My Little Torao
2 Capítulo 2: Encontro
Notas iniciais
Nami acabava de entrar no restaurante arrastando Zoro consigo.
Para variar, o esverdeado tinha se perdido, e Nami foi a sorteada para ir procurá-lo. Depois de meia hora de procura a ruiva finalmente tinha o encontrado pendurado na roda-gigante.
Ela havia batido tanto nele que agora o marimo estava quase irreconhecível, tanto que assim que foi visto Sanji caiu na gargalhada junto com Luffy, Ussop, Franky, Brook e Chopper. Isso resultou em um soco na cabeça de cada um.
– Yohohoho! A Nami-san é muito violenta! — Exclamava Brook massageando a cabeça. — Agora eu estou com um galo! Apesar de que eu nem tenho pele para ter um galo! Yohohoho!
– AW! Isso sim foi um SUUUUPER soco!
– Ahnnn... Mellorine...
– Ei Bruxa! Por que eu levei mais um soco!? — Zoro esbravejava com a ruiva.
– Porque você é o culpado disso tudo! Se você não tivesse um senso de direção tão horrível esses idiotas não fariam um escândalo em um lugar como esse! — A navegadora gritava a resposta, mostrando o lugar ao redor deles com um gesto.
A tripulação se encontrava em um restaurante de primeira que estava localizado dentro do Parque de Diversões, e agora, com as recentes discussões, a atenção de todos os outros clientes tinha se voltado para eles. Não que eles estivessem se importando. Já estavam acostumados em chamar a atenção em todos os lugares que iam, afinal eram famosos em todo o Novo Mundo. Nami só não queria correr o risco de acabarem se metendo em confusão.
– E depois somos nós que fazemos escândalo... — Ussop reclamou pra Chopper e Luffy.
Pow! Mais um soco.
– Desculpa Nami... — Luffy, Ussop e Chopper resmungaram juntos. Eles já estavam acostumados com aquilo e sabiam que o melhor a fazer era ficarem quietos.
Robin, que até esse momento ficara rindo baixinho da bagunça de seus amigos, notou que estava faltando alguém ali. Ela se aproximou do moreno de chapéu de palha e lhe tocou o ombro, chamando sua atenção.
– Capitão-san... Não está faltando alguém...?
Ao ouvir isso Luffy arregalou levemente os olhos, agora que pensou no assunto faltava mesmo uma pessoa.
– Verdade! Onde está o Torao? — Ele perguntou olhando para os lados como se esperasse ver o Cirurgião aparecer do nada.
Ao ouvirem a pergunta feita pelo seu capitão todos os outros pararam o que faziam e perceberam a falta do Shichibukai.
– Ele sabia que era pra vir nos encontrar aqui? — Indagou Chopper curioso.
– Sim, eu avisei ele. — Luffy ainda olhava ao redor.
– Vai ver que ele arranjou algo melhor pra fazer. — Comentou Zoro indiferente enquanto se sentava à mesa.
– Robin-chan, Nami-san, deixem esse cirurgião de merda pra lá e vamos almoçar. — Chamava Sanji puxando duas cadeiras para as garotas se sentarem.
– O Sanji tem razão, — Franky ajuntou se sentando. — o Trafalgar já é grandinho, se ele estiver com fome arranja o que comer.
– É Luffy, deixa ele. — Chopper se sentou junto com Ussop e Brook.
Mas depois de ouvir que o seu aliado não tinha aparecido uma sensação de inquietação tomara conta de Luffy. O Cirurgião não era do estilo de abandonar compromissos... Pelo menos era o que Luffy achava.
O jovem capitão sabia que algo estava errado. Ele sentia.
Luffy podia até ser idiota, infantil, inocente, precipitado, bagunceiro e tudo mais, mas seus instintos eram extremamente precisos. E nesse momento seus instintos lhe diziam para sair à procura do Shichibukai, porque este precisava da sua ajuda. E era isso que ele faria.
– Pessoal, podem ir almoçando. Eu vou procurar pelo Torao e já volto! — Dito isso o menor saiu correndo do restaurante, deixando para trás uma tripulação atônita.
