My Little Dreams

2 Cap. II – O mesmo caminhar.


Se eu pudesse perder o tempo que eu vivia escondendo dentro de mim, acharia que ele não existia. Não é que eu queria provar nada ou desistir de algo, mas apenas queria que tudo deixasse um pouco de ser como é... Apenas isso.

As pessoas da cidade já não davam mais boas-vindas aqueles dias. Eram comuns, e apenas seriam capazes de torná-los ainda mais comuns. Irreversivelmente, constantemente tudo era igual. Sophie, ainda era uma menina de 16 anos, jovem e bela, porém com uma mente dominada pela dor e pelo marasmo de sua família. Problemas todos os dias, situações que deveria enfrentar todos os dias. Com grande custo relutando contra a vontade, levantou-se da cama dirigindo-se para o armário, d’onde pegou seu uniforme escolar e trajou-o com lentidão. Não fazia questão alguma de vesti-lo, ou mesmo de se dirigir para a escola a qual ela pertencia. Olhou o relógio, o mesmo marcava 18H25 minutos. A expressão cálida e moribunda não contestava o desgosto de seu coração. Vestiu os sapatos enquanto saíra de seu quarto, descendo as escadas e simplesmente saindo de casa. Não trazia a mochila escolar, deixava-a em um armário na escola. E, tão pouco andava já estava próxima aos portões de ferro da escola, com o mesmo ranger quando aberto. Outros estudantes aos poucos se dirigiam para o mesmo recinto, era uma rotina diária e comum. Quando ultrapassara o zelador, percebera que alguém lhe empurrara. Como não esperava, não pode evitar a queda causando um pequeno ferimento no joelho ao raspá-lo contra o cimento, e pudera ver alguém, uma menina de longos cabelos e expressão fechada passar por ela, proferindo palavras baixas, mas que pôde concentrar-se o bastante para escutar.

- Deveria sair da frente, quando os outros passam. Deixe de ser um estorvo ao menos uma vez.

Levantou-se com calma, o ferimento ardia bastante apesar de pequeno. Continuara andando, mesmo ouvindo as palavras que para ela foram iguais, normais, reais. Não demorando muito, chegara à sua sala, apesar de ter sido empurrada mais uma vez quando subia as escadas para o terceiro andar da escola. Como conseqüência, estava com um pequeno corte no lado direito de sua testa. Como fizera antes, apenas se levantou e continuou seguindo até chegar. Não adiantaria nada protestar, fazer um pequeno escândalo por aquilo, já havia se tornado rotineiro em todos os seus dias. Aproximando-se do armário que estava nos fundos da sala, tomou em sua mão uma pequena chave que estava no bolso do colete. Não a tirava dali, não precisava. Foi quando ao abrir seu armário, notou que várias bolinhas de isopor vermelhas caíram. Sabia o porquê daquilo, sim, e como sabia. A poucos dias havia menstruado na sala de aula, e como isso para alguns era considerado um atraso devido sua idade, aproveitaram para fazer uma brincadeira de mau-gosto. Seu olhar voltou-se para todos os lados, pois ouvia os risos dos colegas de classe, e sem poder fazer nada tomou o caderno e o estojo em suas mãos, abaixou sua cabeça, indo de encontro a sua carteira. Na face, sua expressão sofrida e dolorosa, e apenas uma única lágrima escorreu da íris esquerda. Seus devaneios já estavam ali novamente, lhe fazendo o mesmo conto, de pensamentos sórdidos.

“ Aos menos hoje... Por favor, hoje me leve daqui.”