Mysteria - Segredos
1 Prólogo
"O que se esperava de uma bailarina clássica? Disciplina, seriedade, profissionalismo. Esperava-se que ela fosse encantadora e apaixonante, que fosse uma mulher desejável, graciosa e linda, mesmo fora dos palcos. Bailarinas clássicas eram adoradas, famosas e queridas por um grande público influente da alta sociedade.
Chloe era tudo que uma bailarina respeitável deveria ser, era tão singela e perfeita que chegava a causar muito desejo dos homens e inveja das mulheres, não tinha uma vida glamourosa, sofria muito com o assédio e só queria ser a melhor no que fazia. Num ambiente como uma Companhia de Ballet você não tem amigos, não pode se dar ao luxo de confiar em ninguém, pois todas querem a mesma coisa: ser a bailarina principal. Tomam as atitudes mais baixas para desqualificar as outras, conspiram para ganhar uma melhor posição e jogam sujo, muito sujo. Mas também tem seu lado bom, estão lá por um propósito, disseminar a arte e a beleza do ballet. Mas, só isso de bom? É, pode-se dizer que sim..."
Enquanto desfez os laços de sua sapatilha e refez o coque dos cabelos Chloe pensou na apresentação que acabara de fazer. Havia mostrado sua alma ao público da forma mais perfeita e pura que conseguira. Finalmente tinha a sensação de que este espetáculo seria o divisor de águas da sua carreira e a firmaria como primeira bailarina. Se olhou no espelho e espantou com o que viu, uma menina magra e pálida a fitava de volta, estava com ar assustado e parecia ter medo de alguma coisa, mas de quê exatamente?
Sentiu um arrepio cruzar sua espinha, uma tontura a obrigou a se firmar de pé segurando numa cadeira de espaldar alto no canto do camarim. Ainda com o olhar escurecido e com a boca formingando lembrou de Aiden. Ele que a ajudara desde seu primeiro dia em Londres, que a tinha apresentado a toda a vizinhança, que a ensinou o caminho para a Coompanhia de Ballet. Lembrou-se dos momentos em que chegava em casa e o encontrava brincando com o seu labrador George, de como ele sorria para ela, da forma como se preocupava com ela.
Eles haviam criado um laço forte de amizade, ela passou a depender menos dele para ir aos lugares e se encontrar pela cidade enorme, mas ainda dependia do seu carinho e das suas conversas ao final do dia. George dependia de seus cuidados, ele passava muito tempo sozinho em casa e era Aiden que o levava para passear, limpava seu jornal, dava água, comida, brinquedos. Ela gostava de vê-los juntos, de ver como ele era atencioso, como George latia para ele jogar sua bolinha no jardim.
Chloe se lembrava dele como um vizinho atencioso e muito prestativo, mas o queria com todas as forças, tanto quanto quis ser primeira bailarina. Ela o desejava, queria que ele percebesse essa mudança no relacionamento deles, mas a oportunidade de falar sobre isso com ele nunca havia chegado. Mas, será que Aiden a via assim? Como mulher? Ele parecia ingênuo as vezes e nunca tentou mostrar que também estava interessado. Ele a acharia uma oferecida, que ela estava errada e confundindo tudo. No fundo Chloe tinha medo de ser rejeitada por Aiden, ela tinha medo da rejeição mas conseguia lidar a duras penas com isso, mas não no caso de Aiden, se ele a rejeitasse ela não suportaria.
A tontura passou aos poucos e Chloe foi tirada dos seus mais íntimos pensamentos, voltou a sentir bem as pernas, percebeu que havia se encostado no espelho e escorregava lentamente. Foi até sua bolsa que estava jogada numa prateleira e tomou um longo gole de uma água quente que lhe desceu rasgando a garganta.
Uma sensação estranha ficou, uma urgência em ir para casa e encontrar com Aiden sentado no sofá de sua sala coçando as orelhas de George. Mas ele não estaria lá, claro, ele estivera em sua apresentação e certamente a estaria esperando para acompanha-la ao coquetel de comemoração.
A senhora Sybil abriu a porta de seu camarim e a avisou apressadamente:
- Você tem algum tempo para descansar e se arrumar para o coquetel, nós a buscaremos aqui as 23:15. Esteja linda, como esteve no palco. — Sorriu calorosamente e a deixou mais uma vez com seus pensamentos.
Chloe sorriu e se animou, tirou seu tutu e colocou seu vestido de festa, um modelo evasê com saia de tule rosa perolado, fechou o zíper lateral e ajustou o corpete bordado que desenhou seu corpo. Era mesmo um vestido incrível e não seria difícil ficar linda com ele, mas se sentia exausta e só conseguia pensar em dormir. Este deveria ser o desejo de quem acabara de fazer a melhor apresentação de sua carreira e tinha sido aplaudida de pé? Sentiu-se confusa mas decidiu encarar a grande festa que tinha sido organizada para a sua Companhia com seu melhor sorriso.
Estava retocando a maquiagem quando alguém irrompeu pela porta de seu camarim ofegante.