Desde quando Luffy ignorava comida pra ir fazer qualquer outra coisa, ainda mais pra procurar por alguém que nem conhecia direito? Todos se olharam espantados. Somente Robin ainda estava relaxada, sorrindo de leve.
Ela havia notado que o Cirurgião sentia algo pelo seu capitão, e sabia também que de certo modo Luffy também se sentia diferente em relação ao maior. Agora ela via a possibilidade de isso aflorar mais rapidamente do que imaginava. E seja o que for que acontecesse ia ser interessante.
**********
Luffy havia diminuído o passo e agora fazia uma caminhada rápida pelos muitos caminhos de Parque. Ele estava se concentrando ao máximo para conseguir sentir encontrar a presença do Shichibukai com seu Haki de Observação. Como haviam passado bastante tempo juntos o menor já tinha decorado como era a presença de cada um de seus amigos, inclusive a de Law. Mas até agora não tivera sucesso.
O capitão soltou um suspiro exasperado. Onde o Cirurgião teria se metido? Será que estava ferido? Precisaria de ajuda?
Então Luffy parou sacudindo a cabeça. O que estava acontecendo com ele? Desde quando se preocupava tanto com o outro? Por que toda essa inquietação só porque o outro não estava por perto? O que estaria acontecendo consigo?
Essas perguntas já estavam se tornando frequentes para nosso pequeno e também lhe causavam grande dor de cabeça.
Ultimamente tinha se sentido estranho quando se tratava do maior. Sempre que pensava nele parecia se desligar do mundo ao seu redor. Sentia seu rosto esquentar quando percebia o olhar do outro sobre si. Aquelas orbes cinzentas tão profundas pareciam devorá-lo, e ele sentia vontade de fazer o mesmo com o Cirurgião. Uma pontada de irritação lhe incomodava toda a vez que alguém se aproximava demais do moreno maior. Arrepios gostosos percorriam seu corpo quando ouvia o mais velho lhe chamar pelo apelido estranho. Quando ficavam sozinhos um frio estranho tomava conta de seu estômago, sem contar que as vezes ele sentia como se tivesse marimbondos dentro do mesmo.
Aquilo já estava se tornando irritante. Não porque não gostava daquelas sensações, mas sim porque queria mais e não entendia o motivo.
Já tinha pensado em pedir ajuda a algum de seus nakamas, mas nas vezes que tentou pedir ajuda alguma coisa lhe impedia de falar, fazendo-o ficar envergonhado e acabando por deixar o assunto de lado.
E pra piorar... Nos últimos dias Luffy tinha começado a sonhar com o maior. Nunca se lembrava do sonho inteiro. Somente algumas cenas lhe vinham à mente. Nelas Torao sempre estava ou lhe beijando ou lhe tocando de um jeito diferente. Toda vez que tinha esses sonhos Luffy acordava no meio da noite, suando, e o primeiro rosto que vem na sua mente era o do Shichibukai.
E por causa desses acontecimentos o menor passara a desejar que Law o tocasse e o beijasse como nos sonhos. Não entendia o porquê daquilo e tentava a todo custo disfarçar, o que parecia estar funcionando até agora.
Mas era melhor deixar pra pensar naquilo mais tarde... A maldita dor de cabeça já estava querendo dar sinal de vida...
E mais importante ainda! O Torao podia estar em perigo!
Esse pensamento repentino fez Luffy voltar à realidade. Ele não podia ficar parado ali! Tinha que encontrar o Law!
Luffy disparou mais uma vez pelo Parque. Já havia percorrido todo aquele local, o que significava que o Cirurgião não estava ali.
– Yosh! Hora de procurar na cidade! – Luffy exclamou pra ninguém em especial.
Então Luffy sentiu algo. Era fraco e estava diferente do normal, mas o capitão tinha certeza que era o Torao, digo, Law. Vinha de algum lugar próximo ao parque. Luffy partiu pra lá como um raio, uma trilha de fogo surgia atrás de si.
Quando chegou mais perto de onde a presença vinha o Mugiwara parou derrapando.
