My Work Here is Done
6 Capítulo 7
Notas iniciais
Haru acordou com uma dor de cabeça de todo o tamanho. Tinha esquecido de fechar a cortina e sol batia-lhe mesmo em cheio no rosto, o que francamente não ajudava na sua situação.
Quando tentou virar para o outro lado, foi bem pior. Tinha as costas todas presas.
Resmungou consigo mesmo, logo se arrependendo das escolhas da noite anterior: ele tinha quase 30 anos, ele não tinha mais idade para dormir no chão duro e desconfortável. Ah… por que ele não comprara um futon extra no mês anterior? Bem, seu vizinho precisava comprar os remédios para pressão, ele não podia simplesmente deixá-lo na mão.
Inspirou, expirou, e se espreguiçou com calma, sentindo sua coluna estalar.
Esfregou as costas, com outro suspiro e quase saltou pelo ar ao ouvir chamar, “Katou?”
“Oi… já está acordado?”, ele questionou, bocejando de leve, e viu Kambe coçar os olhos, “Sim, eu sempre acordo cedo”.
“Dormiu bem?”
Kambe assentiu, bocejando outra vez, “Sim, mas ouço os teus ossos a estalar…”
Haru coçou a nuca, “Bem, você mesmo disse que isso é coisa da idade”, sorriu e viu Kambe se sentar, também desconfortável pelo futon, “Desculpe se a cama não é muito confortável”.
Ele abanou com a cabeça, “Está tudo bem.”
Haru suspirou, mas logo sorriu, “Tem fome?”
Antes que Kambe pudesse responder, sua barriga fez isso por si. O mais jovem pigarreou de leve, mas Haru riu e se levantou, se espreguiçando uma última vez.
“Eu vou preparar o café. Gosta de omeletes?”
Ele assentiu e levantou-se também, “Posso ajudar? Nunca ninguém me ensinou a cozinhar…”
O mais velho assentiu, “Claro, omelete é um prato bem simples de fazer”, sorriu, seguindo até a cozinha para pegar os ingredientes e o avental, “Só tenho um avental, use você para não se sujar”.
Kambe só obedeceu. Talvez fosse do sono e da dor de cabeça, mas ele faria tudo o que Haru lhe pedisse. O policia tentou explicar como tudo se fazia, com a maior paciência do mundo, mas Kambe não tinha dote culinário algum: queimou a omelete, usou sal a mais, derrubou dois ovos no chão e quase colocou fogo na cozinha. O pobre inspetor sentia como se fosse ter um infarto a cada cinco minutos, mas não perdeu a paciência com Kambe.
“Certo, vamos tentar de novo”, ele disse ao conseguir lavar a frigideira, “Primeiro, vamos usar fogo baixo, certo? E untar bem a frigideira para a omelete não grudar”, explicou, “Isso, agora coloque um pouquinho de sal só… e agora é só virar!”, disse e sorriu quando Kambe, após quatro tentativas, conseguiu terminar a refeição, “Isso mesmo! Parabéns!”, Haru elogiou, colocando a omelete num prato para o mais jovem, “Vamos comer!”, convidou e pegou as omeletes queimadas para comer.
Kambe seguiu atrás dele feito zombie. Estava tão habituado a ter de ouvir duras críticas quando fazia algo que fosse menos que perfeito.
“Isso é seguro de comer?”, questionou, olhando para as omeletes queimadas e abanou com a cabeça, “Dividimos esta a meio.”
O mais velho voltou a sorrir (e Kambe gostava dos sorrisos dele) e balançou a cabeça, “Está tudo bem, as omeletes não estão tão queimadas assim. É comestível”.
Kambe suspirou, mas parecia lógico para si que Haru fazia um esforço enorme para comer a parte queimada. Não disse nada e comeu em silêncio, lembrando-se das palavras da sua avó sobre ele não tentar ser aquilo que não é.
Haru bebeu seu café e sorriu, chamando a atenção de Kambe.
“O que foi?”
“Nada… só nunca imaginei que fôssemos curtir uma noite como bons amigos”.
O mais jovem pestanejou e ficou a encarar Haru como se ele subitamente tivesse três cabeças ou um olho no meio da testa. Bons amigos?
O inspetor notou o olhar dele em si e riu, “Que foi? É verdade, tu ficas menos implicativo quando bebes.”
Kambe limpou os lábios com o guardanapo, sempre muito direito.
“Bem, o Inspetor também não se irrita tanto quando bebe”, disse, e Haru riu.