- Sra. Sibly eu ainda não estou atrasada, mas não... — Disse saindo e trás da grande penteadeira. Deveria ter se assustado com o que viu, mas não conseguiu esconder a curiosidade ao olhar para aquele grande homem a sua frente. Não havia sinal da Sra. Sibly e com certeza ele não fazia parte da Companhia de Ballet. Estava vestido com um fraque preto bem cortado, calças levemente ajustadas e um par de sapatos lustrosos, tinha a pele muito branca, e olhos negros quase arroxeados que a fitavam com um misto de surpresa e satisfação. Tinha cabelos bem cortados e passava insistentemente as mãos no maxilar, como se tivesse um tique nervoso. Por alguns minutos nenhum dos dois se mexeu nem sequer ousaram respirar. O homem abriu a boca e inclinou a cabeça para o lado, como se estivesse ponderando como e por onde começar mas recuou quando Chloe avançou sobre ele.
- Eu mandei que nunca mais me procurasse! — Bufou com um ódio desenfreado lhe esquentando o pescoço.
- Você precisa encarar os fatos Chloe, não temos mais tempo para o seu chilique. — Disse o homem com uma voz assustadoramente calma, mas com pressa para proferir as palavras.
- Como ousa querer mandar em mim? Pensei que eu tivesse sido clara quando disse que você e a sua gente não me encheriam mais com toda aquela história ridícula! Seu... — E começou a estapear aquele brutamonte nos braços e no peito.
- Você está sendo inconsequente garota. Eu preciso sair daqui hoje levando você, quer você queira, quer não.
- Eu não tenho nada a falar com você, nem tenho a obrigação de dar algum crédito a essa sua cara de rottweiler! Você não me põe medo.
O homem bufou e soltou um ar quente pela boca. — Eu tentei ser razoável. — Segurou Chloe com força pelos braços e começou a ergue-la do chão.
Quando se viu sendo arrastada de seu camarim por aquele desconhecido petulante Chloe ficou em choque, mas não se permitiu ficar naquela situação muito tempo. No entanto só conseguiu se debater e gritar o mais alto que pode, mas o homem era tão grande que não sentiu dificuldades em enfiar um pano úmido em sua boca e joga-la por cima de um dos ombros.
Chloe viu quando o homem deixou cair um objeto pequeno, parecia um anel brilhante com um símbolo estranho e quando abaixou para pega-lo sentiu a vista escurecer gemeu de dor e afrouxou o braço que a prendia. Desferindo chutes e socos loucamente ela conseguiu por sorte acerta-lo na virilha, se desvencilhou do seu raptor e saiu tropeçando do camarim, correu o mais rápido que pôde sem olhar para trás e se viu enveredando pelos bastidores do teatro. Olhou ao redor mas não fazia ideia de onde estava, tentou escolher um caminho mas não encontrava nenhuma porta de saída.
O que estava acontecendo? Tinha fugido de um homem desconhecido e pior, tinha batido e machucado ele, estava correndo desenfreadamente pelos ambientes mais sujos e secretos do teatro quando deveria estar descendo a escadaria principal para encontra-se com a glória que seus admiradores dariam a ela. Chloe suava, mas o cansaço parecia não trazer mais efeitos para ela. Havia algo em seu comportamento que ela mesmo desconhecia, uma pressão, uma obrigação de correr para longe daquela realidade para qual o homem grande e emburrado a queria levar, sentia medo, pavor até. Precisava se desvencilhar dele e do que mais estivesse por vir.
Chloe ouviu o barulho de algo caindo do chão atrás dela, saiu correndo novamente, arrancou as sandálias dos pés e aumentou a velocidade. Sabia que estava sendo perseguida e não havia mais tempo para procurar esconderijo, precisava sumir, eles não poderiam leva-la.
Mas porque não? Porque estava tendo aquela reação extrema a algo que nem sequer entendia direito? Chloe estava confusa e sua visão escurecia com frequência, corria, mas não sabia para onde estava indo, sentia um vazio no peito, como se algo tivesse sido tirado dela. Nada fazia mais sentido, nenhuma peça se encaixava. O que estava acontecendo? O que era aquilo, quem eram aquelas pessoas?
Finalmente Chloe avistou uma porta com uma placa de saída em cima, avançou e girou a maçaneta com força. A porta era pesada, mas se escancarou com certa facilidade, o que era estranho, já que Chloe era pequena e estava bem abaixo do peso. Ela não parou de correr por alguns minutos até encontrar uma lateral escura do teatro que estava aparentemente vazia.
O ar a engasgou e Chloe tossiu por algum tempo até se recompor. Se ajoelhou no chão passou as mãos no pescoço molhado e nos cabelos desarrumados. Quando sentiu a respiração voltar ao ritmo normal levantou os olhos e viu de relance um carro preto com vidros escuros virando a esquina com pressa. Chloe acompanhou o carro com o olhar, se levantou rápido e correu para ver aonde ele estava indo, se encostou nas paredes do teatro e dobrou a esquina com cuidado.
A cena que se seguiu foi no mínimo devastadora. Chloe chegou no mesmo instante em que o carro parava cantando pneu rente a calçada e três homens de preto vestidos como o brutamontes que queria leva-la saltaram do seu interior. Um quarto homem estava segurando alguém que se debatia e socava o ar, chamou os outros homens de preto para ajuda-lo enquanto lutava para manter a pessoa que segurava quieta. Os homens não deram nenhuma palavra, mas olharam diversas vezes ao redor. Um deles socou a pessoa capturada, que recuou e gemeu, pegaram-na pelos braços e pelas pernas e a ergueram no ar. Os seqüestradores andaram alguns metros carregando a pessoa, a giraram no ar para enfia-la no carro e então Chloe viu o que nunca desejaria ver em toda a sua vida.
Estavam levando Aiden.
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