De acordo com o que Nami havia lhe contado mais cedo aquela era a parte mais perigosa de toda a ilha. Ali era onde os piores bandidos se escondiam. Ladrões, mercenários, assassinos, estupradores e pedófilos... Todo o tipo de escória da humanidade.
Um terrível mau pressentimento tomou conta de seu ser junto com uma pontada de medo. Queria encontrar Law o mais rápido possível e tirá-lo dali. Aquele lugar lhe dava arrepios.
Voltou a se concentrar na presença que sentia. Law não estava muito longe.
Passou a se esgueirar pelas ruelas e becos daquele lugar, tomando cuidado pra não ser percebido.
Se aproximava cada vez mais de onde a presença vinha até que se deparou com um beco sem saída. O beco era largo e cercado de prédios, não possibilitando seguir em frente.
Por um instante Luffy pensou que havia se enganado e que não havia ninguém ali. Mas então sua visão se acostumou à penumbra local e ele foi capaz de distinguir alguns vultos no canto do beco.
Devia haver no mínimo uns oito homens, todos mal vestidos e, pelo que Luffy podia ver, todos estavam armados. Alguns com espadas, outros com pistolas, também tinham adagas e bastões. Luffy estava há uns oito metros de distância e mesmo assim conseguia ouvir o que estavam dizendo.
– Hehehe... O que acham de usarmos esse pequeno para ganharmos algum dinheiro...? – Dizia um deles.
– Não é má ideia... Conheço umas pessoas que pagariam uns bons berries pra passar uma noite com ele... – Concordava o outro dando uma risada maliciosa.
Luffy cerrou os punhos com força. Havia alguém encurralado entre a parede e aquelas pessoas horríveis, aparentemente uma criança, e essa pobre criancinha estava para ser usada sabe-se lá como, Luffy era muito inocente pra saber o que eles estavam planejando. Mas sabia que aquela criança estava em perigo e agora se via num dilema.
A sensação de medo por causa de Law aumentava a cada segundo e ele queria descobrir onde o outro estava, pois de acordo com seu Haki sua presença estava bem próxima. Mas onde?
E o que devia fazer? Ajudar a presa desses bandidos ou procurar o Cirurgião?
Se sentia dividido. Não queria abandonar ninguém em perigo se houvesse chance de salvá-lo, mas seu coração estava apertado por causa de Law. O que era mais certo?
Antes que pudesse fazer qualquer coisa, um movimento chamou a atenção do moreno. Um dos homens havia dado um passo à frente e batido com o bastão em quem quer que estivesse ali. Um grito horrível de dor pode ser ouvido e o coração do capitão se apertou. Havia algo de familiar naquele grito...
– O que acha pirralho? Vai ser divertido não? – Debochava o homem que desferira o golpe.
Uma risadinha ousada tomou conta do espaço.
– Seria mais divertido se fossem vocês no meu lugar... Apesar de que eu acho que ninguém pagaria para ficar com lixos como vocês...
O corpo de Luffy se enrijeceu e ele ficou tenso. Ele conhecia aquela voz... Conhecia aquele jeito ousado e frio de responder... Mas ele não teve tempo para pensar em nada. Outro homem tinha se manifestado e desferia um golpe de espada na direção do pequeno.
– Seu pivete...!
– GomuGomu no... Gatling!!!
Em frações de segundos Luffy havia atacado e todos os homens caíam desacordados no chão. A espada, antes tão ameaçadora, agora tinha caído no chão com estrépito.
Luffy respirou fundo algumas vezes para se acalmar. Ver o homem avançar daquele jeito foi a gota d’agua para ele. Quem tinha coragem de fazer isso com uma criança indefesa?!
Ao pensar nisso ele se virou para a criança que estava encolhida no chão atrás de si. Ela segurava o braço esquerdo com cuidado e os olhos cinzentos demonstravam uma mistura de emoções. Alívio por se ver livre daqueles bandidos, medo de que aquela pessoa fosse uma nova ameaça e um pouco de curiosidade.
Assim que o viu Luffy confirmou suas suspeitas. Lentamente o moreno se aproximou do garotinho e se agachou, ficando da mesma altura que o mesmo. Ele encarou os olhos cinza com curiosidade.
