Mystic

4 O início do fim


Notas iniciais
O início do fim

– O que aconteceu aqui?

A frase que Flecher havia feito penetrava no peito de Rem como uma espada de dois gumes. Acalmar-se era impossível, pois ao seu redor estavam possas de sangue não de animais ou de algum monstro, mas sim sangue de seus aliados, de pessoas que lutaram para defender seu Reino, enquanto Rem, nada pode fazer, pois chegou tarde. Rem se perguntará se era alguma obra do destino o manter vivo, porém para que propósito? Seria apenas uma fatalidade comum? Uma forma do destino fazer culpar-se pelo resto da sua vida? Estas perguntas soavam em sua mente.

–O-orcs... Foram os Orcs que fizeram isso! Eu fui ao castelo Élfico buscar algo para o comandante, que ele havia esquecido e quando voltei apenas o encontrei a beira da morte junto com os outros já mortos...

Disse Rem com lágrimas começando a cair de seu rosto novamente.

–Eu não pude fazer nada, exatamente NADA! – seu tom de voz subiu um pouco, pois estava frustrado – Se eu estivesse aqui um pouco antes, eu poderia ter pelo menos morrido de forma Honrosa, e não estaria com essa dor e agonia extrema em meu pei-

Suas frases foram interrompidas por Maria, que subitamente deu um tapa em seu rosto, Rem não entendeu no momento o que havia acontecido nesse exato segundo, mas logo olhou para ela, e a viu chorando e derramando lágrimas:

–Você não faz ideia de quantas besteiras você acabou de dizer Rem! Não sei por que nem o quê aconteceu corretamente ainda, mas você está vivo! – Ela fez uma pausa e logo sussurrou –Eu não suportaria viver sem você ou sem o Flecher.

Flecher se aproximou com o rosto serio, Rem podia ver a frustração em seu rosto, mas o conhecia muito bem e sabia que ele era durão. Flecher colocou sua mão sobre o ombro de Rem e disse.

–Rem, tenha paciência, ela está triste e confusa tanto quanto você...

De fato, Rem conhecia Maria muito bem, e sabia o quanto ela odiava essa guerra, sabia o quanto ela chora por nossos aliados, e também sabia o quanto ela treinou para estar aqui, não para ser a melhor e obter fama ou honra, ela apenas queria sobreviver, e cuidar dele e de Flecher, disso ele tinha certeza.

O que Maria fez o trouxe de volta a realidade e de alguma forma suas palavras lhe deram forças para continuar naquele momento:

–Os orcs atacaram nosso grupo e levaram a princesa, foram através da floresta em direção ao rio que tem a leste desta estrada.

–E o que vamos fazer? — Disse Flecher.

–Vamos voltar e buscar reforços. Completou Maria.

Rem sentiu como se uma chama quente acordasse dentro de si, naquele exato momento, um calor tomou conta do seu corpo dos pés a cabeça, e este calor curou as feridas em sua alma causadas por aquela situação, de alguma forma nunca havia se sentido tão bem quanto naquele segundo, seu coração bateu mais forte, mas ele não entendia nada do que estava acontecendo com sigo, parecia que algo dentro de si começou a mover seus lábios e a dizer:

–Vamos Atrás deles!

Os dois ficaram pasmos diante da sua frase, que de certa forma parecia uma ideia suicida.

–Você está louco? Como acha que nós três conseguiremos isso? — Flecher disse olhando fixamente para Rem.

–Se voltarmos para pedir reforços perderemos muito tempo e talvez nunca mais localizemos o grupo de Orcs, sem falar que voltar atrás nesta situação seriamos tratados com desonra, como pessoas que fogem, como fracos...

Ambos estavam um pouco perplexos com a sua frase, mas assentiam em suas faces, disso Rem tinha certeza.

–É verdade que as chances são pequenas, mas mesmo que as chances sejam iguais a um pingo d’água em um oceano, ainda assim eu lutaria até o fim. E além do mais, eu prometi que traria a princesa de volta. E eu vou cumpri-la ou morrerei tentando!

