terra. Mas eu sou uma musicista, claro que conheço outras coisas, e admiro muito Baden Powell.

Eles ficaram silenciosamente conversando sobre música por algum tempo, a casa toda dormia e assim não acordaram ninguém. Tom não trazia esse pensamento a superfície, mas gostava de estar com Cass ali, só matando tempo em seu quarto. Podiam procurar um feitiço que secasse rapidamente suas roupas, mas escolheram ficar ali, conversando.

Cass estava à vontade. Já estava sentada na cama de Thomas ao lado dele, com as pernas cruzadas sobre o colchão e gesticulando enquanto usava sua telepatia. Ele estava sentado e com o corpo inclinado para trás, apoiado sobre os cotovelos e rindo de suas besteiras. Era bom poder fazer alguém rir sem se preocupar se precisaria mentir algo sobre si.

Ela apoiou as mãos sobre a cama, também inclinando seu corpo. Notou por suas auras que estavam quase se tocando, sua mão perto do braço dele. Ela fechou o campo telepático por um instante, quando percebeu que desejava tocá-lo. Sem motivo, só porque sim. Tirou esse pensamento da cabeça e reabriu seu campo de novo. Tom olhava para o quase encontro de suas peles, mas desviou seu olhar.

Você ainda gosta do André? – ele pensou.

Havia muitas respostas para essa pergunta, ela não usou sua tepatia. Suspirou e passou a dizer baixinho, cochichando:

— Por que quer saber?

Ele agradeceu essa pergunta não ser feita enquanto ela estava ouvindo os pensamentos dele.

— Porque você não fala sobre isso e quero saber como você está. – Ele não mentiu, só não disse tudo.

— Ah… Varia. Às vezes eu nem penso nele. Tipo esse tempo todo que estou aqui, você estava ouvindo meus pensamentos e ele não apareceu.

— Sim.

— Mas claro que tem horas que… sei lá, é muito recente, acabou de um jeito muito rápido, é claro que eu sinto falta. Mesmo sabendo que se não fosse assim, acabaria de outra forma.

— Tipo quando ele se formasse?

— Não, eu acho que não chegaria nem a isso.

Ele levantou uma sobrancelha.

— Como é que é?

— Agora que eu consigo olhar em retrospecto – ela suspirava – André era muito ciumento, tava cismado que você era apaixonado por mim, por exemplo.

Ele se lembrava dos olhares de André.

— Nossa, sério?

— Sim. E enfim, somos amigos, mas óbvio que você não me vê dessa forma.

Ele quase fez que não com a cabeça, mas fez que sim.

— Aham. Mas só por isso?

— Não, é que ele vinha de uns relacionamentos meio fodidos, então ele achava que tinha que estar comigo o tempo todo, fazer todas as minhas vontades... Aí eu ficava ali adivinhando quando ele queria fazer mesmo o que estava fazendo e quando ele só não queria correr o risco de parecer desinteressado.

— É, meio tosco…

— Eu acho que a gente tava até meio que superando isso, mas aí, quando ele começou a implicar com você, perdemos todo o progresso.

— Poxa, foi mal.

— Não é culpa sua.

Ele acreditava que a culpa, ou o mérito, era parcialmente dele sim e tinha uma certa satisfação em pensar isso.

— Mesmo assim…

— Mas ele foi um bom primeiro namorado. – a mente de Cass era invadida por algumas memórias – Era gentil, engraçado, romântico… Tinha todo o jeitinho especial dele.

Cass engoliu a seco. Seu olhar era nostálgico, dava um sorriso melancólico. Tom se sentia culpado de novo e pensou em se afastar, mas antes que o fizesse sentiu a mão de Cass o tocar.

— Obrigada por me ouvir.

Apesar de sentir sim saudade, de nutrir carinho por André, a cada dia que passava conseguia digerir mais motivos para não dar certo. Motivos que ela já sabia desde antes, como as mentiras constantes. Ainda com o olhar distante, sentiu a mão de Tom alcançar a sua e os dedos entrelaçaram em um gesto afetuoso.

