My Madness
2 Capítulo 2
Notas iniciais
O sol se punha lentamente atrás de diversos prédios e copas de árvores — os quais se mesclavam com certa perfeição que só poderia pertencer a algo cinematográfico -, deixando tudo em um tom monótono de laranja, mas que mesmo assim passava uma sensação reconfortante, agradável tanto aos olhos quanto aos sentidos em si. Adoro o crepúsculo, assim como tudo que ele representa — o fim de um dia de trabalho, o inicio de uma noite, altas chances de ficar com alguém e toda a liberdade em geral — tanto para mim quanto para outras pessoas. E essa noite em especifico seria ainda melhor que as outras, tudo graças a um convite que um de meus amigos recebeu — por engano -, o qual nos levará a uma festa da alta sociedade, onde apenas milionários e seus contatos tem acesso. Seria uma festa colossal, com tudo que se tem direito: bebidas, dançarinas, cantores, e ouvi dizer que até mesmo ervas seriam oferecidas — apesar de isso não ser o que mais me atrai — para os convidados.
Alguns jornais já comentavam que aquela seria uma das maiores — se não a maior — festas do ano, e que pessoas de diversos estados viriam exclusivamente para aprecia-la. E posso dizer que nunca fiquei tão feliz por causa de um erro, já consigo me imaginar no meio das figuras mais imponentes do país — talvez até tenha alguns estrangeiros — aproveitando da melhor comida sem ter nem um terço da influencia ou do dinheiro de todos ali presentes. Parece até que ganhei na loteria por tamanha sorte, só tenho pena de Edgar Johnson — já que o convite que seria lhe endereçado acabou parando em mãos erradas — e torço que ele consiga entrar mesmo sem ter o convite em mãos. Mas caso isso não ocorra, não posso fazer nada além de lhe dedicar minhas lastimas, pois não irei devolver seu convite — assim como tenho certeza que meus amigos também não o fariam.
A festa aconteceria em algumas horas e se quiséssemos chegar na hora marcada, teríamos que sair em poucos minutos — pois na cidade em que vivemos, os ricos ficam de um lado e os meros "plebeus" do outro -, porém meus dois colegas de apartamento ainda estavam longe de estarem prontos. Matt e Mario sempre se atrasavam, tudo devido ao excesso de perfeição que gostavam de alcançar todas as vezes que saiam de casa, mas de alguma forma, eles conseguiram piorar drasticamente hoje — talvez por que queiram impressionar algumas ricas e quem sabe assim subirem na vida. Horas, faz horas desde que eles se trancaram em seus devidos quartos e desde então se encontram fora de meu alcance.
–Se quiserem chegar lá a tempo, temos que sair agora. — Comentei alto o suficiente para os dois me ouvirem
–Estamos prontos. — Responderam saindo de seus quartos ao mesmo tempo
–Impressionado com a precisão de vocês. — Comentei pegando a chave de meu carro
–Nós vamos de taxi. — Exclamou Mario arrancando a chave de minha mão — Seu carro vai nos denunciar, mas se chegarmos de taxi podemos usar a desculpa de que somos de outro estado e que viemos direto do aeroporto.
–Você que paga a corrida então. — Murmurei abrindo a porta de casa — Ela vai ser cara demais para o meu emprego de meio período bancar.
–Cala a boca, Marco. — Respondeu Mario dando um tapa em minha nuca — Você é um bom samaritano, Marco, sei que no final das contas você rachar a conta do taxi com a gente.
–Te odeio. -Sussurrei para ele enquanto trancava a porta
–Também te adoro, cara. — Replicou ele rindo — Agora vamos, o taxi já nos espera.
E com tal comentário fomos em direção a maior festa do ano.
Como o planejado, a viagem durou cerca de duas horas. Duas horas espremido entre Matt e Mario, sempre no meio de suas piadas sujas e conversas sobre as garotas mais gostosas do bairro — as quais ambos já haviam ficado ou que ficariam em um futuro muito próximo -, e eu fiquei obviamente sobrando naquele assunto. Não sou puritano, isso é mais do que obvio, porém perto de meus companheiros de apartamento me sinto um virgem de doze anos, os assuntos são tão extremos e pesados que não sei se fico chocado ou assustado com as mentes deles. Mas às vezes eu apenas ficava impressionado com a facilidade que eles tinham de mudar de assunto, em um minuto falavam sobre café e no outro sobre a última sessão de sexo selvagem que tiveram. A única forma que encontrei de fugir de seus assuntos foi observar o percurso inteiro com a máxima atenção possível, em cada detalhe, em cada pessoa.
Observei o bairro em que nasci e cresci se distanciar e se misturar com os outros bairros que o cercavam e que eram, literalmente, iguais a ele, com vários prédios com apartamentos minúsculos e extremamente caros — o metro quadrado duplicava, algumas vezes até quadruplicava por ano — que ironicamente sempre estão ao lado de algum beco onde ou é ponto de drogas ou ponto de prostituição, serem substituídos por casas cada vez maiores — com direito a belos jardins de frente e cercas brancas impecáveis — até finalmente se tornarem mansões com vários hectares de terras as separando.
–Chegamos a casa do Sr. Hulls. — Disse o taxista parando na frente de um grande portão, que aparentemente tinha mais de três metros de altura — São convidados da festa?
