My Way

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Observação: Era pra ser uma drabble T.T
Observação 2: Não sei se vão reparar, mas eu achei minha escrita meio diferente... O.o
Observação 3: Música: My way - Frank Sinatra

1

Estava deitado sobre sua cama, pensativo, fitando o teto de madeira, com as pernas cruzadas. Brincava com um palito de dentes, rolando-o de um lado para o outro em seus lábios. Em cima de um móvel velho, um aparelho de rádio verde, grande e espaçoso, com seus botões exagerados estava ligado. Uma herança de seu pai. A única que foi permitida a ele receber. Ele gostava daquele rádio. Ele gostava de música. E mais do que isso, ele gostava daquela estação que tocava as canções de sucesso dos Estados Unidos.

Akanishi Jin não era capaz de compreender porque seu avô odiava as músicas que ele escutava, as roupas que usava, o corte de seu cabelo, tudo era motivo de discussão, tornando a convivência familiar cada vez mais insuportável. Seu avô praguejava milhares de impropérios cada vez que escutava alguém falar inglês ou mencionar os americanos.

Jin tinha apenas recém completo treze anos quando as bombas atingiram as duas cidades japonesas e ele estava no norte do país na época, longe de suas consequências. Ele não compreendeu naquela época a proporção daqueles eventos e, mesmo agora, era difícil para ele fingir que se importava apenas para agradar seu avô.

Soube apenas pelos jornais e comentários de parentes mais velhos sobre as desgraças das bombas. Ele tolerava o sofrimento de quem passou pela experiência, o que não era o caso de seu avô, que por conta da idade avançada havia recebido a missão de cuidar da família e os levou para Hokkaido no começo do conflito.

Seu pai, cujo rosto não lhe era mais do que um borrão, havia falecido em algum combate, que Jin não sabia muito bem dizer em qual, e sua mãe agora cuidava da loja de tofu. Ele poderia ter algum motivo para sentir mágoa dos americanos, mas eles estavam em guerra, certo? Na guerra, uns vencem os outros perdem. Eles perderam. Não fazia sentido exercer qualquer patriotismo sob aquela circunstância.

Era simples assim na sua cabeça. Enquanto alguns diziam que era vergonhoso viver sob a tutela americana, Jin se encantava com aqueles estrangeiros. Por alguma razão que ele não conseguia descrever com palavras, ele admirava a cultura que estava conquistando cada vez mais espaço no território nipônico. Os livros, as roupas, as músicas, principalmente as músicas, eram modernos, eram fascinantes.

Mas seu avô nunca foi capaz de entender isso e muito menos poderia conceber o modo de vida que o primogênito da família estava levando. Jin queria descobrir esse mundo novo que estava se fazendo surgir na reconstrução de seu país. Não queria estudar, fazer uma faculdade e ter um diploma apenas para grudar na parede e depois ter que sair a caça de qualquer emprego burocrático que lhe desse uma renda razoável para sustentar a família.

Não era como se ele não se importasse com sua mãe e seu irmão caçula. Até mesmo com seu avô ele se importava. E talvez ele seguisse esse caminho, se fosse o caçula. Mas por ser o primogênito, ele não queria aceitar as imposições sociais e fazer aquilo apenas porque era sua obrigação. Além do mais, Reio se mostrava muito melhor que ele nos estudos e já estava quase terminando a faculdade. Podiam deixá-lo em paz, portanto, mas não era isso o que acontecia. As brigas eram constantes e isso só fazia Jin desejar um lugar onde não pudessem encontrá-lo.

Frank Sinatra, com sua voz marcante, entrou no quarto de Jin e o despertou para o horário. Levantou-se e foi até o banheiro.

And now the end is near
So I face the final curtain
My friend, I'll say it clear
I'll state my case of which I'm certain

E agora o fim está próximo
Então eu encaro a cortina final
Meu amigo, eu vou falar claro
Eu irei expor meu caso do qual tenho certeza

Molhou o rosto e se encarou. Tinha uma aparência jovial, quase infantil, apesar dos seus vinte e seis anos. Sua idade poderia ser julgada pouca para muitos, e eles não estariam errados, mas Akanishi poderia dizer que já fizera muito mais que a maioria deles.

Retornou para o quarto com a toalha que secava o rosto e sentou-se na poltrona ao lado da janela. Seu olhar vagueou pelo céu claro, limpo de nuvens, que prometia um dia quente. E se lembrou de seu passado.


I've lived a life that's full
I've traveled each and every highway
And more, much more than this
I did it my way


Eu vivi uma vida que foi cheia
Eu viajei por cada e todas as rodovias
E mais, muito mais do que isso
Eu fiz do meu jeito

Jin estava farto das discussões familiares. Uma noite, ele vestiu sua jaqueta de couro que havia comprado de Nishikido, um amigo que tinha contato com os americanos, e partiu com ele iludido com a promessa de uma Tóquio moderna, cheia de oportunidades, amores e aventuras. E próxima dos americanos.

Foi quando ele tinha dezoito anos, em 1950, e foi quando o conheceu.

A realidade era outra e bem diferente do que ele esperava. Enquanto jovens como Jin estavam curtindo as novidades americanas no entretenimento, os que moravam próximos às bases militares sofriam com a dura realidade. Roubos, espancamentos, estupros, diversos tipo de violência, enfim, que muitas outras sociedades já haviam sofrido com o status de derrotados – inclusive tendo os próprios japoneses como carrascos – havia se tornado uma rotina em alguns lugares do Japão.

Logo que chegaram à capital foram assaltados. Perderam a moto com que viajavam, perderam o dinheiro e só sobraram as roupas que vestiam. Mas, por alguma estranha razão, principalmente para seu amigo, Jin não lamentou o fato. Sentia-se ainda mais livre, de algum modo.