Ela também pensava no como o relacionamento deles havia mudado desde que precisou mexer na memória de André. Havia uma nova cumplicidade entre os dois, as conversas duravam mais e iam até tarde quando se encontravam nos finais de semana. Ela não precisava pensar em versões diferentes da própria vida para contar.

Quer levar o CD do Baden Powell? – ele pensou.

Eu posso? – ela sorriu.

Pode. Depois você me devolve. Vou ver se suas roupas secaram.

— Obrigada, Tom!

Ela apertou a mão dele antes de deixá-lo ir.

Ela se trocou no banheiro novamente, fizeram algumas piadas enquanto Tom arrumava alguns papéis em sua mesa e se despediram.

*

Quando Cassandra chegou em seu quarto, logo notou sua porta aberta e a luz que vinha da sala acesa. Sentiu um frio na barriga, ela sabia o que aquilo significava. Passou as mãos no rosto em preocupação e saiu do quarto sabendo que encontraria o inevitável: o rosto impassível de seu pai. Ele olhou para ela mantendo um sorriso frio no rosto.

— Boa noite, Cassandra.

— Boa noite, pai. – ela respondeu em um tom baixo, envergonhada.

— Você quer me dizer onde estava?

Ela respirou fundo.

— Não é tão ruim quanto parece.

— Quão ruim parece pra você?

— O suficiente, eu acho.

— Cass, sente-se.

Cícero apontava o lugar ao lado dele, a filha se acomodava desconfortável.

— Quer beber algo quente? – ele perguntou, a filha negou com a cabeça – Muito bem.

Ele esperou que ela falasse, mas ela não sabia como falar, media o quão pior poderiam ficar se mentisse. Ele suspirou e começou:

— Filha, eu sempre confiei em você. Quero continuar confiando em você. E saiba que eu já sei uma boa parte da verdade, só estou te dando a oportunidade de me contar.

— Do que você sabe? – ela arregalava os olhos.

— O suficiente para estar esperando que você me conte, sem te impedir de continuar, há algum tempo.

Ela respirou fundo. Seu pai não era de blefar, pelo jeito ele sabia bastante. Engoliu a seco.

— Sabe de Thomas?

— Sim.

— Que vou à casa dele às vezes?

— Sim. Quantas vezes foram essa semana?

— Umas três…

— Certo.

— Sabe o que eu faço lá?

— O que você faz lá?

— Nada preocupante! Treino meus poderes, às vezes ficamos conversando, é só. Mas não consigo treinar sozinha e Tom me ajuda e fazemos mais tarde porque é mais seguro!

— Muito bem. E isso é tudo?

— Temos um plano, mas é uma surpresa. Ele está pensando em toda a segurança, quando estiver mais pronto podemos até revisar isso com você.

— Uma surpresa?

— Sim.

— Uma surpresa ou algo que você não quer que eu te impeça de tentar?

— Um pouco das duas coisas. Eu acho que você também faria se tivesse a chance, só talvez não tenha certeza de que é seguro. Mas você pode olhar tudo que tivermos planejado antes de colocarmos em prática, falo com Tom amanhã.

Ele suspirou, era uma boa oferta.

— Está bem. E seus poderes?

— São interessantes! Mas não sei ainda como são úteis. Eu consigo identificar e seguir uma assinatura energética, mesmo que esteja bem longe. E agora até a telepatia a distância eu consigo usar. – o pai coçava a barba, como se isso quisesse dizer alguma coisa, mas não disse nada – A família do Tom me ajudou… Eu descobri que aconteceram umas coisas que quero te contar com calma.

— Eles te tratam bem?

— A família dele?

— Sim.

— Muito, como se eu fosse parte da família.

— E sabem que você se encontra com ele de noite?

— Eu… – ela riu um tanto sem graça pelo o que isso se parece – Acho que não, mas agora não duvidaria se soubessem. Como você soube?

— Eu notei que algo estava estranho e comecei a procurar, eles facilitaram serem encontrados.

— Mas como?

— Você não vai saber dos meus truques não, garota. O pai aqui sou eu. – ele dava um sorriso engraçado – Vai dormir, eu vou avisar que conversamos. E a partir de agora novas regras.

— Novas regras?