–Eu não vim para morrer aqui! — Disse Flecher com um sorrisinho no canto da boca.

–Eu não concordo com essa ideia, afinal vocês podem se machucar ou até morrer, mas eu também sei que vocês não mudarão de ideia, então terei que ir junto para proteger as costas de vocês dois... — Assentiu Maria.

As três mãos esquerdas foram levadas a um mesmo ponto mostrando sua união:

–Nós prometemos voltar vivos desta missão, e nós vamos! — Falou Rem, com o tom de voz grave e confiante.

Os três saíram correndo mata adentro em direção ao leste mesmo ainda sem um plano em mente, queriam primeiramente localizar o grupo dos monstros que fizeram tal ataque, para resgatar a princesa.

A cada passo que davam a euforia tomava conta de Rem, e aquele sentimento caloroso na qual ele nunca sentiu, ardia mais e mais a cada segundo, como se fosse uma bomba relógio, esperando algum momento para explodir, mas ele nada sabia sobre esse sentimento, apenas tentou controlar sua espontaneidade gerada por aquele sentimento.

Estavam correndo a cerca de dez minutos quando então Flecher com um único gesto os impediu de continuar correndo, sem ao menos dizer uma palavra, ele apenas apontou sua mão direita. Lá estavam eles, os Orcs, pararam um momento, olharam em volta procurando algum batedor que estive à espreita nas árvores, mas não viram nada.

–Como vamos fazer isso? — Perguntou Flecher.

–São muitos Orcs para nós três sozinhos! — Complementou Maria.

De fato, até onde puderam contar havia pelo menos dez Orcs e para surpresa deles, um Devil. Orcs não costumam agir junto com outras raças, eles não são do tipo carinhoso ou amigável, aquela visão perturbou muito a mente de Rem, por que eles estariam juntos?

–Rem, o quê vamos fazer? — Perguntou novamente Flecher.

Rem Indagou-se com aquela pergunta, afinal, o que ele faria? Nesse momento aquele calor no seu peito voltou, e de alguma forma na qual não sabia explicar, sua mente foi se abrindo, e deixou de lado o medo que estava em seu peito e começou a pensar lucidamente.

Um fato sobre os Ocs, eles são tão “tapados quanto uma porta”, e eles teriam que achar uma maneira de usar isso a seu favor, mas mesmo assim ainda o fato daquele Devil estar no meio os frustrava muito. Rem não tinha tempo para pensar, pois já estava chegando perto das cinco horas da tarde, em média, e como a floresta era realmente densa, já estava ficando extremamente escuro, e até mesmo os Orcs sabem do perigo de andar a noite num lugar como este. Eles estavam acampados à beira de um rio de águas claras e rasas, eles fizeram uma grande fogueira onde alguns Orcs comiam algo parecido com um javali, havia dois Orcs de guarda, em uma tenda onde aquele Devil estava e onde possivelmente a Princesa estava. Rem, Flecher e Maria estavam em cima de um barranco onde a visão dava diretamente para eles, um ótimo local estratégico, pois dificilmente os veriam. Após alguns minutos em silencio, o plano de Rem estava pronto, se tudo ocorrer da forma como pensará e se a sorte estiver ao seu lado, certamente conseguiriam. Explicou a Flecher e Maria o plano, designou cada qual com seu papel e começaram a se preparar para executá-lo.

Algumas horas passaram, à hora de executar o plano chegou, mais uma vez colocaram as mãos juntas, todos estavam com um olhar sério:

– Ninguém morrerá, todos nós sairemos daqui vivos! — Falou Rem com um tom serio.

Mesmo que as chances são baixas e a probabilidade seja pequena, decidiram acreditar nessa frase.

Devia ser em média de seis ou sete horas quando resolveram iniciar o plano, como a floresta é densa e como estavam no final do outono já estava bem escuro, tudo estava calmo, apenas um vento leve e gélido batia em suas costas, nada mais do que barulho das folhas caindo lentamente. Mal sabiam os Orcs que algo aconteceria, e muito menos Rem imaginava o que estava prestes a descobrir...