“Touché!”.
“Talvez devesse beber mais vezes ao pequeno-almoço.”
Haru pestanejou e riu, dando-lhe com a perna por baixo da mesa, “Que falta de educação, Sr. Kambe.”
Ele abanou com a cabeça, “Senhor não, por favor. Isso é terrível.”
O inspetor voltou a rir, já satisfeito com o desjejum. Mesmo queimada e salgada, a omelete que Kambe havia preparado não estava assim tão ruim, e o café disfarçava o gosto de queimado. Na verdade, Haru até achou divertido ver Kambe a cozinhar: não imaginava que havia alguma coisa que o bilionário não soubesse fazer.
Os dois ficaram a conversar por mais um tempo até se arrumarem para o dia de trabalho. Kambe ordenou que roupas limpas fossem entregues na casa de Haru, e após um banho demorado (a conta de água viria cara naquele mês), o bilionário estava pronto para mais um dia entediante de reuniões.
A não ser que…
“Inspetor?”, chamou, e Haru olhou para si enquanto escovava os dentes, “Podemos passar o dia no seu trabalho? Quero saber como as coisas funcionam por lá.”
Haru assentiu, erguendo o polegar esquerdo.
“Claro, eu só vou terminar de me arrumar e podemos ir”, sorriu.
Kambe não esperava que ele realmente fosse aceitar, mas aquilo deixou-o feliz.
Haru entrou no carro de Kambe e sentou-se muito direito. Os estofos eram claros e o carro bem moderno. Tinha quase medo de sujar alguma coisa ou de tocar por acidente em algo que não devia.
Mas o seu nervosismo passou rápido quando Kambe arrancou.
“Tu sabes que eu sou polícia e que posso, em teoria, multar-te por excesso de velocidade. Certo?”
Kambe tirou os olhos da estrada para o encarar, “Posso suborná-lo, Inspetor?”
“Suborno também é crime!”, Haru se apressou a dizer, segurando-se firmemente no banco quando Kambe fez uma curva muito brusca.
“Não se preocupe, eu sou um exímio motorista”
“Não é questão de ser ou não, você não pode simplesmente andar a 150 quilômetros por hora numa avenida!”
Kambe soltou uma risada, mudando a marcha e reduzindo a velocidade para 100 quilômetros por hora.
“Assim está melhor?”
“Kambe, o limite é de 80!”
“Inspetor, nem as velhinhas conduzem a essa velocidade.”
“KAMBE!”
Ele bufou contrariado, mas obedeceu. Estava decidido a não ficar no lado mau de Katou. Mas pelos vistos ia ser difícil.
Haru também suspirou, acomodando-se novamente no banco quando Kambe ficou dentro do limite. Os dois ficaram em silêncio por algum tempo (e o bilionário já se arrependia de ter sugerido que passassem o dia no trabalho de Haru), até que o inspetor voltou a puxar assunto: “Eu acho que você vai gostar dos meus colegas… Principalmente da Saeki, ela é a única garota da equipe, e além de ser extremamente divertida, ela é super inteligente e a mais entendida de tecnologia do nosso setor. Nem mesmo o Kamei, que gosta de trabalhar com sites, é tão bom quanto ela”, sorriu.
Kambe piscou, olhando para Haru por um momento.
“E eu ficaria amigo de uma nerd por que?”
Haru riu, rolando os olhos.
“Porque ela é uma pessoa fácil de se conversar e conviver. Vocês podem conversar sobre todo e qualquer assunto, mesmo que ela não entenda bem sobre: ela sempre está disposta a ouvir e aprender.”
O mais jovem voltou a olhar para a rua, estacionando o carro em frente ao prédio onde Haru trabalhava. Por um breve momento, ele sentiu ciúmes de Saeki, mesmo que não a conhecesse.
“Oh… ela realmente parece uma boa pessoa…”, disse quase num murmúrio, e Haru sorriu, assentindo.
“Ela é minha melhor amiga, espero que vocês se deem bem”.
Kambe piscou. Haru queria que ele e Saeki se dessem bem? Por que?
Entraram no prédio e seguiram para o elevador, Kambe logo ajeitando sua gravata. Não queria estar desajeitado para conhecer, oficialmente, os colegas de trabalho de Haru.
Quando Haru abriu a porta, seus colegas e chefe olharam para si, e o inspetor acenou.
“Oi, o Kambe quis conhecer vocês”, disse, dando tapinhas nas costas do bilionário.