— Eu quero saber que horas você tá saindo e que horas tá chegando. E nada de voltar tarde da noite no meio da semana.

— Tá.

— Ele também pode vir aqui, aí eu também fico um pouco de olho em vocês.

— Por quê? Você acha que fazemos algo diferente do que eu disse?

— Se não fazem, não tem problema se eu participar um pouco.

— Tá… Nesse caso, podemos aumentar um pouco meu quarto? Quero tentar explodir umas coisas.

— Talvez criar um cômodo só pra isso seja melhor.

— Tá… É só?

— O que eu devia fazer? Arrancar sua cabeça?

Ela riu e abraçou o pai antes de se levantar e recebeu um beijo na cabeça. Cícero, ao ficar sozinho, se afundou no sofá contorcendo seu rosto e pensando que odeia adolescentes.

*

Na semana seguinte, quando Cass contou a Tom o que houve, não houve tanta surpresa.

— Então foi isso. Eu estava procurando qual segredo eu havia perdido há algumas semanas. – ele explicou.

E mais tempo passava.

Os ensaios da quadrilha haviam se tornado mais divertidos, a narrativa do casamento já estava bem integrada, Lucas se saía muito bem como padre e naquela sexta, depois do fim de um período de provas, o grupo se reunia para ir ao Jocão.

Estavam sentados nos sofás perto da jukebox, como já haviam feito tantas vezes, falando da quadrilha quando Lucas, que lia uma mensagem em seu celular, batia repetidas vezes no braço de André para o fazer parar de falar.

— Mano! Mano! Mano! – ele estava empolgado.

— Calma, cara! O que foi? – André se defendia dos tapas.

— Diogo conseguiu da gente tocar no Vital!

— É sério? – André tentava ver a mensagem

Laulau, no sofá da frente, se impressionava.

— Quando vai ser? – a emo queria saber.

— Mês que vem, dia 28. – André respondia enquanto lia a mensagem sobre o ombro do amigo. – Vamos ensaiar sério.

— É bom esse lugar? – Cass queria saber.

— O Rogério, um dos caras que arranja os shows do Coliseu, frequenta o Vital. – André explicava.

— Então é uma chance! – a bruxa sorria pelos amigos.

— Uma boa chance! – Lucas sorria. – A gente precisa de volume, vocês já se organizem pra ir.

— Eu vou levar a Ana Clara. – Laulau ficava vermelha. – A gente tá namorando.

— Sério? – Cass se inclinava para frente para ver a amiga do outro lado do sofá, Tom estava entre elas. – Que fofo, Laulau!

— É lógico que meus pais não sabem, mas a gente se encontrou ontem, eu perguntei se ela queria e ela disse que sim!

Melissa e Cass davam gritinhos.

— Você não disse que estava planejando isso! – Mel estava impressionada.

— Eu não estava planejando, só saiu assim naturalmente. – Laulau contava ficando vermelha.

— O amor está no ar! – André cruzava as pernas rindo – Laulau namorando, Lucas fingindo que não está apaixonado…

Lucas apaixonado parecia mesmo algo novo.

— Como assim? – Mel perguntou.

— Ah, verdade! – Laulau riu – Cada ensaio da Ruína é um episódio dessa série.

— Cês tão viajando. – Lucas estava estranhamente na defensiva – E você também tá saindo alguém!

Cass ergueu as sobrancelhas, mas mais ninguém parecia surpreso.

— Pouco relevante agora. – André respondeu.

— Agora joga na roda! – Mel insistia em saber.

— Tem uma banda de reggae ensaiando depois da gente toda semana. – o guitarrista se inclinava para frente pra contar com as covinhas marcadas, como se fosse a melhor fofoca de todos os tempos – É uma galera que parece universitária e tem uma vocalista toda “eu-vi-gnomos”, que fica se vestindo com aquelas saias cheias de decoração, colar de miçanga…

— Ela é gatíssima, olhos claros e tudo mais. – Laulau complementava.

