Notas iniciais
Estamos quase, quase no fim.

O aperto no peito que sentia era quase tão doloroso como uma pancada física. Encarou os olhos muitos cinzentos do Mascarado e subitamente entendia agora um montão de situações que tinham ficado por explicar.

Sentia-se traído e magoado por ter sido enganado daquela forma.

Kambe percebeu também, porque os olhos dourados sempre tão gentis de Haru endureceram. Mas não havia tempo para pensar nisso agora, tinham de sair dali.

“Eu prometo explicar tudo.”, repetiu, sibilando de leve ao sentir a dor no seu ombro ficar mais forte, “Precisamos de sair daqui. Perdi a comunicação com a Suzue, mas ela sabe o que fazer.”

Oh, é claro que Suzue era sua cúmplice. Como Haru pode ser tão idiota?

“Eu vou ligar para ela, mantenha o ferimento pressionado”, o inspetor murmurou, olhando ao redor enquanto discava o número da prima de Kambe.

Seu peito apertava, sua garganta ardia e ele tinha uma vontade enorme de chorar. Havia sido enganado duas vezes, por Kambe e pelo Mascarado, e sentia-se a pessoa mais burra do mundo.

E pensar que ele gostava dele…

Mas… quem era ele?

“Suzue-san, Kambe-san está ferido”, Haru disse mal ela atendeu a ligação.

Haru percebeu um segundo de hesitação por parte dela antes de falar, “Katou-san. É grave?”

Ele manteve o seu tom de voz duro, que era mais fácil para disfarçar o que sentia, “Não, mas se ficar aqui por muito tempo pode ser.”

Suzue soltou um suspiro nervoso do outro lado, e logo disse:

“Sigam o mapa que estou enviando para o seu celular, Katou-san. Há um bueiro na rua ao lado, vou causar uma distração nos policiais e vocês conseguirão fugir por ali”, disse.

Haru chegou o mapa e sorriu, ‘Obrigado, Suzue-san”, disse antes de desligar a chamada e estender seu celular para Kambe, “Bem, sabe o que fazer”

“Você… você não vem junto?”

O mais velho balançou a cabeça, “Eu não quero fazer parte disso. Não mais.”

Kambe encarou-o e o seu olhar, geralmente frio e calculista, reluzia com uma certa esperança que fazia o coração de Haru apertar.

“Haru-”

“Kambe, chega.”

O milionário segurou-lhe o pulso, “Por favor, tu tens de me ouvir. É perigoso.”

Haru não o encarava, magoado com tudo e com todos. Sentia-se humilhado, usado e, mais do que nunca, não desejado. Soltou-se da forma mais delicada que pode e balançou a cabeça, “Vá. Eu vou desviar a atenção dos policiais para mim”, disse e se afastou, “Por favor… não me procure mais.”

A muito custo Kambe levantou-se, segurando o braço por causa da dor.

"Haru!"

O polícia ignorou-o e correu na direção oposta para atrasar a perseguição.

Sem mais escolha, Daisuke teve de ir embora sozinho. Apertou a gravata no ombro e gemeu de dores, sentindo o sangue escorrer pelo seu braço. Seguiu as direções enviadas por Suzue e entrou no bueiro sem chamar atenção, já que Haru havia dito aos demais policiais que o Mascarado havia fugido por outro lado.

Cansado, sujo e ferido, Kambe seguiu pela rede de esgoto até o local indicado pela prima, saindo em outro bueiro, onde a mais jovem o aguardava.

“Daisuke!”, ela chamou, um kit de primeiros socorros pronto ao seu lado, “Precisamos limpar seus ferimentos!”

Ele sibilou levemente quando Suzue o puxou levemente para mais perto e rasgou a camisa para poder fazer o curativo.

“Onde está o Haru-san?”

“Ele não vem.”

Suzue piscou, “Como--”

“Vamos embora, Suzue… Não podemos ficar aqui.”

Ela assentiu, ainda nervosa e ajudou-o a levantar-se, “O carro está ali. Segura o sangue e eu já trato disso.”

Kambe assentiu e nem mesmo quando se sentou no carro, manchando os bancos claro com sangue, se permitiu relaxar. Queria voltar e falar com Haru, mas sabia que isso era um desejo impossível e infantil.

A sua prima conduziu a toda a velocidade para casa, de imediato para a garagem que usava como centro de investigação.