– Esse tipo de liberdade que você busca só se encontra na morte. – Ryo resmungou, inconformado com a tranqüilidade dele. – Eu não sei você, mas ainda me acho muito novo para morrer.

Passaram por algumas dificuldades para conseguirem as primeiras refeições naquela cidade agitada e, depois de muito esforço por parte de Ryo, conseguiram um emprego na casa do diplomata Kimura Tanobu, que estava envolvido nas negociações com os americanos.

No início, Jin ficou excitado. Tão próximo daqueles que admirava e escutando conversas naquela língua tão bonita. E, enquanto limpava ao chão ou as janelas da casa, ele forçava sua audição para escutar o que diziam, não pelo assunto em si, mas pela vontade em assimilar aquelas palavras. Estudava por conta própria, tinha uma facilidade incrível em aprender e certamente teria uma carreira acadêmica muito bem sucedida, caso isso lhe interessasse.

O problema em Akanishi era que ele perdia o interesse rápido e logo perdeu o entusiasmo. Continuava a estudar o inglês, mas já não se sentia empolgado com as visitas dos americanos, eles já não tinham muita novidade para lhe oferecer.

Regrets, I've had a few
But then again, too few to mention
I did what I had to do
And saw it through without exception


Arrependimentos, eu tive alguns
Mas, novamente, muito poucos para mencionar
Eu fiz o que tinha que fazer
E eu vi tudo, sem exceção

Um dia, enquanto observava Ryo cuidar dos cachorros da casa, Jin lhe contou sua vontade em sair de Tóquio ou ao menos procurar outro lugar para ficar. E a resposta que recebeu não foi uma surpresa.

– Você está louco? Aqui estamos muito bem. Temos comida e casa e recebemos um salário razoável. Estou mandando algum dinheiro para minha irmã tomar conta de meus sobrinhos.

E Jin percebeu com algum desprezo que seu amigo havia perdido o seu espírito aventureiro após o trauma do assalto e os dias que viveram dependendo e caridade e completamente sem dinheiro. Depois, deixou de condená-lo e, na verdade, ele sentiu remorso. Em nenhum momento desde que fugiu de casa pensou em seus parentes. Como eles estariam?

Decidiu enviar uma carta e entrou na casa para pedir a Takahashi-san, a responsável pela organização da casa, um envelope e selo. Entrou pela parte de trás, destinadas aos serviçais da casa, e passou pela cozinha. Fez um comentário agradável sobre o aroma da comida de Sato-san, que sempre lhe elogiava as covinhas de seu sorriso e lhe dava uma fatia de omelete doce.

– Takahashi-san está no escritório, mas acho que não é um bom momento. – respondeu a cozinheira para a sua pergunta. – O filho do mestre acabou de chegar e eles estão discutindo.

Jin fez um bico e respondeu com um murmúrio. Recebeu um tapa em sua cabeça e um sermão de que deveria se comportar melhor. Ele apenas sorriu e Sato-san se derreteu.

Uma vez que não podia falar com Takahashi, Jin deixou a carta para depois e seguiu para o corredor para pegar os materiais de limpeza guardados no armário embaixo da escada. Passou diante do escritório e notou as vozes alteradas. Uma delas era a do dono da casa. Dizia algo sobre o caminho irresponsável pelo qual seu filho estava seguindo e Jin se lembrou de seu avô. Por isso ele se solidarizou com o filho e sentiu um pouco de raiva de seu patrão.

Ele sabia que Kimura Takuya, o único filho do diplomata, tinha um gênio difícil. Era impetuoso e fazia o que queria. Seu pai nunca conseguiu domá-lo e eles só se encontravam quando Takuya resolvia aparecer. Pela discussão que escutava, Jin conseguia entender o porquê de aquele homem querer ver seu pai tão poucas vezes.

Jin também sabia que Takuya era um homem estudado. Havia se formado em direito em Londres e falava inglês com a mesma fluência que o pai. Mas nunca exerceu profissão alguma. Alguns empregados comentavam que a situação havia piorado depois da morte da mãe dele. Pai e filho trocavam acusações sobre o desleixo e preocupações que causaram à falecida Saori.

Takuya nunca tocou em sua herança e outro rumor entre os serviçais era de que ele só voltava para trazer o dinheiro que o diplomata teria gasto em sua educação. Parecia querer cortar qualquer laço familiar, mas Jin entendia isso de outro modo, algo mais admirável. Aquele homem estava construindo seu caminho com sua própria força. E se não podia negar a ajuda que recebeu de seu pai enquanto ainda não era capaz de cuidar de si, agora ele se esforçava para ao menos quitar essa dívida.

Aos seus olhos, Kimura era um homem livre. E ele o invejava.

Jin fitava a porta do escritório quando ela se abriu e de lá saiu o alvo de seus pensamentos usando roupas bem descontraídas, calças jeans e camiseta branca. Eles tinham a mesma altura, assim que Jin, surpreendido, não foi rápido o suficiente para abaixar seus olhos em respeito ao seu patrão mais jovem. Mas também Jin não estava muito seguro de que o teria feito mesmo se tivesse tempo. Houve o contato visual e ele ficou satisfeito com isso, principalmente porque Kimura não pareceu prestar atenção nessa falta de respeito, esboçou um sorriso de canto e um leve aceno de cabeça, depois ele subiu a escada com alguma velocidade e desapareceu da vista do jovem.

O contato havia sido breve, mas a imagem dele ficou na cabeça de Jin pelo resto do dia. Enquanto se ocupava lavando o chão da entrada da casa, percorrendo de um lado para o outro com um pedaço de pano em suas mãos, ainda se recordava do encontro.