— Um dia ela parou a gente pra falar que o Lucas cantava bem! – André continuou – Normal, geralmente a gente é tietado por meninas de até uns 16 anos, mas não seria tão diferente assim. Eles começaram a conversar lá, voltamos eu, JP e Diogo para o estúdio guardar as coisas. Na hora que a gente sai, cadê o Lucas? – o grupo todo começou a dar uma risada contida.

— A gente tava só conversando, seus mente suja. – Lucas tentava não ficar vermelho.

— Geralmente começa assim. – Tom riu.

— Fomos lá para os fundos onde a gente fica às vezes, estava ele numa mesa conversando com a menina, mas com a maior cara de cachorrinho pidão do mundo.

— A fada do Lucas. – Laulau provocava o amigo – E agora toda semana ele fica todo enfeitiçado.

— Mas continua só na conversa? – Cass perguntou.

— Essa é a pergunta certa, senhorita baterista! – André apontava para ela com um sorriso enorme no rosto, de quem estava chegando na melhor parte – Diga-nos, Luquinhas Rocha, valendo um milhão de reais em barras de ouro, que valem mais do que dinheiro! Vocês continuam só na conversa?

O grupo todo olhava para Lucas, que puxava a gola do uniforme para cima se escondendo dentro da roupa.

— Não, um dia eu fiquei pra ver o ensaio dela e ela me fagocitou. – ele usava esse termo para explicar que eles passaram um tempo se beijando em algum canto – E ela beija muito bem, velho, parecia que eu tinha beijado errado até agora.

O grupo ria.

— Calma, tem mais, tem mais. – André parecia muito empolgado.

Lucas olhou para o amigo querendo cometer alguma violência, mas respirou fundo e arrumou a blusa, revelando bochechas vermelhas.

— A gente tem se falado e agora ela quer sair comigo, e eu quero muito sair com ela! Mas ela tem dezenove e acha que eu sou maior de idade.

O grupo preparava uma reação exagerada, quando Tom disse:

— E daí?

— Como “e daí”?! – Laulau riu.

— Olha só, Tom está finalmente se mostrando… – André provocou.

— Ela tem dezenove, não vinte e nove, isso acontece o tempo todo! – o bruxo se justificou e olhou para Lucas — Do que você tá com medo?

— O que ela tá esperando? Que eu busque ela em casa de carro? Sei lá! – Lucas explicou.

— Ela está esperando a continuação do processo de fagocitose, você já conseguiu! – Tom o encorajava.

— E o carro?

— Quem liga pra carro é homem, Luquinhas. Fala que você não tirou habilitação ainda, combina de encontrar ela já no cinema, escolhe o filme mais barulhento e ruim que estiver passando e faz o que você já sabe fazer.

O grupo estava boquiaberto, Cass estreitava os olhos encarando Thomas. Esse tipo de conselho era mesmo a cara dele, ela sabia, mas parecia ter algo específico.

— Sinto que eu tô falando com um deus. – Lucas parecia impressionado.

— O garoto misterioso ataca novamente. – Laulau começou a dar risada.

— Eu achei que você fosse quietinho e inocente! – Mel protestava.

— Foi isso que a sua amiga te disse? – Tom perguntou.

— Não, mas… – Mel se interrompeu quando viu a expressão da loira ao lado de Thomas – Tudo bem, Cass?

Muito passava na cabeça de Cass. Primeiro: todos estavam namorando ou pelo menos com algum tipo de relação romântica? Até André? Tinha um incômodo, mas a vida dele teria que ir adiante em algum momento. Talvez não esperasse que fosse tão rápido e ao mesmo tempo de todos os outros. Ela sentia certa inveja do como podiam tratar isso com normalidade. Segundo: Thomas era realmente muito bonito para ter poucas experiências românticas em seus tantos anos na Terra, mas essa história de cinema parecia tão pronta na cabeça dele e, pensando que ele já estava passando por todo o ensino médio pela terceira vez, que já tinha se relacionado com algumas garotas, o quão longe ele já teria ido com alguma delas? Terceiro: por que a vida romântica e sexual de Tom de repente a interessava?

A voz de Mel a despertou.

— Oi? – a bruxa olhou para a garota – Tudo, eu tava viajando aqui.