Chosuke e Teppei deram de ombros e voltaram aos seus afazeres (o mais velho lia o jornal e o mais jovem fazia apostas); Kiyomizu acenou alegremente de detrás de sua mesa, as mãos ocupadas com peças do novo modelo que estava montando; e Saeki e Kamei logo se aproximaram de Kambe como se ele fosse uma atração turística.
“Oh! É um prazer em conhecê-lo, Kambe-san!”, Saeki disse, sorridente, enquanto estendia um pacote de doces, “Aceita? São guloseimas que mudam a cor da língua!”.
Kambe piscou, olhando rapidamente para Haru, que assentiu, e aceitou o doce.
“Hm… Obrigado.”
Kamei sorriu, colocando-se ao lado da colega.
“O legal do doce é que você só sabe o sabor quando coloca na boca: se o doce for de uva, sua língua ficará roxa; se for de limão, ficará verde; se for de morango, ficará vermelha”, explicou, já que todos os doces eram brancos por fora.
Kambe mastigou o doce, colocando a língua para fora em seguida, tentando ver que cor havia ficado.
“Oh, azul! Você pegou uma de mirtilo, que sorte!”, Saeki disse, oferecendo o doce para Haru. A língua do inspetor ficou vermelha, e ela sorriu, “Oh~ se vocês se juntassem, poderiam fazer a uva~”, ela piscou, implicante.
Kambe piscou, sem entender bem, mas Haru rolou os olhos, incomodado.
“Saeki, deixa disso.”
Saeki riu da desgraça alheia e entrou uma mão cheia de doces a Kambe, “Podes ficar com o resto~ Eu já encomendei três sacos.”
Kamei abanou com a cabeça, censurando-a de que não devia fazer tantas encomendas para comida e ela apenas lhe mostrou a língua verde.
Katou suspirou, “Há alguma novidade?”
Enquanto que os dois lhe faziam um briefing do que estavam a investigar e de novas pistas que tinham sobre outros casos, Kambe não pode deixar de reparar que o bom humor do inspetor tinha sido substituído por uma irritação leve, que o deixava de sobrolho franzido por mais tempo. Aquela típica expressão que ele tinha ao lidar com o Mascarado.
Kiyomizu chamou da sua mesa, avisando Haru que não havia mais notícias do Mascarado. Nenhum avistamento, nada. Apenas a Lady Night tinha sido vista mais duas vezes, mas não tinha causado estrago nenhum.
Saeki levantou a cabeça mal ouviu o nome e pousou a mão sobre o peito, “Ah a Lady Night!”
Kambe pestanejou curioso, “O que tem ela?”
Kamei e Haru deram um resmungo e já se afastaram para ir para os seus computadores, deixando Kambe à sua sorte.
A menina dos cabelos rosados pousou as mãos nos ombros dele (e Kambe já gostava que não o tratassem diferente ali), “Sou a fã Nr. 1 da Lady Night! E a Nr. 2 do Mascarado! Aliás- Eu sou a administradora do Fórum de Clube de Fãs. Queres participar? Temos T-shirts e--”
“Saeki!”, Haru reclamou e ela fez um biquinho antes de continuar, “Como estava a dizer, eu AMO a Lady Night!” , pousou uma mão sobre o peito e suspirou, “Ela move-se como um felino! Misteriosa sob o luar! Certamente uma rebelde sem causa! O Haru-chan tem sorte a mais por ter falado com ela. Eu daria tudo para que-”
“Saeki!”, ele reclamou de novo, bufando, “Pára de incomodar as visitas.”
Ela encarou Kambe e o mais jovem abanou com a cabeça, sorrindo levemente, “Não me incomodas. Mas não sou fã do Mascarado, lamento.”
A expressão dela caiu um pouco e Daisuke sentiu-se na necessidade de acrescentar, “Porém, tenho uma prima é. Aliás, ela faz parte do fórum e-”
Houve um brilhozinho nos olhos dela, “Qual o username dela?”
Kambe pestanejou, “Nem ideia. Mas tenho a certeza que ela gostaria de te conhecer para falarem desse vosso… hum... interesse em comum.”
Voltou a ser agarrado e Saeki quase que o abanou, “Sim! Por favor! Não tenho nenhuma amigo que faça parte do Clube! Bem, tem o Kamei, que se inscreveu porque eu subornei e tem o Haru-chan que está em negação. Então ia adorar!”
