Mysteries in The Hunt
8 Churrasco de mãos
Rastejei até as meninas, que permaneciam imóveis. Conforme ele se movia, fazia um estranho som.
–É um Laelaps incrassatus- disse Beatrice.
–Tradução, por favor.- pedi.
–É um cão que seu pai deu a Europa.Um presente.
– Meu pai deu um cachorro a um país?
– Ty! Você não sabe de nada de mitologia?
–Só sou obrigada a entendê-las. Qual é a linda história desse belo animal?
– Europa era uma das amantes de seu pai e uma princesa grega. Ela ganhou esse cão como um presente. Ele é quase indestrutivel; sempre arpoava a sua presa quando caçava.
– Por favor, me fala que ele tem um ponto fraco.
–Sim. Você vai consegui matá-lo se lhe atingir uma flecha de cima para baixo em seu queixo.
–Que especifico!Deixa eu adivinha: se eu encostar nele, me queimo, não é?
–Exatamente.
Soltei um suspiro. Como matar uma coisa daquele sem encostar? Era quase impossível. O cachorro nos olhava zangado. Será que ele sentia meu medo? Já falei como sou corajosa? HAHAHA, claro que não preciso mencionar isso. Mas como dizia mamãe: Uma pessoa corajosa, não é aquele que não possui medo e sim aquela que tem medos, mas não os deixa lhe deter. Verdade! Eu precisava de um plano.
Eu estava no meio do meu processo de idéia-tola-que-vai-salvar-minha-vida, quando ele avançou. Seu pelo passou de raspão pela minha perna e me fez urrar de dor. Ele veio em minha direção. Poxa, só tinha eu ali? Não. Agora ele se encontrava do outro lado da sala me observando.
–Ele é só um. Dividam-se. Não pode seguir em duas direção diferentes.- orientei as garotas.
–Você consegui andar?- perguntou Beatriz a alguns metros de mim, á direta.
– Sim. Só esta doendo um pouco. Nada de grave.- garanti para ela.
Fiquei do lado de uma estatua, quando o vi investir em mim, novamente. Ele veio correndo feito um trem, como se tivesse acabado de ver a coisa que mais odiasse na vida. Eu não sei como previ seu ataque. Estava tão na cara. Pulei no chão, no mesmo tempo em que ele pulou e acabou se chocando contra a estatua, destruindo-a. Restos da estatua se chocaram nas minhas costas, que em breve daria lugar há hematomas, sem duvidas. O rosto da estatua caiu na minha frente e fiz uma careta.
–Foi mal, Apollo. Arrumamos outra estatua pra você em breve.- murmurei a cabeça.
A poeira havia abaixado e o Laps (Laelaps é muito grande para se ficar falando, tirando que eu nem sabia pronunciar sem errar umas três vezes) estava recuperado do fracasso do ataque. Agora sim, ele parecia furioso. Ele olhou em volta para ver se as meninas estavam mais interessantes que eu. E sim, elas estavam muito mais. Stella era uma gigante ameaça de olhos verdes e arco na mão. Beatrice aparentava estar nervosa (acho que era por que eu ainda estava deitada no chão), mas já manuseava seu arco e preparava uma flecha. A única perdida da história era eu, desarmada, machucada e desnorteada. Maravilha! A pessoa que mais deveria estar preparada era a que mais estava errada. Levantei do chão, já que parecia ser o certo a fazer. O Laps rosnava entre Bea e Stella. Acho que ele já não me considerava mais um desafio, o que me foi um alivio e decepção. Ele avançou novamente seguindo seu modo de ataque que sinceramente, tava na cara que não estava dando certo. Ele repetiu com Stella. Elas me imitaram, apenas saindo do caminho dele na hora certa. Aquilo parecia ter virado um jogo levemente tedioso. Um vínculo, uma rotina. E por mais que antigamente, vivesse em uma rotina, eu as odiava. Sorte minha que na caçada tudo era bem imprevisível.
Foi então que vi a estatua de Athena, e a Idéia Idiota Que Vai Salvar a Nossas Vidas, foi concluída com sucesso total. A estatua estava com um dos braços estendido, servindo de apoio a uma coruja. O plano parecia simples mais bem eficaz. Eu chamaria o Laps e quando ele se posicionasse debaixo da estatua, eu acertaria uma flecha no braço que se partiria, caindo em cima dele, parando-o. Seria perfeito, se tivesse seguido o roteiro.
–Hey, feioso. — eu o chamei.
