Myosotis

3 A forma que atrai


Notas iniciais
Capítulo editado em 30/04/2018. — Desculpem pela demora. Problemas aconteceram e agora estou sem beta. Mas, hey, notícia boa para os leitores! Será um capítulo a cada 10 dias até acabar (salvo alguma emergência inadiável). — O título do poema é "A Mariposa e a Lamparina". A autoria é minha, e não é lá grande coisa, mas, é, né. — O capítulo foi complicado de escrever. O revisei, modifiquei, reescrevi; enfim, tantas vezes, que apenas estou postando logo. Espero que gostem. Qualquer erro por favor me avisem para que eu possa consertar. — OBRIGADA PELA MARAVILHOSA RECOMENDAÇÃO. Já agradeci no grupo, mas, fiquei tããão feliz pela minha história de apenas 2 capítulos receber uma! Sério! Não mereço tanto, obrigada!

A FORMA QUE ATRAI
Na noite escura, uma lâmpada foi acesa.
Você veio até mim, completamente a mercê,
E eu estava tão triste e solitário,
Que te aceitei,
Mesmo sabendo que isso te mataria.

Maroo observou o ambiente ao seu redor com uma curiosidade quase infantil. Havia cerâmicas brancas por todo o chão e parede, esta ornamentada com pinturas vermelhas. O espaço era realmente grande e tão sofisticado que ele quase não poderia chamar de banheiro. Havia uma parede toda espelhada, um grande armário, várias toalhas penduradas e um box. Ele caminhou até esse espaço e após algum tempo pensando conseguiu abrir. Ele havia encontrado a área de banho, visto que tinha um chuveiro, mas ele não entendia a quantidade de alavancas existentes.

Como, supostamente, a água saía do chuveiro? Girou uma torneira e a água caiu, comemorando internamente seu acerto. O vapor começou a subir pelo ambiente e ele estreitou os olhos em estranhamento.

Seria uma fonte termal encanada?

Ele deu de ombros e retirou a calça que vestia, tomando cuidado para não machucar novamente qualquer ferimento. Observou o joelho inchado e sentiu a raiva subir.

Se fosse dada a ele a chance de pegar as pessoas que o torturaram, ele faria pagarem por cada ferida que o haviam dado. Por cada dia que ele foi subjugado. Por cada momento que ele ficou afastado de sua missão.

Retirou a bandagem de sua cintura e exibiu a ferida quase completamente curada. As protuberâncias rosadas cobriam os lugares que anteriormente foi cortado por várias vezes. Lembrou-se do sangue, da infecção e da dor; agora não restando nada além de cicatrizes.

Maroo inspirou fundo. Ele não sabia o que aquelas pessoas queriam, apenas que eram perigosos. De alguma forma, eles tinham conhecimento pelo menos parcial sobre quem ele era. Aquele era um fato que ele não poderia ser deixado de lado.

Foi até o box e mergulhou embaixo da água morna, sendo este o primeiro banho dele em quem sabe em quantos dias. O sangue seco que havia em seu cabelo saía na água, formando uma piscina rosada sob seus pés. Após terminar o banho, vestiu calças limpas e saiu do quarto, imediatamente vendo Elina na mesa de estudos mexendo em alguns cadernos.

Maroo se aproximou e Elina se virou para olhá-lo, deixando o rosto dela na altura do abdômen de seu abdômen.

— Isso curou muito rápido. Eu estou realmente impressionada, está quase completamente recuperado...

Maroo assentiu.

— Quanto maior nossa força, mais rápido nossa cura acontece. Poderia ser até mais rápido.

Elina arqueou as sobrancelhas.

— Você não estava brincando quando disse isso.

— Não, eu não estava — ele respondeu e então olhou para as pernas de Elina. — Se você tivesse nascido como uma almeriana, sua cura seria maior então você não estaria com a mobilidade reduzida.

Elina guardou a informação. Almeriana.

— Não, não comece — Elina respondeu e deu as costas ao homem. — Eu demorei algum tempo para me acostumar com minha situação e você não está arruinando todo o meu trabalho com isso. Estou realmente bem. — Antes de Maroo responder, ela continuou. — Além disso, eu estou me esforçando aqui para não perguntar nada, mas você não está facilitando...