O bilionário comeu mais um dos doces (e sua língua ficou vermelha), realmente interessado no assunto.
“O Inspetor faz parte do fã clube?”
Saeki fez biquinho, balançando a cabeça.
“Não… digo, ele inscreveu o e-mail dele na nossa newsletter porque eu pedi durante dias e o Haru-chan é uma pessoa gentil, mas ele tem uma relação um pouco complicada com o Mascarado”
“Uma relação complicada? Em que sentido?”
A garota colocou as mãos nas bochechas, movendo os quadris de um lado para o outro enquanto sua voz ficava mais aguda e subia um oitavo.
“Own, é que o Mascarado é completamente apaixonado pelo Haru-chan! Eles até já se beijaram, então eu acredito que o Haru-chan também gosta dele!”
Uma mistura de alegria e tristeza invadiu o coração de Kambe: embora ele gostasse da ideia de Haru gostar de si (afinal, ele definitivamente gostava do inspetor), ele odiava a ideia de Haru gostar do Mascarado. Haru havia beijado o Mascarado duas vezes e sempre baixava a guarda perto dele, mesmo que dissesse que o prenderia a qualquer custo. Porém perto de si…
“Oh, ele gosta dele?”
“Definitivamente!”, Saeki disse, animada, e Kambe forçou um sorriso cordial.
Kambe olhou para Haru, que conversava alguma coisa com Chosuke, e suspirou. Naquele momento, o bilionário decidiu que o Mascarado não voltaria a se comunicar com o inspetor: não mandaria mais bilhetes ao mais velho para convidá-lo aos locais onde o Mascarado apareceria, assim como evitaria se encontrar com Haru enquanto estivesse atrás dos chips. Afinal, faltavam apenas dois, e depois disso, Kambe não pretendia continuar com aquele disfarce.
O Mascarado logo deixaria de existir, e Kambe esperava conseguir se aproximar do inspetor sem, literalmente, o uso de máscaras.
“Ouch!”, Kambe resmungou, sentindo uma dor incômoda no indicador esquerdo.
Olhou para o dedo e percebeu que a embalagem de um dos doces havia cortado a pele, e um filete de sangue começou a pingar.
“Kambe-san!”, Saeki chamou, lhe segurando o pulso, “Você se machucou! Haru-chan, o Kambe-san se machucou!”
“Como?”, Haru questionou, correndo até os dois, “Se machucou como?”
“Com o papel do doce e--”
Haru rolou os olhos, “Saeki, achei que tinha sido grave!”, ele suspirou e segurou a mão de Kambe, “É só um corte, pode me trazer os curativos?”
A garota saiu apressada, e Haru olhou melhor para o pequeno corte no dedo de Kambe. O bilionário piscou, e Haru levou o dedo dele até sua boca, usando a saliva para estancar o sangramento.
"Aqui está!", Saeki disse, entregando uma caixinha de curativos da Hello Kitty para Haru.
O inspetor agradeceu e, após tirar o dedo de Kambe da boca, colocou o curativo sobre a ferida.
"Prontinho!"
Kambe voltou a pestanejar feito idiota e olhou para a sua mão.
Haru tinha mesmo acabado de lhe lamber o dedo?
“...Obrigado?”
Haru sorriu, nem tendo percebido o que havia feito (tinha sido automático).
“De nada! Bem, que tal eu mostrar o resto do prédio para você?”, convidou, “Tem um café do outro lado da rua que eu gosto de visitar, podemos almoçar ali, se quiser.”.
Kambe assentiu e Haru pegou no seu casaco de novo, “Alguém quer alguma coisa do café?”
Após anotar o que cada um de seus colegas queria do café (Kamei choramingou para que Saeki lhe pagasse uma fatia de bolo), Haru e Kambe voltaram para o elevador. O inspetor relia os pedidos dos demais e tentava calcular o valor aproximado da conta enquanto o mais jovem continuava a olhar para o curativo cor de rosa em seu dedo.
Claro que ele conhecia a Hello Kitty, ele não era ignorante a ícones da cultura pop, mas o que o deixava desconcertado era a naturalidade com o que Haru cuidou de si: ele não usou nenhum antisséptico ou curativos devidamente apropriados (e Kambe achava que saliva não era muito eficaz), mas havia carinho nos seus cuidados. Um carinho que Kambe não sentia de ninguém mais além de Suzue. Um carinho que ele não estava acostumado.
