Estávamos de frente com o rio. Eu não tinha conseguido engolir nem um grão da minha comida, apesar de estar faminta. Eu me sentia fraca, mas com o estômago pesado feito chumbo e o coração tão apertado que parecia que estava em uma prisão gélida.

“As seguidoras estão vindo! Pela esquerda e ao norte. As caçadoras estão vindo se ajuntar a nós imediatamente” disse Artie.

Apenas assenti.

“Pequena Deusa, precisa anunciar as outras” disse ele.

Eu queria falar, mas as palavras não saiam. Olhei para o lobo apavorada. Senti tudo parar. Todos os órgãos, inclusive meus pulmões. O único que insistia era o coração.

Tum-tum.

“Está me escutando?” perguntou Artie.

Tum-tum.

Não me movi. Meu corpo não me respondia.

Tum-tum.

“Desculpe-me por isso” disse ele. Eu senti o pavor na sua voz.

Tum-tum.

Ele correu na direção da floresta. Senti meu coração parar. Meu melhor amigo havia me abandonado.

Tum.

Então o vi dando a meia-volta e correndo de volta. No último momento, ele saltou. Eu cai com tudo no chão e mais uns vinte quilos por cima. Quando meu corpo atingiu o solo, tudo voltou funcionar e meus pulmões quase pularam para fora do meu peito à procura de ar.

–Elas estão vindo. Preparem-se! – gritei.

–Da onde? O que foi com você? – perguntou Beatrice.

– Esquerda e norte. Não foi nada. Eu estou bem. – anunciei, levando do chão.

“ Certeza?” perguntou o lobo.

– Não. – confirmei.

Olhei para a mata e vi os lobos se aproximarem. Logo atrás, vi as caçadoras. Todas estavam ofegantes.

– Estão longes? – perguntei.

– Não. Elas se movem rápido. – disse Mary.

Respirei fundo com medo de ter outro ataque de pânico. Irônico, não? Todas as caçadoras me cercaram e pegaram seus arcos.

–Prontas? – gritei para o grupo.

– Sempre! – me responderam em um grito uníssono.

Fui para frente do grupo e me coloquei na defensiva, com o arco nas mãos. Olhei para a mata e, graças a minha Ligação com Artie, eu vi tudo mais colorido e definido. Eu também passei a escutar muito bem. Digo o mesmo do olfato. Fechei os olhos e comecei a escutá-las. Pisavam com força nas folhas e quebravam quaisquer gravetos debaixo dos seus pés. Abri os olhos a tempo de vê-las se aproximar. Elas pararam na margem da floreta, dando-nos uns quinze metros de distância. Casey foi à última a aparecer.

–Foi um grande erro vocês terem fugido, caçadoras. – disse ela.

–E por quê? Talvez por que estragamos seu planinho? – perguntei.

–Não. Mas porque terão uma morte tão rápida que nem terei o prazer de apreciá-las. – afirmou ela, sorrindo.

– Como pode ser tão má? O que foi que matou o seu coração? – perguntei indignada.

–Pergunte para sua deusa. Não! Espera. Vocês não a viram mais. – e avançou. As renegadas a seguirão.

– Minhas queridas irmãs, usem as flechas de paralisia. Vamos atrasá-las. Nada de ferimentos mortais. – orientei-as.

Todas arrumaram as flechas nos arcos e se preparam. Os lobos voltaram para a floresta, proibidos de lutar. Eu pedi isso a Artie antes de nos separarmos para as patrulhas. Eu vi que as Seguidoras usavam arcos e lanças. Olhei para Casey que estava bem armada de lança e escudo. Meu arco não ia agüentar a força dela.

Dei um tapinha na arma e disse:

–Lança. — e na hora o instrumento se transformou, virando uma bela lança prateada. Sorri com a transformação.

Casey não mediu forças para atacar. Passou sua lança por debaixo do meu braço, centímetros do meu corpo. Segurei-a com o braço e ela usou seu escudo como arma, atingindo-me no rosto. Eu senti a dor se espalhar por meu rosto, tendo com ponto central meu nariz. O sangue escorreu até minha boca. Empurrei-a com o cabo da minha lança e ela cambaleou um pouco. A nossa volta a guerra continuava. Milhares de ‘paralysis’ era gritados a minha volta. Casey voltou a investir. O primeiro golpe, tive que baixar para evitar. No segundo, usei a lança como escudo. Estávamos perto do rio. Eu podia escutá-lo lá em baixo, fervoroso e violento. Casey me empurrou e me senti mais perto o rio, sentindo suas gotas se chocar na minha calça. Ela não falava, se concentrando apenas na luta.

Eu devia ter percebido que estava perto demais; deveria ter pulado para o lado, mas o tempo passou mais rápido. Lembro de ter desviado o golpe, mas o chão debaixo de mim, sumiu. O choque do meu corpo com a água fria me assustou. Eu ia lutar, mas contra quem? O rio? Comecei a me debater feito uma louca. Estava apavorada e impotente. A correnteza me levou para as pedras e numa velocidade sobre-humana. Eu estava totalmente submersa. O primeiro impacto com as pedras detetive com uma das mãos, mas o segundo foi impossível. Eu senti minha cabeça se chocar contra uma grande pedra e vi pontos negros na minha visão. Forcei mais um pouco e a escuridão se espalhou. Decidi não lutar, não ir contra, soltando todo o meu peso. Senti meu corpo se fundar.

Não lute! Por ter salvado a vida da minha filha, eu salvo a sua.

Parecia que o rio conversava comigo. Eu queria perguntar quem era, mas já não tinha mais forças. Fechei os olhos e me entreguei ao destino.

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