– Torao...?
Sim. Luffy não sabia como, mas aquele sem dúvidas era Trafalgar Law. Agora Luffy tinha certeza. O moreno soube que era ele assim que ouviu a resposta ousada que o mesmo dera. E também a presença era idêntica a do Law de sempre, a não ser que agora estava bem menos ameaçadora. Além de que o chapéu branco felpudo com manchas pretas, as tatuagens nas mãos e as olheiras o caracterizavam de modo único. A única coisa que o capitão não entendia era o porquê de ele estar tão pequeno... Como aquilo acontecera...?
O garotinho o encarou curioso, analisando as características da pessoa que aparentemente era seu salvador. Ele sabia que o conhecia, mas só se lembrou de quem era ao notar o chapéu de palha pendurado no pescoço.
O garotinho se levantou com certa dificuldade, ainda segurando o bracinho fino com a mão tatuada. Só então o maior notou as roupas dele. O pequeno ainda usava o mesmo moletom com que Luffy o vira da última vez, mas agora este descia até abaixo dos joelhos, deixando apenas os pés descalços a vista. As mangas estavam rasgadas com o objetivo de deixar as mãozinhas de fora. O chapéu que antes cabia perfeitamente na cabeça do Cirurgião agora caia sobre os olhos do mesmo, obrigando-o a arrumá-lo a cada cinco segundos.
– Mugiwara-ya... – A voz do pequenino saiu fraca e então, com muito esforço, ele deu um sorrisinho de alívio. – Te encontrei...
No instante seguinte o corpinho despencou em direção ao chão, sendo amparado pelos braços de Luffy.
– O-Oe! Aguente firme! – Luffy o sacudiu de leve, mas o menor estava desmaiado. Provavelmente estava exausto por causa do medo de ser abusado.
Então, ainda agachado, o moreno o ergueu com cuidado e o aconchegou sobre as coxas, apoiando as costas dele com uma das mãos enquanto a outra ajeitava seus bracinhos sobre o peito.
Luffy passou a observar o menor com mais atenção e ele percebeu que o mesmo tinha desmaiado não só porque estava exausto, mas também porque estava ferido. Não gravemente, mas mesmo assim ferido. Uma raiva descomunal se apossou dele, sem que ele entendesse ao certo o motivo. Queria mais do que nunca matar aqueles homens que ousaram ferir o Cirurgião.
O mini-Law tinha um corte leve logo abaixo do olho direito e um pequeno hematoma na testa. Ao levantar as mangas o capitão dos Mugiwaras também encontrou mais hematomas e cortes, mas o que parecia mais sério era um grande hematoma perto do cotovelo esquerdo. Devia ser o resultado do último golpe que o homem do bastão tinha dado. Se tivesse acertado um pouco mais embaixo teria quebrado o braço do garotinho.
– Ainda bem que o encontrei a tempo... – Luffy suspirou aliviado ao imaginar o que poderia ter acontecido com o menor se não tivesse o encontrado.
O moreno ouviu um resmungo atrás de si e olhou por cima do ombro. Um dos homens estava se levantando com muita dificuldade e o encarava com ódio, o pirata devolveu o olhar com raiva.
– Seu desgraçado! Não pense que isso vai terminar assim! – Então ele saiu correndo para longe.
Por um momento Luffy sentiu uma vontade louca de ir atrás dele e lhe dar uma surra, mas então ele voltou o olhar para o jovenzinho em seu colo e toda raiva sumiu, ele precisava ajudar Law antes de qualquer outra coisa.
Tomando uma decisão Luffy se ergueu e ajeitou mais uma vez o pequeno em seus braços, apoiando a cabeça dele em seu ombro com o rosto virado para seu pescoço, fazendo com que a respiração fraca dele batesse na região sensível e lhe causasse arrepios. Mas o moreno não ligou e saiu andando pra longe do beco, segurando Law com um braço enquanto procurava o DenDenMushi bebê no bolso com a outra mão.