Kimura era um homem bonito e não passaria despercebido facilmente, mas, mais do que sua pele dourada por conta de seu modo de vida em que passava mais tempo em sua moto do que em alguma casa, ou mais do que seus cabelos cumpridos e queimados pelo Sol, presos em um rabo de cavalo, era a sua personalidade que o atraía. Era preciso reconhecer que Jin não o conhecia, mas, do que ele ouvira falar e da pequena discussão que foi testemunha, já havia criado uma imagem em sua fantasia e a aparência de Kimura não lhe desmentiu a ficção. Um homem com aquele olhar convicto, cuja expressão não parecia alterada pela briga com o pai, e que andava daquele modo firme não poderia ser menos do que ele havia imaginado. Estava certo disso. E estava certo de que queria ficar com ele.

Naquele instante, ele não soube bem explicar o que exatamente queria. Mas queria ir junto com Kimura quando ele partisse. Passou os dias imaginando como seria viajar o país de moto com ele. Seria uma grande experiência. Sim, seria agradável viajar com aquele homem, mas precisava se aproximar dele e isso era muito difícil, já que ele passava apenas algumas horas naquela casa, geralmente para dormir, e depois partia em sua moto. Jin às vezes temia que Kimura partisse sem avisar e que ele ficasse esperando seu retorno dia após dia, sempre com medo de partir e descobrir que no dia seguinte ele teria retornado.

Julgava-se um tolo por ter essas emoções por alguém que nem ao menos conhecia a voz direito. Ouvia-o falando com o pai ou com outros empregados, mas diretamente eles nunca conversaram. A sua chance chegou quando numa noite de muita chuva Kimura voltou para a casa com sua moto encharcada de lama. Assim que amanheceu, Jin arrumou baldes com água, sabão e panos e se prontificou a limpá-la enquanto seu dono ainda dormia.

Era uma moto velha, mas muito bem conservada se levar em consideração o quanto era utilizada pelo dono, e ainda mantinha muito do seu charme de seus primeiros anos. A Jin ela parecia incrível. Esqueceu-se da vida enquanto retirava a lama de cima dela e nem ao menos prestou atenção quando Takuya se aproximou.

– Quem pediu para limpá-la?

A sua voz era baixa e tranqüila, mas Jin pensou que era uma bronca e se ergueu rapidamente com uma postura atrapalhada e humildade. Olhou para o rosto sério de Takuya que, sob os óculos Ray Ban, era difícil afirmar o que ele estava realmente pensando.

– Eu...

E então um sorriso.

– Não me confunda com meu pai. Se ele o contratou para servi-lo, seus serviços não se estendem a mim. Não precisava fazer nada... Se não quiser.

Eles estavam conversando. Jin ansiava tanto por isso que por alguns instantes não soube o dizer. Viu Takuya se aproximar e lhe tirar o pano das mãos, em seguida ele se agachou e começou ele mesmo a limpar a sua moto.

– Eu limpo as minhas bagunças. – ele terminou.

– Não, eu... Quero dizer... Ninguém me mandou, eu só…

– Ah, então quer me ajudar? – e diante do movimento positivo da cabeça de Jin, Takuya apontou o outro balde.

Jin aceitou, pegou o outro pano e deu a volta no veículo, iniciando a limpeza daquele lado. E não disseram mais nada durante todo o tempo em que ficaram concentrados na moto. Parecia como se estivessem envolvidos em um ritual, dividindo aquele momento como uma experiência única. Ao menos, essa era a impressão para Jin. De vez em quando lançava um olhar para o mais velho e ele simplesmente estava tranqüilo, absorto na tarefa e sorrindo de vez em quando diante de um resultado agradável.

Voltaram a conversar quando seguiram juntos para os fundos da casa, onde havia uma ducha. Kimura a abriu e lavou as mãos e o rosto, aceitando depois a toalha que Jin lhe entregava e cedeu o espaço para o garoto se limpar.

– Gosta de motos?

A pergunta lhe pareceu tardia, mas ainda assim Jin a respondeu com um aceno de cabeça e depois emendou.

– Meu amigo tinha uma... Nós estávamos viajando com ela quando nos roubaram e acabamos parando por aqui.

– Quer dizer que aqui nunca foi o objetivo de vocês?

Jin sacudiu a cabeça.

– Ao menos, não era, mas acho que agora Ryo não tem planos de sair daqui.

– E você? Quer sair daqui? Não gosta do trabalho?

– Não é que eu não goste. Também não é algo que eu goste. – ele respondeu de forma confusa. – É só que eu não quero ficar muito tempo em um único lugar.

– Entendo... – ele pareceu pensativo. – E tem algum lugar que você queira ir?

Ele não hesitou.

– Existe.

– Aonde é?

– Aonde eu nunca fui.

Kimura o olhou com mais atenção.

– O mundo é maior do que você imagina.

– Melhor ainda... Então eu não posso mesmo perder tempo em um lugar só... Então... Por isso… Quando você partir, será que eu podia…

– Ir comigo?

Jin acenou.

– Não tenho idade pra tomar conta de um pirralho como você.

– Não foi isso o que eu pedi. – argumentou e percebeu que tinha esquecido que estava falando com o filho de seu patrão, mas também não voltou atrás. Agora já tinha dito o principal àquele homem. Queria ir com ele.

Não recebeu resposta. Kimura simplesmente lhe deu as costas e voltou para casa. Naquela noite, Jin não conseguiu dormir pensando que depois daquela conversa Kimura decidisse partir antes do que tinha planejado. Não soube explicar esse temor, sabia que sua existência era insignificante para o outro, que ele jamais se moveria levando em consideração qualquer atitude sua. Ainda assim, nos dias que se seguiram, ficou com a impressão de que estava sendo ignorado.