Maroo a cortou.

— Obrigado mais uma vez pela hospitalidade, Elina Alaster — As palavras dele eram austeras e demonstravam orgulho em seu agradecimento. Apesar das palavras não lhe serem estranhas, ele falou de forma que ela nunca tinha ouvido antes.

Por um rápido momento Elina se permitiu ficar impressionada.

— Tudo bem, eu acho?

Maroo ponderou antes de fazer a pergunta que ele tinha que fazer. O aroma que vinha de Elina era forte, semelhante a um chamariz; algo floral e atraente, que o estimulava a coisas estranhas. A proteger, e a se submeter – o que era completamente incoerente para uma mulher de Fora. Na verdade, mesmo entre os almerianos, não havia um ser que tivesse uma energia tão concentrada como a dela, a não ser, talvez, a rainha. Mas, ela não poderia ser a rainha.

Então a observou por alguns instantes antes de fazer a pergunta, mas que para Elina soou a aleatória que já tinha ouvido na vida dela.

— Isso é perfume?

Elina o encarou com estranhamento.

— Eu não uso, tenho alergia.

— Então é o sabonete?

— Você realmente consegue sentir meu cheiro? — Se ele realmente conseguisse fazer isso era no mínimo estranho, e um tanto quanto assustador. Elina arregalou os olhos e esperou a resposta, que dada situação, poderia ser qualquer uma. Ela esperava tudo dele.

Mas em vez de responder, Maroo deu de ombros e andou com a perna direita arrastada até se sentar na cama, parecendo contemplativo. Elina também não estava em situação muito diferente, pois de repente parecia estranho estar com ele acordado.

Elina o tinha vigiado por cinco dias a fio; trocado os curativos dele e limpado a sujeira do seu corpo e o alimentado. Ela, por cinco dias, havia se perguntado sobre o tipo de pessoa que ela havia salvado. Mas agora, com ele acordado e a encarando, parecia realmente algo desconfortável.

Ela jogou uma toalha de rosto para Maroo.

— Use para enxugar seu cabelo, está molhando minha cama.

Maroo enxugou seus cabelos silenciosamente, até que finalmente disse. — Se não for incômodo, eu gostaria de dormir aqui por mais uma noite.

Elina pensou em seu pai, que em breve chegaria; mas deu de ombros. Teria pelo menos ainda uma semana.

— Fique completamente bem e vá, Maroo.

Eles se olharam por alguns segundos em um silêncio cheio de palavras, que foi quebrado por Carmen quando entrou no quarto, trazendo um carrinho com a refeição. Maroo engasgou em palavras não ditas.

— Carmen! — Elina levou a mão ao peito e ofegou num susto.

— O que foi? — A empregada estreitou os olhos para Maroo em desconfiança. — Algo errado?

— Nada, tudo ótimo — ela respondeu com um sorriso nervoso. — Agora traga isso aqui que eu estou a ponto de comer um boi.

Maroo sorriu.

— Ah, tem isso onde eu moro também.

— Ele fala! — Carmen gracejou inclinando a cabeça para Maroo. — E ainda por cima para falar que come boi. Certo. Surpreendente — continuou sarcasticamente enquanto revirava os olhos. Ela levou o carrinho perto da cama e abriu as tampas de todos os pratos. — Então é seu dia de sorte. Temos boi. Agradecimentos para Carmen, que sou eu.

O cheiro delicioso da comida preencheu o ambiente e Elina logo posicionou a cadeira de rodas na ponta do carrinho. Maroo olhava todos os alimentos mais de uma vez com um quê de admiração, ignorando completamente a mulher de cabelos pretos.

— Prazer em te conhecer também, Maroo. — Carmen disse olhando para Maroo. —Devo admitir que estou feliz que ele não te matou, Elina. — desta vez ela se dirigiu à Elina que havia começado a comer. — Fiquei preocupada sobre isso o tempo inteiro, mas eu não consegui fugir para vir te ver no quarto, Woddy é realmente muito rigorosa quanto aos horários de nossas atividades. — Pausou por alguns momentos ao vê-los começar a comer. — Mas você deveria ter me chamado antes. Já são duas da tarde e eu não dormi quase nada preocupada com vocês.

