My Tiger
49 Fuga
Notas iniciais
—Ren o que aconteceu com você? Você parece… Um pouco assustado. – Kadam falou enquanto abria um pergaminho antigo que estava guardado em sua biblioteca.
Dhiren sentou na poltrona e suspirou. Não sabia como falar o que havia acontecido. Sua expressão estava congelada e suas pupilas dilatadas. Seu coração parecia estar mais acelerado que o comum e em vários momentos pensou que desmaiaria de cansaço. Não sabia como explicar e nem como agir. Nunca acontecera algo assim em sua vida.
—Ren – Sr. Kadam falou apoiando levemente a mão no ombro do rapaz. – Aconteceu alguma coisa?
Os olhos de Dhiren estavam marejados e em sua garganta havia se forma um nó que o impedia de falar. Suas mãos tremiam e deixavam claro o medo que estava sentindo. Não sabia o motivo, não sabia o porque tamanha fadiga, somente queria uma explicação para o que Yesubai fez.
—Fique calmo. A princesa o amava. Se ela fez o que fez, era porque havia um motivo maior entre os dois.
—E-eu…E-eu… Não consigo dormir. Sonhei com ela e – pausou, tentando se recompor – ela sorriu para mim. Foi tão real.
Kadam suspirou. Já era a sétima noite que Dhiren não dormia, desde que vira Yesubai pular do penhasco. O senhor de idade, já vivera muito, entretanto não conseguia entender porque Ren sentira-se tão abalado por conta disso. Yesubai era filha do rei, do reino vizinho, e somente fora vista uma vez por Kadam. A moça era bonita, mas ao mesmo tempo misteriosa. O fato dela ter pulado do penhasco estava mal esclarecido. Dhiren não sabia relatar o que acontecera e sentia-se culpado por não ter a impedido.
—Ren, você não disse que dormiu enquanto faziam um piquenique e quando acordou somente havia um bilhete? – perguntou.
—Si-sim.
—Se ela deixou um bilhete era porque te amava.
—A culpa foi minha – Dhiren disse em um tom baixo e deixando que as lágrimas escorressem de seus olhos.
—Não, a culpa não foi sua.
Ficaram em silêncio, revelando somente o barulho das brasas da clareira. O ambiente estava escuro e no relógio marcava três horas da manhã. Kadam, sempre trocava o dia pela noite, mas não queria isso para os príncipes, já que eles precisavam repousar para estar sempre com saúde.
Dhiren levantou-se da poltrona e andou até a porta. Estava confuso e desde quando Yesubai morrera não sabia dizer o que havia acontecido. Não sabia explicar como a conhecera e, muito menos, como chegou até o local em que estavam. Tudo em sua mente parecia diferente do que já vivera. As sensações que tinha a impressão que eram conhecidas, pareciam cada vez mais novas para seus sentidos. Não reconhecia o seu próprio reflexo e assustava-se toda vez que olhava para si mesmo.
A intuição de que havia esquecido de algo lhe dominava toda vez que tentava colocar suas memórias em ordem. Faltava alguma coisa para completar o sentido de tudo o que existiu até o dado momento. Faltava lembranças que deixavam em aberto todo os sentimentos em seu coração.
— Eu vou voltar a dormir – murmurou olhando para Kadam.
— Faça isso, pois amanhã você e Kishan irão fazer uma sessão de treino juntos.
— Certo – falou saindo do comodo e sentindo-se inútil.
Dhiren olhou para escada e viu a penumbre das velas que iluminavam o caminho até o seu quarto. A brisa que vinha da janela trazia junto o cheiro de sândalo e especiarias do oriente. Aspirou aquele ar como sendo o último a sentir ao lado de Kishan e Sr. Kadam. Direcionou-se para o segundo andar e andou até o seu quarto captando cada detalhe do corredor, as paredes pintadas de vermelho e móveis com marcenaria local. O chão era idêntico ao do castelo, mas ainda ficava longe de ser o original. Nada mais fazia sentindo: não tinha um reino, não tinha a mulher que amava e não era a pessoa que seus pais sempre sonharam.
Para ele Kishan seria sucessor perfeito, hábil, inteligente e não era teimoso como ele. Kadam colocava todas as suas esperanças nele e isso o deixava com receio de desapontá-lo. A única solução que via era desaparecer para sempre da vida de todos. Não era bom o bastante para servir e cuidar de reino, por mais que esse reino esteja vivo somente em tradições.
Entrou no quarto, calçou o coturno, pegou uma mochila que estava atrás da porta e vestiu a jaqueta de couro preto. Estava se sentindo ruim o bastante para evitar olhar o próprio reflexo que existia em seu espelho. Não queria ver um Ren desfalecido, solitário e infeliz. Sua sutileza em resolver os próprios problemas havia desaparecido junto com toda a sua vivacidade.
— Tchau, Kishan – falou olhando para a foto que havia em cima de sua prateleira. – Espero que sua vida melhore.
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— Yesubai, querida – Lokesh disse sentando ao lado da moça – eu gostaria muito dizer que estou contente com o que fez…
— Desculpe – a moça suplicou.
— Eu não – homem disse de forma ríspida e forte, apertando a maçã que segurava na mão direita.
— Ma-mas – ela gaguejou ao perceber que o clima esfriara.
A fúria de Lokesh se espalhou por todo o lugar, dominando qualquer brisa quente que entrava pela janela. Ele sabia que a falha de Yesubai lhe custaria muitos anos de sofrimento e que se assim fosse, conseguir destruir Durga estaria ainda mais longe de acontecer.
— Você sabia que seguir o plano seria necessário para acabarmos com essa brincadeira com Durga? Você sabia que se você falhasse eu seria obrigado a lhe deixar em exilio? – disse entre dentes jogando Yesubai no chão com toda a sua força.
—Eu-eu…
— Yesubai, você sempre fora minha lastima.
O silêncio se prolongou por alguns segundos, a eternização de Lokesh estava longe de ocorrer e tudo por causa da falha da garota.
— E-eu não falharei mais – ela gritou para olhando diretamente para o homem.- Desculpe-me, eu prometo… Não falharei da próxima vez e matarei, não somente Dhiren, mas toda a sua família e descendência.
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