My beloved enemy
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Dois dias se passaram e Clara e Marina quase não se viram. Esbarraram-se algumas vezes no corredor do hotel e, como sempre, trocaram insultos, mas na maior parte do tempo elas se evitavam como se a outra fosse uma praga.
Era sábado e Clara havia ido para o lado de fora do hotel com um cigarro que ela havia roubado de Bia. Clara não costumava fumar, mas achou que isso a relaxaria após mais uma provocação de Marina. Ela fechou os olhos, deixando os raios de sol bater em seu rosto. A noite passada havia resultado em mais shots de tequila do que ela previa e a ressaca estava quase insuportável.
"Você tem ume isqueiro?"
Clara se virou e viu Flavinha olhando para ele com um cigarro apagado na mão. Clara colocou a mão no bolso e entregou o objeto para menina mais alta.
"Obrigada." Disse Flavinha após acender seu cigarro.
"Sem problemas." Sussurrou Clara voltando a fechar os olhos, desesperada para se livrar da menina ao seu lado.
“Flavinha, finalmente te ach.. oh, Clara”. Marina ficou surpresa quando a viu parada ao lado de sua amiga.
"Não se preocupe, eu já acabei aqui” afirmou Clara, jogando o resto do cigarro no chão e pisando nele.
"Não precisa ir embora só porque eu cheguei”. Marina olhava provocativamente para ela.
Clara revirou os olhos “As coisas nem sempre são por sua causa, você sabia?”.
Ela deu as costas para as duas outras garotas e entrou no hotel. Ela apertou o botão e cruzou os braços esperando pacientemente pelo elevador.
Com o canto dos olhos ela viu marina se aproximando. Assim que ela viu a estudante de fotografia parar ao seu lado, soltou um suspiro impaciente. “Você fica longe do meu caminho durante dois dias e agora eu tenho que te ver duas vezes em menos de 5 minutos?”
"Me desculpe por não querer subir quatro andares de escada." Marina também olhava para o elevador, exatamente na mesma posição de clara: braços cruzados no peito enquanto olhava encarava impacientemente a porta prata em frente dela.
O elevador chegou e as duas entraram assim que a porta se abriu. Marina foi apertar o botão para o quarto andar, mas Clara correu para apertar primeiro.
“Qual é o seu problema?” Questionou Marina incrédula.
“Só... não fale comigo ok” Ordenou Clara, olhando para qualquer lugar, menos para garota ao seu lado. O tempo parecia não passar para que ela chegasse ao seu andar.
As duas garotas congelaram quando sentiram o elevador chacoalhar. Um alarme começou a tocar e logo em seguida o elevador parou.
Clara ficou de boca aberta e começou a apertar repetidamente o botão para seu andar. “ESSE NEGÓCIO SÓ PODE ESTAR DE SACANAGEM COM A MINHA CARA”.
“Eu acho que vou chorar”. Afirmou Marina não acreditando no que estava acontecendo. Ela olhava espantada para a tela que mostrava que elas estavam presas entre o segundo e o terceiro andar.
Clara deu um soco na parede do elevador, deixando escapar um grunhido de frustração. Passou as mãos pelo cabelo e inspirou o ar profundamente, numa tentativa fracassada de se acalmar.
Marina olhava para Clara, enquanto ela deu um passo em direção as portas do elevador, correndo os dedos pelo seu centro, tentando abri-las.
“O que você está fazendo?” Perguntou Marina enquanto Clara tentava separar as portas sem sucesso.
Clara virou irritada para outra “Estou tentando sair daqui e ficar longe de você. Isso não é óbvio?”
"Eu também preferia não estar na sua companhia, mas ao que tudo indica estamos presas aqui. Então relaxa aí”. Devolveu Marina batendo as costas contra a parede e deslizando até sentar no chão.
Clara olhou para a porta de novo e depois de volta para Marina, relutante em admitir a derrota, mas sabendo que não tinha escolha. Repetiu então a ação da outra e sentou na parede oposta do elevador.
"Então, nós..."
"Vamos só... sentar em silêncio” Clara interrompeu cortando a estudante de fotografia antes que ela tivesse a chance de dizer alguma coisa.
"Quer saber?" Começou Marina, sentindo-se irritada com as atitudes de Clara. “Você também nunca foi legal comigo. Você fala comigo como se eu fosse um punhado de merda”.
Clara estreitou os olhos e abriu a boca ligeiramente, tentando o seu melhor para entender como Marina poderia justificar suas ações passadas. "Na verdade, eu ... Eu não posso sequer imaginar as palavras para explicar como você está enganada. Você honestamente acha que eu não tenho nenhuma razão para odiá-la, não é?"
"Ódio é uma palavra forte...”
Clara revirou os olhos “Para de evitar a pergunta”.
“A gente era criança!” Marina gritou com as mãos no ar.
“NADA DISSO JUSTIFICA O QUE VOCÊ FEZ” Clara devolveu no mesmo tom.
