Notas iniciais
Capítulo agendado :D Boa leitura

My Own Race

Kaline Bogard

Capítulo 06

O outono logo espalhou seu manto silencioso e sutil, mas não invisível. Já se via toques de suas mãos nas cores que esvaeciam. As folhas das árvores caiam pelo chão como um manto natural sombrio e triste. A maior prova de que tudo um dia encontra seu fim.

A nostalgia da estação fazia reflexo no humor de Fukutomi. Ele andava exausto de tanto estudar. Os dias arrastavam-se lentos e pesados. A expectativa era a pior inimiga.

Fizera alguns simulados e até se saíra bem, apesar de não alcançar sua nota meta de 850 pontos ficara bem próximo a isso. Nada que impedisse a pressão de perseguir seus calcanhares como um pelotão de ciclistas rivais.

No meio de tanta auto-cobrança a única gota de alívio eram as mensagens que trocava com Kinjou. Kanjis de incentivo iam de um celular para o outro e renovavam suas forças. Pouca coisa mudara no relacionamento com o outro rapaz. Fukutomi começava a achar que o problema era com ele. Talvez precisasse de umas dicas sobre como conquistar pessoas. Talvez perguntasse para Hayato, que parecia mais sério e focado. Arakita provavelmente assustava as pessoas com sua personalidade tão forte! E Toudou... bem, Toudou não podia ser levado em consideração como referência.

Perfeito resumo da vida de Juichi nas últimas semanas: devaneava um pouco sobre sua (inexistente) relação com Kinjou e no resto do tempo estudava, estudava e estudava.

E ali estava ele, em mais uma manhã de sábado, sentado na sala do terceiro ano, cercado por vários alunos, devorando um livro de álgebra. Ou nem tanto, já que nos últimos minutos estivera divagando com o olhar perdido pela janela.

Desviou os olhos para o celular, que acabara de vibrar sobre a mesa. Uma mensagem de texto chegou e foi ignorada. Já recebera três de Toudou, chamando para dar uma volta de bicicleta. Recusara todos os convites, sem poder se dar ao luxo de investir seu tempo em diversão.

Quando o celular tremeu novamente respirou fundo e o pegou. Era melhor desligar o aparelho para ter alguma paz. Seus olhos passaram de relance pelo ecrã ainda aceso. Reconheceu o número e se surpreendeu. Que raridade Kinjou tomar a iniciativa e enviar um SMS.

– ...

A surpresa virou um princípio de infarto. Na primeira mensagem o rapaz avisava que estava ali, em Hakone! Na sala do clube de ciclismo!! Na segunda perguntava se estava atrapalhando!!

Imediatamente Juichi respondeu garantindo que já ia encontrá-lo. Juntou as coisas de qualquer jeito e enfiou na mochila, chamando a atenção de outros alunos, pelo comportamento pouco usual.

A cena no clube era engraçada, embora não surpreendente. Claro que Toudou estava todo esvoaçante ao redor do Az da Sohoku, tentando arrancar alguma informação sobre Makishima, enquanto Izumida apenas assistia, sem interromper o treino e Arakita rosnava e resmungava do canto da sala.

– Kinjou – falou não muito alto, mas conquistando a atenção de todos – Aconteceu alguma coisa?

Em resposta o outro rapaz apenas balançou a cabeça. O gesto tão simples fez o coração de Fukutomi vibrar como se realizasse um solo de bateria. Nada acontecera e Kinjou viera lhe visitar! Sem convite, sem nada além de sua própria vontade! Wow!

– Quer dar uma volta de bicicleta? – perguntou.

Antes que Shingo respondesse, Toudou se meteu no meio da conversa.

– Claro que não! Que tipo de convite é esse, Fuku chan? Se ainda fosse verão eu até entenderia. Tem aquele Café no outro quarteirão e é uma ideia muito mais agradável.

Juichi teve que concordar que a sugestão de Jinpachi era excelente. Talvez pedir umas dicas para o rapaz não fosse a pior alternativa, no fim das contas.

– O que acha? – ignorou o Climber, direcionando a pergunta para o Az da Sohoku.

– Tudo bem.

Com isso saíram do clube, logo andando lado a lado pelo pátio. Havia um numero surpreendente de alunos por ali, fato que tendia a aumentar com a proximidade da primeira fase dos exames.

– Não sabia se estaria por aqui – Kinjou falou ajeitando os óculos com o indicador. Juichi já o conhecia bem o bastante para saber que o gesto traia seu nervosismo – Ou se poderia entrar no colégio. Hakone é muito mais rigorosa com as regras do que Sohoku.

– Aa. Mas nessa época do ano o colégio recebe muitas pessoas para conhecer o prédio, o quadro de professores e o Projeto Pedagógico. Isso ajuda a decidir se os novos alunos prestarão exame para entrar em Hakone ou não – informou e silenciou por um instante, antes de continuar – Estou surpreso...

Kinjou sorriu, segurando as alças da mochila com mais força.

– Pareceu justo retribuir o favor...

Alguma coisa naquela frase deu a entender que havia algo mais por trás da visita. Foi impossível não encher-se de esperança.

– Entendo – manteve a expressão de sempre que nada revelava. Mas o outro rapaz não agüentou e acabou contando a verdade.

– Minha irmã veio passar o final de semana com meus sobrinhos. Não me leve a mal, eu os amo. Mas você não tem noção de como é barulhento – sua expressão tornou-se sombria – Só precisava de um pouco de paz!