Entretanto havia sido apenas a sua inexperiência e ansiedade misturada à sua timidez pelas palavras imprudentes que lhe provocaram tais aflições infundadas, pois, certa noite, Kimura o convidou para jantar e parecia completamente esquecido da primeira conversa que tiveram.

Estavam a sós na casa, tendo o pai de Takuya viajado para a América em uma encontro para definir a situação dos americanos no Japão, uma discussão que perduraria por muitos anos, e como era uma viagem longa, levou com ele a sua fiel Takahashi-san e a cozinheira Sato-san. Ryo havia pedido alguns dias para visitar a família e aproveitou a ausência do patrão para isso. Jin preferiu ficar junto com mais dois criados, a sobrinha de Sato-san, Akemi, que a substituiu na cozinha e o jovem Yuhiko, que fazia tudo o que lhe mandassem, principalmente serviços mais simples como levar mensagens ou fazer compras.

– Esta casa é muito grande. – Takuya observou enquanto jantavam. – Não sei como ele consegue continuar morando aqui depois que minha mãe morreu. Já era solitário quando ela ainda estava viva...

– Não gosta de solidão? – Jin indagou.

– Não é algo que alguém possa apreciar. – ele respondeu, rindo daquela pergunta.

– Então porque gosta de viajar sozinho?

Houve uma pausa e o garoto se perguntou se estaria novamente sendo imprudente. O olhar de Takuya demorou sobre seu rosto e Jin tentou se mostrar tranqüilo, embora sentisse um calor inquietante em seu peito e ele estava com medo de que suas bochechas estivessem coradas iguais às crianças quando sabem que estão provocando a paciência dos pais. Não queria que ele continuasse o considerando um pirralho.

– Não é que eu gosto de viajar sozinho. – ele respondeu, finalmente e Jin quase soltou a respiração, aliviado. – É só que está cada mais difícil encontrar uma companhia interessante. As pessoas ainda tem medo de andar em seu próprio país com medo de pisar em alguma bomba ou trombar com militares americanos. Preferem fixar raízes e tocarem suas vidas. Não estão erradas. É só que esse tipo de vida não é pra mim.

Essa resposta fez os olhos de Jin brilharem. Mais do que se identificar com aquele modo de vida, ele havia recebido a senha para o que ele tanto desejava. Tinha que fazer Kimura desejá-lo igualmente. Agora ele sabia o que tinha que fazer, embora ainda não tivesse a menor ideia de como fazê-lo.


I planned each charted course
Each careful step along the byway
Oh, and more, much more than this
I did it my way


Eu planejei cada percurso
Cada passo cuidadoso ao longo da estrada
Ah, e mais, muito mais do que isso
Eu fiz do meu jeito

Jin sabia que tinha que ganhar a confiança daquele homem. Todos os dias tentava avançar um pouco mais no relacionamento com ele. Acordava cedo e lhe preparava o café, fazia questão de acompanhá-lo, já que Takuya não se importava que ele fosse um empregado ou não de sua casa e Jin achou que a viagem de seu patrão não podia ter acontecido em melhor hora. Usaria o tempo até o seu retorno para conquistar seu filho de alguma forma.

As conversas começaram a se tornar mais produtivas. Jin tinha perdido a sua timidez e fazia inúmeras indagações dos lugares pelos quais Kimura havia passado. E o homem parecia disposto a contar todos os detalhes, certamente não tinha um ouvinte tão dedicado há muito tempo e Takuya até mesmo ria do olhar extasiado de Jin diante de suas histórias.

O tempo é o melhor aliado para tudo. Takuya passou a se interessar nos objetivos do garoto sonhador que lhe seguia o tempo inteiro. Perguntou-se sobre seus objetivos e seus estudos. Como muitos, ele o aconselhou a estudar e isso fez Jin torcer o nariz e perder um pouco do brilho em que havia envolvido Takuya, mas não chegou realmente a trincar sua imagem, já que foi apenas um comentário que depois Jin julgou ter sido apenas por educação.

Mas, apesar dos avanços em se tornar mais amigo de Takuya, nada o fazia aceitar suas propostas de levá-lo com ele em sua próxima viagem. O rapaz sacudia a mão e rejeitava aquela ideia como se estivesse afastando uma mosca. Às vezes ele ria de verdade zombando das ilusões de Jin, que chegava a se irritar e a se afastar dele durante algumas horas. Isso não durava sequer um dia, pois Takuya conseguia desfazer o mau-humor dele contando situações engraçadas ou arriscadas que tivera que enfrentar.

Jin não pode deixar de se sentir frustrado, contudo. E o cansava cada vez mais que Takuya risse dele para em seguida lhe afagar a cabeça com uma história divertida. Não conseguia entender as ações daquele homem que gostava tanto de caçoar dele, mas não o deixava ficar longe.

Um fato aconteceu e então Jin entendeu o que deveria fazer para conseguir o que tanto queria.

Já estavam próximos das datas em que caíram as duas bombas atômicas e, com isso, o regresso do diplomata Kimura estava próximo também, ele deveria comparecer as solenidades, afinal. Por isso, Jin, Yuhiko e Ryo, que aquela altura já tinha retornado da casa de seus parentes, decidiram fazer uma grande faxina na casa para receber o patrão.

O mês de agosto é o mais quente do verão japonês e depois de tanta movimentação, ao final da tarde, Jin foi em direção ao rio que cruzava a parte de trás da casa dos Kimura para se banhar. Havia árvores em volta, então ele não se incomodou em se despir. Levou algum tempo para retirar completamente o quimono que costuma usar para servir à família.

Depois se aproximou do rio e entrou vagarosamente, deixando seu corpo se acostumar com a temperatura fria da água. Molhou o rosto e os cabelos, jogando-os para trás, e depois mergulhou. Nadou por algum tempo e depois se apoiou na beirada, com os braços cruzados sobre a grama, deixando seu corpo flutuando de forma relaxada. E foi quando ele o viu.