Olhou para o rapaz ao seu lado, que continuava a calcular sobre o pedaço de papel, e sentiu as bochechas aquecerem de leve. Se um dia se aproximara de Haru por curiosidade e implicação, agora desejava manter-se perto dele por genuíno carinho.
Ele gostava do inspetor.
E desejava que ele gostasse de si também.
“Inspetor Katou?”, Kambe chamou ao saírem do elevador. Haru olhou para o mais jovem por sobre o ombro direito, e embora o bilionário não desviasse o olhar, ele apertou nervosamente as mãos em punho, “Depois que o Mascarado parar com seus prováveis roubos, aceita ir jantar comigo novamente?”.
No meio minuto que Haru demorou para lhe responder, Kambe sentiu um peso no coração: e se ele recusasse seu convite? Já haviam jantado juntos e Kambe até mesmo passara a noite no pequeno apartamento do inspetor, mas e se após o Mascarado não existir, Haru não visse mais motivos para falar consigo? Afinal, sem uma ‘ameaça’, não teria porquê ele continuar a protegê-lo.
Mas Haru apenas piscou e sorriu em seguida, assentindo.
“Claro, vai ser legal.”.
Kambe retribuiu o sorriso, relaxando visivelmente enquanto seu coração se enchia de esperanças.
Pôs-se ao lado do inspetor e os dois seguiram para o café.
O dia havia sido divertido: após Kambe conhecer praticamente todos os colegas e ex-colegas de Haru (ele não foi muito com a cara de Hoshino), os dois foram ao museu municipal, já que o inspetor estava interessado na exposição. Para Kambe, que estava acostumado com aquele tipo de entretenimento, o passeio não chamava muito sua atenção, mas Haru estava se divertindo, e era isso que importava.
Eles tomaram chocolate-quente, caminharam pelos jardins do museu e conversaram até não terem mais assunto, e quando estava anoitecendo, Kambe ofereceu carona para o inspetor. Após Haru implicar que o mais jovem dirigia rápido demais para si, e Kambe garantir que ficaria no limite de velocidade, o passeio foi encerrado, e eles seguiram até o prédio onde o mais velho morava.
“Obrigado pela carona, Kambe”, Haru disse, sorrindo gentilmente, “Mesmo horário amanhã?”
Kambe assentiu, vendo Haru destravar o cinto de segurança.
“Sim, inspetor. Tenha uma boa noite”
“Obrigado, você também”
Haru acenou de leve e saiu do carro. Kambe aguardou até que ele entrasse no prédio (acenando uma última vez antes de fechar a porta) e seguiu para sua casa.
Estava com um ótimo humor, e quando Suzue o viu, não evitou sorrir alegremente.
“Oh! Dia bom?”
“Sim.”, ele disse, aceitando os documentos que a prima lhe estendia, “Está tudo pronto para essa noite?”
“Sim, já repassamos os planos de evacuação e deixei o traje da Lady Night pronto caso precise de apoio”
“Não creio que seja necessário, a biblioteca municipal não tem grande segurança. Ninguém saberá que estivemos lá.
Suzue piscou.
“Mas e Haru-san?”
“Não vou avisá-lo desta vez.”
“Oh?”
“Não faça essa cara. Ele anda cansado, pensei que seria melhor deixá-lo descansar.”. Suzue sorriu, maliciosa, e Kambe rolou os olhos, “Suzue--”
“Certo, certo. Nada de bilhetes implicantes para Haru-san!”, ela riu, “Quem diria que meu doce primo tomaria juízo, hein?”
“Suzue--”
Ela voltou a rir, erguendo as mãos em sinal de paz.
“Vou deixá-lo descansar antes de sairmos. Qualquer coisa, estarei na oficina”, disse e deixou o mais velho à sós.
Kambe suspirou, e sentou-se em uma poltrona enquanto lia os documentos em mãos.
Só mais dois chips e tudo estaria acabado.
Haru saía do banho quando seu celular notificou uma nova mensagem. Era Saeki implorando pela sua companhia até uma lojinha qualquer de doces que estava fazendo promoção. Mesmo cansado (e sem muito amor por doces), Haru aceitou o convite e seguiu até o endereço dado pela amiga, que o esperava animadamente.
“Haru-chan! Obrigada por vir!”
Ele sorriu e aproximou-se dela, “Não tive alternativa.”
“Tiveste sim.”, empurrou-o levemente com o ombro e sorriu-lhe, “E como correu o teu date?”
O mais jovem logo soltou um resmungo.