Por algumas semanas, houve silêncio por parte do inspetor. Embora Kambe ligasse para a agência onde Haru trabalhava, esse se recusava a falar consigo, e foi com uma surpresa enorme que o bilionário soube que o mais velho havia tirado férias.

“É a primeira vez em uma década, pelo que sei”, Saeki disse enquanto comia biscoitos amanteigados, “O Haru-chan parecia meio doente, não sei o que houve…”

Kambe assentiu, não conseguindo evitar baixar o olhar em culpa. Sempre atenta, Saeki esticou o saco das bolachas para ele, “Aconteceu algo entre vocês?”

Pela primeira vez desde que se conheceram, Kambe recusou as guloseimas de Saeki, que franziu o cenho.

“Só queria devolver isso…”, disse e lhe entregou o celular de Haru, “Ele perdeu por aí…”, murmurou.

“Por aí?”, ela levantou uma sobrancelha, encarando-o emburrada, “Tu sabes que eu sou polícia, certo? Consigo perceber quando me mentem.”

Kambe a encarou, mas não disse mais nada. Fez uma pequena vénia e deixou a sala e uma confusa Saeki para trás.

“Conseguiu falar com Katou-san?”, Suzue questionou quando o primo entrou no carro, resmungando de leve pelo desconforto do ferimento no ombro.

“Não, ele está de férias”

“De férias?”

Daisuke franziu levemente o sobrolho, “Ele deve ter percebido que o ia tentar contactar de qualquer forma, então afastou-se.”

A mais jovem soltou um longo suspiro, aguardando que Kambe se ajeitasse no banco ao seu lado para ligar o carro, “Sinto muito, Daisuke…”

Ela balançou a cabeça, interrompendo-a.

“Não sinta. Eu tinha total noção de que, se descoberto, Haru me odiaria”

“Sim, mas isso foi antes de você se apaixonar por ele…”

Daisuke franziu de leve o sobrolho e desviou o olhar para a janela, “É irrelevante.”

Suzue voltou a suspirar, e eles seguiram em silêncio para casa.

“Haru-chan? Haru-chaaaan~!”, Saeki chamou enquanto balançava a mão direita em frente ao rosto do mais jovem.

Haru, que estava perdido em pensamentos, piscou e olhou para a amiga, que sentou ao seu lado enquanto bufava, as bochechas infladas de ar.

“Oi, desculpe…”

“Eu estou aqui há cinco minutos e você nem olha na minha cara!”, ela fez biquinho, cruzando os braços.

“Desculpe”, Haru repetiu, e Saeki soltou um suspiro, apoiando o queixo na mão.

“Haru-chan, você está estranho desde que voltou das férias… Não era suposto você estar todo radiante e descansado? Até parece que você foi para o pior lugar do mundo e voltou!”

Ele sorriu de lado, “Estou tão habituado ao trabalho que estar fora me muda a rotina e é cansativo.”

Saeki suspirou de novo, “Assim não dá, Haru-chan. Precisas de animar.”

O mais jovem forçou o sorriso mais uma vez, e Saeki lhe ofereceu um doce, “Você não vai mesmo conversar com o Dai-chan? Afinal, por que vocês brigaram?”

“Já disse que não foi nada importante…”

Ela suspirou, "Haru-Chan, conheço-te há tempo suficiente para saber que não guardas rancores, nem mesmo dos teus inimigos. Se estás chateado teve de ser algo grave."

Ele deu de ombros, o olhar distante, “Por favor, eu não quero conversar sobre isso…”, Haru pediu, e Saeki mordeu o lábio inferior antes de assentir.

“Certo, desculpe”.

Haru agradeceu com um aceno leve, e novamente eles ficaram num silêncio desconfortável.

Kambe havia terminado seu café da manhã quando Suzue se aproximou de si, alguns papéis em mãos.

“Daisuke, eu descobri a localização do último chip.”, ela lhe apontou o mapa, “Está no prédio onde o Katou-san trabalha.”

O milionário achou tinha levado um soco na barriga, “Eu não… Eu não posso ir lá.”

“Daisuke…”, Suzue lhe segurou as mãos, “É o último chip… passamos o último ano atrás deles, e estamos tão próximos de alcançar o que desejamos…”, suspirou, “Não deixe que sua briga com o Katou-san o impeça de conseguir algo que por direito é seu.”

“Suzue, não dá…”

Ela lhe apertou as mãos, “Já se passou dois meses, Daisuke… tenho certeza de que Katou-san ouvirá você se tentar mais uma vez.”

O moreno abanou com a cabeça, “Se eu for lá, vou às escondidas.”

