My Lonely Demon
1 Capítulo 1 - A garota de cabelos azuis
Notas iniciais
Eu escrevi o cap inteiro com a musica "Holding on" do Simple Plan pra quem quiser escutar... eu so n sei se combina com esse cap mas ok. kkk "http://www.youtube.com/watch?v=C6O24j_9Ezo"
A primeira vez que a vi, eu tinha quatro anos. Estava na sala de aula com mais vinte e três crianças com mais ou menos a mesma idade que eu, desenhando, foi quando eu olhei pela janela ao lado da minha mesa vazia no fundo da sala a vista dava direto para o parquinho da escola onde a gente ia na hora do recreio, nessas horas eu costumava ficar em um canto lendo gibis ou livros infantis, como a escola era pequena todas as salas saiam juntas então no resto do dia o parquinho ficava vazio como se fosse um parque fantasma exceto pela garota de cabelos azuis e roupa preta que agora se balançava no balanço.
Ela ia cada vez mais alto enquanto dava risadas altas, os pés acompanhando seus movimentos para ganhar impulso. Olhei para os cantos do pequeno pátio procurando alguma inspetora, não havia ninguém. Bem sorte a dela, eu pensei, pelo menos ela não tem que ficar nessa aula chata desenhando, se bem que ela vai levar uma bronca depois. Olhei novamente pela janela, e a menina havia sumido o balanço vazio indo pra frente e pra trás. Lembro que pensei depois que nunca havia visto ela na escola e que com certeza eu me lembraria dos seus cabelos azuis.
A segunda vez que vi ela foi no mesmo ano, bem no dia do meu aniversário, eu estava no recreio sentada sozinha em um canto lendo um gibi velho da Mônica, eu nunca gostei da Mônica mas era o que a biblioteca da escola podia liberar, meus óculos grandes ficava caindo pelo meu nariz, lógico não eram óculos para uma criança eles tinham sido da minha mãe quando ela ainda era uma adolescente, era um wayfarer preto velho maior do que a minha cara pequena e redonda. Eu odiava aquele óculos, todos da minha sala ficaram me chamando de quatro olhos pelo resto do ano, ate que se cansaram. Eu tinha acabado de jogar os óculos no chão quando do nada ela apareceu na minha frente e pegou eles do chão pra mim. Ela estendeu a mão branca com unhas pretas pra mim e sorriu quando peguei o objeto de minha fúria de suas mãos.
Fiquei encarando a garota descaradamente por um bom tempo enquanto ela fazia o mesmo. Os cabelos azuis caiam bagunçados por seu rosto branco e magro, seus olhos eram azuis também, quase no mesmo tom escuro dos cabelos, eles pareciam duas poças de águas profundas e escuras, como aqueles lápis de cor aquarela quando a gente faz um rabisco bem forte e molha só um pouquinho, ela não usava maquiagem mas sua boca era grande e vermelha como se usasse batom e tinha lábios finos também que sorriam pra mim. No pescoço ela usava um colar de couro preto com duas asas prateadas penduradas, nos pés ela usava um all star preto com cadarços azuis, ela era magra mas parecia ser bem forte e com certeza era mais alta que eu, ela parecia ser mais velha, tipo uns dez anos e não cinco, ou seis, ela parecia ser legal... de um modo estranho, tudo nela era meio estranho, mas ainda assim ela parecia normal, uma daquelas crianças espertas que já sabiam o que seriam quando crescessem e que conseguiam amarrar os tênis sozinhas, o que eu ainda não havia conseguido a proeza de fazer, assim que terminamos nossas avaliações, a garota abriu um sorriso maior ainda, e falou comigo.
- Oi. Como vai você? — Sua voz me deixou com calafrios e de repente tudo em volta pareceu ficar mais escuro e frio.
- Ah... Oi. — Eu respondi meio receosa. Ela ainda sorria.
- Meu nome é Katherin mas pode me chamar de Kath
- O meu é Amber... e bem eu não tenho apelido... — Por um momento me senti envergonhada.
- Eu sei. — Ela continuou sorrindo.
- Você sabe? — Perguntei confusa.
- Sei.
- Como você sabe que eu não tenho apelido?
- Ah, achei que fosse do nome. — Ela fez uma careta. — Mas bem eu sei tudo sobre você.