Entre duas árvores, o vulto de Takuya. Não estava longe demais para não ser reconhecido e nem para não perceber que havia sido flagrado. Mas ele continuou ali, observando-o, como se esperasse por uma reação sua. Jin não soube o que fazer, então apenas manteve o contato visual. Por fim, Takuya fez um gesto que Jin interpretou como um deboche, ele parecia estar rindo do seu constrangimento e, então, deu as costas e partiu.

Ele ainda ficou algum tempo no lago, pensando no que tinha acontecido. Quando regressou à casa, já tinha decidido o que faria. E teria que ser naquela noite, véspera da chegada de seu patrão.


Yes, there were times, I'm sure you know
When I bit off more than I could chew
But through it all when there was doubt
I ate
it up and spit it out
I faced it all and I stood tall
And did it my way

Sim, houve vezes, eu tenho certeza que você sabe
Quando eu mordi mais que eu podia mastigar
Mas apesar de tudo quando havia dúvidas
Eu engoli e cuspi-la
Eu passei por tudo e fiquei de pé
E fiz do meu jeito

Não jantaram juntos daquela vez. Havia um clima estranho após o que tinha acontecido no rio e eles pareciam se evitar. Após a refeição, Kimura foi para seu quarto para ler. Jin terminou suas tarefas, banhou-se e disse a Ryo que dormiria mais cedo, ao que o amigo respondeu que logo mais sairia para beber com os rapazes.

Quando escutou Ryo fechar a porta, Jin se levantou e, segurando uma vela, seguiu para a casa principal. Entrou pela cozinha escura, que sempre ficava aberta mesmo à noite, a porta que levava ao corredor da casa era que ficava trancada, mas ele tinha a chave e não se preocupou com isso. Trancou-a novamente, já do outro lado, e subiu para o andar dos quartos.

Diante da porta que sabia ser o quarto dele, Jin apagou a vela e a deixou no chão, ao lado da porta e girou a maçaneta. O quarto que Takuya gostava de usar não era o seu, mas o de hóspedes, por ser menor, cabia apenas uma cama de solteira grudada à parede do lado direito e à janela, em cima da cabeceira, que permitia à luz prateada da noite iluminar quase a cama inteira.

Takuya estava lendo em sua cama, com uma perna apoiada no chão e a outra dobrada em cima da cama, usada como apoio para o livro. Estava apenas com uma calça para dormir e seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo, com algumas mechas se desprendendo em cada lado do rosto.

Assim que ouviu a porta se abrir, ele desviou o olhar para ela e viu o rapaz entrar. Não disse nada, apenas o observou fechar a porta com o trinco e se aproximar. Por sua vez, Takuya deixou o livro e os óculos para leitura no móvel ao lado da cama e esperou.

Jin parou diante dele e começou a desamarrar a faixa da cintura de seu quimono, satisfazendo-se com o sorriso que brotou nos lábios carnudos do homem na cama. Assim que a faixa caiu no chão, a parte de cima do quimono se soltou, revelando a pele branca e macia.

Takuya estendeu a mão e o puxou pela cintura para mais perto, deixou seu rosto encostar-se à barriga de Jin vagarosamente e esparramou seus lábios ali, regozijando-se com os pequenos tremores que notava. Certamente era a primeira vez daquele garoto. Sorrindo de canto, Kimura olhou para cima mais uma vez e encontrou um misto de temor e determinação. Então ele se acomodou na cama e colocou o garoto sobre seu colo.

As mãos de Kimura subiram pelas costas de Jin até sua nuca e puxou o quimono, desnudando seus ombros e expondo-lhe a clavícula, onde cravou seus lábios com firmeza e apertou o abraço ao notar a fuga do garoto por ter sido tocado em uma área sensível e não o deixou se mover, mas parou de judiá-lo e subiu sua boca para o seu pescoço.

Então Jin se desmanchou, relaxando com aquela carícia, seu quadril acomodando-se melhor sobre o dele, e se sentiu mais à vontade para tomar o rosto de Takuya com as mãos e beijá-lo. Moveu seu próprio corpo para frente, esfregando seu sexo contra o dele, notando como isso o excitava pela resposta que recebia com os beijos mais cheios de paixão e desejo. Kimura mordeu seus lábios e o sugou vagarosamente, deixando seus dentes deslizarem pela pele interna dos lábios de Jin, até que se separavam e então ele o tomava de novo.

Jin deixou escapar um gemido que incentivou as mãos de Kimura a lhe empurrarem delicadamente para trás, sentando-o na cama com as pernas arqueadas e lhe puxou as calças. Admirou-o por um instante naquela posição. Jin se apoiava com as mãos para trás, as pernas ainda dobradas, o rosto inclinado e corado. Ele era ainda menor de idade pela lei, mas já sabia como despertar o desejo dos outros. Naquele momento Kimura já estava excitado demais para pensar em qualquer conseqüência dos atos que planejava fazer com ele.

Tomou Jin de volta em seu colo e voltou a beijá-lo no pescoço, enquanto uma de suas mãos começava a brincar com seu sexo. Abriu seus olhos, era um ângulo perfeito para rosto entregue e cheio de prazer daquele garoto. Os lábios entreabertos e os olhos fechados, um pequeno gemido. Um aperto mais forte, um gemido mais alto e a cabeça de Jin pendeu para trás, arqueando seu corpo. Kimura já não alcançava mais o pescoço naquela posição, então desceu os beijos para os mamilos, mordeu os de leve e depois seguiu para a barriga e o umbigo.