Logo o tinha em mãos e ligava para Chopper. Sem dúvidas Chopper era de quem mais precisava no momento.
– Alô? – A voz saiu do pequeno caracol.
– Chopper, aqui é o Luffy.
– Luffy! Onde você está? Todo mundo está preocupado! Você está bem?
Luffy sorriu, Chopper se preocupava muito com seus amigos.
– Sim, eu estou bem. Diga pra todos almoçarem relaxados. – Então se semblante se tornou sério. — Eu só queria que você me encontrasse no Sunny pra me ajudar com um problema.
– Eh? Que problema?
– O Law. Ele precisa de você.
– O que aconteceu? – A preocupação era visível no tom de voz da rena.
– Você vai ver quando chegar no Sunny. – Luffy retorquiu impaciente, queria que o médico chegasse logo pra ajudar o garotinho. De novo essa preocupação exagerada, Luffy pensou aborrecido.
– Ok, eu já estou indo! Kacha.
O DenDenMushi voltou a dormir e Luffy o guardou novamente no bolso, podendo voltar a segurar Law no estilo noiva. Ele observou a expressão serena do pequeno e deu um sorrisinho, acariciando de leve o rosto da criança.
– O Chopper já está vindo... Logo você vai melhorar...
Então o moreno ergueu o rosto e começou a caminhar mais rapidamente em direção ao porto. Novamente aquela preocupação e medo tomava conta de si, mas dessa vez ele não estava a fim de questioná-la, só queria saber que o pequeno em seus braços ia ficar bem.
**********
Um silêncio pesado tinha tomado conta do convés do Thousand Sunny quando a tripulação recebeu a notícia de Chopper de que Law havia sido atacado por bandidos e agora estava um pouco ferido. Eles tinham chegado no Sunny mais ou menos trinta minutos depois de Chopper. Ninguém quis demorar muito pra voltar para o Sunny sabendo que seu capitão e seu médico estavam com algum problema.
Todos estavam se perguntando como um homem forte como o Shichibukai podia ter se ferido com apenas um ataque de bandidos. Essa ideia era absurda.
Quando Nami externou esse pensamento para Chopper a rena apenas dissera que isso tinha sido resultado de um acontecimento inesperado, e quando Nami e os outros insistiram em perguntar o que era esse tal acontecimento o médico se limitou a balançar a cabeça e dizer que eles teriam que esperar pra ver e crer. Depois disso ele entrou no navio, indo para a enfermaria.
Passou quase uma hora antes do Chopper se juntar a ele mais uma vez, dessa vez na companhia de Luffy. Porém o moreno ficou parado na porta que dava para a enfermaria e Chopper parou não muito longe dele.
Todos lançaram olhares curiosos na direção deles, esperando que algum deles falasse algo. Luffy parecia estar muito ocupado observando algo dentro do navio, então Chopper se viu obrigado responder as perguntas não proferidas.
– Está tudo bem com o Law, foram só alguns arranhões e hematomas e ele logo estará recuperado. Mas eu tenho que avisar para vocês que ele está meio diferente... – Ele hesitou em continuar.
Robin, vendo que o pequeno médico hesitava, resolveu incentivá-lo.
– Diferente como, médico-san? – Ela sorriu serena. – Pode nos contar, iremos compreender.
– Bom... É que eu não tenho palavras para essa situação... Nunca vi uma coisa dessas acontecer...
– Então é melhor nos mostrar de uma vez. – Resmungou Zoro. Ele já estava irritado com aquele mistério todo.
– Está bem. Eu só peço que tentem não fazer muito alarde... Ele está muito frágil... – Chopper recomendou.
As expressões se tornaram confusas, mas todos acenaram mostrando que entenderam e a rena foi até o capitão.
– Luffy.
O moreno assentiu e então se agachou na frente da porta. Todos estranharam aquela ação.
– Está tudo bem Torao. Venha. – Eles ouviram Luffy dizer de um jeito carinhoso, muito diferente do normal.
Então ele se levantou e estendeu a mão pra dentro da porta.