Haru nunca chegou a denunciá-lo ou a relevar a sua identidade à polícia e por isso Daisuke estava-lhe eternamente grato. Mas sentia falta dele e a culpa consumia-o cada vez mais e mais.

“Daisuke, por favor…”, Suzue pediu mais uma vez, compartilhando da tristeza do primo.

Ela sabia e entendia como ele se sentia, mas ainda tinha esperanças de que, se fossem conversar com Haru e explicassem tudo, as coisas poderiam ser resolvidas.

Seu primo, entretanto, não compartilhava das mesmas expectativas, então apenas abanou a cabeça tristemente.

“Ele mesmo me pediu para nunca mais contatá-lo, Suzue. É… é o mínimo que eu posso fazer.”

Suzue suspirou, deixando que Daisuke se afastasse de si, e ela o viu se dirigir até o escritório, onde ele trabalharia sem descanso por horas a fio.

Estava quente na manhã em que Suzue apareceu no apartamento de Haru. Ela usava roupas mais leves que o usual, e sorriu gentilmente quando o mais velho abriu a porta, surpreso pela visita.

“Suzue-san?”

“Bom dia, Haru-san. Desculpa vir sem avisar, sei que não é delicado.”, levantou uma caixinha com bolos que trazia na mão, “Achas que podiamos tomar um café e conversar?”

Haru voltou a piscar, mas assentiu e cedeu espaço para que Suzue entrasse. A moça agradeceu e retirou os sapatos, seguindo sem cerimônias para a sala/quarto do mais velho.

“Hm… eu não tenho cadeiras, pode se sentar na minha cama, Suzue-san”, disse, abrindo a janela para deixar entrar uma brisa mais agradável, já que seu ventilador estava estragado.

Ela agradeceu e sentou-se muito direita como sempre.

“Vou direta ao assunto. Vim aqui falar contigo por causa do meu primo.”

Haru piscou, e mesmo que Suzue esperasse que ele fosse dizer com todas as letras que não desejava saber sobre Kambe, ele questionou genuinamente:

“Aconteceu alguma coisa? Ele está bem?”

Ela suspirou e relaxou um pouco, “Sim. No geral sim. Mas toda a situação deixou-o num estado mental… não muito bom.”

Haru piscou, logo olhando para as próprias mãos.

“Diz isso sobre o ferimento?”

“Digo isso sobre tudo o que aconteceu. Katou-san, em nenhum momento o Daisuke quis enganar você”

O mais velho riu sem achar graça, “Bem, mas ele me enganou. Duplamente: como amigo e como… como…”

“Amante?”

Ele corou, “Não. Como rival”, disse entre resmungos, “Eu achava que ele fosse meu amigo! Mas ele mentiu para mim por semanas sobre a identidade do Mascarado!”

Suzue abanou com a cabeça, “Ele não mentiu, ele ocultou.”

“Vai dar no mesmo, neste caso.”, franziu o sobrolho com uma certa irritação e Suzue suspirou, “Katou-san, nós temos razões para fazer o que fazemos. Tentamos ao máximo não causar estragos e sempre que o fazemos garantimos que fornecemos meios para que os lesados possam ser compensados. Nunca ferimos ninguém, a não ser o próprio Daichan a cair de algum lugar por ser teimoso.”

“Suzue-san, ele me enganou! Ele…”, ignorou a vergonha, “Ele me beijou e flertou comigo e me tirou a paciência! Como ele ousou fazer tudo isso sob uma máscara e se fingir de meu amigo com a cara limpa?”

Ela abanou com a cabeça, “Tens a certeza que ele não ficou no flirt contigo sem máscara também?”

O mais velho riu, “Óbvio que não!”

“Mesmo? Pensa bem, Katou-san…”. Haru, irritado, olhou para Suzue, que suspirou e começou a apontar: “Ele acatou todos os seus desejos por comida, música ou lugares quando saíam juntos; pagou a maioria das coisas para você; o convidou duas vezes para um encontro e dormiu na sua casa”

Ele piscou, “Hey, ele pagou as coisas para mim porque não queria que eu desconfiasse dele. E ficou lá em casa porque estava tarde e eu não o ia mandar de volta bêbado”

Suzue deu de ombros, “Eu sou a pessoa que melhor conhece o Daisuke. Embora dinheiro nunca tenha sido um problema para nós, meu primo não é de sair pagando conta de terceiros. E quando ele voltou para casa depois de ter passado a noite aqui… Acho que nunca o vi tão feliz e animado. Ele desejava contar tudo para você: todos os motivos que o fizeram criar o Mascarado, mas ele teve medo--”

“Medo do que? Que eu batesse nele?”