No começo, ele apenas me olhou e depois voltou para Beatrice que por sua vez, tinha os olhos cravados nele. Eu peguei um dos destroços da estatua e taquei nele. Aceitei sua cabeça, o que pareceu não o deixar muito feliz. Ele se virou para mim, fazendo seu barulho estranho e avançou devagar. Quando ele estava bem debaixo da estatua, eu peguei meu arco e arrumei uma flecha. Meu descuido foi ter dado um passo para trás e ter tropeçado na cabeça da estatua que havíamos destruído. Cai sentada no chão e foi à deixa para o Laps se atirar ao meu encontro. Eu achei que ia morrer, pois era o que parecia,mas na hora estiquei os braços para frente e se apoiaram perfeitamente debaixo de seu queixo, forçando a sua cabeça para trás. Minhas mãos ardiam, queimavam e doíam muito ao encontrar o pêlo do animal. Meu pensamento heróico foi: “ Aiiii, arde, arde muito. Uhu, estava queimando. Churrasco de mão! Uiii!!!”
Olhei para as meninas e consegui dizer através da dor, que parecia tomar conta de meus antebraços agora:
–Atirei!AGORA!- e essa minha palavra saiu mais como um grito por socorro.
Duas flechas de direções distintas cortaram o ar e atingiram o animal, que sumiu deixando uma montanha de pó em seu lugar. Decidi que ficar no chão agora era uma ótima escolha. As meninas vinheram e se ajoelharam, uma de cada lado. Fechei os olhos, tentando me concentrar apenas na dor que sentia nas mãos. Senti as mãos delas, pegarem nos meus pulsos, mas continuei imóvel.
–Caramba!- escutei Bea murmurar.
Resolvi me levantar e ver o que parecia ter a surpreendido. Eu me sentei e olhei para elas, que por sua vez me encaravam. Decidi olhar minhas mãos e na hora tive que segurar o grito. As palmas das minhas mãos estavam queimadas, não a ponto de caírem, mas a ponto de ficarem vermelhas e com muitas bolhas. Havia partes que a pele estava se descolando do músculo. Não dói tanto, mas era assustador de olhar.
Stella me segurou pelos braços me erguendo, para que pudesse ficar de pé.
– Vamos dar um jeito nisso, ok? Você vai ficar bem, mas primeiro precisamos sair daqui.- disse Stella.
Apenas assenti. Beatrice pelou a minha e a sua mochila, equilibrando-as nas costas. Stella ia ao meu lado, segundo em meus ombros. Saímos discretamente pela madrugada e, por sorte não esbarramos em ninguém. Stella disse que precisávamos de um lugar limpo para cuidar das minhas mãos, com acesso a muita água, então decidimos ir a um hotel e pedir um quarto. Tenho certeza que o gerente estranhou três garotas pedirem um quarto no meio da madrugada, mas se estranhou, não disse nada. Elevador sempre me deixou nervosa, principalmente aquele dia. O quarto era bonito e havia duas camas de solteiro, um banheiro espaçoso com chuveiro e banheira.
Ao entrar Beatrice colocou as mochilas no chão e se jogou em uma das camas. Eu e Stella rimos.
–Venha. Precisamos limpar bem.- disse ela na porta do banheiro. Eu a segui até a pia.
Sei que quando criança, você estava correndo ou ando de bicicleta e caiu. O machucado na hora, não doeu tanto até tomar banho, não é? Ardia bastante. Eu queria mexer a mão, de alguma maneira amenizar a dor, mas parecia que tudo só piorava.
–Fique quieta. – advertiu-me Stella.
– Está doendo. – retruquei de volta.
–Imagino, mas nada vai adiantar ficar se mexendo tanto. Quanto mais enrolar, menos tempo teremos para continuar. – respondeu ela.
–Certo. Continue. – falei enquanto ela lava minhas mãos com água.
Depois ela me fez sentar-se à mesa com as palmas estendidas para cima. Tirou algumas coisas de sua mochila e começou a limpar. Primeiro usou álcool, para desinfetar e tirou a parte da pele que já estava saindo. Depois passou uma pomada que ardeu um pouco, mas em poucos minutos eu já não sentia muita dor. Por fim, enfaixou minhas mãos para segurar a pomada. Ela fez tudo com uma agilidade impressionante.
– Como consegui fazer essas coisas tão bem?- perguntei.
– Que coisas?- perguntou ela de volta.
–Curativos, remédios? Como sabe a coisa certa a usar?
–Eu não sei. Só penso, pergunto ao meu cérebro o que fazer e ele me dá às respostas. Parece anormal falando assim.- disse ela, rindo.
– Não é anormal. É legal. Pra caramba. – afirmei rindo. Deixei minhas costas se encostar atrás na cadeira, e por alguns segundos fechei os olhos.
–Vamos! Descanse um pouco. – disse ela.
–Não. Eu estou legal- justifiquei.
– Você está cansada. Durma algumas horas. Eu te acordo. – disse ela.
–Apenas três horas- disse eu, levantando da cadeira e indo para cama.
– ok. – disse ela indo para o sofá.
Me joguei na cama e senti meus músculos se espalharem pelo colchão. Certo, eu confesso. Eu estava bem cansada. Quando minha cabeça encostou no travesseiro, meus olhos se fecharam instantaneamente e cai num sono bem profundo.
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