My little girl.
1 Das cinzas a esperança renascerá.
Notas iniciais
Parecia difícil aceitar que tudo acabaria aquela noite
Estranho era perceber que tudo acabara tão rápido.
Na calada da noite sem demora surgiu.
O indesejável, mas esperado fim interrompeu seu sonho, e então partiu.
Deslizara pelo colchão a procura das mãos que a acariciaram-na a vida toda,
Mas não havia nada.
Nenhum sinal de confiança ou segurança recostou-se na sua.
Por que não acordara?
Por que o mais estridente e violento som da turbina do avião não os havia despertado?
Enquanto isso, num cômodo frio, mas que o considerava o mais aconchegante, repousava um rosto cansado de uma jovem menina.
A pele branca e macia repousada nas páginas surradas e envelhecidas de um livro roubado, do qual cada palavra lida expressava a audaciosa vontade da aprendizagem.
(E por que não dizer da curiosidade?)
Sim...
Nem mesmo a morte, que naquela noite fizera sua última visita retirando a vida dos habitantes da rua paraíso em uma única pincelada gélida... Nem mesmo ela fora capaz de encontrar a essência da menina que dormia serena e graciosamente sobre o livro roubado.
O estrondo.
Tudo ficara laranja. O céu negro e estrelado fora se perdendo junto à fumaça.
Nenhum grito, nem uma palavra.
As vidas que estranhamente pareciam ter partido antes da grande tragédia não reclamaram por ajuda.
As bandeiras vermelhas portando o perverso e funesto símbolo que fizera tudo aquilo demolir, agora queimava em brasas junto daqueles que sofreram por conta dele.
Fora então quando o dia nascera cinza e entulhado.
Entulhado de destroços, entulhado de lembranças por baixo deles.
Lábios cerrados e olhos atentos diante da cena que lhes rodeavam.
Choques de amargura.
Esperem!
A voz corpulenta e compenetrada do jovem soldado chamava por reforços.
Um sinal de esperança vinha de um enorme e desbotado destroço de madeira. A pequena mão branca e recoberta pelas cinzas, oscilava vida.
Fora retirada confusa entre uma respiração ofegante e um olhar pálido.
Sua visão redirecionada para os corpos sem vida daqueles que finalmente tinha se acostumado a chamar de pais.
Seus rostos eram gélidos. A vida tinha lhes deixado.
Por favor... Por que me deixaste seguir... ? Que caminho devo procurar?
E foi naquele instante.
Naquele mesmo momento de dor e confusão a resposta lhe fora dada.
E estava bem a sua frente...
Aquele livro cuja capa vermelha envelhecida, portando em sua contra capa uma pequena mensagem, fora seu salvador.
As mesmas mãos cobertas pelas cinzas deslizaram pela capa desbotada. O pó fora retirado com a mais tênue delicadeza, como se retirassem a poeira de um livro esquecido na estante.
Levou-o em direção ao seu corpo, e com a mesma saudade da qual acabara de sentir de todos aqueles que amavam, ela o envolveu em seu mais profundo abraço. Apenas uma lágrima escorreu pelo canto de seu olho.
Pois ela também o amava.
A primeira palavra que fora lida em um livro pousou em sua mente. Não desistiria. Compartilharia cada momento, cada lembrança vivida e principalmente, cada palavra que lhe fora ensinada...
Foi quando percebeu que a vida não acabara. E dessa vez, seria o melhor recomeço que viveria.
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