Sua mão direita desceu pelas costas do garoto e alcançou suas nádegas. Jin entendeu o sinal e se endireitou sobre o sexo dele. Sentiu dor, muita dor, e se agarrou ao pescoço de Takuya, que voltou a masturbá-lo para a distraí-lo e começou a movimentar seu quadril com mais velocidade. Beijaram-se.

Kimura saiu de Jin e o virou de barriga na cama. Subiu por cima dele e se apoiou na cabeceira da cama, colocando-se novamente dentro do garoto. Quando terminou, Jin estava esgotado, respirando pesadamente, com o rosto colocado no travesseiro e suando bastante. Não disse nada, seu corpo ainda tremia e ele sentia que sua voz falharia. Além disso, o sono veio rápido, deu tempo apenas de registrar o toque suave dos lábios de Takuya sobre seu rosto e escutou seu riso.

Um riso de alguém que havia sido derrotado.


I've loved, I've laughed and cried
I've had my fails, my share of losing
And now as tears subside
I find it all so amusing
To think I did all that
And may I say, not in a shy way
Oh, no, no not me
I did it my way


Eu amei, eu ri e chorei
Tive minhas falhas, minha parte de derrotas
E agora como as lágrimas descem
Eu acho tudo tão divertido
Pensar que fiz tudo o que
E talvez eu diga, não de uma maneira tímida
Oh, não, não, não me
Eu fiz do meu jeito

Partiram poucos dias depois da solenidade em memória dos que perderam a vida durante a Segunda Guerra Mundial. Jin vestiu novamente sua jaqueta de couro, calças jeans e suas botas velhas. Despediu-se de Ryo e subiu na garupa da moto.

Seguiram para o sul do país, queriam aproveitar o final do verão. Passaram por muitos lugares, conheceram muitas pessoas, Jin estava realizado. Eles não ficavam tempo suficiente em nenhuma cidade para a rotina começar a lhe perturbar, então para ele estavam sempre em constante novidade, estava sempre excitado.

Kimura era mais tranqüilo. Mesmo em uma cidade desconhecida, ele já não agitava tanto quanto o mais novo. Havia se habituado com o novo, não era algo mais tão atraente, mas era prazeroso ainda para mantê-lo nessa vida. E agora também existia o rosto sempre ansioso de Jin para fasciná-lo durante as viagens.

Jin era muito curioso, cada dia que passava aprendia algo mais. Não sentiu medo do futuro incerto, na verdade, sentia-se muito à vontade em viver um dia por vez. Ele não havia se enganado, Kimura lhe proporcionou experiências incríveis. Entre elas, o ciúme.


Kimura vivia enciumado. Jin era um rapaz bonito que despertava muita atenção aonde ele passava, principalmente nos bares e boates, locais que eles freqüentavam com certa assiduidade pois era onde eles encontravam a comida e bebida mais baratas. Aqueles lugares tinham um público formado de pessoas nos níveis mais baixos da sociedade: empregados, prostitutas, ladrões e andarilhos. Não era nada anormal os olhares gulosos em direção ao garoto.

Jin percebia, mas não ligava. Na verdade, às vezes gostava de provocar Kimura e puxava assunto com outros homens de forma descontraída, fingindo não perceber seus interesses. Ele fazia isso porque o resultado era extremamente recompensador: transavam com muito mais ímpeto.

Mas não foi nada divertido quando o contrário aconteceu. Foi durante o terceiro ano daquela viagem sem fim. Eles estavam se demorando muito mais tempo que o habitual em uma cidadezinha próxima a Gunma e Jin começava a se indagar o motivo disso. A sua suspeita despertou quando acordou mais tarde que Takuya certo dia e, depois de tomar o café com a dona da hospedaria – a quem ele havia conquistado com a mesma técnica de elogiar a comida que havia funcionado com Sato-san – Jin foi andar no centro da cidade.

O avistou no posto. A moto estava estacionada e Kimura enchia o tanque por conta própria, como era o costume da região. Jin estreitou o olhar ao notar um rapaz sentado sobre a moto, fingindo que pilotava o veículo. Ele sentiu ódio quando reconheceu quem era.

Kamenashi Kazuya foi uma das primeiras pessoas que eles conheceram naquele lugar – e que indicou a hospedaria em que estavam morando – e desde o começo Jin não o suportou. Era falante e fazia muitas perguntas, a maioria direcionadas a Kimura, que lhe respondia com bom humor. Na verdade, Jin desconfiava que o ego de Takuya se inflamava quando era alvo de admiração desta forma. Não foi do mesmo jeito que ele havia conquistar o rapaz? Jin via a si mesmo nos modos de Kamenashi e isso o fez ter certeza de que o garoto estava apaixonado pelo seu homem.

Todos os gestos de Kamenashi, aos olhos de Akanishi, tinham o único intuito de seduzir Kimura. O modo como ele sorria de canto, os olhares rápidos de esguelha, o modo como lambia seus lábios enquanto falava. Sob uma falsa ingenuidade juvenil, aquele garoto estava sempre por perto, sempre ao lado de Takuya. Ele tentava ao máximo se controlar, mas vê-lo em cima da moto foi o ápice, como se isso representasse que ele estava se apossando do que lhe era mais caro.

Não pensou no que fazia, não conseguia raciocinar. A raiva era tão poderosa que ele se jogou por cima de Kamenashi, derrubando-o no chão com moto e tudo, o peso do veículo causando uma grande dor na perna do garoto. Jin ainda o segurou pela gola e tentou atingir o rosto algumas vezes, mas Kamenashi conseguiu segurar seus braços enquanto Kimura o puxava pela gola para afastá-lo.

– Você está louco?? – Kimura vociferou.

Algumas pessoas se aproximaram com todo aquele barulho. Os funcionários do posto de gasolina ajudavam Kamenashi enquanto Kimura afastava Akanishi dali até um beco onde o jogou contra o muro.