A tripulação acompanhou com o olhar uma mãozinha surgir de dentro da porta e segurar a do capitão. Então um garotinho surgiu ao lado de Luffy. Ele segurava a mão do moreno com força e olhava assustado para todos ali presentes. Ele já não usava o moletom de antes, agora estava vestido com uma regata amarela e uma bermuda jeans preta, os pés ainda estavam descalços e o chapéu, como não estava servindo no momento, havia sido deixado na enfermaria, os cabelos negros estavam desgrenhados e davam um ar angelical ao pequeno garotinho. Ele estava com o braço esquerdo enfaixado perto do cotovelo e tinha vários outros curativos no braço direito, sem falar em duas pequenas gazes no rosto, uma na testa e outra logo abaixo do olho direito.
Os olhos eram inocentes e vivos como o de toda criança, mas também deixavam transparecer o medo que ele sentia. Era visível o pavor que o pequeno sentia. Mesmo assim todos concordavam que o pequenino era uma gracinha.
Toda a tripulação olhava confusa para os três, Robin foi a primeira a fazer a improvável ligação dos fatos. A morena arregalou os olhos e abafou uma exclamação de surpresa.
– Não me diga que... – Ela não terminou a frase.
– Pessoal. – Luffy se pronunciou apertando de leve a mão da criança, como se quisesse transmitir tranquilidade. – Esse é o Torao.
Vários segundos se passaram até que todos processassem a informação.
– O QUE?!?! – A reação foi a mesma para todos, exceto pela Robin, é claro, que se limitou a arregalar ainda mais os olhos.
O grito conjunto fez com que o garotinho se assustasse e se escondesse atrás da perna de Luffy.
– Fiquem quietos! – Esbravejou a rena. – Estão assustando ele!
O silêncio caiu mais uma vez, aterrador, sobre todos. Todos estavam paralisados. Atônitos.
– Isso é impossível! – Ussop foi o primeiro a se declarar.
– Esse moleque não pode ser aquele Cirurgião de merda! – Sanji exclamava embasbacado.
– Só pode ser alguma maldição! – Brook comentava.
– Isso é SUPEEER estranho! – Franky ajuntava, observando por cima de seus óculos escuros.
– Como isso foi acontecer?! – Nami perguntou procurando uma explicação aceitável para a atual situação do seu aliado.
– Não sabemos. Quando Luffy o encontrou ele já estava assim. – Chopper respondeu sério se sentando no chão, os outros também se acomodaram sobre a grama. A rena então se virou para Luffy.
O moreno havia se agachado mais uma vez e agora conversava calmamente com o pequeno. Law pareceu finalmente se acalmar e ainda segurando a mão do maior foi até o banco do mastro, onde se sentou ao lado do moreno. O menor ficou balançando as perninhas para frente e para trás, já que as mesmas não tocavam o chão.
Ninguém sabia o que fazer, muito menos o que falar diante daquela situação inusitada. O primeiro a quebrar aquela atmosfera tensa foi o atirador do navio.
– Bom, de qualquer maneira, não podemos seguir viagem com ele assim. Primeiro, porque ele ia ser nosso guia de tática, e segundo, porque é muito perigoso para uma criança viajar pelo Novo Mundo. – Ussop falava sério. – Mal conseguimos proteger a nós mesmo, imagine se ainda tivermos que ficar de olho numa criança.
– Isso é verdade... – Sanji concordou pensativo. – Mas alguém tem alguma ideia em mente?
– Bom... – Nami se pôs de pé. – Melhor começarmos do princípio. Luffy, melhor nos contar como foi que encontrou o Law.
– Tá. – Luffy assentiu e passou a narrar sua procura pelo Shichibukai. Como o encontrara sendo atacado por bandidos e como o pequenino tinha desmaiado pouco depois.
– Hmm... Ainda não sabemos o mais importante... Como ele ficou desse jeito...? – Nami suspirava frustrada, então ela se virou para o garotinho que ainda estava sentado com Luffy.
Ela caminhou até ele se agachando para ficar na mesma altura que ele.
– Traffy-kun.