Fukutomi sentiu-se compreensivo. A esperança em seu peito se elevando a um expoente com muitos dígitos! Kinjou queria paz e ia até Ashigarashimo para encontrá-lo?! Não com os amigos de equipe ou com alguém em Chiba? Mas lá, com Juichi? Ele teria noção do que aquilo significava? Provavelmente não, ou melhor, com certeza não! Porém Fukutomi compreendia muito bem! E nunca experimentara uma felicidade tão grande antes.

Apesar de toda a euforia interna manteve-se calmo, quase indiferente. As coisas avançavam devagar. Tudo bem. Não queria pressionar ou assustar. Ou pior: destruir aquela migalha que conseguira, caso se apressasse. Construir algo que valesse a pena levava tempo mesmo.

Saíram do colégio e caminharam por todo o quarteirão, trocando impressões sobre os estudos. Kinjou já não se enroscava mais tanto com Literatura Japonesa. Fukutomi ainda apanhava muito de Exatas. Nada que não soubessem graças a troca de SMS. Todavia falar ao vivo, caminhando lado a lado era muito mais agradável! Juichi poderia falar sobre os mesmos assuntos várias e várias vezes, se fosse com Kinjou.

O Café estava vazio àquela hora. Foi fácil encontrar uma mesa vaga. Em questão de segundos uma funcionária pequenina, metida em um uniforme cinza e verde, saltitava até eles, sorrindo muito e entregando menus personalizados.

– Sejam bem vindos! Fiquem a vontade para me chamar quando decidirem o pedido – e afastou em direção ao balcão.

Só então Fukutomi virou-se para o outro e sugeriu:

– O chá verde é excelente. O cappuccino quente também é muito bom.

– Fico com o cappuccino.

Juichi chamou a garota e fez os pedidos, aproveitando para acrescentar um shortcake e kanten. Enquanto esperavam, o assunto voltou naturalmente.

– Sua irmã veio de Sapporo? – perguntou. Já sabia o básico sobre a irmã mais velha de Kinjou, algo que ele dissera através de SMS.

– Hn. Não é uma viagem que ela possa fazer sempre, com as crianças e os horários do meu cunhado. Faz uns dois anos que não a via.

– E correu pra cá depois de um dia?! – Fukutomi ergueu uma sobrancelha, incrédulo, fazendo Kinjou sorrir.

– Você não diria isso se conhecesse os gêmeos. Tenho medo de voltar e não encontrar mais uma casa!

– Que exagero.

– Pois acredite. Um dia ainda vai conhecê-los e ver que tenho razão!

A funcionária voltou com os pedidos e afastou-se após reverenciar e desejar bom apetite. Mas nenhuma interrupção no mundo o impediria de comemorar secretamente o que Kinjou acabara de falar: planos para um futuro com ele. E um futuro em família! Seria esperança em demasia? Mesmo que fosse, Fukutomi não conseguia evitar o sentimento de júbilo.

– Isso é mesmo bom – Kinjou suspirou – Ah! Lembrei!

Deixou a xícara de lado para mexer na mochila. Juichi assistiu, incapaz de desviar os olhos do rosto do outro rapaz. Os traços fortes e quase tão sérios quanto os seus o atraíam. As sobrancelhas bem desenhadas; quem, em todo Japão, tinha sobrancelhas como aquelas?! Os lábios, uma linha firme, expressiva, sensual. Engoliu em seco, abalado. Não se recordava de nutrir tais sentimentos por outra pessoa no passado. Era intenso. E doloroso, pois não correspondido. Ainda.

– Aqui! – a exclamação tirou Fukutomi do transe, fazendo-o se recuperar antes de ser pego em flagrante. Os olhos voltaram-se para uma caderneta preta que Shingo deslizou pela mesa em sua direção.

– Nani? – abriu, lendo rapidamente as primeiras folhas – Isso é...

– Um costume que eu tenho – o Az da Sohoku deu de ombros – Eu escrevia um diário para Makishima e Tadokoro, com o quê precisavam ter em foco para melhorar. Fiz o mesmo para te ajudar com Exatas.

– Pra mim? – Juichi ficou surpreso pelo presente.

– Hn. Pra te ajudar com os estudos.

– Domo – ele respondeu com emoção sincera – Foi uma das melhores coisas que alguém já fez pra mim.

– Nandemo – Kinjou envolveu a grande caneca de cappuccino com os dedos, girando-a entre as mãos, ao mesmo tempo em que sorria para o rapaz sentado a sua frente – Me ajudou a rever alguns conceitos também.

Fukutomi balançou a cabeça, pegando o diário com as mãos como se fosse um presente valiosíssimo. Um tesouro. O guardaria para sempre, com certeza. Dádiva melhor do que aquela, apenas as pistas que percebera com aquela visita inesperada: era sinônimo de paz para o outro, fazia parte de planos futuros que também envolviam encontros familiares. E o melhor de tudo: desde que saíram da sala do clube Kinjou não ajeitara os óculos com o dedo indicador, claramente a vontade e relaxado ao seu lado.

Estava conseguindo.

Pouco a pouco, mas estava.

continua...

Notas finais
Eu, me arriscando por novos fandoms: Kuroko no Basuke (AoKaga) http://fanfiction.com.br/historia/590386/Tempest/ http://fanfiction.com.br/historia/591853/Marcado/