– O que você está pensando? O que queria fazer?

Aquela atitude agressiva por parte de Kimura deu a certeza para Akanishi. Ele estava se envolvendo com aquele garoto.

– Vocês transaram. – ele disse simplesmente.

Kimura estranhou aquele comentário. Passou a mão pelo cabelo, nervoso. Lambeu os lábios, respirando fundo.

– Do que é que você está falando? Fez isso por ciúmes? Agrediu aquele menino por isso?

– Você vive comprando brigas por causa disso também, não me acuse de ter feito algo tão extraordinário assim.

– Isso é completamente diferente. Eu bato em caras que certamente vão te agarrar e te foder a força se te pegarem sozinhos. Eu tenho que te proteger. Kamenashi não é nenhuma ameaça para mim, não se preocupe. Você bateu numa criança por causa disso?

– Isso é ridículo, ele é franzino, mas é só dois anos mais novo que eu. Não caía nessa fragilidade dele que não existe e, além do mais... Eu... Eu também tenho o direito de proteger o que é meu.

Jin o encarou. Kimura secou os lábios mais uma vez e depois avançou, segurando a gola da jaqueta de couro empoeirada e com um pouco do sangue de Kamenashi, e o pressionou contra a parede. Aproximou o seu rosto, suas bocas muito próximas, suas respirações se confundindo.

– Você é meu. – ele disse e com tamanha convicção que Jin sentiu um forte arrepio –... Mas eu não sou propriedade de ninguém. Nem tente pensar o contrário. Você é meu... E só você.

Depois disso ele o soltou e voltou para o posto. Jin permaneceu ali, estupefato, seus sentimentos em grande confusão. Ainda estava agitado pela briga, irritado com a ousadia de Kamenashi, revoltado com a bronca de Kimura e em êxtase com as últimas palavras dele. Apenas ele pertencia a Kimura.

Apesar desse momento, com o passar dos dias, a insegurança de Jin retornou. Kimura não lhe dirigia a palavra, ainda bravo com o que tinha feito e, o que era muito pior, não se afastava de Kamenashi. Pelo contrário, depois de tudo, ele parecia igualmente devoto ao garoto.

Ele tentou outros modos de se livrar daquela situação. Tentava conversar normalmente e fingir que não se machucava em ser ignorado. Sugeriu a Kimura diversas vezes que podiam ir para a Coréia – que era uma das vontades de Jin, sair do país – antes que o inverno chegasse e eles ficassem presos ali. A reposta que recebeu, quando finalmente o amante lhe deu uma, era de que não teriam dinheiro suficiente para isso e que era melhor esperar o inverno passar antes de viajarem.

Jin não acreditava que teriam que passar mais três meses na companhia de Kamenashi Kazuya. Ele não achava que as coisas pudessem piorar, mas pioraram. Jin sentia-se muito solitário porque Kimura não o procurou mais, então ele se ofereceu, mas foi rejeitado. Aquilo foi um grande golpe. Percebeu que estava mesmo perdendo Kimura e não sabia mais o que fazer.

Quando a estação do ano virou, Jin adoeceu. Nunca teve uma resistência muito grande à chegada do inverno, mas naquela época já não estava se alimentando muito bem pelas preocupações e caiu de cama logo na primeira semana. Kimura não pode mais continuar com seu castigo e voltou a lhe falar normalmente. Acordava-o para o café da manhã que ele levava no quarto, dava-lhe os remédios necessários e depois saía para trabalhar. Havia arranjado um trabalho temporário como ajudante em um armazém logo que chegaram naquela cidade e, em partes, era isso o que também o prendia ali. Realmente estavam com pouco dinheiro, então precisavam juntar o máximo possível. No final do dia, após o jantar, Kimura voltava à cama de Jin e lhe fazia companhia até que ele dormisse.

Então, um dia, Jin sentiu-se melhor e quis dar uma volta. Havia nevado muito durante a manhã, mas àquela hora as ruas já estavam novamente transitáveis. Ele ignorou os protestos da dona da hospedaria, encheu-se de roupas, enrolou um cachecol no pescoço e seguiu para o armazém.

Lá, ele foi informado de que Kimura estava arrumando alguns produtos no estoque. Agradeceu a informação e, conhecendo o caminho, dispensou a companhia de outro funcionário. E foi melhor assim porque, para o que ele presenciou, já bastava ele de testemunha.

Era uma casa de porte pequeno, era apenas para manter o estoque ali, um galpão. Pelas janelas, Jin viu que as luzes estavam apagadas e estranhou. Era inverno, já estava um pouco escuro e logo mais anoiteceria. Pensou que talvez Kimura já não estivesse mais ali, mas preferiu se certificar.

Então ele entrou em silêncio. Não saberia explicar o porque disso. Talvez um pressentimento. Também não ligou a luz, deixou-se guiar pela iluminação que entrava das janelas. Passou entre estantes, até alcançar o fundo do galpão e parou atrás de uma estante, de onde tinha uma visão perfeita de dois corpos em cima de uma mesa, movimentando-se rápido. Ouviu suspiros e gemidos leves.

Sentiu raiva. Teve impulso em pular sobre eles e esmagar aquele rosto pálido de Kamenashi contra o chão até que sangrasse totalmente. Mas não o fez. Apertou os punhos, mordeu os lábios e foi embora.

Na hospedaria ignorou as perguntas da proprietária e voltou para a sua cama. Fingiu que dormia quando Kimura chegou e lhe beijou a fronte. Sentiu repulsa. Era por isso que ele estava tão carinhoso recentemente. Era a culpa.