Flashback on
Clara tinha 14 anos quando se viu apaixonada pela primeira vez por uma menina. Estava num canto escondido da escola com Corina e Bia, contando os planos para festa que aconteceria naquele final de semana:
“Finalmente tomei coragem para falar com a Amanda! E vocês não vai acreditar! Ela também gosta de mim” Clara estava surtando de alegria.
“Ahhhhhh eu não acredito! Vocês ficaram???” Perguntou Corina
“Ainda não, mas provavelmente vamos na festa do colégio”
“Assim, na frente de todo mundo?” Bia questionou espantada.
“Claro que não né! Vamos em algum lugar escondido! Vocês são as únicas pessoas que sabem que eu gosto de meninas e isso não pode sair daqui”
As três continuaram conversando sem imaginar que Vanessa e Marina haviam ouvido tudo.
“Meu deus, a Clara vai pegar uma menina!! Nós temos que fazer alguma coisa para zoar ela”.
Marina não dizia nada, estava perdida em seus pensamentos com o que acabara de ouvir. Clara gostava de mulheres? Iria ficar com Amanda? Aquela garota nem era tão bonita assim.
Teve seus pensamentos interrompidos por Vanessa que balançava os braços na sua frente. “Aloou, em que mundo você está??”
Marina ia falar quando Vanessa a interrompeu. “Não importa, vem, temos que contar para o pessoal”. E saiu puxando a amiga pelo braço.
Chegaram ao seu grupo de amigos e a ruiva já chegou contando as novas “Vocês não sabem da maior!!! Clara Fernandes está combinando de pegar uma menina na festa da escola”.
“Ta falando sério?” Perguntaram os meninos surpresos.
“Ouvimos a informação direto da fonte” Vanessa falava se divertindo. “O que faremos para zoar ela?”
“E se tirarmos umas fotos pra usarmos como chantagem?” Sugeriu Alexandre.
“Ahh, finalmente dando ideias que prestem. Marina, você tira as fotos”
Marina que até então eu estava quieta levou um susto “EU? Mas por que eu?”
“Porque você é a única aqui que entende de fotografia! As suas vão estar escondidas e sua missão vai ser fotografá-las sem que elas percebam”.
“Eu não vou fazer isso”. Marina falou decidida.
“E posso saber por que não? Virou lésbica também e está com peninha dela?” Questionou Vanessa.
“É Marina, qual é a sua? Nunca se recusou a fazer nada! Ta afim da Clara também?” Perguntou outro menino, arrancando gargalhadas do grupo.
“Deixem de ser ridículos. Ta bom, eu tiro as fotos. Mas isso fica entre a gente”
“Negócio fechado” Vanessa falou maliciosamente.
O dia da festa chegou e Marina conseguiu as fotos. Entregou o cartão de memória para a ruiva, que prometeu mais uma vez não fazer nada com elas.
Quando Clara chegou à escola segunda feira, a maioria dos alunos olhava para ela. Muitos rindo, outros com olhares de desaprovação e ela não entendia nada. Quando passou pelo grupo de Marina, foi surpreendida por Vanessa:
“Quem diria em Clarinha... De santa só tem a cara” Falou jogando uma das fotografias em cima dela.
Clara congelou. De onde aquela foto tinha surgido? Quem havia sido cruel o suficiente para ter coragem disso? Seus olhos se encheram de lágrimas e tudo que ela queria era poder fugir dali. O grupo a sua frente continuava a gargalhar e um deles disse “bom trabalho” para Marina.
Então havia sido ela. Clara não conseguia entender a troco de que a garota quis lhe causar tanto sofrimento. Tentava encontrar os olhos de Marina para ver se encontrava respostas, mas a menina não tirava os olhos do chão. As risadas aumentavam cada vez mais. Clara não podia mais aguentar aquilo. Saiu correndo da escola e foi em direção a um riacho que havia ali perto. Viu sua imagem refletida na água e prometeu a si mesma que ninguém nunca mais faria isso com ela. Limpou suas lágrimas e lavou o rosto na água cristalina. Jurou odiar Marina Meirelles para sempre.
Flash Back Off
“Eu sei que fui cruel com você quando éramos menores, mas eu não fui a única”.
“Então você acha que está tudo bem só porque você não foi a única?” Clara perguntou franzindo a testa.
Marina soltou um longo suspiro, olhando para o seu colo antes de encarar Clara nos olhos “Eu sei que nada daquilo foi certo”.
Os olhos de Clara se arregalaram com a confissão de Marina. “Bom, pelo menos você sabe que o que fez foi errado. Eu acho que isso é alguma coisa”.
O silêncio tomou conta do local por alguns momentos. Clara inclinou a cabeça contra a parede do elevador e fechou os olhos, rezando por um milagre enquanto os minutos passavam e elas continuavam presas no mesmo lugar.