*

O Coliseu a noite em dias sem shows era diferente. A estrutura do palco desmontada, o bar fechado, eram quase coisas que poderiam ser ignoradas para se imaginar apenas a estrutura original.

Dois bruxos adolescentes apareceram entre as árvores. Thomas começou a procurar pelo chão imediatamente enquanto uma pedra alaranjada em um cordão em seu pescoço piscava.

— Você acha que alguém mexeu? – Cass o perguntava.

— Acho improvável.

Cass se concentrava no lugar. Do mesmo jeito que sentia a energia dele ali a sua frente, abaixado e analisando o raiz de uma árvore, sentia um pequeno ponto de energia próximo da raiz da árvore ao lado.

— Ali. – ela apontou para o que sentia.

Ele olhou e seguiu a direção onde ela apontava. A pedra de seu cordão piscava mais rápido e assim recuperou o dispositivo.

— Exibida. – ele disse.

Ela deu uma risadinha.

— Pelo menos sinto que fiz alguma coisa nesse plano todo.

— Eu não ligo de ficar com todo o crédito, mas você será necessária em algum momento.

— Ha-ha.

Ele analisava o cordão e o dispositivo que estava no chão. Enrolou o cordão no corpo do outro e deixou os dois flutuando quando estalou a língua.

— Esse “tsc” geralmente não é boa coisa. – ela continuava analisando o lugar, mas não percebia nada de mágico além dos dois.

— Estou fazendo um teste, eles precisam ficar quietos um pouco. Mas só o que falta é não estar funcionando direito!

— Você tá irritado, hein.

— Tô, com isso! – ele apontou as duas partes de sua invenção flutuando na altura de sua cabeça.

Cass já conhecia Tom o suficiente para saber que ele não gostava nada da ideia de errar alguma coisa. Se aproximou deixando seu braço tocar o dele, oferecendo um sorrisinho empático e dizendo:

— Já que vamos esperar, quer dar uma volta? As estrelas parecem legais daqui quando as luzes estão apagadas.

Tom olhou para a construção além das árvores. Havia apenas uma luz acesa perto do portão de entrada, todo o resto estava escuro.

— Pode ser. – ele respondeu, sabendo que uma volta o deixaria mais calmo.

Caminharam lado a lado de braços encostados. A noite era um tanto fria e ele sabia que Cass não levaria uma blusa, então quando ela apareceu em sua casa mais cedo já lhe ofereceu o mesmo casaco da noite em que ela se cortou. Ela escondia as mãos dentro das mangas e deixava o zíper alto, de forma que a gola ficasse para cima e cobrisse até seu queixo. Já havia notado que vez ou outra ela baixava o rosto e cheirava o tecido, coisa que ele achava fofa, e se perguntava se era um sinal ou se ela era apenas maluca.

Cass não estava com frio na primeira vez que ele já a esperou com o casaco, mas achava aquela peça particularmente cheirosa e confortável, então começou a aceitar sempre para que pudesse usar mais vezes e para que ela pudesse até pedir pelo casaco se um dia estivesse com frio.

As estrelas estavam bonitas e a irritação de Thomas começava a diminuir depois de alguns passos deles sobre a arquibancada do Coliseu.

— Minha mãe falou que seu pai foi lá em casa convidar a gente pra um jantar. – ele contou.

— Ah, nem me fala… eu e Agda estamos sofrendo com os preparativos. – ela riu.

— Você que tá cozinhando? – o estranhamento era exagerado.

— Acha que eu não consigo cozinhar?

— Sem envenenar alguém?

— Você ficaria surpreso, ok? – ela fazia uma coisa ou outra quando queria, levava algum jeito – Mas não estamos cozinhando nada ainda, é outra coisa.

— O que?

— Ele está empolgado com a ideia de receber gente. Daí achou que as áreas sociais da nossa casa eram muito minimalistas e intimistas.

— O que tem de errado com isso?

— Aparentemente muita coisa, ele decidiu que para receber pessoas ele faria algo diferente. Cada dia que chegamos do colégio, parece que estamos em uma nova casa.

Tom riu.

— Bom, ele é arquiteto, precisa se exibir um pouco.