— Obrigada, Carmen. — Elina respondeu enquanto se servia de arroz. — Você pode ir dormir por agora. Eu vou pedir para a senhora Woddy não te incomodar até eu precisar jantar, que tal?

— Por favor, não faça isso. Se desconfiarem que você me deu tratamento privilegiado eu vou ser demitida — Ela balançou a cabeça em negação. — Você vai me deixar de cabelos brancos antes dos quarenta.

— Você está sendo dramática. — A loira sorriu. — Mas você é maravilhosa. Não se preocupe, no fim do mês irá ter um acréscimo no salário.

Carmen ergueu as mãos para o alto teatralmente. — Oh céus, finalmente justiça!

Elina gargalhou.

A empregada se virou para Maroo numa careta. — Por favor, vá embora logo. Eu quero dormir.

Ele deu de ombros. — Eu irei.

— Obrigada.

— Por nada.

— Você até que consegue ser educado quando não está sendo um brutamonte.

Maroo congelou e olhou para a mulher em confusão.

— Brutamonte?

Carmen fez uma expressão cômica de incredulidade e Elina riu.

— Carmen, não se importe. Nosso convidado é um pouco diferente.

— Ele é louco, não é?

Ele mastigava um pedaço de bife enquanto fazia caretas ao escutar a conversa das duas mulheres.

— Não acho que ele seja.

— Eu não sou louco.

Elas continuaram conversando, ignorando completamente as palavras dele.

— Ele não vai te fazer mal? Eu estou realmen–

— Eu não vou fazer mal para Elina — Maroo afirmou em um quase grito, batendo a palma da mão sobre o carrinho.

As duas mulheres congelaram perante a reação explosiva inesperada.

— Eu tenho honra, não farei mal para a daani desta casa — falou em voz autoritária, visivelmente segurando o temperamento.

Os olhos de Elina se arregalaram em duas bolas azuis de surpresa com o garfo na altura do queixo. A boca de Carmen abriu e fechou várias vezes chocada demais para conseguir reagir.

— Daani? — Carmen finalmente conseguiu perguntar.

— Elina. — Maroo respondeu sem direcionar qualquer olhar para as duas mulheres, continuando a comer sua refeição.

— Isso é uma palavra do lugar que você veio? O que significa? — Carmen perguntou para ser ignorada por Maroo, que continuava a comer fingindo que a mulher não estava sequer perto dele. — É isso. Não dá pra mim, ele é um estúpido. Vou embora. — falou e saiu do quarto, batendo a porta com força ao fechá-la.

Elina deixou alguns minutos de silêncio se passarem enquanto tentava decifrar a personalidade de seu visitante. Maroo conseguia ser educado e gentil, mas ainda distante e grosseiro. Mas, percebendo que ele de alguma forma ainda respondia suas perguntas, ela ousou.

— Maroo, por que eu sou daani?

Maroo ficou em silêncio por alguns segundos, parecendo em conflito sobre o que dizer. Quando Elina desistiu de obter uma resposta, ele finalmente respondeu:

— Você é a senhora desta casa.

— Uh... Pode-se dizer que sim.

— Então você é daani.

Elina o olhou intrigada.

— Eu nunca ouvi falar desta palavra. Você é de muito longe?

Maroo a fitou com os olhos vermelhos cintilantes e Elina percebeu ali tensão, insegurança e, teve quase certeza, muita vontade de responder sua pergunta, mas que alguma coisa o impedia.

— Não pode me responder?

Ele maneou a cabeça em negação.

— Quanto menos saber de mim, melhor para você.

O homem era misterioso. Talvez escondesse algum segredo sombrio — o que era completamente possível, dada forma que ele chegou até ela. Possivelmente fosse melhor para ela continuar sem saber os segredos dele.

Talvez de fato fosse melhor... Mas ainda continuava curiosa. E como se tivesse percebido a eminência de uma pergunta que provavelmente não iria querer responder, Maroo falou antes:

— Será que eu poderia descansar mais uma vez? Meu corpo precisa se recuperar.

Elina estreitou a sobrancelha. Corte de interesse realizado com sucesso.

— Claro.