“Não era um encontro, Saeki! O Kambe só quis conhecer vocês e foi isso o que eu fiz.”
Saeki riu, “Aham, sei. Você, Haru-chan, trouxe a pessoa que você devia estar protegendo para conhecer seus colegas de trabalho, lambeu o dedo dessa pessoa quando ela se cortou, foi almoçar num café com ela e depois vocês passaram o resto do dia no museu! Isso é um encontro perfeito, admita!”
“Em que universo isso é um encontro perfeito? E eu não lambi o dedo dele!”
“Ah, pois não: você enfiou o dedo dele na boca. Sabe quantas ideias de fanfic eu tive nesse meio minuto?!”
Ele ficou vermelho, “Fanfic? Mas que raio?”
Saeki deu de ombros, “És a inspiração do personagem polícia nas fanfics do Mascarado, meio que esse personagem ganhou vida própria além desse universo canon, sabes? Tem muitos fãs, as meninas gostam de personagens que pensam que são durões, mas na realidade são muito soft.”
O inspetor piscou, o nariz levemente torcido.
“E por que eu sou a sua inspiração?
“Ora, Haru-chan, você é o crush do Mascarado, é óbvio que merecia seu espaço no universo das fanfics!”, ela disse animada, apontando para uma loja no final da rua, “Oh, é ali! É aquela loja que está fazendo a promoção, vamos lá!”
Ele deu um longo suspiro, “Relembra-me porque raio alinho nas tuas maluqueiras?”
Saeki deu uma risada e pendurou-se no braço dele, “Também gosto muito de ti.”
Haru suspirou, aceitando ser arrastado até a loja de doces pela sua melhor e mais doidinha amiga. Era verdade: ele gostava muito de Saeki. Quase como se ela fosse sua irmã mais nova, embora ela fosse mais velha que si.
“Eba! Meus doces favoritos estão aqui!”, ela disse, apontando para alguns potes de doces redondos e coloridos, “Eles são um pouco azedos, adoro!”
“Um doce azedo?”
“São como tu quando estás mal humorado.”, mostrou-lhe a língua e esticou-se para pedir à senhora da loja um saquinho deles, “Oh quero levar caramelos para o Kambe-san. Ele deve gostar daqueles.”
O inspetor, como sempre, estava com as mãos nos bolsos, e não parecia muito animado com a ideia de comprar doces. Mas quando Saeki falou sobre Kambe, e sobre o bilionário gostar de algum tipo de guloseima, seu interesse logo mudou, e ele se ajeitou ao lado dela.
“Acha mesmo que ele vai gostar dos caramelos?”
Saeki, que já comia alguns doces (ela conhecia a dona, a senhora simpática que sabia que ela pagaria por tudo), e respondeu com a boca cheia:
“Sim, ele gostou de todos os doces que eu ofereci para ele!”, disse animada, saltitando entre as prateleiras enquanto enchia a cestinha com diversas guloseimas, “Por que, quer oferecer algo ao crush?”
Haru corou, rolando os olhos.
“Já disse que o Kambe não é meu crush”
“Pois não, é o Mascarado~”, ela implicou, mas ao perceber o olhar triste do amigo, piscou, “Haru-chan? O que houve?”
O mais jovem suspirou, dando de ombros.
“Nada. Ele… Os bilhetes pararam após nosso último encontro.”
Saeki pestanejou, "Talvez ele tenha deixado de cometer os roubos?"
Ele suspirou de novo aceitou um dos chocolates que Saeki lhe oferecia, "Sim, talvez… "
"Melhor assim, não? Fica o caso encerrado e é menos uma dor de cabeça para ti.”, ela viu Haru dar de ombros, mas sentiu que seu amigo realmente estava magoado.
Os bilhetes do Mascarado sempre foram um estresse na vida do inspetor: surgiam nos lugares mais inesperados e as declarações que aquele pervertido fazia eram constrangedoras. Mas se antes o flerte unilateral era seguido de dicas do próximo assalto, o silêncio após os dois terem se beijado no Jardim Botânico fazia Haru sentir-se usado.
Não que ele gostasse de um lunático que invadia propriedades alheias para fazer bagunça, nada disso, mas ele achava que… o Mascarado se importava consigo.
“Você tem razão”, Haru murmurou.
Num outro momento, Saeki brincaria sobre ela sempre ter razão, mas não dessa vez.
Não quando seu amigo tinha o coração partido.
“Daisuke, tudo pronto?”, Suzue perguntou, sua voz soando pela escuta que o primo usava.