— Pior que eu acho que tem um pouco disso mesmo! Ele quer tanto mostrar que consegue fazer coisas diferentes, elegantes e sem limitações para o que um mundano entenderia, que agora quer achar o projeto supremo para uma casinha pequena.

— Enquanto isso meu quintal segue a vossa disposição.

— Quando você se mudar, vai levar aquela parreira?

— Eu acho que não. Por quê?

— Eu gosto dela.

— É, eu também gosto dela. Daquela árvore do colégio também.

— Eu também.

Caminharam mais um pouco em silêncio, resolveram se sentar exatamente no meio da arquibancada e observar as estrelas. Mesmo com a lâmpada na entrada, o lugar ali era escuro o suficiente para oferecer um céu mais estrelado que na cidade. Permaneciam com braços encostados, ambos com mãos nos bolsos dos casacos. Cass recolheu as pernas sobre o degrau, Tom permanecia relaxado e balançava os pés.

— O que a gente vai fazer depois que seu teste terminar? – ela perguntou.

— Depende. Se não estiver funcionando, nada, só vamos embora.

— Mas vai estar funcionando.

— Bom, se estiver funcionando, então significa que as leituras estão muito paradas mesmo e que alguma coisa aconteceu naquela noite que deve ter facilitado um portal ou uma brecha para sua mãe fazer o contato.

— Entendi.

— Daí a gente precisa descobrir o que aconteceu naquele dia. Refazer nossos passos, qualquer coisa.

— A folha chegou quando estávamos cantando juntos.

Ele fez que sim com a cabeça.

— Dá pra tentar. Vamos só ver se está funcionando.

O dispositivo começou a flutuar até eles lentamente.

— Eu não canto bem. Acho que sem uma banda tocando de fundo, vai dar pra notar.

— Eu já notei naquele dia mesmo.

Ela torceu a boca, desgostosa. Ele deu de ombros tentando não rir.

— Bom, vamos ver…

Ele pegou os objetos, vestiu o cordão e começou a comparar os cristais que funcionavam como visores nas duas partes. Cass conseguia ver apenas um risco que marcava oscilações que pareciam idênticas.

— E aí? – ela quis saber.

— Parece tudo certo. Bom, então… Além de cantar Pink Floyd, o que fizemos naquele dia?

Cass respirou fundo, se lembrava daquele dia muito bem.

— Nós bebemos. Eu senti o cheiro de castanhas na primeira vez quando estávamos bebendo.

— Estamos em um bar… – Tom olhava o salão fechado com grades.

— A gente vai fazer o que? Roubar o Coliseu?

Ele vasculhou os bolsos.

— Eu tenho o suficiente para pagar por uma garrafa de cerveja… mas ainda não daria certo.

— Eles têm câmeras atrás do balcão, não tem?

— Exatamente por isso. Mas sinceramente, não me parece que a bebida seria um gatilho.

— Tá… então a música.

Os dois se encararam. Como fariam isso? Parecia desconfortável.

— Já volto.

Cass desapareceu e voltou com um aparelho MP3 em mãos. Desenrolava o cabo dos fones e se sentava ao lado de Tom de novo, entregando a ele um lado do fone de ouvido. Ele entendeu sem precisar que ela explicasse. Nenhum dos dois ouvia todos os instrumentos a princípio, mas usando telepatia isso foi possível.

— So, so you think you can tell… – começaram a cantar juntos.

A música mexia com suas emoções, com lembranças, com vontades. Cantaram balançando de um lado para o outro, como fizeram pela primeira vez, no mesmo lugar. O dispositivo mostrou uma pequena alteração, não parecia ser o suficiente, nem muito digno de nota.

— Ah, puta merda… – Tom olhava para o céu, era como ele gostava de parar para pensar. – Treco inútil. Eu sinto muito.

— Não desista ainda.

— Não desisti, mas… o que mais a gente fez naquele dia?

— Tem uma coisa… – ela suspirou.

— O que?

Ela não acreditava que diria, na verdade se lembrava de tudo que havia acontecido naquele dia, das coisas mais para menos importantes:

— Eu acho que minha aura estava mais ativa naquele dia, porque… foi quando eu beijei André pela primeira vez.