Ele terminou sua refeição e após agradecer, deitou confortavelmente sobre os lençóis, enquanto Elina se perguntava por que ela estava sendo tão receptiva ao rapaz. De qualquer forma, se ela não conseguia tirar respostas dele, quem sabe ela as conseguisse em outro lugar? Então saiu do quarto, fechando a tranca eletrônica.

—--

Elina desceu a rampa e entrou no corredor do primeiro andar, seguindo até a biblioteca, encontrando-se com alguns empregados que a cumprimentavam educadamente pelo caminho. Mesmo que Elina se esforçasse, não decorava o nome de todos; o que era uma pena, pois eram bons empregados. Ao mesmo tempo que gostava deles, desejava fugir de suas atenções, pois sabia que qualquer atitude fora do gráfico de normalidade estabelecido por seu pai, eles imediatamente informariam. Adentrou no portal de madeira que dava acesso para a biblioteca, sem perceber que um homem de olhos verdes a observava do final do corredor.

A biblioteca era um espaço amplo e bem iluminado, com estantes de madeiras nobres e fixadas na parede, com centenas de livros perfeitamente organizadas de acordo com os assuntos. Já conhecendo a forma de organização, pois tinha sido ela mesma a administrá-la devido sua formação bibliotecária, ela imediatamente foi à estante que possuía os livros de geografia humana.

Não tinha nenhuma ideia de onde iniciar sua pesquisa. Poderia começar na tentativa de identificar a etnia de Maroo, mas não era nada como se lembrava. A cor da pele era idêntica a indígena, mas seus traços eram fortes e marcados, de o rosto quadrado que combinavam com os lábios cheios. E com certeza a cor dos olhos não eram lentes de contato, pois pareciam queimar e vibrar em vida própria.

Ele também era muito grande, lembrando-a dos espartanos treinados para a guerra; o que faria mais sentido se não fosse as presas e a cura acelerada.

É um absurdo uma mulher de vinte e cinco anos com pós-graduação cogitar a existência de seres sobrenaturais, Elina pensou em autocensura. Foi até a subseção que continha informações sobre povos isolados, mas... não havia como encontrar qualquer informação sobre Maroo ali. Ela estava perdida.

Neste ponto, Elina poderia muito bem acreditar que ele veio de uma dimensão alternativa. Chegou no ponto em precisava conversar com alguém para não enlouquecer, e imediatamente pensou em Carmen.

No caminho da cozinha encontrou a governanta da casa, senhora Woddy, olhando-a com mais severidade do que o costume. Tinha esperanças de conseguir passar um dia sem vê-la, mas pelo visto isso nunca poderia acontecer.

— Boa noite, senhorita — falou.

Elina suspirou. Lá vem.

— Boa noite, senhora — Elina respondeu polidamente ao cumprimento da governanta.

A mulher sorriu educadamente, entretanto os olhos não acompanharam. A governanta da casa era uma mulher de estatura média e um porte físico avantajado. De pele branca cinzenta e olhos escuros, ela prendia o cabelo tingindo de preto sempre no mesmo coque severo por todos os anos em que trabalhou para a família. Aparentava ter em torno dos sessenta anos, entretanto nunca pôde ter certeza. Woddy era o tipo de pessoa que não envelhecia, aparentando ter a mesma idade desde quando Elina era adolescente.

— Eu fui até seu quarto para checar se tudo estava bem, já que você não sai dele desde ontem à noite, — ela disse com sua voz rasgada e Elina pôde sentir seu coração gelar — mas você não estava. Pensei em procurar a senhorita na biblioteca, e por coincidência a encontrei aqui.

Elina segurou um suspiro de alívio.

— Gostaria de perguntar qual vai ser o cardápio do jantar.

— Apenas mande o de sempre. Quero Carmen.

— Certamente — a governanta respondeu de forma educada. — Gostaria de saber se amanhã você vai seguir com suas atividades normalmente. Seu pai não gostaria que adiasse isso por tempo mais que o necessário. Você pediu dias de descanso, ele julga que já foi o suficiente.

Os ombros de Elina imediatamente murcharam; mesmo de longe seu pai exercia controle na sua vida e de uma forma que ainda não entendia, sentiu algo dentro de si quebrar. Mas logo se recuperou e voltou a olhar a mulher mais velha de maneira firme.