“Sim, já estou na biblioteca. O chip se encontra na sessão de esoterismo, certo?”
“Exato, mandei a localização exata para o seu relógio.”
Ele olhou para o relógio e seguiu pelas coordenadas indicadas. Era uma biblioteca antiga, com vitrais altos por onde entrava o luar. Sem luz era difícil ler o que dizia nas capas dos livros, mas Daisuke estava focado.
Era o penúltimo chip. Estava quase.
Atravessou toda a divisão rapidamente, evitando as câmeras e escondeu-se atrás da estante. Seguiu a classificação dos livros e se esgueirou pelo corredor, sorrindo ao perceber seu alvo.
“Achei”, ele disse e abriu o livro para procurar pelo chip. Ele só não esperava que um apito agudo fosse ecoar daquelas páginas, e Kambe derrubou o objeto no chão para cobrir os ouvidos. “Droga! Suzue, é uma armadilha! Um alarme soou!”.
Para aumentar o pânico dos primos, pesadas portas e grades desceram do teto, e Kambe se viu sem saída do acervo da biblioteca.
“Suzue!”
“Estou a tentar entrar no sistema informático.”, ela disse nervosa, “Tenta procurar saída.”
Ele deu um estalido com a língua e atravessou as longas prateleiras da biblioteca, agora ainda mais escura que antes. A adrenalina que sempre sentia com os “roubos” tinha sido agora substituída por um pânico que não o deixava pensar direito.
Daí a ouvir as sirenes da polícia foi um instante.
“Suzue?”
Suzue estalou a língua, “Daisuke, siga as coordenadas que eu enviei. Há um duto de ventilação que leva para uma saída de ar-condicionado. Você vai precisar usar o laser para aumentar o buraco, mas vai conseguir passar”
“Afirmativo.”
Respirou fundo para se concentrar, tentando não pensar nos poucos minutos que tinha antes da polícia entrar na divisão. Não podia entrar em pânico agora.
A conduta que a prima lhe tinha sugerido ficava na recepção e Daisuke precisou de partir o vidro que separava as divisões. Alguns estilhaços puxaram-lhe a roupa e arranharam-no, mas ele pensaria nisso mais tarde.
As portas de segurança tinham sido fechadas ali também e Kambe não teve outra alternativa que não subir para o segundo piso e procurar por outro caminho.
“Isso é estranho…”, Suzue disse pelo comunicador, “Não estou conseguindo hackear o sistema de segurança.”
“Como assim?”
“Por mais que eu tente, o sistema continua ativado e não consigo liberar as saídas para você.”, ela bufou, “Daisuke, se minhas informações estão corretas, há uma saída para o terraço acima de você. É uma clarabóia com tamanho suficiente para um adulto passar, você só vai precisar se desfazer da sua capa”.
“Entendido”, ele disse e retirou a capa. Para não deixar vestígios para trás, Kambe estalou os dedos, e a fricção do tecido de sua luva provocou uma pequena chama. Com ela, o bilionário queimou a capa, que virou cinzas em poucos segundos. No entanto, diferente do que sempre acontecia, sua luva também começou a incendiar, e o rapaz precisou descartá-la, “Suzue, minha luva foi sabotada. Ela queimou quando provoquei a chama”
“Isso é impossível, nós a testamos antes de você sair!”
“Não sei o que houve, mas estou deixando-a para trás. Agora vou sair pela clarabóia, verifique se o caminho está livre”
Suzue estalou a língua, e Kambe sabia que ela lhe traria más notícias:
“Os policiais chegam em três minutos. Por favor, se apresse!”
Sem nem deixar a prima terminar a frase, Kambe saltou para cima e se agarrou à clarabóia, usando um de seus equipamentos para destruir o vidro que o separava do terraço. Ele cobriu o rosto da melhor forma que conseguiu para que nenhum estilhaço o machucasse e se puxou para cima, chegando ao terraço sem dificuldades.
“Suzue, consegui e--”
Um som alto e agudo ecoou pelo seu ouvido, e Kambe caiu de joelhos ao sentir como se sua cabeça fosse explodir. Ele soltou um gemido de dor e retirou o comunicador que faiscava do ouvido.
Droga! Haviam sabotado sua comunicação com Suzue!
Sem saber qual caminho tomar, Kambe correu para a beirada do terraço, observando as viaturas policiais cercando o prédio da biblioteca. Ele logo achou a saída de incêndio, que estava a poucos metros de si, e correu até ela, apenas para ouvir uma conhecida e ofegante voz chamar por si:
“Mascarado?!”