Antes de levantar sua mão para dar início ao plano, Rem rastejou lentamente e suavemente entre as folhas e olhou com cautela aqueles monstros lá em baixo, pobre princesa, pensou Rem sua mente se martirizava por pensar nela nessa situação." Muito bem, minhas informações estavam certas, há oito Orcs, dois estão de guarda, cinco estão em volta da fogueira e três estão dormindo escorados em uma árvore, há uma tenda, e só consigo ver duas sombras dentro dela, provavelmente a daquele maldito Devil e da pobre princesa". Tudo estava correto, então como o som de uma coruja Rem fez o sinal para Flecher começar a fazer sua parte.

Flecher deu inicio ao plano, sua parte consistia em distrair os Orcs pela mata, enquanto Maria ficava a espreita nas árvores com suas flechas paralisantes pronta para atirar neles. Flecher colocou fogo num monte de palha seca que havia perto dos orcs, o fogo se alastrou rapidamente na palha e logicamente, atraiu cem por cento da atenção dos Orcs. Logo após isso ele saiu em uma velocidade muito grande floresta adentro com apenas uma tocha nas mãos para os Orcs não o perderem de vista, ainda bem que seus inimigos são como cães, se vêem algo que os interessa saem correndo atrás sem ao menos pensar. Rem ficou na copa de uma árvore olhando o andar da missão, quando os Orcs entraram no alcance de Maria ela rapidamente os acertou e quase que instantaneamente o veneno surtiu efeito naquelas criaturas e aos poucos caíram ao chão imobilizados. Agora a parte de Rem começava, ele sabia o que tinha que fazer, mas também estava com muito medo, logo quando olhou para a cara daquele Devil. Subitamente saltou da árvore e caiu frente ao horrendo monstro negro que já estava agarrando a princesa pelo braço para fugir.

–M-me ajude... Por favor... — A pobre princesa resmungou quase sem forças.

–Solte-a Devil! — Com esse grito Rem empunhou sua espada, agora tudo estava em suas mãos, Flecher e Maria estavam um pouco distantes dali, e se ele morresse, certamente o Devil fugiria com a princesa. Raspando a espada no chão saiu correndo em direção ao Devil para golpeá-lo, a espada cintilou no ar, era um ataque perfeito, certamente o acertaria. Segundos antes de acertá-lo com a espada Rem gritou com euforia:

–Mooorra! — Mas parou bruscamente.

Dizem que quando se está à beira da morte você pode ver sua vida toda diante de seus olhos, tudo que passou, tudo que viveu, tudo que sentiu e até vagas lembranças de quando criança, tudo você vê diante de seus olhos, mas a mente de Rem estava limpa, serena. Com os olhos arregalados e extremamente tomados pelo medo olhou para seu peito, e lá estava, a mão daquela criatura cravada em seu tórax, como se Rem fosse apenas um folha de papel, transpassava seu corpo, nem pode ver seu movimento direito, a dor agonizava em suas veias. Lentamente ele puxou sua mão de dentro de Rem, jamais sentira tal dor, jamais imaginou estar nesta situação. Caiu de joelhos ao chão, apenas ouvindo um grito estrondeante que veio da princesa, na qual ele não conseguiu salvar. Tudo que prometeu, tudo que falou, todos os momentos que treinou pareciam não ter mais valor, ele queria viver a qualquer custo, faria qualquer coisa para cumprir seu objetivo. Tombou naquele chão lamacento e notou que começava uma chuva fraca e via a princesa sendo levada, sua visão foi se embasando.

– Então tudo termina assim? Morrerei aqui? — eram as únicas coisas que se passavam pela sua cabeça, sua esperança estava chegando ao fim juntamente com seu coração que já batia fraco, quando então, perto do seu momento final, aquilo dentro de si, na qual não fazia ideia do que era, apareceu outra vez...

Mystic – O início do fim — FIM