— Eu entendo. Pode informar à empresa que teremos a reunião normalmente amanhã às oito horas. Também informe a Eliot que seguirei o cronograma.

— Claro. — Woddy se curvou levemente abaixando a cabeça. — Necessita de ajuda com o vestuário? Posso pedir para que chamem uma estilista com roupas que te sirvam apropriadamente, senhorita.

Elina segurou seu temperamento ante o insulto educado. Sabia, desde sempre, que a governanta era uma pessoa não desperdiçava uma oportunidade de destilar veneno. Inspirou fundo e sorriu friamente.

— Tenho plena capacidade de cuidar das minhas próprias roupas, senhora.

— Nunca duvidei disso, senhorita — ela respondeu e curvou a cabeça educadamente mais uma vez. — Peça para Carmen me encontrar, por favor. Preciso falar algumas coisas com ela.

Desconfiada como era, a senhora Woddy estreitou os olhos para Elina. Os lábios finos estavam esticados me desgosto, mas, as palavras que saíram foram positivas:

— Vou pedir para Carmen vir.

Elina viu a governanta voltar-se para cozinha e dar uma ordem que não pode ouvir claramente. Houve barulhos de pratos e talheres e em pouco mais de dois minutos, conseguiu ver Carmen vindo com as mãos fechadas na frente do corpo. A expressão dela era de irritação e olheiras enfeitavam-lhe. Ao se aproximar, ajeitou a saia em sua mania e curvou a cabeça respeitosamente.

— Senhorita. Precisa de algo?

A loira teve que segurar uma risada, rapidamente se esquecendo da tensão anterior. Sabia que Carmen estava segurando seu temperamento, e isso era uma coisa que apenas acontecia quando Woddy estava perto.

— Vamos.

—--

Maroo sentiu uma presença e abriu os olhos imediatamente. Virou de forma abrupta em direção à sacada do quarto, esquecendo-se momentaneamente do corpo dolorido. O quarto estava escuro, com as cortinas fechadas impedindo a entrada do sol do meio da tarde.

Conseguiu enxergar o invasor a poucos passos de distância. Imediatamente se pôs em posição de defesa, analisando qualquer possibilidade de ataque. A realização de que poderia ter sido rastreado pelos homens que o capturaram dias atrás veio até ele, e lamentou ter ficado com Elina e a deixado exposta ao perigo.

Encostou as costas na parede para que a única forma de vir um ataque fosse ser de frente, e concentrou sua aura, tentando usá-la identificar as intenções do invasor.

Estranhamente, não sentiu nenhuma energia agressiva, mas também era muito fraca para que pudesse ter certeza.

— Apareça! — ordenou.

— Eu devo ter perdido minha energia mesmo. — o homem falou de maneira estranhamente tranquila. — Muito tempo aqui faz isso.

— Quem é você? Por que você está neste quarto? — a voz de Maroo era afiada numa ameaça implícita.

— Você realmente não se lembra de mim? — O entruso se aproximou alguns passos e ficou visível para Maroo. — Sou eu, irmão. Lukah.

Os olhos de Maroo se arregalaram quando reconheceu quem era: o homem a sua frente era aquele que há cinco anos havia sido enviado na mesma missão que ele. Uns tantos centímetros mais alto que Maroo, contudo de pele tão escura quanto ele, o cabelo de Lukah agora era cortado curto, quase careca; entretanto, os olhos verdes ainda possuíam o mesmo brilho que resplandecia a alma — um traço almeriano — e isso foi o suficiente para Maroo.

— Lukah! — Maroo riu e acabou com a distância entre eles com um abraço de irmãos. — Daemun Juon ficará muito feliz por você estar bem. Pensávamos que você estava morto!

O homem deu um sorriso cheio de dentes ao se afastar.

— Admito que eu morri um pouco, estar longe da Almeria por tanto tempo acabou com minha energia.

Maroo o abraçou novamente, que foi correspondido com tapas amigáveis nas costas. Sentia-se confortável em finalmente conversar com alguém em seu próprio idioma, contudo a sensação de alívio passou quando percebeu a situação. Lukah havia o encontrado e invadido o quarto.