Ao olhar para baixo, viu ali Haru, que subia apressado pelas escadas de emergência, o semblante confuso.
Não. Tudo menos aquilo!
“Haru!”, Kambe correu até ele e lhe segurou o braço, “Aqui é perigoso!”
Confuso por ser tratado pelo primeiro nome e pela tensão na voz do outro rapaz, Haru piscou antes de franzir o cenho.
“Você está roubando de novo?! Mas dessa vez, a polícia chegou sem você conseguir fugir, hm?”
A voz de Haru estava carregada de mágoa, Kambe conseguia perceber. Ele não entendia o real motivo para o inspetor tratá-lo daquela forma, uma vez que mesmo de lados ‘opostos’, o mais velho nunca havia sido realmente grosseiro consigo.
E aquilo doeu.
“Haru, não há tempo para explicar, nós precisamos fugir!”, ele insistiu, apertando de leve o braço de Haru.
O inspetor se soltou num safanão, e o olhar dele endureceu.
Ah, por que Kambe ainda acreditava que Haru ficaria ao seu lado?
“Mascarado, você está preso por furto”, Haru disse, retirando do bolso traseiro as algemas. Ele segurou a mão de Kambe, que não resistiu, mas antes que pudesse algemá-lo, o Mascarado o empurrou para a esquerda e se colocou à sua frente.
“Haru, cuidado!”
O som do tiro ecoou nos ouvidos do inspetor, e um pouco de sangue respingou na sua bochecha. Haru olhou para os pés da escada e viu ali um policial, o frio da noite deixando perceptível a fumaça que saía do cano do revólver dele, e o seu colega de profissão se preparava para atirar de novo, tendo ambos na mira.
“Parados aí!”, ele berrou, e Haru percebeu que o Mascarado havia sido atingido no ombro.
“E-espere, eu sou policial e--”, o homem atirou mais uma vez, sem sequer deixar que Haru se explicasse, e dessa vez o Mascarado usou o salto de seus sapatos para quebrar o vidro de uma das janelas do prédio (cujo sistema de segurança não havia trancado) e empurrou Haru para dentro após soltar uma pequena, mas eficiente, bom de fumaça em direção ao policial.
O inspetor caiu de mau jeito no chão, e Kambe seguiu atrás, gemendo de dor enquanto agarrava o ombro ferido.
“Mascarado!”, Haru chamou, ignorando o próprio desconforto e se arrastando até ele.
Kambe respirava com dificuldade perante a dor, e resmungou entre dentes:
“Precisamos… precisamos fugir… não podem ferir você…”
“Do que está falando? Você foi ferido!”, o mais velho retirou a própria gravata e fez um curativo improvisado, tentando estancar o sangramento. Kambe estremeceu, mordendo o lábio inferior para evitar gritar de dor, e Haru lhe tirou os cabelos da frente do rosto, “Hey, me escute: nós precisamos levar você até um médico. Você vai acabar perdendo muito sangue se não receber tratamento logo e--”
Kambe o interrompeu, lhe segurando a mão que apertava a gravata ao redor de seu ombro.
“Haru, eu não posso… Não podem saber quem eu sou ou o motivo dos meus furtos…”, um gemido de dor, “Mas eu juro, Haru. Eu juro que nunca machuquei ninguém e nunca roubei nada que já não fosse meu por direito…”
O inspetor piscou, confuso.
“Seu?”
Ele assentiu, a mão sem luva acariciando a pele do pulso de Haru.
“Eu prometo explicar tudo assim que sairmos daqui… A Lady Night pode nos ajudar, só me tire daqui, por favor…”
Haru olhou nos olhos do Mascarado, incerto do que fazer: haviam estado naquele jogo de gato e rato há meses, e Haru sempre desejou prender aquele lunático e fazê-lo pagar por todos os furtos e bilhetes de mau-gosto que ele havia criado… Mas… Havia algo no olhar dele, algo que o inspetor não entendeu ao certo, que lhe dizia para confiar nele.
Confiar naquele pervertido.
“Mascarado, eu…”
Ao sentir um roçar áspero no seu pulso, Haru olhou para baixo. Por entre as luzes da rua e as das sirenes policiais, ele percebeu um fofo curativo no dedo do Mascarado: um curativo da Hello Kitty.
Não…
“Kambe?”
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