–Sim, nós somos. — Respondeu Matt mostrando o convite creme bem trabalhado, com as iniciais de Hulls em alto relevo
–Então a viagem fica por conta dele, ordens do mesmo. — Disse o taxista sorrindo
–Obrigado. — Agradecemos ao mesmo tempo, saindo do taxi o mais rápido o possível
–Adoro milionários, sempre tão atenciosos. — Comentou Mario balançando as pernas, como se tivesse tentando afastar a dormência das mesmas
–Só por que ele quer ser bem quisto aos olhos dos seus "amigos" ricos. — Respondeu Matt se esfregando — Vamos logo antes que o verdadeiro Edgar Johnson chegue na festa.
Porém quando chegamos nos guardas, percebemos que nem deveríamos ter nos preocupado com isso, eles não checavam os nomes e os convidados em si, apenas pediam para olhar o bendito convite creme e depois liberavam todos que o tinham. Me pergunto se sempre foi fácil assim entrar nessas festas, ou se o Sr. Hulls realmente esta com desejo de que sua festa se torne a maior e a melhor do ano. Acredito mais na ganância dele do que na falta de atenção com relação a segurança, mas é claro que meus amigos não concordam comigo, eles nunca concordam comigo.
–A gente se encontra no portão as quatro da manha, feito? — Comentou Matt olhando ao redor como se estivesse em busca de uma presa, e de fato estava
–Feito. — Respondemos eu e Mario ao mesmo tempo, e logo nos separamos
A festa estava lotada de pessoas bem trajadas, homens com ternos caros e mulheres com vestidos longos e com os braços e pescoços cobertos por pedras preciosas, nem preciso dizer que me sentia de certa forma deslocado no meio de toda aquela riqueza e poder — mesmo estando com o meu terno mais caro e feito sobre medida. Não pensei duas vezes antes de procurar algo para beber, algo que pudesse tirar aquela questão de diferença social de minha cabeça, e nada melhor do que uma cerveja para começar a noite — ainda mais se for uma cerveja importada e com alta concentração de malta em sua formula. Depois de terminar minha terceira garrafa, percebi que estava mais do que na hora de parar — principalmente se eu não quisesse chamar a atenção de todos para mim nessa noite — e dar uma volta pelo enorme casarão em que me encontrava, pois sabia que não teria outra oportunidade para ver essa casa que mais parecia um museu.
Andei por alguns minutos sem me importar para onde eu estava realmente indo, apenas deixava meus pés me guiarem para qualquer que fosse o lugar, e por conta disso acabei parando no jardim. Um jardim que tinha uma piscina enorme, uma quadra de tênis, outra de basquete e de futebol, uma estufa, um chafariz e uma pequena praça que ficava exatamente no meio disso tudo. E nessa pequena praça se encontrava alguns bancos brancos, esses dispostos de uma maneira que cada banco proporcionava uma vista para cada um dos elementos chaves do jardim em si, e no banco que ficava na frente da quadra de tênis uma garota estava sentada, observando o nada. E mesmo estando longe e escuro, pude perceber o quão bonita ela era.
Em passos longos e rápidos fui me aproximando dela, até finalmente chegar ao seu lado, onde me sentei sem nem pestanejar.
–Por que estamos encarando uma quadra vazia? — Perguntei alguns minutos depois e ela suspirou
–Porque a festa está monótona. — Respondeu ela tão baixo que se não tivesse prestando atenção não teria escutado seu comentário
–Mas por que ela estaria monótona? Tem de tudo um pouco lá. — Contra argumentei indignado e ela riu
–Exatamente por isso. — Respondeu ela novamente, dessa vez se afastando de mim, indo para a beirada do banco
–Meu nome é Marco. — Me apresentei esticando minha mão em sua direção
–Asami. — Murmurou ela em resposta apertando minha mão rapidamente
–Japonesa? Não parece. — Comentei surpreso e ela riu novamente, só que dessa vez era irônico
–Famílias ricas gostam de nomes exóticos, sou cem por cento não japonesa. — Comentou ela revirando os olhos
–Prazer em te conhecer, Asami. — Respondi sorrindo e ela suspirou
–Igualmente, Marco. — Murmurou ela de contra gosto
–Filha do Sr. Hulls? — Perguntei novamente e ela negou
–Ele é amigo dos meus avós. — Comentou ela olhando para o relógio de pulso como se quisesse sair de perto de mim o mais rápido o possível
–E quem são seus avós? — Perguntei e ela arqueou uma das sobrancelhas — Ultima pergunta, prometo.
–Safira e Kieran Fincher. — Disse ela calmamente enquanto eu sentia todo o ar de meus pulmões saírem involuntariamente
–Fincher? — Perguntei embasbacado e ela revirou os olhos novamente
–Aquela não foi a sua ultima pergunta? — Respondeu ela se levantando
–Então você é a tão famosa neta dos Fincher's, a antissocial que eles tentam enchuchar um parceiro romântico? — Perguntei me levantando e ela bufou irritada
–Exatamente por isso que eu queria ficar sozinha. — Murmurou ela indo em direção a mansão
–Tenho uma proposta irrecusável para você, Asami. Uma proposta que te livrará da pressão de seus avós por um bom tempo. — Comentei rapidamente e ela parou no lugar
–Você tem dois minutos, nada mais nada a menos. — Respondeu ela sem se virar em minha direção e eu comecei a lhe explicar o meu plano
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