— Como você me encontrou? Por que eu não te senti? — Maroo estreitou os olhos de forma desconfiada. — O que você está fazendo aqui?

Lukah franziu os cenhos.

— Como assim, irmão? Pelo mesmo motivo que você.

— Você também fugiu dos torturadores?

A expressão do homem mais alto era de um assombro confuso.

— Torturadores? Não é isso... Você não percebeu?

— O quê?

Lukah arqueou uma sobrancelha em incredulidade.

— Irmão, a daani Elina Alaster é a pessoa que vai nos levar até nossa Rainha — A expressão de Maroo pouco a pouco se transformava a cada palavra dita. — Ela é uma duhvoni.

Um longo momento tenso se passou com Maroo tentando absorver as informações. Aos poucos, pequenas coisas que ele havia percebido sobre Elina começavam a se encaixar como um quebra-cabeça, e muita de sua confusão se resolveu.

O corpo dele instintivamente sabia que uma duhvoni era a coisa certa para ficar perto, mas ele ainda não tinha conhecimento que existia uma próxima. Foi por isso que ele praticamente foi levado até ela... Que Elina conseguia atraí-lo, influenciar em seus sentimentos, como também induzi-lo a falar coisas que ele não deveria.

— Por isso que eu não te senti... — A compreensão chegou a ele. — Eu não percebi. Eu estava completamente submerso nela.

— Você não foi treinado para perceber uma duhvoi, mas eu sim — Lukah disse após suspirar. — Elas deixaram de existir em Almeria desde o sumiço de Solaris.

— E porque tem uma dessas bem aqui? Aqui é Fora, não deveria ser dessa forma.

— Só me passa pela cabeça que Solaris realmente está aqui.

— Então ela realmente foi sequestrada? — Maroo perguntou, talvez para si mesmo ou para Lukah. Naquele momento ele sabia que nenhum deles conseguiria acertar a resposta.

Lukah atravessou o quarto para perto da cama.

— Não perca as esperanças... Se uma duhvoni aparece, quer dizer que uma rainha está perto. Ou seja...

— Ela está viva e mais próxima do que pensávamos — Maroo completa a sentença, e os guerreiros se olham mais esperançosos. — Mas meu daemun não me disse nada sobre isso.

— Saglio?

— Sim.

— Ele é da Facção Rouran, Maroo. O que você esperava?

Maroo o olhou confuso.

— Como assim? Quando eu estava lá, ele claramente queria que a rainha fosse encontrada. Por isso eu estou aqui, não em Almeria!

Lukah inspirou fundo, pensando na melhor forma de falar. O almeriano de cabelos vermelhos o observava entre exaltação e confusão, e naquele momento, uma discussão poderia estourar se ele não fosse cuidadoso.

— Maroo, me deixe te falar uma coisa. Quando eu fui enviado, daemun Juon me disse que coisas estavam acontecendo em Almeria e eu precisava fazer o possível para evitar que as coisas piorassem.

— Sim, Lukah, está tudo uma bagunça desde que Solaris sumiu, por isso que você foi enviado para encontrá-la, assim como eu...

— Mas não apenas isso... — Lukah se aproximou, e falou como um segredo que sequer as paredes deveriam ouvir. — Eles falam de invadir aqui. E daemun Juon queria que eu encontrasse Solaris e a levasse de volta para evitar a guerra. Não apenas a guerra civil, mas uma guerra contra Fora.

— Certo, mas eu estou aqui para evitar isso também. Você sumiu por cinco anos, então precisaram enviar outro guerreiro.

Lukah balançou a cabeça em negação.

— Não. Para onde eles te enviaram, Maroo?

— Daemun Saglio disse que a passagem mais adequada era a de Tohrus. Na época eu achei estranho, já que ela não era mais usada porque...

Maroo de repente parou de falar e olhou subitamente pálido para Lukah.

— Você percebeu — Lukah afirmou sem esperar uma resposta.

— Porque pessoas que sabiam sobre Almeria estavam circundando a saída. Saglio me enviou para pessoas que sabiam quem eu era... — Maroo caiu sentado sobre a cama, horrorizado. Uma dor de cabeça estourou, e ele escondeu o rosto na palma na mão. — Saglio queria que eu fracassasse e morresse.

Meu tutor quer a minha morte.