Tom sentiu o coração pular uma batida. Ela não estava bem sugerindo nada, só deixando ele saber. Mas por que ela diria em um momento desse se não fosse para tentarem algo?

— Entendo… – ele a olhava, estava encostada nele e com a aura agitada. Do jeito que ficava quando ela estava ansiosa ou desconfortável. Agora não sabia qual das duas coisas era.

— Eu sei que nada ver eu te pedir esse tipo de coisa, – porque ela não sabe o prazer que seria – mas eu não consegui pensar em mais nada. Você deve achar que estou exagerando também, já que você já é tão desenrolado com essas coisas, um beijo pra você não deve ser nada.

Ele não sabia se negava, dizendo que um beijo dela seria sim alguma coisa, ou se isso diminuiria suas chances do beijo acontecer. E ele deveria aceitar? Mesmo parecendo que o beijo aconteceria pelo motivo errado?

— Você quer tentar ou não? – resolveu deixar a decisão na mão dela.

— Eu estou sem ideias.

Ela olhou para ele. Cass não conseguia decifrar Tom. Ele não parecia resistente, mas também não demonstrava interesse. O que custava a ele dizer se queria beijá-la ou não? Provavelmente o mesmo preço de ela dizer que queria. Ele era exatamente como ela quando se tratava de um orgulho infantil e desnecessário. Já estavam se encarando havia alguns segundos e ninguém fez nada. Então seria sem ninguém admitir mesmo. Ela engoliu a seco levantando o queixo levemente, se tornando acessível.

Tom mal acreditava que aquilo estava acontecendo. Não conseguia evitar, sua aura avançava antes de seu corpo. Via o dourado se tornar verde enquanto se inclinava para frente, percebeu que seu azul também esverdeava aos poucos.

Os dois estavam a poucos centímetros de distância quando fecharam os olhos e os lábios se encontraram. Primeiro um beijo tímido, que só acontecia nos lábios, mas se repetiu. Era como um anestésico, te livrando de qualquer pressões e dores.Aos poucos criavam espado espaço para as mãos. Tom tocava o quadril de Cass, a trazendo para perto. Ela tocava as costas dele, fazendo o mesmo. As línguas se tocaram finalmente, buscando seu espaço. Uma mão dele enroscava nos cabelos dela, uma mão dela o puxava pela nuca, suas auras se misturavam finalmente entendendo como isso funcionava. Preenchiam vazios, traziam o que estava faltando, reagiam um ao outro.

Eles podiam parar. O teste estava feito e ambos conseguiam racionalizar que já havia acontecido o bastante. E pelo medo de aquilo acabar assim tão cedo, Thomas avançou a segurando com desejo. De longe era fácil se controlar, mas dali? Nem pensava em se controlar mais.

O corpo de Cass se arrepiava, ele sentiu com as pontas dos dedos. A aura dela expandia, ele sentia com a dele. Thomas se entregava e Cass, mesmo que não fizesse de propósito, conseguia sentir o que ele sentia por ela. Claro como o dia, a preenchendo de energia, a fazendo se sentir viva.

Os corações estavam descompassados, quando talvez por um erro de cálculo ou pela necessidade de tomar ar, os lábios se soltaram. Abriram os olhos ainda saindo do transe em que se encontravam, houve silêncio. Cass corou, Tom desviou o olhar.

— Então… – ela buscava palavras em vão, não era nessa linguagem que sua mente estava se concentrando no momento.

Se soltaram. Ele tentava não pensar demais no que havia acabado de acontecer. “Apenas um teste”, repetia para si, “não se anime, foi apenas um teste”. Cass ficava confusa, ela havia sentido o que ele sentia e haviam acabado de se beija! Ele não deveria dizer alguma coisa? Ou será que suas habilidades de empatia estavam a enganado de novo? Ela já parecia ter errado uma vez.

— Alguma leitura nova? – ela perguntou, desconcertada.

— É… sim, só não o que estávamos procurando ainda. – ele respondeu depois de verificar.

— Entendi. Bom, a gente fez o que deu, né?

— É. Acho que sim.

Notas finais
Ainda vou revisar com cuidado, mas nada deve mudar muito.