O menor ergueu o olhar da mão de Luffy, com a qual estivera brincando até agora, e passou a encarar os olhos castanho chocolate da ruiva. Os outros se surpreenderam com o tom amigável e gentil com o qual ela pronunciara o mais novo apelido, saído sabe-se lá de onde.
– Você reconhece algum de nós...? – Ela indicou a si mesma e aos outros presentes no convés.
O menininho os observou com atenção e por fim baixou o olhar. Sabia que já estivera naquele lugar, com aquelas pessoas, mas suas lembranças estavam confusas demais e por mais que tentasse não conseguia colocá-las em ordem.
– Não... – A resposta saiu tímida, mas seu tom ainda tinha traços da frieza e desinteresse de sempre, e o jeito com mexia na mão de Luffy mostrava o quanto estava nervoso.
Nami lhe deu um sorriso afetuoso. O Cirurgião era realmente uma graça como criança, mas a situação não pedia graça e fofura... Pedia respostas. Com o olhar novamente sério ele se virou para a rena.
– Chopper, quantos anos você acha que ele tem?
– Olha... É difícil dizer... Acho que uns cinco ou seis anos... – O pequeno médico examinava atentamente o moreno menor.
– Entendo... Seria muito mais fácil falar com uma criança de oito ou sete anos... Mas uma de cinco não teria uma mente muito ordenada... – Nami resmungava franzindo o cenho.
– Pode ser que você esteja com dificuldade de se comunicar com ele, Nami-san. – Sanji acendia um cigarro e indicava Luffy com a cabeça. – Mas parece que o mesmo não ocorre com o nosso capitão.
Nami se virou para ver a que Sanji se referia. Seria pouco dizer que Nami ficou surpresa, o queixo dela simplesmente despencou diante de tal cena.
Law que antes estava sentado ao lado de Luffy, havia puxado a manga da jaqueta que o mesmo usava em busca de atenção e o maior o colocara sentado em sua perna, o segurando com o braço. Toda a atenção estava voltada para eles.
– O que foi Torao? – Luffy perguntou dando um de seus sorrisos largos.
– Mugiwara-ya... O que estamos fazendo aqui...? Eles são piratas...? – Ele indagou em tom calmo, muito diferente do qual falara com Nami.
Isso se devia ao fato de que Law estava se sentindo protegido ali no colo de Luffy, afinal, mesmo com as lembranças muito embaralhadas, o pequeno sentia que o moreno maior era alguém próximo e confiável.
– Sim! – Luffy acenou com a cabeça, animado. – Eles são piratas e são a minha tripulação! E estamos no nosso navio, o Thousand Sunny!
– Heh! Que legal... Eu... Eu também quero ser pirata um dia... – Ele afirmou e para surpresa geral deu um sorriso largo, com uma grande determinação estampada no rosto.
Comovida, a tripulação se entreolhou admirada. Já Luffy sentiu algo diferente. O moreno deu um sorriso terno.
– Você já é, Torao... – O capitão afagou os cabelos desgrenhados com carinho. – Um grande pirata...
Inocente, Law abriu ainda mais o sorriso e se aconchegou no colo do maior.
– Médico-san...? – Robin olhou inquisidora para a reninha.
– Apesar de tudo, Law parece se lembrar de Luffy... – Chopper explicou demonstrando curiosidade por esse fato. – Agora que eu pensei... O Luffy disse que assim que o viu Law chamou por ele... Por que será...?
Ao ouvir a explicação de Chopper, Robin abriu um sorriso singelo. Pelo visto, mesmo tendo sua idade diminuída o Cirurgião não se esquecera completamente de seus sentimentos pelo capitão.
– Então... O que faremos? – Brook perguntou hesitante, sem querer estragar a atmosfera que surgira.
– Vamos ficar aqui até resolvermos o problema do Torao. – Luffy respondeu como se fosse algo óbvio.
– Mas o que faremos com o moleque? – Sanji perguntou temendo que uma de suas damas tivesse que bancar a babá.
– Eu vou cuidar dele.
Pela milésima vez na última hora a tripulação se espantou. Luffy tinha colocado Law novamente no banco e ficou de pé ao fazer aquele anuncio.