Jin chorou baixo e socou a cama quando ficou sozinho novamente. Desabafou sua mágoa em seu travesseiro. Apesar do sentimento doloroso que experimentava, ele estava certo de uma coisa. Não queria perder aquele homem, então tinha que agir de outra forma. Não podia bater de frente, já havia perdido da outra vez por causa disso e muito provavelmente só estavam transando agora por causa do seu primeiro passo imprudente. Mas não repetiria o erro.

Passou a noite em claro, mas no dia seguinte já sabia o que teria que fazer. A primeira coisa foi acordar bem disposto. Encontrou Kimura ainda na mesa e lhe garantiu que estava bem. Roubou-lhe um grande beijo enquanto a dona da pensão não estava olhando e lhe sorriu como há muito não fazia.

– Quero dar uma volta, posso pegar a moto?

– Tem certeza de que esta bem para isso?

– Estou bem, não se preocupe. Preciso respirar um pouco.

– Não exagere, não vá para longe e dirigia com cuidado, a neve deixou muitas ruas intransitáveis.

Jin disse que seguiria suas ordens e depois saiu. Voltou pouco depois, sorriu e piscou um olho e disse sem nenhuma hesitação:

– Eu te amo.

For what is a man, what has he got
If not himself, then he has not
To say the words he truly feels
And not the words he would reveal

Pois o que é um homem, o que ele tem
Se não, então ele não tem
Para dizer as palavras que ele sente de verdade
E não as palavras que ele deveria revelar

Kimura o olhou sem reação, Jin riu e fechou a porta, deixando-o atordoado. Depois que se recompôs, porém, Takuya não pode não sorrir. Continuou a sua refeição e depois foi para o armazém. Sentiu-se um pouco incomodado com o que tinha acontecido na noite anterior. Pensou que era uma coincidência bastante desagradável que Jin lhe declarasse seu amor horas depois que havia fodido com aquele outro garoto.

Não era que não amasse a Jin, embora nunca houvesse dito tal coisa. Mas depois de três anos juntos isso era algo óbvio. Aconteceu que sentiu tesão, aquele garoto o seduzia a todo o custo e fazia muito tempo que não tinha sexo com Jin. Não era algo que ele pretendia manter por mais tempo.

Ele estava decidido. Mas mesmo que Jin soubesse disso, não teria mudado o que aconteceu. Kimura estava no meio do trabalho quando aquela notícia chegou. Um acidente. A moto estava irreconhecível. Ele sentiu sua boca secar e seu coração bater mais veloz em protesto àquela situação. Largou as coisas do jeito que estavam e seguiu com o rapaz que havia lhe informado.

A ambulância ainda não havia chego quando ele chegou ao local do acidente e viu Jin caído. Apesar dos protestos, ele o tomou em seus braços, chocado com a quantidade de sangue que escorria da testa dele, desesperado sem saber o que aconteceria com ele. E logo sentiu um alívio ao ver a testa dele se franzir e escutar seu gemido de dor, ao mesmo tempo, seu peito também doeu. Era um alívio doloroso preferir ouvi-lo gemendo de dor a um silêncio que pode significar a morte.

– Não me deixe... – ele implorou em seu ouvido. – Não depois que me fez acostumar a viajar ouvindo sua risada. Eu te amo, Jin.


The record shows I took the blows
And did it my way
The record shows I took the blows
And did it my way


Os registros mostram que eu recebi as desgraças
E fiz do meu jeito
Os registros mostram que eu recebi as desgraças
E fiz do meu jeito

O ano era de 1958. Jin desligou o rádio e saiu do quarto daquela pequena casa isolada no interior de Toyama. Depois daquele acidente foi preciso um ano e meio até que Jin estivesse completamente restabelecido.

Não entrou mais ninguém na vida deles para atrapalhar o relacionamento deles. Existiam apenas duas hipóteses: Kimura estava mais cuidadoso com seus amantes ou ele aprendeu a lição. Jin lhe pertencia, mas poderia fugir a qualquer instante e de uma forma irreversível. E, o principal, ele também já estava sob a posse do mais novo. Jin o fez compreender que até mesmo ele, Kimura, poderia desejar ter um dono. À sua maneira, Jin o dominou.

Seguiu para a rua, calçando suas botas e colocando sua jaqueta, ainda empoeiradas da sua última viagem – há dois dias – e seus olhos percorreram a plantação de arroz e a estrada deserta.

Encostou-se à porta e retirou o maço de cigarros do bolso de sua jaqueta de couro e levou um aos lábios carnudos. Acendeu-o, protegendo o fogo com uma mão. Fumou tranquilamente, ainda sentindo-se nostálgico. De vez em quando o passado o pegava desprevenido e então ele se via recordando-se de tudo o que viveu desde que conhecera aquele homem. Até aquele acidente provocado por ele mesmo foi apenas metade da história que eles construíram. Ainda havia cinco anos de muitos acontecimentos. Jin pensou que daria um bom livro. E eles ainda estavam apenas no começo...

Franziu a testa ao escutar um som e então ergueu o olhar novamente para a estrada. Ao final dela, reluzindo em sua moto, estava ele. Vindo ao seu encontro. Vindo para buscar o que era seu.

A moto parou diante dele. Kimura tirou seus óculos e o encarou. Jin apagou o cigarro e jogou o toco em um canto, pisando em cima. Aproximou-se do veículo e sustentou o olhar arrogante do homem. Abriu e boca e disse:

– Tadaima.

Takuya riu de leve. Aquele rapaz tinha ideias estranhas, mas esta combinava com o tipo de vida que eles levavam. Realmente, não tinha outro lugar melhor para definir como o lar deles do que aquela moto.

– Okaeri.

Kimura o beijou demoradamente e depois Jin subiu na moto, segurou firme na barriga dele e partiram mais uma vez. Como sempre seria.

Notas finais
Espero que tenham gostado =)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!