“Medo que alguém machucasse você”

O inspetor piscou, baixando de leve os ombros, “Espera… ele está correndo perigo?”

Suzue assentiu, “Podemos dizer que sim. Mas não sou eu quem vai contar essas coisas para você, pergunte ao Daisuke”.

Haru cruzou os braços e encolheu-se um pouco num jeito defensivo , "Eu não estou preparado para falar com ele. Eu… Nem sei se quero falar com ele."

Ela tentou o máximo que conseguia não levar aquele assunto pessoalmente. Não era algo seu, mas Suzue era muito protetora do seu primo. Suspirou e abanou com a cabeça, "Não há muito que possa fazer quanto a isso, Katou-san, mas pelo menos tentei.", disse e se levantou, retirando da bolsa um envelope, “Por favor, leia. É do Daisuke”

Haru piscou e aceitou o envelope, encarando-o com curiosidade. Era o mesmo tipo de papel que o Mascarado sempre deixava e agora a memória era dolorosa para o moreno. Levantou-se também e Suzue sorriu levemente, “Obrigada pelo café, Katou-san, é sempre um prazer.”

Haru tinha dito a si mesmo que não ia abrir a carta, não ia tão rápido dar possibilidade de Kambe se explicar mas… Olhou para a carta de novo, pousada inocentemente na mesa desde que Suzue fora embora.

Suspirou e desistiu.

Com um resmungo, pegou no envelope e foi encostar-se na janela. Tinha já perdido a conta a quantos envelopes daqueles tinha lido ali. No entanto, a forma como a carta estava escrita era tão diferente do habitual que Haru não podia deixar de se sentir estranho com aquilo.A caligrafia bonita e arranjada era a mesma de sempre, mas não havia nenhuma piada idiota, nenhuma implicação.

“Inspetor Katou.

Escrevo-te porque penso que te devo uma digna explicação e não creio que seja possível fazê-lo pessoalmente, respeito a tua vontade de não queres ouvir. Porém, nada afirmaste contra a possibilidade de me ler.”

A carta, diferente dos bilhetes que o Mascarado… Bem, que Kambe costumava lhe enviar, foi direta ao ponto: o bilionário contou sobre sua mãe, uma excelente cientista que, apesar de ser o amor da vida de seu pai, nunca ganhou o reconhecimento dentro da família Kambe por ser uma mulher independente e estrangeira. Os Kambe, muito tradicionais e fechados em seu círculo social, ignoravam o casamento de Sayuri e Shigemaru, e negaram apoio à ela quando ela adoeceu. Apesar dos esforços de Shigemaru, que renunciou seu lugar nos negócios da família para ficar com a esposa e filho, ela veio a falecer quando Daisuke tinha apenas oito anos. Sofrendo de uma depressão profunda pelo descaso de sua família de sangue, Shigemaru deixou Daisuke aos cuidados da irmã, mãe de Suzue, e cometeu suicídio menos de seis meses após a morte da esposa.

Embora sentindo-se abandonado por tudo e por todos, Daisuke foi muito amado pelos tios e pela prima, e quando ambos terminaram seus estudos, voltaram ao Japão para ir atrás dos direitos de Daisuke naquela família: a um cargo nos negócios e aos bens materiais que pertenciam à Shigemaru e que estavam em posse da avó de Daisuke, Kikuko. Daisuke tinha o apoio de sua prima, e ele garantia a Haru que seu interesse não era por motivos econômicos, mas sim pessoais: sua família paterna havia lhe tirado ambos os pais em menos de um ano, assim como o negava como herdeiro e sócio. Daisuke procurava por diversos chips que continham provas de que ele tinha direito dentro da família Kambe, e por isso ele criara o Mascarado para entrar nos locais onde os chips eram escondidos sem despertar a atenção de Kikuko ou outro Kambe.

Entretanto, o último furto, na biblioteca, havia provado que os planos de Daisuke e de Suzue haviam sido descobertos, uma vez que haviam caído em uma armadilha, e Daisuke se ferira.

A carta terminava com Daisuke se desculpando por todos os meses em que enganara Haru, mas o bilionário garantia:

“Em nenhum momento meus sentimentos dirigidos a si foram falsos.”

Haru baixou a carta, o peito doendo.

Pegou sua jaqueta e saiu correndo de casa.