– L-Luffy... Não seria melhor deixar que eu e a Robin cuidassem-
– NÃO!
Law interrompera Nami, ficando de pé rapidamente.
– Eu não quero! Quero ficar com o Mugiwara-ya! – Ele declarou se agarrando em Luffy como se o mesmo pudesse sumir se não o fizesse.
Luffy se agachou ao lado do garoto e bagunçou seus cabelos mais uma vez.
– Não se preocupe Torao! – O capitão riu. – Não vou fugir! Se você quiser pode ficar comigo!
– Que bom! – O pequeno suspirou aliviado.
Então num gesto inesperado, envolveu o pescoço de Luffy com os braços dando-lhe um abraçou forte e sussurrou no ouvido alheio:
– Não quero ficar mais sozinho...
– Sozinho...? – Luffy perguntou no mesmo tom.
Só então o maior se deu conta de que não conhecia muito sobre o Cirurgião. Apesar de terem passado bastante tempo juntos por causa da Aliança Pirata, o Shichibukai sempre evitara perguntas sobre seu passado, mas dava pra perceber que devia ter sido um passado bem obscuro e triste para deixar o médico frio, sádico, sem emoções e incapaz de sorrir abertamente como todos o conheciam.
Luffy sempre se perguntara quão profundas eram as cicatrizes que marcavam o coração do aliado... E agora ele via que elas eram mesmo muito profundas, para o seu eu de cinco anos já ter indícios delas...
Então Luffy decidiu que faria o que estivesse ao seu alcance para curar as cicatrizes do Cirurgião... Mesmo sem entender direito o que era aquela chama de sentimentos que ardia em seu peito, ele tinha se decidido... E iria até o fim.
Então Luffy correspondeu o abraço que lhe era oferecido e se levantou com o pequeno nos braços agarrado a si.
– Está decidido Nami. – O moreno encarou sua navegadora com determinação, e como que para reforçar o que disse ele apertou um pouco mais o menor. – Eu vou cuidar do Torao.
A ruiva levou a mão à testa em sinal de descrença e cansaço.
– Está bem... Parece que não vai ter jeito...
Porém, nesse momento Nami abriu um sorriso sacana. Todos os rapazes sentiram um arrepio de medo. Quando ela dava aquele sorriso significava que a Gata Ladra tinha algo em mente.
– Eu imagino que com essa mudança drástica de tamanho o Traffy-kun não tenha muito o que vestir, o que significa que... – Seu sorriso aumentou ainda mais. – Nós vamos às compras!
– Nós...? – Ussop perguntou com medo da resposta.
– Sim... – Nami afirmou cruzando os braços. – Eu, Robin, Luffy e Traffy-kun.
Ao ouvir seu nome ser pronunciado Luffy arregalou os olhos.
–EHHHHH!!!! Por que eu tenho que ir?!
– Por que o Traffy-kun vai. – Nami respondeu de forma simples.
– Mas por que o Torao tem que ir?
– Ora! Porque ele tem que experimentar as roupas!
– EHH? – Luffy fez uma careta.
– Parece legal. – Uma vozinha se juntou à conversa.
Luffy olhou para o garotinho em seus braços, surpreso. O pequeno devolveu o olhar.
– Eu nunca fiz compras. – Ele contou sorrindo. – Deve ser divertido.
Nami e Robin sorriram ao ouvir isso. O garotinho era mesmo uma graça.
– Bom. Então vamos agora. Quanto mais cedo começarmos mais cedo acabamos.
– Ok. – Luffy concordou desanimado.
Nami e Robin desceram do navio com Luffy e Law logo atrás. Agora o pequeno estava no chão, mas ainda andava de mãos dadas com o maior.
Ussop, Chopper, Brook e Franky foram até a amurada do navio e acenavam com lágrimas nos olhos.
– Aguente firme Luffy! – Ussop e Chopper diziam para o capitão.
– Boa sorte Luffy-san! – Brook Chorava.
– Tenha uma SUUUUPER paciência!
Luffy acenou por cima do ombro. Estava torcendo para que conseguisse sobreviver às horas de tortura que estavam por vir.
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