Quando ela abriu os olhos, olhou cuidadosamente para Marina. Ela estava olhando para o chão, brincando com as mãos, aparentemente perdida em seus próprios pensamentos. Essa tinha sido uma das poucas vezes que Clara a via sem aquele sorriso presunçoso e o ar de arrogância. Ela parecia apenas uma garota normal.
"Por que você fez aquilo?” Clara perguntou num sussurro.
Marina desviou seus olhos do chão e ao encontrar a vulnerabilidade do olhar de clara, sentiu-se culpada. “Fiz o que?”
"Você sabe." Começou Clara. “Fez da minha vida um inferno”.
Marina soltou todo o ar de seus pulmões, hesitando por um momento antes de começar a falar, "Porque me pressionaram. E porque eu estava com inveja da vida que você tinha”.
Clara franziu a testa em confusão. “Por que você teria inveja da minha vida? Eu era motivo de chacota para escola inteira, fui chamada de coisas que você nem deve imaginar, enquanto Marina Meirelles era a garota mais popular da escola. Todos te amavam”.
"Eles me amavam porque eu fingia ser alguém que eu não era” Corrigiu Marina. “Você não tinha medo de ser você mesma. Sempre foi tão corajosa e não se importava com o que as pessoas pensavam de você. Eu te odiava por isso”.
"Então para de fingir ser quem você não é” A resposta de Clara foi rápida, mas calma.
Marina balançou a cabeça e deu um sorriso fraco “Eu não posso fazer isso”.
"Por que você escolheu ser essa pessoa?"
"Você acha que eu gosto de ser essa vadia?" Marina perguntou sem deixar que Clara respondesse. “Eu não sou essa pessoa horrível”. Ela adicionou quase inaudivelmente.
Clara lhe deu um sorriso simpático “Então pare de ser uma pessoa horrível”.
"Não é assim tão fácil”. Marina parou de falar por um momento enquanto olhava para seus sapatos, brincando de bater um pé no outro. Mas sabe... “Nos últimos anos você conseguiu me tratar tão mal quanto eu te tratei”.
O sorriso de Clara desapareceu com a tão rapidamente quanto ele havia aparecido. “Nem tente me comparar com você, Marina”.
"Eu te pedi desculpas pelo que fiz, não pedi?” Protestou Marina, fazendo com que a outra suspirasse.
"Não, na verdade você não pediu. E eu não prenderia minha respiração esperando que você peça, pois eu morreria sem ar”.
Marina resmungou e jogou a cabeça novamente contra a parede. “As coisas nunca vão mudar entre a gente, não é? Mesmo se eu pedisse desculpas, você ainda acharia que sou a escória do mundo e ainda me odiaria”.
"Já gastei energia demais te odiando. Me sinto completamente indiferente sobre você agora”. Corrigiu Clara. “Nossa, eu perdi tanto tempo te odiando que isso se tornou exaustivo. Eu costumava imaginar você sendo atropelada por um carro, ou que algum cachorro raivoso te pegasse. Quem sabe até um urso quando voc...”
"Ok, eu já entendi” Interrompeu Marina olhando impressionada para a outra garota.
Clara sorriu brevemente antes de continuar a falar, "Enfim... Eu não queria mais perder meu tempo te odiando, então eu preferia que ficássemos fora uma do caminho da outra”.
"Nós estávamos fazendo um bom trabalho até essa viagem” Marina falou deixando uma risada escapar.
"É, e agora você está me perseguindo pelo hotel” Brincou Clara.
Marina chutou a perna de Clara gentilmente, enquanto ela ria da própria brincadeira. Por um momento, as duas se olhavam nos olhos com um sorriso nascendo em seus lábios enquanto o silêncio passou a tomar conta do lugar.
O elevador começou a andar novamente, fazendo com que elas parassem de se olhar e levantassem correndo.
"Obrigada deus” Murmurou Clara quando viu o número 4 aparecer e as portas se abrirem.
"Meu deus Clarinha! A gente estava tão preocupada com você” Gritou Corina pulando em sua amiga enquanto ela saía do elevador.
"Ta tudo bem?" Perguntou Bia colocando a mão no ombro dela.
Clara fez que sim com a cabeça e sorriu para as amigas, espiando com o canto dos olhos enquanto Marina se afastava silenciosamente, com as mãos no bolso do shorts e olhando para o chão enquanto ia para o quarto.
"Ei fernandes!" Bia estalava os dedos na frente do rosto de Clara. “Você me ouviu?”
Clara riu. “Desculpa, o que?”
"Eu perguntei como você está depois de ficar presa com a Marina. Ela não te deixou louca?” Repetiu Bia.
"Ahh.. foi tudo bem... A gente nem se falou direito”. Mentiu Clara.
Bia jogou seus braços ao redor da morena e sorriu. “Bom, agora que você está livre, vai se arrumar para nos encontrar no bar”.
A três seguiram em direção ao quarto enquanto conversavam sobre o que Clara havia perdido na última hora.
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