O homem que era um segundo pai, aquele que o ensinou o caminho do guerreiro, aquele que esteve ao seu lado por tantos anos, tinha traído não apenas a ele, como também a toda história de Almeria. Traído Solaris. Traído cada guerreiro. Traído a todos.

Lukah fitou Maroo com os olhos verdes e tristes. Talvez, nunca pudesse entender como era sentir a traição da pessoa que era um segundo pai, mas, naquele momento eles não poderiam parar e se lamentar sobre isso. Eles precisavam agir. Resignadamente, ele colocou uma mão sobre o ombro do outro guerreiro e apertou.

— Eu sinto muito, — iniciou — mas Maroo, isso te deixou próximo de uma duhvoni como nunca, e agora podemos encontrar nossa rainha.

E mesmo que ambos estivessem dentro da casa da esperança, Maroo não poderia se sentir feliz.

— Eu cheguei a pensar que daani era semelhante à Solaris, mas não parecia fazer sentido. Então, talvez... não sei, talvez ela fosse apenas uma forista mais poderosa.

— Não tem erro. Ela é completamente uma duhvoni.

— Eu notei que ela não sabe — Maroo deslocou o olhar do chão para Lukah. — E como você está aqui?

— Eu trabalho aqui. Consegui um emprego há alguns poucos meses, mas tenho pouco acesso a Elina.

— E como você conseguiu encontrá-la? Por que demorou tanto?

— Foi por acaso — Lukah andava lentamente pelo quarto enquanto falava, com as mãos atrás das costas. — Eu usei a Passagem de Mountain e apareci muito, muito distante daqui. Mas, o tempo todo, algo me compelia a vir nessa direção. Demorou muito, mas... a encontrei.

Maroo suspirou mais uma vez. De repente tudo mudou, e não poderia simplesmente ir embora tendo a chave do sucesso da missão debaixo do mesmo teto que ele. Por alguns instantes, ele se permitiu lamentar por Elina.

— Quando você percebeu que eu estava aqui?

— Assim que você chegou — A resposta fez Maroo erguer as sobrancelhas. — Você era uma bomba de poder. Um almeriano poderia te sentir há quilômetros de distância.

Maroo apoiou os cotovelos sobre as coxas, se curvando para frente.

— Temos que pensar nos próximos passos de nossa missão, mas eu não quero fazer mal para Elina.

— Com você o plano funciona melhor.

Maroo não sabia se deveria ficar feliz com isso.

— Qual?

Até que a conversa deles foi interrompida quando ouviram passos próximos da porta.

— Deve ser Elina. Você precisa ir agora!

O homem de cabelos curtos correu silenciosamente até a sacada, mas antes de pular, disse:

— Encontre-me de uma da manhã onde estão os cavalos. É em torno de vinte metros à direita após a casa do jardineiro.

Maroo assentiu.

— Vamos conversar melhor depois.

— Sim, vamos.

Então Lukah pegou impulso e se jogou varanda abaixo, e Maroo ficou na mesma posição, olhando fixamente para o chão, tentando absorver todas as informações. Sua missão estava perto do fim e para completá-la, ele precisava usar a mulher que salvou sua vida.

A atração entre eles tinha uma forma maligna, pois o fato disso trazer benefícios a Maroo, definitivamente iria fazer Elina sofrer. O caminho de uma duhvoni não era menos difícil e rígido que a de um guerreiro.

Quando sentiu Elina mais próxima, tentou aliviar a prória carga emocional, o que foi fácil quando escutou a conversa animada que penetrou as paredes do quarto.

— Você está falando absurdos! — Era a voz de Elina e Maroo sorriu, sentindo sua tensão aliviar quase automaticamente.

— Claro que não! Você pode negar, mas foi porque ele é um gostoso que você aceitou ajudá-lo.

— Você acha que eu sou movida a hormônios dessa forma? Não consegui dizer não para uma pessoa em necessidade!

— Sim e neste caso a pessoa em necessidade é você!

— Carmen, ele vai te ouvir! A casa toda vai!

Depois de ouvir a conversa, Maroo passou a gostar pelo menos um pouco, de Carmen.

Notas finais
O Maroo é o personagem mais difícil que eu já escrevi.