- Sabe é?
- Yeep. — Ela cantarolou.
- E como você sabe tudo sobre mim? — Olhei-a com desconfiança.
- Sabendo oras.
- Você não pode saber as coisas assim sobre as pessoas. — Falei brava.
- Oras porque não? — Ela perguntou parecendo curiosa.
- Bem porque você não me perguntou e eu não te contei, portanto não tem como você saber algo que eu não falei. — Falei achando obvio.
- Hum... Mas eu não preciso perguntar pra saber, eu só sei oras. — Ela deu de ombros. — Mas deixa isso pra lá.
- Ok. — Dei de ombros também.
Ficamos paradas uma olhando pra cara da outra. A menina olhou para o céu e então bufou. Ela parecia entediada e ate mesmo um pouco cansada.
- Hum... Então da onde você vem? — perguntei tentando puxar assunto.
- De casa? — ela perguntou ainda olhando pro céu.
- Não... quero dizer, de onde você veio, de que cidade? Você é nova por aqui não é?
- Ah... não sei.
- Você não sabe de onde você veio? — perguntei intrigada.
- Bem não. E você sabe de onde veio? — Ela falou agora olhando pra mim.
- Sei eu nasci aqui, eu e meus pais moramos na Rua 59. — Katherin continuou me encarando. — Bem... se você não sabe de onde você veio então tudo bem, mas onde você mora?
- Por ai. — ela tombou a cabeça para o lado.
- Você também não sabe não é?
- Eu sei oras, só não quero falar.
- Quantos anos você tem?
- Bastante. — Ela sorriu novamente.
- Você parece ser mais velha que eu.
- Eu sou muuuito mais velha que você.
- Você não parece tão velha assim. Você tem dez?
- Depende. — ela respondeu.
- Depende do que?
- De quantos zeros trem depois do dez.
- Oras nenhum, é só o dez. — Perguntei confusa.
- Bem então eu sou mais velha.
- Quanto mais velha?
- Bem velha oras. — Fechei a cara, agora nervosa.
- Você não consegue me responder direito!
- Talvez eu não queira responder direito sabe. — Ela sorriu.
- Você é muito chata.
- Sim sou e você também é.
- Eu não sou chata. — Falei baixinho.
- É sim, uma chata e medrosa que fica aqui sentada sozinha que nem um bebe chorão.
- Não sou não.
- É sim, você fica aqui todos os dias chorando sozinha, bebe chorão. — ela zombou. — Lalala Amber é um bebe chorão! — Ela cantarolou sorrindo. Novamente tudo ficou mais escuro e o ar mais frio me causando um arrepio, mas de medo.
Ela continuou a cantar e zombar de mim, aquilo começou a me dar nos nervos, eu estava com medo das outras crianças que estavam por perto ouvirem e começarem a caçoar da minha cara, eu nunca tive muitos amigos e os poucos que eu tinha nem eram tão legais comigo.
- Que foi Amber? O gato comeu a sua língua? Ah... esqueci o bebe não sabe falar não é. — ela continuava a sorrir. — Bebe chorão, você deve até fazer xixi nas calças não é mesmo? Ha Bebe cho... — Nessa hora minha raiva atingiu o limite.
- Não sou não! Você que é uma chata! Cala a boca! — gritei me levantando. Assim que me ouviu Kath parou de cantar e me olhou com um leve sorriso nos lábios.
Olhei em volta com medo pra ver se alguém havia escutado a briga e assim que meus olhos entraram em foco, eu gelei. Todas as crianças do parquinho estavam olhando pra mim de bocas abertas. Eu nem havia percebido que tinha gritado tão alto, mas de algum jeito todo mundo tinha ouvido e parado no lugar. Ficaram todos olhando pra mim por um tempo até que um dos meninos que sempre me irritava começou.
- Amber é uma maluca! Amber é uma maluca! — ele gritava e logo todas as crianças do parquinho cantavam com ele e apontava pra mim. — Amber é uma maluca! Amber é uma maluca!
Senti meus olhos marejarem, cruzei os braços em volta do meu corpo e olhei pra garota de cabelos azuis na minha frente. Ela tinha um sorriso enorme estampado nos lábios vermelhos, e mostrava os dentes brancos e alinhados, ela até parecia um gato, pensei alguns segundos antes de sair correndo, um gato grande e malvado.
Eu estava sentada no canto da ultima arquibancada da pequena quadra coberta da escola, as luzes estavam apagadas e a quadra estava vazia o único facho de luz que entrava era por uma das clarabóias que estava aberta, deixando tudo meio cinza. Eu abraçava os joelhos contra o corpo enquanto chorava, meu corpo tremia com os soluços e as lagrimas rolavam molhando meus joelhos e minha blusa. Eu estava triste e com medo.
Eles nunca haviam gostado de mim, mas eu fazia um esforço, eu tentava todas as vezes me encaixar e quando eu finalmente havia conseguido alguns amigos aquela menina estragava tudo. Eu sentia raiva também raiva dela, porque ela tinha feito todo mundo rir de mim, mas eu também me sentia aliviada e isso me deixava com mais raiva ainda. Senti uma mão fria passando pelos meus cabelos lisos e senti um tremor passar pelo meu corpo, não levantei a cabeça, eu sabia quem era. Ela se sentou do meu lado e passou um braço pelas minhas costas enquanto o outro acariciava meus cabelos.
- Você não devia chorar por eles. — ela falou com a voz suave. — Você é melhor do que todos eles juntos.
- Não to chorando por eles. — respondi brava.
- Não? Então por que está chorando?
- Porque você é má.
- Oras, eu não sou má, eles são maus, eles que estavam rindo de você. — levantei a cabeça indignada.
- Foi você que começou! Eles só riram porque você começou a me zoar!
- Se eu me jogasse de um penhasco eles provavelmente fariam o mesmo, mas eles não riram de você por minha causa, eles nem ouviram uma palavra do que eu disse. — ela falou seria.
- Mas foi você que começou. — choraminguei.
- Não, foi você. — ela respondeu calmamente. — Mas que seja.
- Não tenho nenhum amigo agora... — falei chorando.
- Você não precisa de amigos. — ela falou seria.
- Claro que preciso! Todo mundo precisa de amigos.
- Bem...Então nesse caso...Eu posso ser sua amiga. — Ela deu o sorriso de gato novamente.
- Você? Mas você não gosta de mim, você riu de mim. — apertei mais os joelhos.
- Quem disse que eu não gosto de você? Eu gosto de você, se eu não gostasse eu não teria vindo falar com você.
- Hum... — fiquei meio receosa. Ela ainda parecia ser legal apesar de tudo, meio estranha, mas legal. — Não sei... Você realmente quer ser minha amiga?
- Lógico! Eu gostei de você. — ela deu um sorriso de lado.
- Hum... Você é meio esquisita... — Ela me olhou com os grandes olhos azuis, olhos de gato, ela parecia meio triste, mas esperou eu falar. — Mas eu gosto de você. — Falei abrindo um sorriso. Que ela respondeu com o sorriso de gato.
- Ótimo, somos amigas então. — Ela apoiou a cabeça na minha. — Eles vão vir procurar você. — Kath falou pensativa. — melhor eu ir antes que eles cheguem. — Ela se levantou abruptamente e começou a descer a arquibancada aos pulos.
- Mas já? Por que você tem que ir? — perguntei tristonha.
- Bem porque eles não pode saber que eu estou aqui. — Ela parou olhando pra trás.
- Por que não?
- Bem... ninguém gosta muito de um Cythraul sabe...
- O que é um Ches...aulu ai?
- Ah é uma palavra em galês. — ela deu de ombros.
- Que palavra é essa? E como você sabe falar isso ai?
- Eu sei de muitas coisas.
- E o que a palavra significa?
- É o que eu sou.
- Como assim? — perguntei confusa.
- Bem eu não sou como você.
- Eu sei disso, ninguém é como eu, as pessoas são diferentes.
- É eu sei disso, mas eu não sou uma pessoa.
- Claro que é.
- Não sou não.
- Então o que você é?
- Eu sou o que a palavra significa oras.
- Ok, mas o que a palavra significa?
- Bem se eu quisesse falar já teria explicado não acha? — Ela se virou e continuou descendo.
- Eu vou ver você de novo? — Ela parou perto da porta e virou completamente para trás me encarando. E deu o sorriso de gato.
- Claro, afinal nós somos amigas não é? — Assenti então ela se virou e foi embora.
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